Glaucis de Morais
Paisagem em fuga
2003/2005
Inclusões: o espaço público como espaço de experimentações.

A céu aberto

"Pelos campos, pelos desertos / Pelos bosques, pelos jardins ou pelas ruas,
Há muito tempo existem obras de arte / Instaladas a céu aberto.
Elas existem em seu lugar/ Em seu tempo; elas vivem fora.
Criações do homem, elas se medem / Na escala da paisagem,
Do cosmos ao mundo vivido. / Com modéstia ou coragem.
Elas vivem ainda através / De sua lembrança fotográfica;
Elas fazem imagem."

Christophe Domino

Caminhadas, desvios, parques, praças, feiras, tumulto de pessoas andando rapidamente no centro de suas cidades, cheiros, sons, movimentação, poeira, sensações térmicas. O que seria estar imerso no mundo, na cidade, na rua? Cada um de nós vive circunscrito em determinados espaços, espaços que se organizam em ruas, bairros, cidades. Como artista plástica parto de minhas vivências na paisagem urbana e especialmente nos trajetos cotidianos, para elaborar meus trabalhos artísticos. Investigo como as configurações dos espaços direcionam nossos deslocamentos e de que forma usufruímos desses espaços de trânsito e vivência comum.

A partir de meu trabalho Réservé realizado durante minha residência na Cité des Arts em Paris, 2003, eu pesquiso as relações entre espaços exteriores e interiores, questionando a idéia de habitar um lugar, de possuí-lo, de vivê-lo. As relações dos indivíduos com seu habitat podem ser estudadas sob diversos ângulos, o antropológico, o social, o político e o filosófico, o que pretendo é pensa-las num contexto da arte, e questionar como o artista pode se inserir nas inúmeras interações com o espaço ao redor.

Tais indagações são também constantes em pesquisas de vários artistas, como o brasileiro Hélio Oiticica, ou, por exemplo, Francis Allÿs, Gabriel Orozco e Sophie Calle. Segundo o autor Christophe Domino em À ciel ouvert: l'art contemporain à l'échelle du paysage (A céu aberto: a arte contemporânea na escala da paisagem), a partir dos anos 60 muitos artistas voltam-se para os espaços exteriores, enfocando a paisagem e a cidade, ou seja, o espaço e o tempo do mundo real como uma nova dimensão a ser trabalhada:

"Agir no espaço social: se o espaço público e a paisagem coletiva são ainda um terreno de conquista para o artista, não é em um plano de produção de formas ou objetos, mas muito mais naquele da intervenção, gestos dispersados no presente. Trata-se em suma da tentativa de ampliar o campo da arte para tornar visível momentos ou figuras do elo social" (Paris, Scala, p. 104)

Encontrei nas artes visuais um meio com o qual posso me inserir de maneira ativa no mundo, procurando refletir sobre as formas com que interagimos e usufruímos deste espaço que ocupamos. Com gestos sobre o terreno urbano proponho um olhar para o espaço, aquele que determina nossos deslocamentos e nossa identidade. Procuro, através de ações e deslocamentos sobre a cidade, retraçar o espaço, modificar sua função. Experimentar diferentes sentidos para um mesmo lugar é o objetivo de minha pesquisa.

Quando um lugar se torna nosso? Seria possível apropriar-se de um lugar de comum convívio? O que separa estas duas definições de espaço? De acordo com o autor francês Michel de Certeau a trama urbana configura-se como um lugar. Para este autor o lugar é fixo e estável, diz respeito ao desenho das cidades, ao seu urbanismo e planejamento, feito muitas vezes antes de considerar os trânsitos de seus futuros usuários. O espaço, segundo Certeau, é o cruzamento de móveis, não é fixo, mas variável. Neste sentido, existe "(...) espaço sempre que se tomam em conta vetores de direção, quantidades de velocidade e a variável tempo" (Certeau. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Rio de Janeiro, Ed. Vozes, 1994, p.202).

Assim, o desenho de nossa malha urbana é praticada pelos usuários, que o convertem em espaços de trânsito. Cito, como exemplo, o trabalho Réservé: uma ação desenvolvida no espaço público, consistindo na inserção de placas com a inscrição Réservé em parques e praças. Este trabalho foi executado inicialmente em Porto Alegre, Brasil e teve sua continuidade em Paris, França. Interessa-me aqui refletir sobre as estratégias de ocupação de espaços públicos, lugares sem dono nem acentuação pessoal. Tomo como ponto de partida parques e praças, estes lugares estratégicos dentro dos centros urbanos funcionam como pontos de confluência de pessoas ocupadas com atividades de lazer, esporte, descanso, encontros, de manifestações das mais variadas conotações. Local de feiras, de confraternizações, encontra-se cercado pela cidade. Recebe uma diversidade de freqüentadores, é também o espaço para aqueles que transitam sem paradeiro certo: os marginalizados, aqueles que encontram abrigo nos nichos, em meio às árvores, que dormem sobre os bancos ao sol, esquecidos por todos e em um quase auto-esquecimento. Com Reserve procuro convocar os transeuntes a refletir sobre os sentidos que a inscrição evoca e de que maneira ele usufrui de seu lugar de trânsito.

Eu estou desenvolvendo uma série de trabalhos que procuram apontar para a elaboração de um ponto de vista sobre o environment. A questão que vem permeando estes trabalhos reflete a minha relação com a paisagem. Como a paisagem pode ser capturada e transformada em imagem de arte? Em que medida a contemplação ainda é possível em uma época de velocidade e saturação de informações? Procuro incitar os espectadores a reduzir a velocidade de sua movimentação ou seu olhar frente às minhas proposições artísticas.

O tempo dessas experiências tem a marca de uma desaceleração. Uma tentativa de burlar o fluxo vertiginoso e veloz, no qual nos encontramos inseridos no nosso dia-a-dia, ao respondermos às demandas que a sociedade nos coloca: as velocidades do trânsito, dos meios de comunicação, das pessoas que correm pelas ruas com destino certo, que mal percebem umas às outras, das propagandas de 30 segundos ou menos, dos filmes de ação e seus takes rápidos, com efeitos pirotécnicos e pouco conteúdo.

A série de trabalhos iniciados em Paris chama-se Paisagem em fuga, são vídeos, objetos apropriados, em que procuro abordar as questões acima citadas, demarcando, através dos subtítulos, estes possíveis pontos desaceleração ou mesmo acentuando esta velocidade vertiginosa em que tudo pode estar por um piscar de olhos ou, ainda, apresentar uma imagem utópica, irreal, da vida no campo, deslocada dos centros urbanos.
São trabalhos que colocam em questão a nossa condição humana, na sociedade em que vivemos. Interrogam-nos sobre nossos valores e prioridades, sobre que posições adotamos no mundo.

Glaucis de Morais

Fonte: http://www.muvi.advant.com.br
Coordenação: Fábio Channe