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THEODORO DE BONA
De Bona vertebrou, junto com Bruno Lechowsky, Erbo Stenzel e Paul Garfunkel,
um novo pensamento estético no Paraná do início
do séc. XX . Localidade provinciana, emancipada de São
Paulo somente em 1853, nosso Estado teve, como bem colocou Justino,
seu próprio tempo (em Arte e outras esferas da sociedade). As
indústrias - ainda que de pequeno porte - começam a pontificar
no território no final do séc. XIX, e, tenha-se claro,
o projeto da modernidade inscreve-se, justamente, num processo de industrialização
que fomenta o devir histórico dos grandes centros urbanos.Uma
economia titubeante pouco fará pelo desenvolvimento artístico
regional.
É importante colocar, antes de tudo, que, no começo do
séc. XX, o paradigma científico - logo sua lógica
e seu método - entra, definitivamente, em crise. A perda da ilusão
de segurança e certeza reflete-se, também, na recusa aos
artifícios que fundamentavam a representação artística
consoante esses antigos modelos. Assim, é no âmago de uma
sociedade em colapso, esgotada pelo domínio da razão científica
e premente de novas formas e sentidos para compreender a realidade,
o Outro e a si mesma, que despontam as teorias e propostas estéticas
da chamada Arte Moderna.
Mas a que remete o termo "Arte Moderna"? Segundo Fer, pode
referir-se a um período histórico e pode ser usado para
discriminar entre diversas manifestações artísticas
concretizadas nesse período. O autor destaca que uma prática
artística moderna é construída a partir de um sentido
de diferença.
Charles Baudelaire (1821-1876), poeta e crítico francês,
empregou em 1863 o termo modernité para articular um senso de
diferença em relação ao passado e descrever uma
identidade intrinsecamente moderna. O moderno, de acordo com esse conceito,
não significa apenas do presente, mas representa uma atitude
específica para com o presente [FER, et al.: 1993, pg. 09]. O
escritor romântico colocou que o moderno na arte está relacionado
a uma experiência de modernidade, que, por sua vez, caracteriza-se
pelo seu aspecto mutante, sendo apreendida com maior intensidade no
centro metropolitano da cidade. A idéia de modernidade estaria,
portanto, constantemente sujeita a renovação, tornando
inviável seu enquadramento em uma definição específica.
E é ela que legitimará os pressupostos da Arte Moderna.
No Brasil, assiste-se à eclosão do ideário modernista
na Semana de Arte Moderna de 1922, realizada em São Paulo, no
Teatro Municipal . Antes, em 1917, Anita Malfatti já alfinetava
um modelo estético cristalizado nos padrões neoclássicos
da academia, em ocasião de exposição realizada
após sua estada na Europa. Chegamos num ponto fundamental: o
modernismo brasileiro é, numa certa medida, a transposição
de modelos artísticos europeus e de vanguarda a um contexto histórico-político-social
que, via de regra, não acompanharia, no ritmo em que se movimentava,
esse desenvolvimento. Foi, por um lado, um choque cultural. A intelectualidade
paulistana, aliada a alguns artistas, todos patrocinados pela burguesia
- o que justifica os apontamentos de alguns pesquisadores acerca do
caráter elitista de suas manifestações -, abriu,
de fato, uma reflexão profunda sobre o caráter nacional
na medula das teorias estéticas e práticas artísticas
configuradas no período, tensionando uma conjuntura nesse campo
mais propensa à perpetuação de cânones acadêmicos
do que ao investimento em outras formas de significar, em Arte, o mundo.
No Paraná consolidava-se a Escola de Belas Artes e Indústrias,
fundada em 1886 por Mariano de Lima (1861-1942), seguida, no ano de
1902, pela empresa pedagógica do pintor norueguês Alfredo
Andersen (1860-1935) - que singrava o Impressionismo -, ambas, malgrado
a introdução de pequenas inovações, bastante
acadêmicas. Mas, de qualquer modo, Curitiba não desfrutava
de um público para Arte. "No teatro, o gosto se manifestava
muito mais por um teatro digestivo. O cinema, enquanto divertimento,
era aceito. As Artes Plásticas não gozavam de um público
assíduo; esporadicamente as famílias mais ricas ou os
políticos reclamavam os artistas para os retratos. Alguns quadros
mereciam decorar a casa: flores ou paisagens" [JUSTINO: 1986, pg.
70]. Assim, ao passo que em São Paulo experimentava-se a ousadia
das vanguardas artísticas européias em todas as suas vertentes,
do Expressionismo ao Dadá, a capital paranaense assistia à
atuação dos discípulos de Andersen: Lange de Morretes,
Ghelfi, Kopp, Freyesbelen, De Bona, entre outros, além de Zaco
Paraná e João Turin. Havia, pois, um abismo cultural entre
Paraná (bem como outros estados brasileiros) e São Paulo.
Justino, Noronha e Araújo apontam para o marco que foi a exposição
de Theodoro De Bona, realizada em 1938 no Clube Curitibano, quando o
artista havia recém-chegado de uma experiência em Veneza,
no que concerne à inserção de uma linguagem moderna
paranaense no cenário artístico nacional, como um local
consciente de suas peculiaridades e contradições . Guido
Viaro afirmou, a propósito da mostra, que "estaria fadada
a modificar os destinos da arte paranaense". O que o levou a construir
essa assertiva? Convém, agora, verticalizar a investigação
em torno da pessoa e da obra desse artista memorável, para entender
o porquê da mencionada colocação de seu contemporâneo.
De Bona, nascido em Morretes (1904), foi aceito como aluno de Andersen
em 1922, partindo posteriormente, em 1927, para Itália, a fim
de aperfeiçoar sua pesquisa plástica e - subentende-se
- teórica. Retornou ao Brasil em 1937 e, nesse intervalo, participou
de um grupo de vanguarda italiano alcunhado de Cà Pesaro, dos
Salões dos Artistas Venezianos de 1928 a 1935, figurando também
na tão disputada Bienal de Veneza, no ano de 1930, entre outros
certames. Justino considera que a fase mais criativa do artista se deu
na alvorada dos anos 40, quando demonstra, na liberdade do traço
e velocidade do gesto, uma despreocupação com o resultado,
dando ênfase, antes, ao processo. "De Bona, nessa fase, alcança
a linguagem expressionista" [JUSTINO: 1989, pg. 02].
Tangenciam essa época os quadros Cá Foscari, Navio Negreiro,
Plantação de Alcachofra e Paisagem Alpina. Já Erasmo
Pilotto, na contramão das observações da autora,
considera que, mesmo tendo contato, na Europa, com a proposta inovadora
de alguns movimentos de vanguarda, o artista se mantém fiel a
si mesmo e foge ao sombrio, ao expressionismo, desvia do "feio",
buscando, outrossim, o domínio poético, uma poesia doce
e viril que incitasse a reflexão [PILOTTO: 1967, pg. 28].
Já o próprio De Bona dizia-se ser essencialmente um impressionista
. Justino, ao colocar que o que permanece do Impressionismo na produção
do artista é um modo de ver o mundo, a luz e a pureza das cores,
ressalta que o fascínio do paranaense estava mais direcionado
aos independentes atuantes numa etapa posterior desse mesmo movimento,
como Cézanne e Gauguin. Entretanto, a autora arremata, De Bona
não é um impressionista, pois é patente em seu
projeto o desejo de construção (herdado de Andersen e
endossado pela admiração dirigida ao precursor do Cubismo).
Assim, o artista "nunca se permitiu a diluição da
forma; a destruição é insinuada sem contudo romper
a estrutura (...). O processo de criação aparece como
problema de linhas, cores e formas (...) volta-se ao objeto, à
paisagem, para recuperá-los, reconstruí-los (...)"
[JUSTINO: 1989, pg. 02-03]. É dentro desse processo de construção,
imiscuído na vontade de alcançar uma arte universal, sem,
contudo perder-se das particularidades impressionistas e de uma certa
objetividade figurativa que tanto concorreram na sua formação,
que De Bona inaugura um horizonte imprevisto, oxigenando e dando fôlego
ao devir das artes visuais em Curitiba e no Paraná. A Arte Paranaense,
em De Bona, enche de ar os pulmões como num prenúncio
do mergulho definitivo que viria, posteriormente, nas décadas
de 1950 e 60. Outros fatores que confluíram para essa imersão
na descoberta foram a oposição à Andersen em Ghelfi,
Lange de Morretes e Turim, sugerindo os contornos do chamado estilo
paranista, a criação do Salão Paranaense de Belas
Artes (1944) e a fundação da Escola de Música e
Belas Artes do Paraná (1948), da qual, inclusive, De Bona foi
diretor e professor, lecionando na cadeira de "pintura de nu acadêmico".
Convém lembrar que, não obstante essa tomada de fôlego,
a modernidade chega ao Paraná, por volta da metade do séc.
XX, com artistas cujo domínio teórico e técnico
dentro, logo, dessa práxis do novo, era ainda limitado. Havia,
pois, segundo críticas proferidas quando da abertura do I Salão
Paranaense, uma divisão clara entre acadêmicos, que insistiam
na repetição dos cânones clássicos, e modernos,
que, apesar da iniciativa iconoclasta, circulavam ainda num passo tacanho
dentro das concepções de base desse pensamento e prática
diferenciados.
É consenso, voltando ao foco de nosso interesse, que a estadia
em Veneza foi peremptória quanto ao amadurecimento da pintura
de Theodoro De Bona. Quando retorna ao país, porém, acaba
produzindo telas mais facilmente digeríveis, em vista, talvez,
da necessidade de sobrevivência dentro de um meio ingrato nessas
condições. Até sua morte, em 1990, alcançou,
conforme Ferreira, uma linguagem pessoal, fluente e realista, com nostálgicas
cadências impressionistas [FERREIRA, in: JUSTINO: 1989, pg. 32].
Versátil, deixou um vasto conjunto de obras, dentre as quais
cintilam cenas de gênero, retratos, alegorias, nus, composições
de temática histórica e murais religiosos, além
de um considerável complexo de paisagens. Araújo aponta
para verve humana, terna e vibrante que recende da pintura do artista,
pois seus quadros, geralmente, deixam transparecer menos o viés
"angustiante ou absurdo" do sujeito do séc. XX do que
a presença entranhadora de "uma grande paz" que lhe
é quase sempre alheia.
Ferreira coloca que o artista mantinha-se a uma distância conveniente
do mercado de arte - incipiente na capital a partir da década
de 50, com o surgimento da Galeria Cocaco - muito embora estivesse indiretamente
envolvido por ele. Atualmente suas obras são objeto das mais
altas cotações da bolsa de Arte Paranaense (Ferreira refere-se
também a esse fato para mensurar o grau de importância
de seu trajeto para História do desenvolvimento artístico
no Estado). Segundo o autor, no íntimo, De Bona tinha receio
que esse tipo de comércio, estritamente relacionado ao gosto
do grande público consumidor, pudesse, paradoxalmente, desvalorizar
seu labor, num plano intelectual e estético de qualidade artística,
colocando em risco a respeitável imagem profissional da qual
então já gozava [Id.: Ibid., pg. 34]. Mas não será
essa demanda mercantil, circunscrita à lei da oferta e da procura,
que descolará do legado do artista seu valor simbólico,
sua qualidade estética e sua densidade histórica. Pelo
contrário, um fator é conseqüência do outro,
num efeito circular que não permite a emissão irrefletida
de juízos de valor puristas ou preconceitos de natureza diversa.
Theodoro de Bona se impõe à memória cultural paranaense
pela sólida devoção à Arte, como um meio
irreversível de devolver ao ser humano sua dimensão de
humanidade e de poesia, esquartejadas com os eventos funestos que inauguraram
o séc. XX no mundo, instaurando a decepção nas
camadas mais remotas da consciência social. Mestre do objetivismo
visual, passageiro do bonde expressionista e artista profundamente sensibilizado
pelas cores do Impressionismo, De Bona carece ainda de um olhar mais
agudo da crítica e do público. Sua obra está presente
- compondo, juntos com outros fragmentos, essa complicada discussão
sobre a existência de uma identidade regional paranaense. Ao escrever
sobre a obra de Haroldo de Campos, quando de seu falecimento, Ascher
coloca que a melhor homenagem que poderíamos prestar ao poeta
concretista seria ler seus livros. Talvez possamos, parafraseando-o,
aludir à apreciação crítica e sensível
do legado estético de De Bona como a melhor maneira de honrar-lhe
a devida importância dentro da História da Arte do Paraná.
Habitar seus quadros é o melhor que podemos fazer para comemorá-lo.
Luciana Paes
1 - Adalice Araujo refere-se a esses artistas como
precursores do modernismo paranaense.
2 - A Geografia pode discorrer com mais propriedade
sobre essa questão. Segundo Ernesto Cohen, citado por Milton
Santos, cada um dos sistemas que compõem a estrutura social -
o da produção, o da estratificação e o da
dominação - se encontra em um processo contínuo
de transformação, embora com ritmos diferentes e com diferente
intensidade."Essa assincronia é o resultado do funcionamento
relativamente autônomo de cada sistema e constitui um dado fundamental
para compreensão da estrutura social. Tal explicação
acrescenta um novo elemento ao entendimento da evolução
social, isto é, o fato do desenvolvimento desigual e combinado
das estruturas em movimento" (o grifo é nosso) [COHEN, E.
Estructura social y dependencia externa: interacción y variables
críticas. Lima, Peru, set. 1973 apud SANTOS: 1986, pg. 143]
3 - "O prazer que obtemos com a representação
do presente deve-se não apenas à beleza de que ele pode
estar revestido, mas também à sua qualidade essencial
de presente", escreve Baudelaire. [In: "O pintor da vida moderna".
COELHO: 1988, pg. 160]
4 - Araujo escreve: "[A Semana de 22 de São
Paulo], sobretudo no ponto de vista 'cronológico' numa primeira
etapa, e 'filosófico' numa segunda, é que se constitui
num acontecimento 'nacional'; visto que seria temerário tentar
explicar 'todo' o modernismo brasileiro tomando por base única
e exclusivamente [esse acontecimento] (...). Em realidade, cada Estado
viverá o seu próprio processo evolutivo, substituindo
não só a sua 'economia' agrária/fechada pela 'tecnologia
dinâmica' como também integrar-se-á, no ponto de
vista cultural, à realidade nacional e internacional, à
sua própria maneira'. [ARAUJO: 1974, pg. 157]
5 - "As telas (...), vibrantes de movimento, com
invulgar síntese plástica na cor e alusões geométricas
nos edifícios, respiravam uma liberdade insólita para
época, que causaria profunda impressão nos espectadores"
[ARAUJO:1974, pg. 175]
6 - "Sou de temperamento impressionista, admiro
profundamente Cézanne, que considero um dos maiores pintores
da idade moderna" [De Bona: excertos de artigos publicados. In:
JUSTINO: 1989, pg. 20].
Referências Bibliográficas
ARAUJO, A. Arte paranaense moderna e contemporânea. Curitiba,
1974. 423 f. Tese (Livre Docência em História da Arte)
- Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal
do Paraná.
ASCHER, N. Haroldo de Campos (1929-2003). Folha de São Paulo,
25 ago. 2003.
COELHO, T. (apresentação) A modernidade de Baudelaire.
Trad.: Suely Cassal. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
ENCICLOPÉDIA de Artes Visuais. Disponível no site: <www.itaucultural.com.br>,
Acesso em abr. 2004.
FER, B.; FRANCINO, F. et al. Modernidade e modernismo: a pintura francesa
no séc. XIX. São Paulo: Cosac & Naif, 1993.
JUSTINO, M. J. (apresentação) De Bona: um exercício
de criação. Curitiba: Scientia et Labor, 1989.
______. Modernidade no Paraná: do Andersen impressionista aos
anos 60. In: MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DO PARANÁ. Tradição/Contradição.
Curitiba: 1986. Catálogo de exposição.
NORONHA, M. C. A. Arte moderna. In: NOVO MUSEU. Panorama da arte paranaense:
acervo do Estado do Paraná. Curitiba: 2003. Catálogo de
exposição.
PILOTTO, E. Th. De Bona. Curitiba: Livraria Universitária, 1968.
PONTUAL, R. Dicionário das Artes Plásticas no Brasil.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969.
SANTOS, M. Por uma geografia nova. 3ª ed. São Paulo: Hucitec,
1986.
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