|
O Real, como nós o vemos?
A obra de Edilson Viriato
Propõe-se aqui o olhar sobre
um artista de fortes raízes nas tradições brasileiras,
onde sua obra, como também a literatura latino-americana, é
claramente localizada e universal ao mesmo tempo.
Trata-se de um jovem artista que vem se impondo como um dos mais importantes
da sua geração; seu nome é Edilson Viriato.
A primeira questão que devemos
abordar é a de saber de qual Brasil estamos falando; não
se trata de um Brasil do Norte ou do Centro, onde são ainda bastante
claros os traços indígenas, nem do Nordeste onde a influência
negra é muito forte. Mas do Brasil do Sul, formado por sucessivas
ondas de imigrantes europeus que seguiram os portugueses e os espanhóis
e transformaram essa região a partir do século XIX.
E será a "modernidade o momento de unificação
da cultura brasielira, quando todos se identificarão pela procura
de suas identidades, um identidade antropófaga, não no
sentido de "Manifesto Canibal" de (...) nos anos 20, mas do
"Manifesto Antropófago" de Oswald de Andrade centrado
no núcleo "ético-mítico" da cultura brasileira,
para quem a antropofagia era um ritual místico e lírico
da "devoração mágica da natureza", uma
festa de reconciliação que culmina com a refeição
antropofágica, na qual o vencedor se apropria das qualidades
daquele que ele está ingerindo. É a paródia do
"modernismo" brasileiro, no qual a obra nasce pela "devoração"
dos modelos importados (Roberto Pontual).(4)
A resposta Sul brasileira para esta
"devoração mágica" pode ser identificada
ao mito eslavo do "vampiro" (ou até mesmo do mito,
de tradição européia, do "lobisomem").
O "vampiro" não come a carne, nem elimina completamente
sua vítima, mas ao sugar seu sangue ele a transforma em um dos
seus. "O Vampiro de Curitiba", é um conto bastante
conhecido de Dalton Trevisan, (5) no qual o mito
é interpretado como vampirismo sexual e social, mas também
como auto-vampirisação : é o monólogo interior
do "morcego" condenado a caçar nas trevas; uma tragicomédia
que é a analise pessimista do ser humano numa sociedade provinciana
e repressiva.
É neste sentido que Viriato produziu uma obra que fala do tabu,
da farsa e da comédia do mundo (Curitiba foi a cidade que ele
escolheu para viver e trabalhar). Cheia de alegorias pessoais, o cotidiano
é a encenação por excelência, um cotidiano
que se encontra numa fronteira mal definida entre realidade e irrealidade,
verdade e imaginação. Ele pretende, antes de mais nada,
criar um efeito, como no teatro, para provocar emoções
e paixões pela revelação da ideologia desse cotidiano.
Da alegoria, que surge dos momentos
reais e vividos e que são transformados pelo seu imaginário,
ele produz simbolos como o "cachorro-piranha" (utilizado quase
como uma assinatura), (6) o "sorriso-serrote",
os dentes pontudos, as mãos, as pernas, o rosário, etc.
Cada um tem sua história pessoal que pode ser transformado em
desenho, em pintura, em gravura, numa instalação ou numa
performance.
Seu trabalho é bastante complexo, deixando de lado as malícias
irreverentes e irônicas de adolescente, toda a cultura ocidental
é posta em crise, suas verdades e os seus conflitos: o homem,
o erotismo, a vida e a morte, a religião e o sexo, a vanguarda
e o kitsch, a ciência e a utopia; ele faz alusão a vida
urbana. À força da imagem, à velocidade dos meios
de comunicação, ao particular e ao coletivo, com desprezo
e também com uma certa perversidade.
Mais que em Dada e mais que nas performances da "body-art",
ele conseguiu aproximar o "celestial" com o "sujo",
o imundo, o Deus e o Diabo. O barroco foi então transformado
pelo expressionismo e contaminado pelo "tropicalismo", uma
antropofagia de brincadeira que destrói os modelos artísticos
para produzir uma estética do deboche lírico.
Suas instalações, de evidentes raízes populares,
buscam novos meios expressivos e anulam as fronteiras entre os gêneros
de expressão: numa câmara mortuária em forma de
cruz, derivada do "carnaval tropicalista", Viriato encheu
de imagens pessoais, de maliciosas coroas funerárias, de obsessivos
simbolos fálicos alados, "corbeilles"de flores e de
borboletas com agresivas marcas de campos de concentração,
os "cachorros-piranhas" sempre presentes, os anjos e os santos
psicodélicos que mostram seus dentes pontudos e vampirescos,
tendo como irônicos títulos - PRECAUÇÃO:
"Pai não nos deixe cair em tentação",
TENTAÇÃO E SEXO: "Seduzindo os sedutores"; CRUCIFICAÇÃO:
"Enquanto os cães ladram, um ladrão é crucificado,
um anjo sonha em ser Batman e a Santa diz amén".
Concluindo com Viriato: "Eu gosto de brincar com todas estas coisas.
Existe um elemento latino no colorido forte, no deboche, que procura
retirar certas coisas do dia-a-dia da banalidade e apresentá-las
com uma certa importância".(7)
Fernando A. F. Bini
Paris, março de 1995.
Artigo publicado na Revista REG Arts, Arts Plastiques, Revue semestriel,
n. 2
Département Arts Plastiques, Université Paris 8.
4. Bayon, D. Pontual, R. La peinture de l'Amérique
Latine au Xxe Siècle. Paris: Mengés, 1990.
5. TREVISAN, Dalton, O Vampiro de Curitiba, Rio de Janeiro: Rceord.
6. Piranha: designação comum a várias espécies
de peixes ... conhecidos como carnívoros, extremamente vorazes,
com dentes numerosos e cortantes. (...) na gíria popular, mulher
que, sem ser necessariamente meretriz, leva vida licenciosa (Novo Dicionário
Aurélio).
7. SEBASTIÃO, Walter. "O lado trágico e cômico
do cotidiano", Estado de Minas, Segunda Seção, 1o
de Setembro de 1992. P. 8.
|