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SEIS ARTISTAS LANÇAM UM JORNAL/MANIFESTO/OBRA ENCARTADO NAS
PÁGINAS DE UM GRANDE JORNAL DE CIRCULAÇÃO EM CURITIBA.
O ano é o de 1983, o nome do jornal, em formato tablóide,
é Moto Contínuo (1), mesmo nome do evento organizado por
alguns artistas na galeria de arte da Fundação Cultural
de Curitiba no período de 15 de setembro a 9 de outubro e que
utilizaria as páginas daquela mídia impressa como seu
catálogo e proposta artística.
A mostra Moto Contínuo foi composta pelos artistas Denise Bandeira,
Eliane Prolik, Geraldo Leão, Mohamed Ali el Assal, Raul Cruz
(2) e Rossana Guimarães. Ela representou um novo oxigênio
para o circuito de arte local além de já estar sintonizada
com uma outra vertente da arte dos anos 80 - a atuação
direta nos circuitos de arte. A experimentação do Moto
Contínuo abriu-se para manifestações artísticas
na rua, discussões abertas, cartazes, colaborações
de poetas, músicos e bailarinos e sua diretriz era a de uma radical
prospecção no meio artístico. Discussões
semelhantes seriam também evidenciadas, por exemplo, nas manifestações
do grupo paulista "3NÓS3", no final dos anos 70 e início
dos anos 80, ou do grupo carioca "A Moreninha", posteriormente,
no final dos anos 80.
O poeta Reynaldo Jardim, que então trabalhava no "Jornal
do Estado" é quem viabiliza o tablóide Moto Contínuo,
encartado nas páginas do jornal, um domingo antes da abertura
da exposição. A publicação Moto Contínuo
tinha oito páginas distribuídas entre os seis artistas,
mais os poetas Alberto Puppi, Josely Baptista, o escritor e jornalista
Cesar Bond e o desenhista Foca. As participações dos artistas
não constituíam-se como meras reproduções
de obras, mas trabalhos pensados para aquele meio, transformando o jornal
assim num múltiplo.
A utilização do jornal, pelo Moto Contínuo, teve
o caráter de tomar para si a construção/criação/implementação
de um espaço de discussão pública entre as pessoas.
Conquistava-se, em consonância com a retomada gradativa das liberdades
civis pelo processo da abertura política nos anos 80, o espaço
público, o espaço institucional, o espaço acadêmico
e o espaço aberto de fruição e intelecção
artística. Espaço também da poesia e de uma nova
possibilidade expandida de liberdade.
Um outro trabalho utilizando-se do jornal, pelos artistas do Moto Contínuo,
é o dos "jornais pictográficos". Páginas
de jornais impressos são o suporte não neutro de desenhos
com signos gráficos elaborados pelos artistas. Os jornais pictográficos
perfazem uma intervenção na realidade já mediada
pelo jornal e, lembremos que com o relaxamento da censura, esta "realidade"
agora mostrava-se muito mais aberta e complexa. Essas páginas
de jornais eram distribuídas às pessoas em diversas ocasiões.
A exposição teve seu vernissage no dia 15 de setembro
e uma outra no dia de seu encerramento, 9 de outubro, com novos trabalhos
- eminentemente os trabalhos e projetos que tinham sido realizados no
espaço urbano durante aquele período. O círculo
se fecha e começa a movimentar-se por si. A exposição
que se inicia, fora da galeria, encartada nas páginas de um jornal
de grande circulação trará finalmente para dentro
da galeria de arte as experiências e processos vividos pelos artistas
nos vários circuitos da cidade.
Estamos falando da tão propalada volta da pintura? Seria mais
correto dizer da retomada do espaço público, nos novos
tempos que se anunciavam no início dos 80, e de uma afirmação
de vitalidade, e mesmo de prazer, pela participação artística.
Aliás uma importante reconquista, ou operação,
daqueles anos que devemos atualizar permanentemente - moto-contínuo.
Paulo Reis
(1) Este texto só se torna possível graças
ao apoio e informações gentilmente dados por Denise Bandeira
e Geraldo Leão e pelas informações e farto material
iconográfico da monografia "Bicicleta e Moto Contínuo
- a arte fazendo história em Curitiba" (2000) de Deise Marin.
(2) Os artistas Mohamed Ali el Assal e Raul Cruz faleceram, respectivamente,
em 1987 e 1993.
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