| Inclusões:
o espaço público como espaço de experimentações.
A céu aberto
"Pelos campos, pelos
desertos / Pelos bosques, pelos jardins ou pelas ruas,
Há muito tempo existem obras de arte / Instaladas a céu
aberto.
Elas existem em seu lugar/ Em seu tempo; elas vivem fora.
Criações do homem, elas se medem / Na escala da
paisagem,
Do cosmos ao mundo vivido. / Com modéstia ou coragem.
Elas vivem ainda através / De sua lembrança fotográfica;
Elas fazem imagem."
Christophe Domino
Caminhadas, desvios, parques, praças,
feiras, tumulto de pessoas andando rapidamente no centro de suas
cidades, cheiros, sons, movimentação, poeira, sensações
térmicas. O que seria estar imerso no mundo, na cidade,
na rua? Cada um de nós vive circunscrito em determinados
espaços, espaços que se organizam em ruas, bairros,
cidades. Como artista plástica parto de minhas vivências
na paisagem urbana e especialmente nos trajetos cotidianos, para
elaborar meus trabalhos artísticos. Investigo como as configurações
dos espaços direcionam nossos deslocamentos e de que forma
usufruímos desses espaços de trânsito e vivência
comum.
A partir de meu trabalho Réservé realizado
durante minha residência na Cité des Arts em Paris,
2003, eu pesquiso as relações entre espaços
exteriores e interiores, questionando a idéia de habitar
um lugar, de possuí-lo, de vivê-lo. As relações
dos indivíduos com seu habitat podem ser estudadas sob
diversos ângulos, o antropológico, o social, o político
e o filosófico, o que pretendo é pensa-las num contexto
da arte, e questionar como o artista pode se inserir nas inúmeras
interações com o espaço ao redor.
Tais indagações são também constantes
em pesquisas de vários artistas, como o brasileiro Hélio
Oiticica, ou, por exemplo, Francis Allÿs, Gabriel Orozco
e Sophie Calle. Segundo o autor Christophe Domino em À
ciel ouvert: l'art contemporain à l'échelle du paysage
(A céu aberto: a arte contemporânea na escala da
paisagem), a partir dos anos 60 muitos artistas voltam-se para
os espaços exteriores, enfocando a paisagem e a cidade,
ou seja, o espaço e o tempo do mundo real como uma nova
dimensão a ser trabalhada:
"Agir no espaço social: se
o espaço público e a paisagem coletiva são
ainda um terreno de conquista para o artista, não é
em um plano de produção de formas ou objetos, mas
muito mais naquele da intervenção, gestos dispersados
no presente. Trata-se em suma da tentativa de ampliar o campo
da arte para tornar visível momentos ou figuras do elo
social" (Paris, Scala, p. 104)
Encontrei nas artes visuais um meio com
o qual posso me inserir de maneira ativa no mundo, procurando
refletir sobre as formas com que interagimos e usufruímos
deste espaço que ocupamos. Com gestos sobre o terreno urbano
proponho um olhar para o espaço, aquele que determina nossos
deslocamentos e nossa identidade. Procuro, através de ações
e deslocamentos sobre a cidade, retraçar o espaço,
modificar sua função. Experimentar diferentes sentidos
para um mesmo lugar é o objetivo de minha pesquisa.
Quando um lugar se torna nosso? Seria possível apropriar-se
de um lugar de comum convívio? O que separa estas duas
definições de espaço? De acordo com o autor
francês Michel de Certeau a trama urbana configura-se como
um lugar. Para este autor o lugar é fixo e estável,
diz respeito ao desenho das cidades, ao seu urbanismo e planejamento,
feito muitas vezes antes de considerar os trânsitos de seus
futuros usuários. O espaço, segundo Certeau, é
o cruzamento de móveis, não é fixo, mas variável.
Neste sentido, existe "(...) espaço sempre que se
tomam em conta vetores de direção, quantidades de
velocidade e a variável tempo" (Certeau. A invenção
do cotidiano: 1. Artes de fazer. Rio de Janeiro, Ed. Vozes, 1994,
p.202).
Assim, o desenho de nossa malha urbana
é praticada pelos usuários, que o convertem em espaços
de trânsito. Cito, como exemplo, o trabalho Réservé:
uma ação desenvolvida no espaço público,
consistindo na inserção de placas com a inscrição
Réservé em parques e praças. Este
trabalho foi executado inicialmente em Porto Alegre, Brasil e
teve sua continuidade em Paris, França. Interessa-me aqui
refletir sobre as estratégias de ocupação
de espaços públicos, lugares sem dono nem acentuação
pessoal. Tomo como ponto de partida parques e praças, estes
lugares estratégicos dentro dos centros urbanos funcionam
como pontos de confluência de pessoas ocupadas com atividades
de lazer, esporte, descanso, encontros, de manifestações
das mais variadas conotações. Local de feiras, de
confraternizações, encontra-se cercado pela cidade.
Recebe uma diversidade de freqüentadores, é também
o espaço para aqueles que transitam sem paradeiro certo:
os marginalizados, aqueles que encontram abrigo nos nichos, em
meio às árvores, que dormem sobre os bancos ao sol,
esquecidos por todos e em um quase auto-esquecimento. Com Reserve
procuro convocar os transeuntes a refletir sobre os sentidos que
a inscrição evoca e de que maneira ele usufrui de
seu lugar de trânsito.
Eu estou desenvolvendo uma série de trabalhos que procuram
apontar para a elaboração de um ponto de vista sobre
o environment. A questão que vem permeando estes trabalhos
reflete a minha relação com a paisagem. Como a paisagem
pode ser capturada e transformada em imagem de arte? Em que medida
a contemplação ainda é possível em
uma época de velocidade e saturação de informações?
Procuro incitar os espectadores a reduzir a velocidade de sua
movimentação ou seu olhar frente às minhas
proposições artísticas.
O tempo dessas experiências tem a marca de uma desaceleração.
Uma tentativa de burlar o fluxo vertiginoso e veloz, no qual nos
encontramos inseridos no nosso dia-a-dia, ao respondermos às
demandas que a sociedade nos coloca: as velocidades do trânsito,
dos meios de comunicação, das pessoas que correm
pelas ruas com destino certo, que mal percebem umas às
outras, das propagandas de 30 segundos ou menos, dos filmes de
ação e seus takes rápidos, com efeitos pirotécnicos
e pouco conteúdo.
A série de trabalhos iniciados em Paris chama-se Paisagem
em fuga, são vídeos, objetos apropriados, em que
procuro abordar as questões acima citadas, demarcando,
através dos subtítulos, estes possíveis pontos
desaceleração ou mesmo acentuando esta velocidade
vertiginosa em que tudo pode estar por um piscar de olhos ou,
ainda, apresentar uma imagem utópica, irreal, da vida no
campo, deslocada dos centros urbanos.
São trabalhos que colocam em questão a nossa condição
humana, na sociedade em que vivemos. Interrogam-nos sobre nossos
valores e prioridades, sobre que posições adotamos
no mundo.
Glaucis de Morais
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