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Por trás do reflexo - carta à
Lílian Gassen
O que vemos só vale - só vive - em nossos
olhos pelo que nos olha. Inelutável porém é a cisão
que separa dentro de nós o que vemos daquilo que nos olha
Didi-Huberman
Pareceu-me, Lílian, que você nos lançou, com sua
exposição, um convite e ao mesmo tempo uma provocação.
Um convite, claro, para o olhar, ou mais ainda, para pensar sobre os
limites tanto simbólicos quanto materiais da visualidade, da
visibilidade, da reflexividade. E uma provocação: um absurdo
desafio à nossa eventual capacidade de ponderar sobre a relação
entre o visto e a visão. Quais são, afinal, os insólitos
regimes simbólicos que regem, em cada um de nós, as coordenadas
que no meu corpo relacionam a percepção, a linguagem e
o juízo? E como é possível compreendê-los,
tais regimes, sem afastar minimamente o olho da luminosa textura do
mundo? O olhar, visionário, é capaz de dotar suas imagens
de novos sentidos? Ou, ao contrário, é o corpo (e portanto
a experiência somática incessante que nos envolve - aí
incluída a arte) que se encarrega dessa tarefa, quase à
nossa revelia?
Essas perguntas, Lílian, todas elas, estão impressas,
e quase digo impregnadas nas suas obras. Elas, aliás, só
não são as suas obras porque é justamente aí
que se impõe, como já disse, o seu desafio como artista,
sua larga provocação estética. Suas questões,
a princípio universais, supõem no entanto um lastro de
inegável particularidade e intimidade, uma representação
por vezes obsessivamente narcísea do seu - talvez do nosso -
mundo privado. Há, é claro, um certo grau de abstração
e portanto de distanciamento em relação ao sujeito central,
experimental, de suas interrogações. Não existem
utopias nem certezas: a história não nos permite atualmente
essas "facilidades" - e o espaço íntimo que
se universaliza no espaço público expositivo, evidentemente,
é um passo possível a se seguir.
Assim, que não se busque propriamente uma "unidade"
estética ou ideológica na exposição, pois
a identidade aqui, essa velha exigência iluminista, é antecipada
pela ambição febril da pesquisa, mesmo que digressiva,
e ainda que desviada e incerta. Há sim, não se nega, uma
série de objetos que, como disse, giram sobre um núcleo
de questões que atravessam toda a variedade quase abissal de
meios e suportes apresentados (Desenhos, fotografia, pinturas, e objetos.
Em tempo, confesso que não compreendi bem o lugar, na exposição,
daquelas duas pequenas paisagens que, embora delicadamente coloridas,
soaram-me descontextualizadas.)
Entre as obras, agradaram-me em particular aqueles três desenhos
de mesmo tema e formato - as "naturezas-mortas", se você
quiser. Neles, a ligeira incompletude gráfica de cada trabalho
em relação aos demais nos demarca a fragilidade das formas
no tempo. Ali, desdobrada em devir, a memória acaba retorcendo
o espaço tríptico num conjunto de imagens muito breves
que, mesmo retidas nas retinas, jamais estão inteiramente acessíveis:
um conjunto de formas cujo diálogo "interno", como
sempre, depende de nós. Nessa linha, cabe ainda menção
àquele seu dispositivo repleto de poesia e já exposto
em Nome, àquela bizarra luneta que é também - e
como pode? - um grande espelho, àquele encontro de olhares sempre
desnivelados e eqüidistantes, àquela subversão à
lógica perspética e monocular das maquinarias visuais
de Dürer. O convite ao olhar, portanto, nas duas obras, não
supera a tensão e no limite a verdade de que os olhos, esses
pontos no espaço, só trabalham no tempo, vendo o presente
apenas quando o passado se cega ou vice-versa. A atualidade espacial
do visível, assim, só se constrói no tempo quando
processa a invisibilidade do passado. Interessou-me no entanto, e aliás
sobretudo, mais uma obra, igualmente já exposta em Nome. Nela,
há um rosto no ar. Em verdade, não bem um rosto, mas uma
máscara, e nem bem no ar, mas suspenso, preso à parede
por uma faixa de metal à altura de um corpo ereto. A faixa inclusive,
quando vista em perfil, desenha no ar o formato de uma cabeça
que se completa ao rosto. A máscara, tirada em molde de um rosto
real, é metálica e reflete o mundo. A obra, embora tridimensional,
dialoga também com a tradição da pintura, seja
pela fixação na parede que de certa forma impõe
uma espacialidade vertical e francamente antropométrica, seja
pelo privilégio aos planos fortes, a saber, o frontal (a máscara)
e o lateral (a cabeça). Nela há também, e para
lembrar Rosalind Krauss, uma certa "exterioridade", uma conversa
com o espaço literal, o nosso espaço, aquele mesmo que
também rodeia a obra em seus desvãos e reflexos. O ligeiro
espelhamento, por exemplo, nos impõe a inexorável e luminosa
presença do real, da mesma maneira que a fita metálica,
pela sugestão volumétrica, também utiliza, por
assim dizer, o ar como matéria prima.
Vi ainda nessa obra uma bela contradição. Como idéia
- é curioso dizer - o gesto produtivo e poeticamente primitivo
de "moldar o corpo", claro, é repetível ao infinito.
Mas por sua vez como gesto produtivo, os inevitáveis vestígios
de um corpo que gera outro, o da obra, com todas as marcas e sinais
irrecuperáveis de um rosto, ele mesmo literalmente irrepetível,
são para nós a certeza de que inexiste arcabouço
retórico capaz de congelar o tempo que escorre da matéria,
uma vez que o tempo, já em Aristóteles, é matéria
em movimento, e portanto perpétua transformação.
De tudo isso, entretanto, Lílian, e para voltar às questões
da sua exposição, a maior inquietude nesta obra, nesta
máscara, é aquela que refaz aquele círculo, proposto
por você, que vai do visto à visão. Para o observador
comum, ideal, abstrato, atento mas desconhecido, a máscara é
um símile de um rosto qualquer, o retrato de um protagonista
anônimo cuja marca maior é, junto ao estoicismo da expressão,
a incapacidade de corresponder ao nosso olhar, pois que os olhos, na
máscara, estão para sempre fechados. Por outro lado, para
aquele que de algum modo reconhece na obra o rosto da artista, a instigante
idéia de um auto-retrato realizado às cegas nos impõe
a evidente tatilidade de uma intervenção artística
que, antes de ser visual, ou mesmo conceitual, é também
e sobretudo plástica. E por fim, para aquele que vir seu próprio
rosto refletido, mesmo que muito indefinido e bruxuleante, na superfície
reflexiva da máscara, não deixará por certo de
notar a arquitetura escorregadia desse jogo: não é possível,
simultaneamente, ver a obra como máscara e espelho, tampouco
como retrato e reflexo. Somente o trabalho conjunto e literalmente imaginário
entre o olho e a memória é que é capaz de situar,
no mesmo espaço, o visto, com sua virtualidade do passado, e
a visão, com sua presente e absoluta atualidade.
Assim, para quem quiser, está tudo lá, numa labiríntica
trama de olhares incompletos: o protagonista retratado, o auto-retrato
do artista e ainda o reflexo intruso e dissimulado do espectador. Daí
por diante, Lílian, não vejo outra saída: num arco
de muitos séculos, As Meninas, já revistas por Foucault,
reaparecem novamente.
Artur Freitas
dezembro de 2004
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