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A COMPRA DA PARTICIPAÇÃO DO
PÚBLICO
VITRINE DO ELEOTÉRIO
Em 2002 fui convidado a fazer uma intervenção
em uma vitrine comercial. A princípio isso me pareceu ser uma
armadilha, pois até então nunca havia feito nada que pudesse
sugerir algum diálogo com um espaço de vitrine. Muito
pelo contrário, os trabalhos que já mencionei nesta dissertação
buscavam justamente o oposto: um espaço museológico ou
ainda um espaço estritamente destinado à arte. O espaço
em questão era a vitrine de uma conhecida livraria de Curitiba,
a livraria do Eleotério, atualmente fora de funcionamento. Este
projeto, idealizado pela artista plástica Marga Puntel, previa
a ocupação desta vitrine por duas semanas a cada artista
do projeto: Marga Puntel, Ana González e Luciano Mariussi. Esta
livraria foi escolhida pela facilidade de acesso e por não ser
um lugar já compromissado com as questões artísticas,
viabilizando assim um contato mais próximo do público
com a arte contemporânea.
O espaço da vitrine ficava longe de qualquer semelhança
com espaços destinados à arte, museus e galerias. Esse
aspecto foi desafiador. Senti que não poderia simplesmente fazer
uso deste espaço impunemente. Deveria tratá-lo mais como
uma intervenção em espaço urbano. Como sempre fiz
questão de estabelecer uma relação entre o espaço
que continha o trabalho e o trabalho propriamente dito, me adaptar ao
espaço disponibilizado traria certamente um direcionamento na
concepção do que viria a realizar.
Em vez de utilizar a vitrine como espaço
expositivo, decidi que não faria simplesmente um trabalho para
ser colocado em uma vitrine e sim utilizaria o espaço todo da
livraria para engendrar uma situação que se relacionasse
com um suposto público, que viria ver o trabalho exposto e o
público usual da livraria. Achei que naquela situação
seria um tanto complicado reter a atenção do público
para qualquer obra que pudesse habitar aquela vitrine: uma parede de
vidro que transparecia todo o interior da loja. Como o relacionamento
do meu trabalho com as artes se fez via questionamento entre arte e
público, a estratégia de aproximação que
escolhi foi a compra da participação do espectador. No
espaço da vitrine foi instalada a seguinte frase:
"Entre Gritando Eu sei o que é
arte contemporânea e ganhe um desconto de R$ 2,00 reais".
Havia previamente feito um acordo com o dono
da livraria e esse desconto seria efetivado se o cliente/espectador
se dispusesse a realmente deixar a timidez de lado e entrar na loja
gritando. Houve muitas participações. Foi interessante
notar que esta indução a participação por
meio da compra, uma espécie de suborno ao público, foi
muito eficaz. Mesmo para quem não tinha a menor proximidade com
arte contemporânea pode ter sido induzido a pensar que nesta frase
residia uma inquietação. Pensar no que estava escrito
não contribuiria para ter uma opinião sobre arte contemporânea,
ou para esclarecer algum ponto mais específico, mas revelaria
que nesta frase poderia haver um problema a ser discutido, ou ainda
seria um assunto caro para quem trabalhasse com arte contemporânea.
De qualquer forma, serviria para apontar um caminho de entrada nas questões
da arte contemporânea.
Durante as duas semanas que o trabalho ficou instalado, pude acompanhar
algumas das "performances" das pessoas que entravam na livraria
e tomei consciência de que deveria utilizar esse procedimento
com o público mais vezes. Fiquei sabendo por meio do Sr. Eleutério,
dono da livraria, que muitos clientes entravam apenas para participar
do trabalho, levando pra casa um pequeno livro de valor não muito
superior ao da promoção/trabalho.
Esta estratégia, de compra de público, voltaria a ser
usada em outros trabalhos futuros.
Luciano Mariussi
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