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HELENA WONG
Intervenção em Mesa Redonda sobre a artista por ocasião
da exposição no Solar do Rosário, Curitiba, de
17 a 29 de agosto de 1997.
Componentes: Maria Cecília A. de Noronha, Ênnio Marques
Ferreira, Elaine Werneck de Capistrano e Fernando A. F. BiniPor: Fernando
Antonio Fontoura Bini
18 de agosto de 1997
Nasceu em Pequim, China, 3 de agosto de 1938
Desde pequena sofre de moléstia reumática, por vezes devia
ficar imobilizada. O desenho surge como necessidade, a única
forma de expressão possível nesses momentos de imobilidade,
quando a meninice exigia o gastar de energias, nesses momentos as brincadeiras
infantis nela devem ter sido introspectivas e simbólicas.
Inicia seu aprendizado artístico, bastante jovem, ainda na China,
em Shangai, com um mestre em pintura tradicional. Aprende e desenvolve
o uso do nanquim e a escritura poética, isto é, a manipulação
tradicional do pincel com o nanquim e a escritura que parte de um texto
poético, que é o modelo chinês.
Caligrafia e pintura
A pintura chinesa tem como base a escritura que, por sua vez, tem relação
com a caligrafia.
A profa. Adalice Araújo reconhece na formação de
Helena Wong influências que remontam à Dinastia Han (c.
200 a. C. à 220 d. C.), quando as artes (a pintura, a música
e a poesia) foram consideradas ofícios intelectuais e eruditos
e eram consideradas com grande destaque inclusive como forma de cultivar
as boas relações entre os homens, e essas boas relações
ou a "boa ordem social" era o reflexo ou a encarnação
do Tao. (Osborne, 1968, p. 95)
Cito Mai-mai Sze: "Em tais circunstâncias, a pintura chinesa
tem sido, por via de regra, uma expressão de maturidade: quase
todos os grandes mestres se distinguiram primeiro como funcionários,
eruditos ou poetas, e muitos foram calígrafos habilidosos antes
de se voltarem para a pintura ... ao adquirir a educação
prescrita pelo tao da pintura, um pintor se submetia a rigorosa disciplina
intelectual e a um treinamento intensivo de memória. (...) A
antiga sabedoria lhe modelava o caráter e lhe alimentava os mais
secretos recursos." Prefácio do Manual de Pintura do Jardim
da Semente de Mostarda (1679-1701), em Osborne, 1968, p. 95-96).
Durante a dinastia Han, portanto, a escrita ideográfica chinesa
se desenvolveu autônoma, como uma das "belas artes",
no que se chamava "a arte da caligrafia" que era aliada estreitamente
com a pintura; Esta característica será encontrada mais
tarde na obra de Helena Wong, principalmente quando ela penetra na abstração
e desenvolve o desenho e a pintura monocrômica, cuja excelência
oriental reside na sutil variação e misturas de tons e
no estilo característico e apropriado do uso do pincel, da pincelada.
O ideograma da escritura chinesa, como a própria tradição
cultural, é algo de que os orientais não conseguem se
libertar tão facilmente, e em Helena eles são ainda mais
profundos, porque ela se utilizou deles como a sua mais importante formas
de expressão e de comunicação humana.
Depois de viver dois anos em Hong Kong (1948-1949), a família
Wong chega ao Brasil, e se fixam em Curitiba. Em Curitiba, no ano de
1953, ela tem aulas com Thorstein Andersen, filho de Alfredo Andersen,
que procura seguir, ou prosseguir, o trabalho do pai, mas sem as qualidades
do seu progenitor, ele é mais um artesão da pintura que
propriamente um artista. Helena Wong já havia tomado contato
com a arte ocidental ainda em Hong Kong, mas foi com Thorstein Andersen
que ela começa a desenvolver sua visão pictórica
ocidental, quando confronta, com muita sensibilidade, a sua tradição
oriental ao realismo eclético da escola de Andersen. Possivelmente
por características próprias do seu ser, por sua própria
visão de mundo, este aprendizado realista não destruiu
seu aprendizado anterior mas, ao contrário, acentuou o valor
simbólico do seu trabalho, pois "na tradição
chinesa, o encanto emocional de uma pintura, seu conteúdo expressivo,
a personalidade dos artistas, residem na técnica da pincelada.
(...), e o bambu oferece possibilidades mais sutis de expressão
do que as cenas dramáticas ou anedóticas." (Osborne,
, 1968, pp. 99-100) Isto é, o germe daquilo que para nós
ocidentais serviu de base para a abstração, seja para
o expressionismo abstrato norte americano ou para o informalismo europeu,
existia já no espírito do artista oriental que Helena
herdara. O "mergulhar" dentro da arte que foi o exercício
duro dos primeiros abstratos era o procedimento normal dos orientais.
A especificidade dos meios, a técnica como solucionadora dos
problemas pictóricos e a superfície plana do quadro como
local de inscrição das mensagens, que um Velloso fora
buscar em Lhote ou o Calderari tivera que investigar a duras penas,
nela fluía como se fosse do seu próprio ser. Apesar da
existência de alguns pintores chineses ou japoneses em Curitiba,
este grupo, ou grupos - ou por não serem realmente um grupos
- não tiveram o mesmo papel do grupo nipo-brasileiro de São
Paulo que agiu sobre o movimento abstrato dirigindo-o para o lado do
gestual, muito próximo do expressionismo abstrato norte-americano;
aqui, mais no sul, a influência maior vem da Europa com o informalismo
e as tendências do grafismo e do tachismo, portanto Helena Wong,
não pode ser considerada como geradora do movimento abstrato
no Paraná, ela se insere nele, no entanto ela conduz o abstracionismo
por um caminho todo particular, essencialmente poético, e é
aí que reside, principalmente, a sua importância: a contribuição
que ela dá para a linguagem abstrata do Paraná, ao saber
distilar de sua tradição oriental, uma arte ocidental.
Fora o rígido trabalho artesanal imposto por Thorstein Andersen,
os modelos de que Helena dispunha eram as paisagens do pequeno mundo
do quintal de sua própria casa, um universo em miniatura, cheio
de detalhes como luzes, reflexos, sombras, texturas, que a conduzem,
pouco a pouco a abandonar a prisão do modelo realista abrindo
caminho para a abstração. Em 1958 conhece Alcy Xavier
no Círculo de Artes Plásticas do Paraná e assim
consegue libertar-se da rigidez disciplinar acadêmica. Sua obra
se torna intimista, quase como exercícios de auto-análises,
segundo o próprio Alcy. Mas para a artista é o momento
que ela descobre a "arte como um encontro consigo mesma, e não
o registro mecânico do objeto."
Mas as obras suas apresentadas em Salões de 1957 à 1960
ainda levam títulos como: retratos, figuras, vultos , nus; e
se as suas pinturas nesse momento são "o eco" de suas
emoções, a figura ainda é o suporte de suas mensagens,
mesmo que sejam "idealizadas independentes de qualquer regra que
limite a liberdade de criar". A abstração que virá
a seguir é, portanto, fruto de uma necessidade legítima,
interior, como aconteceu com Kandinsky, era a necessidade de reinventar
a sensação estética, para substituir uma arte por
demais comprometida com o excesso de visualidade. (Não esqueçamos
que o século XX é o século da visualidade, a era
da foto e do cinema e agora da imagem virtual de W. Benjamin
a Paul Virillo - contra isso vai se revoltar também Duchamp,
quando pretende o fim da arte puramente "retiniana" e com
cheiro de terebintina.)
Mas se analisarmos a experiência do Oriente notaremos que a arte
chinesa não se tornou abstrata, ela já nasceu abstrata.
Por influência do seu pensamento (budismo, taoismo) o artista
chinês se desinteressou pelo homem ou por si próprio se
interessando mais pela natureza, e então ele abstraiu sem se
desligar da figura. "Os olhos do artista e do espectador chinês
acabaram concentrando-se nos signos". Desta forma "(...) são
os olhos chineses que são abstratos." (Trevisan, 1988, p.
31) Eram os olhos de Helena que eram abstratos, e por isso ela encontrava
no pequeno mundo do quintal de sua casa o modelo ideal para sua obra,
tudo estava ali, era do seu interior que construía seu mundo
real e o seu mundo de representação, pois ela transcendia
o tema situado, abandonando a "janela de Alberti". Segundo
o prof. Armindo Trevisan, "existem várias maneiras de se
ver o real. Uma é vê-lo dentro das molduras visuais a que
fomos habituados(a janela de Alberti). Os chineses, por exemplo, vêem
a natureza condicionados pelas imposições de sua escrita
(o grafismo). (...) Por isso, em termos genéricos, toda a visão
é transformação, deformação, ordenação
do real. Nunca reprodução ..." (op. cit., p. 40)
Depois do encontro com Alcy, Helena passa a procurar as novas dimensões
da forma e da cor, a pintura se torna realmente o eco de suas próprias
emoções produzidas pela liberdade criativa. Ela quer transmitir
a poesia, mas também a força e o mistério que ela
retira do seu interior através do seu modelo, isto é,
quer mostrar toda a complexidade da alma humana. Sua pintura se torna
a "sensação" dos momentos vividos e o "sentimento"
de sua existência.
Em 1961 ela participa do 18° Salão Paranaense de Belas Artes
recebendo dois prêmios, um em Desenho e outro em Pintura, incluindo
a medalha de ouro do Salão. Este é também o Salão
que faz debutar a arte abstrata no Paraná; são seus companheiros
no salão artistas como Antonio Arney, Fernando Calderari, Fernando
Velloso, Jefferson César, João Osório, Alberto
Massuda, e outros. Se este foi o Salão de entrada da arte abstrata
ele foi também o do conflito com a arte figurativa, uma polêmica
é aberta à partir de um artigo de Paul Garfunkel cujo
título era "Piedade para os jovens pintores", que recebeu
resposta em um outro artigo de Antonio Patitucci intitulado "Provincianismo
e Arte Moderna" e que concluía dizendo que "piedade
é para os que não sabem o que fazer". O tom de ambos
é provocativo e Patitucci nos explica bem o momento que é
vivido pelos jovens artistas: "A atual fase artística, particularmente
a nossa paranaense, é de destruição, de libertação
da forma; e o nosso primeiro ato positivo é o de rejeitarmos
as técnicas superadas." (Patitucci, 1961)
As pinturas de Helena são ainda evocações de "paisagens"
que valem como alusões à um universo interno: a superfície
da tela é transformada em espaço agitado de representações
de ondulações e relevos, riscados com o pincel e de traços
rápidos, aparentemente nervosos, e a harmonia se instala entre
os cheios e os vazios, o próximo e o afastado, o estático
e o dinâmico. O seu cromatismo atinge raras sutilezas, mesmo no
desenho a nanquim. Quando usa somente a tinta nanquim nas suas obras
sobre papel, é com um controle de gestos e de manchas, com uma
tal ciência de equilíbrio entre o fundo e as formas, que
toda a gama cromática parece estar presente, por detrás
dos brancos e pretos e podemos repetir então o ditado chinês
no qual "se você tiver tinta, terá as cinco cores"
Em 1963 Helena Wong se transfere para o Rio de Janeiro à procura
de maior expansão intelectual e também emocional, nesta
relação entre o intelectual e o emocional que a obra dela
se define como ocidental. Esta fase carioca é altamente emotiva.
A cidade grande lhe abala criativamente através do ritmo, da
luz e da vibração e que devem ser as razões da
forte e turbulenta emotividade que ela experimenta em sua vida pessoal
e que se refletem na grande dramaticidade de seus quadros.
Dois elementos ainda são importantes uma vez que eles eram o
objetivo de sua busca: a musica que lhe favorecia a produção
das imagens visuais, e a literatura que lhe transmitia vivências
e situações que ela considerava de extrema criatividade.
O Rio representa também a procura de certa intelectualidade na
sua obra para se contrapor a sua abundante fonte de emotividade. O encontro
então com Ivan Serpa, que lhe faz descobrir a gravura, lhe favorece
o retorno à figuração, no entanto não mais
a figuração acadêmica, mas a figuração
outra, pois que vem depois de toda a experiência abstrata.
Em 1965 Helena começa uma nova fase que ela chama de Romântica,
fase esta que reflete todo o acúmulo visual e intelectual do
Rio de Janeiro, mas as suas pinturas são, na realidade, de tendência
surrealista. A ida ao Rio e a participação na Bienal de
São Paulo lhe possibilitam o encontro e o contato com artistas
como Ivan Serpa, Rubens Guerchman, Antonio Maia e Antonio Henrique Amaral,
isto acentua ainda mais a sua relação já ambígua
entre a abstração e a figuração, por influencia
principalmente da arte concreta e do pop pintado, assim penetra na fase
que ela mesma denomina de "expressionismo onírico",
ligada a uma "nova figuração" mas conservando
a tendência surrealista. As cores se tornam cada vez mais vibrantes
e o desenho mais delicado realizados em telas cada vez maiores que chamam
a atenção da crítica Vera Pacheco Jordão,
quando diz que ela joga com a cor em tons vivos e usa os contrastes
para dinamizar a composição, quando combina o dinamismo
do grafismo com a pintura. Não parece ser uma preocupação
de Helena Wong a estrutura da composição desde os seus
primeiros desenhos chineses, que poderíamos considerá-los
infantis, ou então que ela conserva na sua fase pictórica
madura ainda uma composição infantil, sem estrutura, o
que nela é uma grande vantagem uma vez que ela resolve através
do acabamento da superfície pictórica com uma vibração
totalmente original.
Depois da experiência carioca ela volta a Curitiba em 1972 provavelmente
em busca de repouso pelo agravamento de sua doença. O seu abatimento
físico aliado a sua inquietação emocional se transformam
em uma maior energia criadora; suas formas se desagregam segundo Adalice
Araújo, na busca do equilíbrio interior ela encontra o
trágico. Neste momento é de se perguntar qual seria o
nível de conhecimento que ela teria de artistas como Klee, Max
Ernst, André Masson e, principalmente, Henri Michaux, para quem
a "escritura" quer fazer sair o seu eu interior por meio de
vazios e de metamorfoses as mais simples. De Klee e de Max Ernst ela
não teria herdado esta liberdade de linhas? Acertadamente a crítica
nacional encontra nesta fase de Helena Wong a integração
madura entre conteúdo e forma. Nesta fase é que ela atinge
o seu pleno amadurecimento, retornando ao lirismo representado pela
sensível suavidade plástica, próprio de períodos
de introspeção e reflexão.
Sua obra se enche de melancolia criativa e novamente se reparte em ambigüidades,
de um lado o exílio dentro de si mesma e de outro uma vital necessidade
de comunicação. Este momento foi definido por Walmir Ayala
como o do "prazer da matéria" (Ayala, W., 1968)
Referências bibliográficas
ARAUJO, Adalice. Arte Paranaense moderna e contemporânea - em
questão 3.000 anos de arte paranaense, Tese de Docência
Livre, Curitiba: UFPR, 1974. 424 p.
AYALA, Walmir. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 de julho de 1968.
JUSTINO, Maria José (Coord.). 50 anos do Salão Paranaense
de Belas Artes, Curitiba: MAC/UFPR, 1995. 326 p. MAP.
Helena Wong, meio século de sensibilidade e obstinação,
catálogo de exposição de pintura e desenho, 24
de outubro a 25 de novembro de 1990, Curitiba: MAP. 1990.
OSBORNE, Harold. Estética e teoria da arte - uma introdução
histórica, tradução do inglês por Octavio
M. Cajado, São Paulo: Cultrix, 1970 (1968). 283 p.
TREVISAN, Armindo. A dança do sozinho - uma análise da
arte abstrata, col. Elos 48, São Paulo: Perspectiva. 1988.73
p.
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