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ÍCONES DA DOR E DO SILÊNCIO
O nome de Maria Cheung - radicada em Foz do Iguaçu - impõe-se
como uma das grandes revelações das artes plásticas
no Paraná na década de 90. ela passa a ser conhecida a
partir de uma instalação apresentada no 53º salão
Paranaense (1996), onde é premiada. surpreende, então
a comissão julgadora pela energia zen de sua proposta; transmitindo
a certeza que a arte paranaense estava penetrando em uma nova concepção
de territorialidade da escultura/cerâmica.
Certeza esta, não só confirmada como ampliada para o
conceito de "escultura expandida" - teorizada por Rosalind
Krauss - com a capacidade de incorporar materiais diversos, ultrapassar
a postura estática da escultura como objeto de contemplação,
para incorporar o sentido temporal, por vezes perecível, inserindo-se
na vida humana e na suas circunstâncias; acrescidas, agora, na
instalação "NUI" (mulher em chinês) -
em exposição na Casa Andrade Muricy- de um caráter
confessional, enquanto revelação da sua própria
identidade sócio cultural . Maria Cheung cria um espaço
para a meditação, reflexão a nível da antropologia
cultural e contestação ao "status quo"; abrindo
a caixa íntima de segredos para revelar a alma feminina, discutindo
a condição da mulher nas sociedades patriarcais. É
tal a força simbólica contida em sua proposta, que ela
consegue penetrar em realidades iconográficas distintas, para
nos falar em linguagem universal, inspira-se em sua bisavó e
nas mulheres chinesas que até o século XIX tinham os pés
mutilados - enfaixados desde a infância - para não crescerem
além de oito cm de comprimento.Os homens obrigavam as mulheres
a este sacrifício não só porque para eles os pés
pequenos e enfaixados eram um fetiche sexual, como também representavam
submissão e clausura.os pequenos passos que conseguiam dar, tornaram-nas
frágeis e dependentes; sem autonomia par se locomover livremente.
Em sua instalação os pés cerâmicos- ícones
da dor- são depositados como "ex-votos" em um templo
imaginário habitado pelo silêncio milenar.
Em "fetiches", ela instala pés de cerâmicos
em meias pretas de nylon, construindo pernas processionais, onde alude
à poética do vazio, criado por uma multidão de
mulheres roubadas em sua essência mais humana que é a liberdade.
marcha silenciosa de pernas que se multiplicam formando um corpo social
milenarmente oprimido em um universo isolado e castrador. para criar
a "sala dos sacrifícios" constrói sobre a areia,
um grande retângulo, sobre o qual sobrepõe retângulos
menores, construindo com plástico transparente, água,
com corante vermelho e pés cerâmicos brancos. a sensação
macabra de mutilação humana- envoltas em sangue - cria
o símbolo do sacrifício milenar onde gerações
e gerações de mulheres chinesas foram sacrificadas, ao
mesmo tempo, torna-se evidente a metáfora da passagem para outro
plano, após o holocausto. como um antropólogo social em
"magna mater" utiliza samburás suspensos contendo pés
de cerâmica que em sua alusão aos peixes - chamados "pássaros
das zonas inferiores" - associam-se ao inconsciente e á
idéias de sacrifício. ao mesmo tempo, contrapõe
a materialidade do metal - elemento industrializado- ao sentido orgânico
da cerâmica. cada samburá torna-se, portanto, um elemento
de tensão, aberto a inúmeras leituras; clã, trabalho
confinado às clausuras que estas mulheres monacais eram obrigadas
a viver. Tratam-se de objetos mitológicos, cuja leitura, exige
consciência antropológica. com espetos de metal monta as
"schekinas:", onde os pés cerâmicos espetados
falam-nos não só de dor e tortura, - como condição
de purificação para recuperar o estado angelical -; como,
também, do egoísmo gerado pelas fechadas sociedades patriarcais,
que tiram das mulheres o direito à autodeterminação,
condenando-as ao silêncio, e ostracismo. "faces roubadas"
- múltiplos das máscaras da face, que carbonizadas escurecem
- denunciam a carga de dor e opressão acumuladas, criando em
seu efeito dramático cujo eco nos atinge até hoje, verdadeiras
máscaras sociais.
Nesta instalação Maria Cheung deixa transparecer um alto
grau de consciência histórico - social. Aprofundando-se
no conceito da filosofia oriental - em sua potencialidade espiritual
- ela cria ícones da memória que conseguem nos falar não
só da cultura chinesa, como da alma do mundo.
Adalice Maria de Araújo
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