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A ofuscante imagem pop de Glauco Menta
Cores luminosas, contrastes simultâneos, e o que vemos parece
surgir de um fundo infinito de recordações. Um imaginário
nostalgico do qual surgem carmens, tarsilas, eletrodomésticos
e móveis dos anos 50, figuras pornográficas, bolos de
dois andares decorados com muito chantily e coberturas multicoloridas,
todos multiplicados vezes e mais vezes e dispostos como em uma vitrine
para serem escolhidos e consumidos à vontade. É esta a
imagem criada pelas obras do artista Glauco Menta. Arte Pop?
O Pop surgiu entre fim dos anos 50 e início dos 60 na inglaterra
e nos Estados Unidos, impulsionado pelo crescente desenvolvimento da
economia após a segunda guerra mundial, cujo maior símbolo
pode ser encontrado no supermercado, com suas abarrotadas prateleiras
com inúmeras marcas de produtos industrializados prontos para
serem escolhidos e acumulados naqueles carrinhos de grades metálicas
que vão e vêm entre seus corredores. Do mesmo modo, astros
e estrelas da tv e do cinema misturam-se às personalidades políticas
presentes nas colunas sociais, em jornais e revistas, ou vendendo aqueles
artigos de supermercado em cartazes e out-doors. Os artistas Pop constroem
simulacros dessas imagens e recontextualizam seus significados, às
vezes parecendo enaltecê-los, mas simultâneamente esvaziando-os,
fazendo uma crítica fria e distante deste mundo de consumo.
Os artistas brasileiros dos anos 60 não realizaram um Pop típico
na época, deglutindo essas referências misturadas às
do Novo Realismo francês, com uma alta dose de engajamento à
situação sócio-política local. Poderia então
essa arte sobreviver no Brasil contemporâneo? Evidentemente três
décadas se passaram e o contexto se alterou em pontos significativos,
embora nossa civilização pareça cada vez mais consumista
e aberta aos produtos do mundo. A Pós-Modernidade também
traz possibilidades novas, como a de resgatar todos os movimentos artísticos
do passado, mas transformando-os em linguagens articuladas como códigos,
e aniquiliando seu sentido histórico. Por outro lado, parece que
as principais escolhas do repertório da arte contemporânea
no Brasil se dirige predominatemente para a arte conceitual, o pós-minimalismo,
a arte matérica e os muitos expressionismos e seus derivados.
Como ver então a produção de Glauco Menta, que
nos apresenta uma brilhante imagem Pop, com uma apurada técnica
serigráfica e um grande domínio da composição
e das tonalidades cromáticas que utiliza? O artista parece destoar
das preferências do circuito artístico atual, e uma visão
superficial poderia enquadrá-lo como uma mero imitador de Andy
Warhol que substitui Marilyn Monroe por Carmen Miranda. Mas enxergá-lo
assim é um erro, o que causa equívoco para a compreensão
de sua obra. Essa confusão leva parte do circuito a subentender
tal produção, na medida em que: 1) não se identifica
com ela; 2) nega a possibilidade de aplicá-la ao contexto atual;
3) confunde a linguagem com o movimento artístico.
Faz-se necessário uma outra via de acesso ao seu trabalho artístico,
a partir do momento em que se percebam suas múltiplas significações.
Glauco Menta "parece Pop". Porém essa identificação
à linguagem, espontânea para o artista, se processa por
outras vias. O mundo de Glauco Menta não é o mundo das
coisas, mas o mundo das imagens, das representações, dos
símbolos. Não queira entender "bolo" quando
Menta pinta um "bolo", pois o artista nos fala de coisas não
visíveis, mas intuídas, pressentidas através das
linhas e cores que produz. Dve-se prestar atenção a suas
inúmeras atividades, especialmente às ligadas ao mundo
teatral, aos personagens e imagens "empáticas", que
resgata da mídia, à posição de isolamento
que contantemente envolve tais personagens e ao clima recorrente de
desejo, sonho, fantasia, com que o artista recobre cada um deles.
A linguagem Pop de Menta comporta-se, portanto, mais como estratégia
que como utopia artística. Ao contrário da frieza "camp"
presente em Warhol, Hamilton, Caufield, Wesselman ou outros artistas
Pop "históricos", Glauco Menta constrói uma
aproximação "afetiva" a suas imagens que, longe
de as descontextualizar e retirar seu valor intrínseco, parece
redimir e resgatar sua dignidade, mesmo que sua multiplicação
serial possa levar a um processo consumista, afinal inevitável,
destes símbolos coletivos.
Por mais objetivas e auto-referentes que possam parecer, as serigrafias
de Glauco Menta devem ser vistas através de sua transcendência,
de seu valor simbólico, de sua humanidade, e não pelo
gosto fácila atraente de sua aparência. Como um retrato
inverso de Dorian Gray, através de sua bela face refletem as
crescentes mazelas de nossa sociedade impiedosa, falsa, preconceituosa,
desmemoriada, consumista e destruidora. Talvez por esse viés
se entenda melhor a polêmica e incompreensão da produção
de Glauco Menta, cuja luminosidade nos ofusca, nos seduz e, por fim,
nos faz compreender melhor a natureza do mundo em que vivemos.
Marco de Andrade
abril de 1999
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