| LUIZA
INTERLENGHI
... toda estória, por mais absurda
que possa parecer é perfeitamente capaz de ter acontecido ou
de acontecer (1)
"aqui, se você quiser começa
uma história", escrito em caligrafia infantil próximo
a um desenho ondulado, como água revolta, aparece em São
as coisas que você não vê que nos separam, livro
em que Nazareno registra projetos, vários objetos e onde acolhe
memórias em fragmentos de imagem, fotos antigas, textos e breves
narrativas visuais, algumas criadas apenas com balões vermelhos
ou instruções de malabarismo. Dedicado "aos fortes",
o livro, um inesperado condutor de percepção para Isso
existe, se desenvolve no tempo incerto entre as duas posições
de um interruptor (primeira e última imagens apresentadas). Nesse
estranho intervalo, um lugar "entre" dois tempos, que liga
e desliga, Nazareno revê as estratégias envolvidas no jogo
social e os objetos a que eventualmente são associadas, identificando-as
prematuramente, nos jogos infantis, nos quais, de algum modo, tudo começa
(além das muitas coisas que a criança não compreende,
ela precisa ser aceita no mundo em que chega, e que há muito
já existe). Embora socialmente compartilhadas, estas estratégias
implicam em escolhas individuais. E é justamente a partir do
campo estabelecido entre a escolha individual e o comportamento socialmente
esperado que nos falam as histórias deste narrador de imagens.
Afinal, como as palavras provocam imagens, as imagens, matéria
dos sonhos, sugerem histórias silenciosas. Não é
por acaso que Nazareno se interessa por objetos que demarcam o lugar
em que o real e o imaginário se aproximam: em Caravana ou sobre
aquilo que não se diz (2005) o artista reinventa caminhas e berços
alinhando-os em caravana a trafegar no limiar entre sono e vigília.
Narradores imprimem gestos, empregam sua própria
voz e buscam variados artifícios para encantar ouvintes. Em A
Boazinha, série central de Isso existe, Nazareno encontra nos
bonecos, tradicionais instrumentos de sedução dos narradores,
um expediente para cruzar a fronteira entre as coisas opacas e a fantasia,
re-visitando o inesperado realismo subjacente ao imaginário dos
contos de fadas. Ora, os contos e seus ensinamentos concisos são
transmitidos por diferentes vozes sem se desmanchar. De tal modo são
sedimentados através das tradições que, desde um
passado distante, falam no presente àqueles que acabaram de chegar.
Não apenas para os pequeninos mas para ouvintes de qualquer tamanho,
os contos exploram as ambigüidades da condição humana.
E porque é fácil perder-se nos labirintos da convivência
social (cujas trilhas são riscadas pelas paixões, frustrações,
desejos e as infindáveis nuances de caráter), quando se
tratam dos ritos, quando se respeitam hierarquias que determinam os
limites individuais, a posição prevalece sobre o sujeito
que a ocupa. De modo semelhante, nos contos os acontecimentos e a ação
prevalecem sobre os personagens e seus nomes.
A visão infantil se projeta de modo residual
nos gestos, nas vestimentas, no simbolismo dos provérbios e dos
contos. Com A Boazinha, Nazareno traz à cena uma personagem que,
na forma bipolar dos contos maravilhosos, representaria o bem. Entre
o devaneio e o real trágico, contos de fadas são povoados
por personagens como essa que, afetadas por um mal terrível ou
uma forte ausência, deflagram a narrativa, seguida por acontecimentos
intermediários. Tocada por precisas intervenções
mágicas a história se desenvolve, até atingir ao
desfecho de que se extrai um ensinamento. Separadas de seu reino, princesas
são reconhecidas pela peculiar sensibilidade a um grão
de ervilha sob sete colchões ou salvam sua pureza do incesto,
disfarçadas sob a pele de um asno. Marcada pela falta da boa
mãe, a delicadeza da personagem mostra-se tanto mais primaveril
quanto a virulência de suas antagonistas - sejam bruxas devoradoras
ou madrastas cruéis -, para tratar a ambigüidade das relações
humanas, nas quais os contos buscam certas constantes e certezas pontuais.
A Boazinha subverte a personagem emblemática
dessas histórias que bordam o fantástico à dura
realidade dos limites e conflitos humanos, e reaparece em Isso existe,
caracterizada por ambígua veste da nobreza palaciana do tempo
do "Era uma vez ...". A natureza conflitante da personagem,
ao mesmo tempo princesa e rainha má, é já definida
pelo desacordo entre nome e caracterização: as vestimentas
da Boazinha não comportam o brilho cristalino do sapatinho de
Cinderela, nem deixam entrever a pele alva da Bela Adormecida. A Boazinha
se esconde sob as camadas de feltro verde do vestido, pétalas
de botões que não se abrem e nunca amadurecem; com a cabeça
oculta sob voltas de tule verde claro, sua figura ostenta o vestido
como pele, uma visão concisa de Pele de Asno e do lobo em seu
disfarce, a maldade genuinamente humana.
Surge em seguida a pequena Boazinha: as duas
personagens são idênticas, exceto pelo tamanho. Ao aproximar-se,
a pequena é violentamente repelida pela Boazinha, que a derruba
e abandona. A experiência da rejeição, torna-se
ainda mais violenta pelo espelhamento entre as duas protagonistas. Ignorado
pelas fadas, este drama reserva duro desfecho a suas personagens; solidão
e abandono - isso existe.
Continuando a linhagem das histórias da
última esposa de Barba Azul, uma nova narrativa surge da anterior
e re-apresenta a pequena personagem se curvando em reverência
à Boazinha. Há sempre alguém antes de nós
a quem devemos reverenciar. A Boazinha personifica o próprio
encobrimento e a pequena Boazinha sua perpetuação. A seqüência
de duas imagens é dada apenas pelos gestos e posicionamento dos
personagens. Posição e hierarquia, desde o final da década
de 90, são objeto de investigação do artista que
através de objetos em miniatura sugere fábulas e reconta
relações humanas. O jogo social é tomado por Nazareno
como uma cadeia de estratégias para as quais há sempre
uma posição ou um adereço a escolher e que definem
o papel a ser cumprido na situação e objetivos dados.
Se o narrador - este que nomeia a personagem,
descreve seus trajes e descortina a sucessão dos acontecimentos
- empresta sua sedução a antigas histórias constitui,
por sua vez, uma posição no interior da história,
um outro personagem. As histórias dos bufões seduzem e
rompem um estado de coisas, seja pelo riso ou pelo espanto. Mas, apenas
alguns conseguem transcender os limites do outro, cruzar suas resistências.
Desde a Baubô, Pulcinella e Mamãe Gansa o narrador entra
na história travestido como a boa velha contadora de histórias.
O personagem, que originalmente esbanjava irreverência, foi sendo
domesticado através dos tempos, mas é possível
seguir o rastro do narrador até o deus da fecundidade outonal,
sob o manto da boa velhinha a seduzir Pomona.2
Recolhendo histórias que contêm
ensinamentos, Nazareno articula objetos emblemáticos, recriados
na dimensão dos brinquedos, a comentários, marcações
e epígrafes que os transfiguram e re-significam, como as vestes
que recobrem bonecos articulados, transformados nas Boazinhas. Cada
objeto refeito em miniatura assume função eminentemente
simbólica, como uma marionete, e distanciando-se do uso prosaico
de seu correlato passa a integrar uma nova narrativa. Ilusão
é achar que tudo existe fora da fantasia, no mundo real.
1. Em São as coisas que você
não vê que nos separam, Nazareno, edição
independente, 2004, p 44.
2. Ib. p 115.
Ver Marina Warner, Da fera à
loira:sobre contos de fadas e seus narradores (São Paulo, 1999).
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