|
Ninguém passa ileso diante de uma tela de Josué Demarche.
Suas pinturas são perturbadoras, incomodam, são reveladoras,
nos fazem perder o equilíbrio.
O primeiro pensamento que nos vêm é a exclamação
de Diderot diante de uma tela de Chardin: ... não é
o branco, o vermelho, o preto que você mói na tua palheta,
é a substância mesmo dos objetos, é o ar e a luz
que você prende na ponta do pincel e gruda na tela.(Salão
de 1763)
É o prazer da matéria. Nos quadros de Demarche, a matéria
e a cor se confundem com os verdadeiros temas, mas o conjunto de figuras
espectrais que surgem dessa confluência nos perseguem; são
espectros ou fantasmas, memórias do esquecido, não uma
aparição, mas traços deixados de algo acontecido,
algo figurável porque se refere ao real, no entanto é
quase aquilo que escapa à figuração, o que temos
diante de nós é a descorporisação do real.
É lamentável que não tenhamos disponível
para estudo, reflexão ou simples deleite do olhar, obras das
mais diversas fases de Demarche, para que possamos traçar com
maior firmeza o seu caminho pictórico. O artista que elegeu Curitiba
para viver e trabalhar, raramente expõe nesta cidade e nossos
museus não possuem obras suas.
A sua vontade de desenhar começou cedo e, entre 1978 e 1982,
freqüentou os atelieres da Casa Alfredo Andersen onde trabalhou
sob orientação de Luís Carlos Andrade Lima e Alberto
Massuda, dois grandes artistas contemporâneos do Paraná.
É possível que dos ensinamentos de Andrade Lima venha
esta sua estruturação da composição, a valorização
que faz da figura humana e a importância que ele dá aos
planos de fundo do quadro; é provável também que
tenha começado nos cursos de Massuda esta sua paixão pelos
empastamentos, o uso da cor (uma cor que remonta à Cézanne
e Matisse), e o automatismo gestual de origem surrealista, que ele concluirá
com o aprendizado em Toronto junto a artistas como William Ronald, ligado
a uma tradição que vem desde Borduas, Tom Thomson a Riopelle
e que usam com toda a liberdade a matéria pictórica.
A importância da obra de Demarche está em que ele consegue
fazer uma síntese do seu percurso artístico, sem negar
seu passado. Se sua obra hoje é importante no Canadá por
fazer parte de um grupo pós-expressionista abstrato, ela carrega
junto um discurso pictórico brasileiro e paranaense. Suas grandes
telas são pintadas com uma espécie de ingenuidade, que
está também nos personagens, mas que participa da construção
do campo pictural e faz parte das ricas continuidades espaciais que
envolvem todo o quadro. A pintura para ele tem que ser gestual, material,
espontânea, é uma batalha que termina com a realização
do quadro no qual é a cor espessa que determina a forma.
Por vezes seus retratos mostram rostos alucinados, olhos esbugalhados,
corpos estranhos, espectrais, produzidos por uma escritura emocional,
influência do automatismo que na sua liberdade fragmenta a imagem,
em busca de uma beleza, uma beleza que vem do abismo, de
um mundo vertical que se torna mundo pela cor, e a cor não está
lá para explicar a imagem, mas ela é uma das entradas
para se conhecer este mundo criado pelo artista.
Ele é barroco quando se serve desses elementos catastróficos
criadores, que decompõem o real através do desnudamento
do humano. A beleza moderna é por vezes ligada ao estranho e
ao horrível, que é à consciência da temporalidade
e da lembrança, ela acentua a qualidade de estar presente:
uma teatralização da existência.
O ato de pintar para Demarche consiste em colorir e descobrir; ele trabalha
com camadas e quando uma primeira começa a secar, ela é
raspada e uma nova camada é acrescentada, um palimpsesto, um
jogo próximo ao da sombra e luz, onde as últimas camadas
entram para aliviar a tensão e produzir o equilíbrio.
A exploração da tinta a óleo é como a exploração
de uma terra incógnita sob um sol ardente, é
um combate consigo mesmo, contra ou a favor de si mesmo; é uma
luta com aquilo que pode oferecer uma maior resistência
ele é um inventor, um descobridor, após descobrir uma
técnica, uma forma, quando tem o domínio sobre ela, ele
a abandona em busca de uma outra.
As paisagens lembram Soutine, pintadas com uma massa espessa, incandescente
onde casas e árvores se entrechocam num espaço saturado,
os empastamentos destacam a presença dos vermelhos, dos amarelos,
das terras, com toques de branco (como em Bacon). Há fogo, há
terra, é telúrico; das árvores numa paisagem restam
os troncos e galhos queimados mantendo ainda os restos das brasas. A
violência da cor, a exuberância inesgotável das formas,
proclamam no seu trabalho a abundância e a embriaguez das energias
criativas. Tudo é resultado de investigação, de
trabalho, de prazer.
Como Picasso tem paixão pelas touradas, sua paixão são
os galos de briga, nestas o importante é o movimento e não
os empastamentos, tem menos matéria pictórica, são
mais narrativas, são simbólicas; representam sua luta
diante da tela animais fantásticos em combates fabulosos.
Suas naturezas-mortas são estruturadas, construídas, estabilizadas,
é o momento de pausa do combate entre matéria e cor para
empreender outro combate, não menos sensível que o primeiro,
pois este é sensual. Nem seus nus espectrais são tão
sensuais como as melancias de seus quadros, elas têm também
um famoso precedente na história da arte, uma melancia faz parte
do conjunto de frutas sobre a mesa na tela que inaugurou o cubismo:
Les demoiselles dAvignon de Picasso. A melancia, em razão
da quantidade de sementes que contém, é tida como símbolo
da fecundidade, além de sensual pela sua tonalidade encarnada,
brilhante e selvagem, evidentemente feminina.
Algumas vezes há uma única melancia sobre um plano, talvez
uma mesa que estabiliza a composição e faz lembrar a forma
de um retrato, a meia lua da melancia se destaca do fundo e organiza
uma nova forma contrastando figura com a cor mais sombria da parte inferior,
tudo é fragmento de uma insólita liberdade no uso da forma
e da cor através dos empastamentos, das espatuladas e das raspagens
feitas com um instrumento inóspito como uma faca de cozinha,
mas que é suficiente para transpor em pura energia os seus dados
emocionais. É importante destacar a preocupação
que o artista tem com os fundos do quadro que, além de valorizarem
o primeiro plano, se destacam quase como obras autônomas (é
possível que seja também uma herança de Andrade
Lima).
A imagem aparece no final do processo pictural e esta imagem nada tem
a ver com a imagem copiada, com o retrato da realidade; ele joga com
a analogia, possivelmente premeditada, mas que deve mais aos meios picturais
do que ao modelo no qual se inspira, elas brotam do interior do artista
como uma linguagem fluente, ardente, uma linguagem do desejo, traduzida
em intensidade pictórica e cromática, cuja fonte desta
escritura rápida, livre, espontânea e automática
se encontra no expressionismo abstrato dos artistas canadenses
ou ainda na pintura de Karel Appel, de Asger Jorn, de Jean Fautrier,
mas também de Matisse e Picasso.
A obra de Josué Demarche é uma exaltação
do savoir-faire do pintor, é o prazer da criação,
a alegria que o artista encontra na prática pictural como gesto,
o por a mão na massa a partir da pesquisa da matéria
e da imaginação.
A arte internacional nos anos 80, mais precisamente pela ação
do movimento italiano da Transvanguarda italiana, retorna enfim aos
seus motivos internos, às razões constitutivas de seu
próprio trabalho, do seu lugar por excelência, o labirinto
próprio da pintura, na concepção de trabalho interior,
de escavação contínua dentro da substância
mesmo da pintura.
Depois dos anos 70 quando os artistas trabalharam em meio a crise
da arte, a morte da arte e a crise da evolução
da arte, fenômenos que anunciavam a impotência da
arte diante do mundo contemporâneo, a Transvanguarda pressupõe
novamente uma maniabilidade experimental, a surpresa do artista diante
da obra que se forma ante seus olhos sob a interferência da mão
ativa metida na matéria da arte, a nova magia, produto de um
imaginário que se reencontra com a idéia e a sensibilidade.
Demarche trabalha com massa espessa na exploração dos
seus temas que surgem progressivamente pela aplicação
da matéria, seu trabalho muito pouco teria a ver com os artistas
da transvanguarda, a não ser na sua alegria de pintar, no prazer
de ver a forma surgir pelos empastamentos e raspagens: pela busca da
instantâneidade da obra.
A obra de arte feita segundo as regras da arte e onde ela tem a função
do doma-olhar (dompte-regard) lacaniano.
A arte é uma atividade manual, um gracioso trabalho...
em torno do fantasma da imagem (Bonito-Oliva), onde a mão
inclui a memória cultural, a inteligência do gesto e o
sentido global do conhecimento e do domínio do métier
artístico.
É a reconquista do próprio território da arte.
Demarche é um pintor que não tem medo da pintura, adora
manipular os poderes reconhecidos da matéria pondo em relevo
os fantasmas, ou as fantasmagorias, da sua imaginação,
quadros violentos pictórica e expressivamente, espelhos
ardentes do sublime como denominou Gary M. Dault, mas que são
produzidos envoltos pela paz da natureza e do canto dos pássaros
nos arredores de Curitiba.
Fernando Bini
|