| Hélio
Fervenza: a re-apresentação das coisas
No início de sua carreira, entre 1986 e 1990, Hélio Fervenza
fazia xilogravuras que colocavam em evidência certos detalhes
muito sutis das composições, introduzindo elementos figurativos
em campos visuais altamente abstratos. Quando passou a criar formas
tridimensionais, costumava utilizá-las para pontuar o espaço,
sinalizando seus limites. Por exemplo, em Sécretion ou-verte,
de 1991, chamava a atenção para os cantos da sala, ou
para regiões que habitualmente não entram no campo de
visão humana, por sua escala minúscula, ou por fugirem
do alcance das ações cotidianas. Em suma, ao colocar elementos
fora dos limites da visão convencional, forçava o espectador
a ver detalhes que sempre lhe passaram despercebidos.
A preocupação com a parede como
estrutura de apresentação de objetos artísticos
e marco de delimitação máximo para a sala de exposição
apareceu com freqüência na sua produção. Nas
exposições Duplo Pousar, de 1995, e Olho Mágico,
de 1997, instalava nas paredes o conhecido dispositivo que se constitui
numa pequena lente que permite uma visão concentrada do ambiente
exterior. Da forma como foram utilizados, os "olhos mágicos"
agiam como elementos ambíguos, situados no limiar entre o espaço
interno e o espaço externo - um sinal de demarcação
que também possibilitava a expansão do olhar para além
do ambiente imediato.
Hélio Fervenza costuma escrever seus "textos"
visuais utilizando ao máximo o espaço vazio. Não
é um artista barroco, que superpovoe suas instalações
pelo uso excessivo de objetos ou formas. Ao contrário, valoriza
o espaço não preenchido, sinalizando-o com elementos da
linguagem que cria. Nesse processo, profundamente racional, deixa-se
levar por um confessado fascínio pelas formas, cores e brilhos
dos objetos que lhe capturam o olhar.
Essa atração pela aparência
das coisas provoca o desejo de apresentá-las em situação
diversa daquela em que habitualmente podem ser encontradas. Há
nisso um deslumbramento que remonta à infância, quando
a descoberta do mundo estava diretamente associada a um olhar inquisidor
sobre os objetos. Do reencontro com o fascínio de olhar à
reflexão sobre o que há de invisível naquilo que
é visível, passando pelas estratégias para esconder
e mostrar, percebe-se uma trajetória contínua e coerente.
No trabalho que realizou para a II Bienal do Mercosul, em 1999, intitulado
A Função do Amanhã, utilizou-se de objetos retirados
do próprio local da exposição - um dos armazéns
de uma extinta repartição pública que controlava
portos, rios e canais do estado - embalando-os em papel celofane, e
apresentado-os sobre um balcão em laca vermelha. Eram peças
de metal envelhecidas pelo tempo, cobertas de ferrugem, cuja função
já se tinha perdido por completo desde que o lugar se transformara
em mais uma ruína urbana. Da maneira como foram mostrados, na
forma de atraentes pacotes, sua aparência real ficava ocultada
pelo efeito do invólucro, provocando ambigüidade no processo
perceptivo.
O interesse do artista pelo cruzamento entre
a linguagem verbal e a visual evidenciou-se quando reduziu ao máximo
o uso de signos lingüísticos sem que eles perdessem o sentido
original. Por exemplo, instalava no espaço, de forma ampliada
e repetida, apenas um tipo de elemento gráfico extraído
da linguagem escrita, como os parênteses das exposições
Conjunto Vazio e Plano de Passagem, de 1998. Os parênteses pontuavam
a arquitetura dos diferentes locais onde eram instalados e acentuavam
a existência de algo entre eles, mesmo que esse "algo"
fosse o vazio. Não deixavam de ser, portanto, elementos de representação,
desenhos reconhecíveis, marcados pela convenção,
e que indicam a existência de uma informação dentro
de outra.
Em todas as fases por que passou, o acento sobre
aparatos de intermediação do olhar (que permitem ver "através
de algo") é inegável. Do contrário, lentes
usadas em forma de lupas ou de "olhos mágicos" não
apareceriam com tanta insistência no processo criativo do artista.
Mas esses aparatos intermediadores existem também sob forma de
teoria: o ato de olhar conscientemente implica em assumir determinados
pontos de vista.
Mais recentemente, num processo que se opõe
ao de construção de linguagem verbal (que vai dos objetos
às idéias, e daí às palavras), o artista
passou a re-apresentar objetos, que, dispostos da forma como são,
agem como signos lingüísticos, tornando-se pura linguagem
visual. Na exposição O piloto e o martelo de borracha,
aqui apresentada, utiliza-se da associação arbitrária
de objetos industriais, produzidos para diferentes fins: árvores
em miniatura, lupas e martelos de borracha. Todos os objetos estão
fixados à parede branca. As arvorezinhas estão "plantadas"
no plano vertical. As lupas, fixadas com o auxílio de suportes
de metal, revelam a textura ampliada da própria parede. Presos
da mesma forma, os martelos de borracha, ferramentas com forte vocação
para o movimento repetido, ficam imobilizados. Lupas, martelos e árvores
em miniatura, dispostos contra a parede muito branca, transformam-se
facilmente em elementos gráficos, que podem ser "lidos"
como um texto visual.
Contudo, a utilização de elementos
reais (como as lupas e os martelos) e elementos artificiais (como as
árvores miniaturizadas) colocam num mesmo nível diferentes
categorias de objetos: aqueles que se apresentam em estado original,
e aqueles que representam algo que já existe. A noção
de apresentação do objeto artístico, que no território
da arte tradicionalmente se opõe à de representação,
é, portanto, aqui discutida e aparece entrelaçada. Ao
simplesmente apresentar os objetos que selecionou, o artista não
deixa de invocar o nível da representação, que
é o da constituição de linguagem. Este procedimento
de recuperação da carga simbólica dos objetos sem
que eles percam sua função como signos visuais, parece
capaz de desencadear transformações significativas em
seu processo de trabalho.
A operação poética de Hélio
Fervenza tem se caracterizado por uma visão de mundo que guarda
muito do encantamento primordial diante dos objetos, dos lugares e das
paisagens. Se esses elementos passam por um filtro purificador que os
desvincula de acentos culturais, isso se deve ao desejo de comunicar-se
através de um idioma que possa ser compreendido universalmente.
Sua estética silenciosa, pouco espetacular, nada apelativa, feita
de docilidade, sutileza e refinamento, revela o caráter austero
e reflexivo de um artista que vive e trabalha no sul do Brasil, cuja
produção insere-se perfeitamente bem no território
da arte contemporânea internacional.
Neiva Bohns
Porto Alegre, junho de 2002
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