| Os Museus de São
Paulo e a exibição da Arte Contemporânea
Paulo Trevisan
Quando se fala em arquitetura, impossível desvinculamos
a forma da função. As atividades para as quais foi
edificada uma construção devem ser nela plenamente
desenvolvidas. É assim com os hospitais, com as prefeituras,
delegacias, escolas etc. Os museus não fogem a esta regra.
Porém, só recentemente é que seus espaços
passaram a ser pensados e produzidos exclusivamente para sua função:
conservar e exibir objetos e coisas de naturezas distintas (1).
Em relação aos museus artísticos, cabe aqui
nos determos no levantamento de algumas questões a respeito
da funcionalidade de seus espaços expositivos. E, de maneira
mais especificada, no estudo de caso de alguns museus de São
Paulo.
Em São Paulo, as instituições museológicas
ganharam renovação na metade do século XX
(2) com a criação do Museu de Arte de São
Paulo (MASP), do Museu de Arte Moderna (MAM), e, posteriormente,
do Museu de Arte Contemporânea (MAC-USP). Curiosamente,
nenhum deles ocupou, desde o início de suas atividades,
os espaços onde hoje se alocam suas sedes.
O MASP, depois de exercer suas atividades no edifício dos
Diários Associados, na rua 7 de Abril, e nas dependências
da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP),
inaugurou sua sede definitiva, projeto de Lina Bo Bardi, na avenida
Paulista no ano de 1968.
O MAC, após sua criação em 1963, devido à
decisão de Cicillo Matarazzo, em doar à Universidade
de São Paulo o conjunto de obras que formavam o acervo
do MAM (criado em 1949), ocupou o terceiro andar do Pavilhão
Armando de Arruda Pereira (onde hoje está a Fundação
Bienal) até a mudança de sua parte substancial (acervo
e atividades museológicas, administrativas e docentes)
removida para a sua sede permanente, na Cidade Universitária,
em 1992.
E o MAM, depois de funcionar no mesmo edifício que o MASP,
na sede dos Diários Associados, mudou-se para o espaço
do antigo Museu da Aeronáutica (1958), indo, em seguida
ocupar o terceiro andar do Pavilhão da Fundação
Bienal (1962). Com a perda de seu acervo, doado por Ciccilo Matarazzo
para a criação do MAC-USP (1963), teve sua sede
instalada em salas do Conjunto Nacional, na avenida Paulista,
e no Edifício Itália. E, finalmente, em 1969 foi
alocado sob a marquise do projeto de Niemeyer no Ibirapuera (3)-
sem nunca ter conquistado um local próprio e construído
como um edifício para museu, que atendesse às suas
necessidades.
Instituições que tinham nos seus primórdios
o museu como centro fomentador da cultura, os três espaços
participaram ativamente na efervescência de um período
de grande animação artística. Tanto o MASP,
sob a égide de Pietro Maria Bardi, como o MAC, sob a direção
de Walter Zanini, ou o MAM (com seu projeto de reestruturação
de acervo, com o Panorama da Arte Brasileira - criado em 1969),
todos desenvolveram papel significativo na cena da época,
com mostras, cursos, desfiles de moda etc (4).
E, é neste aspecto que depositamos nossa atenção,
na atual situação vivida por estas instituições
que enfrentam a dificuldade de como expor, e também museificar,
a produção artística atual - tão exigente
e diversificada.
Antes de nos determos na análise do espaço museológico,
propriamente dito, é importante observar o envolvimento
que estas instituições possuem hoje com a produção
artística de nossos tempos (5). Lamentavelmente, nos certificamos
que apenas o MAM realiza uma participação efetiva
no cenário do debate contemporâneo, apresentando
mostras periódicas de nomes representativos da cena artística
atual (nacional e internacional) e trabalha também na formação,
ampliação e atualização de seu acervo
(o único a apresentar um programa de aquisição
efetivo) (6). Desta forma, mantêm-se em dia com o desenvolvimento
da contemporaneidade.
O MAC, nos últimos anos dos 1990 e nos primeiros dos 2000
apresentou uma rotatividade de exposições (7), principalmente
a partir de seu acervo, mas recentemente não revela entusiasmo
pela dinâmica de mostras ou mesmo pela atualização
de aquisições.
O MASP, dos casos aqui mencionados, é o que apresenta o
caso mais lastimável. Depois de polêmica reforma
(que descaracterizou o projeto inicial de Lina Bo Bradi), e ainda
sob a mesma diretoria, procura manter sua visibilidade no cenário
cultural por meio de um escasso conjunto de mostras de grande
apelo. E, nisso, insiste em buscar, por meio de nomes consagrados
da história da arte internacional - Monet, Renoir, Degas
- a presença numérica de um público ávido
por mega-eventos. Como conseqüência, há tempos
não se manifesta na investida da cultura em formação
- como outrora realizou (8).
Mas, para além destas situações vividas pelas
instituições - resultantes de falta de recursos
econômicos, más administrações, diretorias
omissas e um certo desinteresse generalizado - fica nosso problema:
como estes espaços podem lidar com a recepção
da produção recente, principalmente a mais experimental?
O MAM, como já comentado, vem mantendo-se fiel a um projeto
de museu dinâmico e atual - não só no que
é representado pelo seu acervo constantemente atualizado,
mas por sua ação como instituição.
Dentre os três casos analisados, é o que mais se
detém na observação, aquisição
e exibição da arte contemporânea, com notável
destaque para a brasileira.
O MAC se restringe a exibir seu conjunto de obras do pós-guerra
- acervo representativo e de qualidade (Beuys, Lygia Clark, Leonilson,
Rauschenberg, Regina Silveira entre outros) - na sede na Cidade
Universitária, promovendo uma convivência, no espaço
restrito, com obras modernas (Chagall, Tarsila, Modigliane, Rego
Monteiro, Picasso etc). O sufoco da área expositiva restringe
a apresentação qualitativa (em termos museográficos)
tanto da produção do período moderno como
da do período posterior.
E o MASP, esporadicamente, exibe, para ocupar salas que ficariam
desocupadas - uma vez que o museu carece atualmente de um programa
efetivo de mostras temporárias (propostas ou recebidas
pela instituição), algumas peças de seu acervo
contemporâneo composto, em sua maior parte, por peças
de pouco valor representativo.
Apresentada a situação destes museus que desenvolveram,
em suas atividades iniciais, projetos de estímulo e a divulgação
da arte contemporânea (ampliando a função
do museu para além de espaço de conservação
de obras da cultura cristalizada e absorvendo para si também
o papel de centro de formação do presente), cabe
agora avaliar as reais condições destes espaços
expositivos receberem de fato, e em condições propícias,
as propostas da arte contemporânea.
Uma avaliação minuciosa do problema passaria pela
análise da divisão dos ambientes - salas e espaços
reservados para exibição, permanente e/ou temporária
- pé direito, iluminação, resistência
de estruturas etc. Porém, nos deteremos em um só
ponto: o aspecto da dimensão - extensão e altura
- das salas.
Se tomarmos a mostra Bienal de São Paulo, realizada no
Pavilhão Armando de Arruda Pereira e cujo respectivo projeto
de Niemeyer oferece condições mais adequadas para
exposição de obras de gêneros diversos (9),
e a observarmos como um parâmetro de representação
e promoção de nomes pertinentes da cena artística
em desenvolvimento, encontraremos em suas exibições
obras que ultrapassam as condições oferecidas por
quase todos os espaços museológicos da cidade.
Apenas para ilustrarmos com dois casos, podemos tomar a XXVI edição
da mostra, ocorrida em 2004, e dela extrairmos a obra do artista
Arthur Barrio - que trouxe uma jangada para a exposição
- e o trabalho de Ivens Machado, uma peça de grande escala
formada por um empilhamento de centenas de toras de madeira. Ambos
os projetos exigiam espaços amplos para que pudessem existir.
Em Fortaleza-Lisboa (2004), de Barrio, uma jangada com a vela
aberta foi fixada em um local circundado com areia de praia, e
uma poltrona - parte integrante da obra - foi posta a uma certa
distância que permitia ao espectador contemplar a embarcação
na sua totalidade. Havia ali, a necessidade de um pé direito
de grande altitude. Tanto que sua exibição foi no
vão do edifício de Niemeyer, de onde brotam as rampas
de acesso aos outros níveis. Já no caso de Sem Título
(2004), de Ivens Machado, trabalho executado com o encaixe de
madeira amontoada, e que se estendia por uma larga área
de piso e possuía altura elevada, este foi montado no subsolo
do pavilhão. Esta obra, por sua natureza, também
demandava uma área expositiva privilegiada - tanto ampla
como elevada.
Em ambos os casos, ilustrados por artistas representativos de
nossa produção nos últimos anos, os projetos,
se propostos para os museus, teriam condições apenas
de serem apresentados no segundo subsolo do MASP. E, jamais seriam
exibidos no MAM ou no MAC devido à impossibilidade oferecida
pelos espaços expositivos destes.
Pensando também a área total construída de
cada um dos museus, percebemos que não comportariam uma
exposição que pretendesse fazer uma exibição
mais vasta que um número pequeno de instalações
e/ou vídeo-instalações, uma vez que esta
recorrente modalidade artística exige salas fechadas e
amplas para se configurarem. Novamente fica a restrição
em relação ao acompanhamento às diversas
manifestações da arte dos nossos tempos e também
a sua preservação.
Diante de quadro tão desolador, que soluções
esperar para questões tão preocupantes? Como os
museus podem, se desenvolverem uma política de fomentação
das artes atuais, abrigar exposições contemporâneas
sem oferecer limites, e de ordem tão primária, às
obras?
Tendo em vista que o MAC-USP acabou de passar por uma reforma
- ocorrida entre os anos de 1999/2000, em sua sede, o que melhorou
suas condições de conservação, mas
em nada ampliou sua capacidade expositiva (pelo contrário,
os espaços ficaram ainda mais reduzidos) - e que o museu
é integrado à universidade (o que em termos de divisas
só se torna um agravante, pois as verbas são públicas
e escassas e distribuídas de maneira desigual dentro da
universidade), não se configura, a curto prazo, a construção
de um novo edifício ou de uma ampliação das
instalações do museu (10).
O MASP oferece, ainda hoje, graças ao projeto de Lina Bo
Bardi, a melhor arquitetura entre os edifícios construídos
para se constituírem museus. As soluções
dadas pela arquiteta, entre os espaços museológicos
paulistanos, são as mais satisfatórias e ainda respondem
a algumas das demandas postas pela arte dos últimos anos.
Contudo, devido às atuais diretrizes (ou à ausência
destas) o museu se encerra na sobrevivência por meio da
exibição permanente do riquíssimo acervo,
não indicando qualquer tipo de interesse pela cultura viva
que se efetiva a cada dia (11).
O MAM, neste momento, é o que oferece maiores condições
para, numa perspectiva futura, exercer o papel de solução
para os dilemas apontados. Uma vez que sua sede fica, de empréstimo,
sob a marquise no Parque do Ibirapuera, caberia - se houvesse
uma ação cultural efetiva na cidade - cogitar a
construção de um edifício específico
para o museu (principalmente tendo em vista o seu empenho e efetiva
ação no campo da exibição, conservação
e aquisição de arte contemporânea) ao invés
de propor apenas uma nova mudança de endereço, onde
o museu ficaria novamente num espaço não planejado
para as novas exigências da arte que se desenvolve, e, permaneceria,
sob os favores de um local emprestado e não planejado para
funções museológicas.
Desta forma, poderíamos ter a solução de
dois impasses em relação à vida dos museus
na cidade de São Paulo: 1- daríamos ao MAM a dignidade
que este carece - possuindo uma sede própria e pensada
como museu; 2- ao mesmo tempo, este novo edifício da arte
poderia se propor a atender às demandas que podemos vislumbrar
no porvir das artes e àquelas que hoje localizamos na produção
contemporânea.
1 - Podemos ilustrar com alguns casos anteriores
aos museus construídos no século XX, quando palácios
e outras construções foram ocupados pelos museus.
O Museu do Louvre, na França, ocupou o palácio (que
lhe deu o nome) da família real francesa após sua
mudança para Versailles. No Brasil temos o caso do Museu
Nacional de Belas Artes, edificado para abrigar a Escola Nacional
de Belas Artes. E, em São Paulo, o Museu Paulista que ocupa
o prédio erigido como monumento celebrativo da independência
do Brasil, ou ainda a Pinacoteca do Estado que se alocou no edifício
de Ramos de Azevedo projetado para abrigar o Liceu de Artes e
Ofícios.
2 - A presença de instituições museológicas
na cidade data de 1895, quando é estabelecido o Museu Paulista.
A especificação de uma instituição
voltada exclusivamente para a conservação de obras
de arte se encontra na criação da Pinacoteca do
Estado, de 1905. Ver: CAMPOS, Vinício Stein. Elementos
de Museologia - História dos Museus. Vol.3. S/L:s/d. pp.
101-119 ; AMARAL, Aracy. A Pinacoteca do Estado. In: Pinacoteca
do Estado - São Paulo. RJ: Funarte, 1982. pp. 21-36.
3 - Quando se muda para o Parque do Ibirapuera, ocupa o espaço
desenvolvido sob a marquise para a Exposição Bahia
que aconteceu durante a V Bienal de São Paulo, em 1959.
Este local, depois da bienal, ficou conhecido como Pavilhão
Bahia e foi, por determinado tempo, ocupado pelo Museu do Presépio.
4 - Sobre essa movimentação consultar: TEIXEIRA
LEITE, José Roberto, Museus e Bienais. In: Arte no Brasil.
SP: Abril, 1979. pp. 892-3; LOURENÇO, Maria C. F. Museus
acolhem moderno. SP: Edusp, 1999. pp.111-2; e VERNASCHI, Elvira.
Novas Pesquisas, Novos Conceitos. In: Arte Brasileira - 50 anos
de História no acervo MAC USP. SP: MAC, 1997. pp.17-23.
5 - A despeito das adversidades, São Paulo é um
dos pólos mais animados e produtivos das artes no Brasil.
Aqui, nesta análise, deixamos de lado a Pinacoteca do Estado
por esta instituição ter sua sede abrigada em um
projeto arquitetônico que não foi desenvolvido para
funcionar como um museu. Porém é necessário
frisar que a Pinacoteca ocupa, nos últimos anos, junto
com o MAM, o papel de uma das instituições mais
ativas na promoção de artistas contemporâneos,
além de apresentar mostras de nomes consagrados da história
da arte brasileira e internacional. Também, não
tratamos dos casos de outras iniciativas como galerias comerciais
e centros culturais, por estes não se caracterizarem como
museus - embora, hoje, sejam eles responsáveis, em São
Paulo, por grande parte da efervescência e difusão
da cena artística contemporânea.
Sobre a história da Pinacoteca - a formação
do acervo e a ocupação da construção
de Ramos de Azevedo ver: Pinacoteca do Estado de São Paulo.
In: Acervo Permanente e Novas Doações. SP: Edições
Pinacoteca, 1999. pp. 03-08.
6 - Podemos dar como exemplo dois casos bem-sucedidos, executados
pelo museu, de programas de aquisição: o Clube da
Gravura e o Clube de Fotografia, que, além de expandir
a coleção do museu, divulga a produção
de artistas consagrados e outros jovens e, ainda, forma novos
colecionadores.
7 - Destacam-se: Jean Rustin (1996), Raphael França (1997),
Nova Arte da Croácia (1998), Arte Conceitual e Conceitualismos
(2000), Heranças contemporâneas (três edições:
1997/1998/1999), Phases (1997), Auto-retrato: espelho de artista
(2000) e Arte Nova (2000/1).
8 - É notável a participação do MASP
na efervescência artística brasileira dos anos 1960
e 1970. Como exemplos podemos citar a exposição
Playground, de Nelson Leirner (1969), e a mostra de Rubens Guerchman
(1974).
9 - Não nos esqueçamos que o Pavilhão
foi criado com o intuito de receber não apenas a mostra
bienal de artes, mas eventos distintos como feiras culturais e
comerciais, exposições da indústria e outros
tantos de naturezas diversas.
10 - Vale lembrar da recente polêmica em
que a instituição se envolveu ao lançar a
possibilidade de criar um novo espaço que abrigaria a parte
mais significativa de seu acervo. Espaço que foi cogitado
para ser montado junto ao conjunto empresarial construído
no terreno das antigas ocupações das indústrias
Matarazzo. Após o tumulto, a proposta parece ter perdido
a força e seus defensores.
11 - É importante lembrar que tanto o MASP como o MAC,
possuem anexos. O primeiro no terceiro andar do Pavilhão
da Fundação Bienal e o segundo na Galeria Prestes
Maia, no centro da cidade. Nestes espaços, hoje subutilizados,
se atenderia a algumas das demandas que aqui apontamos. Porém,
o que se assiste é o não aproveitamento (para não
dizer quase abandono) destes espaços que não se
projetam para a sociedade como parte integrante das instituições
mencionadas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMARAL, Aracy. A Pinacoteca do Estado. In: Pinacoteca do Estado
- São Paulo. RJ: Funarte, 1982. pp. 21-36
CAMPOS, Vinício Stein. Elementos de Museologia - História
dos Museus. Vol.3. S/L: s/d. pp. 101-119
LOURENÇO, Maria C. F. Museus acolhem moderno. SP: Edusp,
1999. pp.111-2
Pinacoteca do Estado de São Paulo. In: Acervo Permanente
e Novas Doações. SP: Edições Pinacoteca,
1999. pp. 03-08
SANT'ANNA, Margarida; SARTI, Anna Luisa. 30 anos de Panorama.
In: Panorama de Arte Brasileira, 1999. SP: MAM, 1999. pp. 214-217
TEIXEIRA LEITE, José Roberto. Museus e Bienais. In: Arte
no Brasil. SP: Abril, 1979. pp. 892-3
VERNASCHI, Elvira. Novas Pesquisas, Novos Conceitos. In: Arte
Brasileira - 50 anos de História no acervo MAC USP. SP:
MAC, 1997. pp.17-23
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