SOBRE
A SÉRIE OS ULTIMOS DIAS DO MEU PAI - FOTOGRAFIA
Olho estas fotografias. Quase não escuto o barulho da sala ao redor.
A face do meu pai contrai de dor. Pouca coisa muda de uma fotografia a
outra. Numa foto meu pai recebe uma injeção, na seguinte,
ao lado, quase a mesma foto, meu pai recebe a mesma injeção...
aparece, do seu lado se dá uma espécie de idílio
juvenil entre jovens, uma espinha é quebrada no rosto de Túlio,
meu sobrinho, por minha irmã. Um cachorro, de nome Mailon, quase
despercebido na foto anterior sobe na cama. Meu pai logo estará
morto. Uma mão aparece no alto da porta, à direta e espera,
um vizinho.
Meu pai toma uma injeção aplicada por minha irmã
Isabel. Ela também espera, espera melhorar a saúde do meu
pai, mas espera ainda o pior: Meu pai logo vai morrer. O pior? Aprendemos
a chorar a morte, as vezes sem saber porque. Temo a morte dos meus filhos
( João e Pedro, de 6 e 11 anos), na flor da idade, a do meu pai
não. De repente, gostaria de perguntar a ele, se, neste estado
ele teme a morte, se a aceita e como? Explico, porque não temo
a morte de meu pai por que não a vejo mais como um inimigo, por
que ele já viveu 78 anos, por que ele está muito doente.
Não se pode querer viver num corpo tão doente, onde não
se sente mais o gosto da comida, o gosto do vento, o gosto da água.
Um corpo que não sente mais o barulho da casa ou o carinho das
pessoas, que não sente mais nem a revolta, nem o tempo.... Digo
isso, mas como será que ele sente todas estas coisas? 78 anos é
um bom tempo de vida nesta terra. Talvez tempo suficiente para se viver
a experiência humana da vida, que tempos outros virão, ou
existirão?
A nossa experiência humana só percebe o que se formata enquanto
experiência humana. Terá meu pai vivido bem estes 78 anos?
Sentiria ele vontade de ainda viver para fazer alguma coisa? Reparar algo
que julgue ter feito errado? Bem Jovem saiu ele do sertão da Bahia
e foi para o sul - sul da Bahia que ainda é sertão, por
que o sertão, para o sertanejo não termina nunca - viajou
quinze dias a cavalo, levando tropa e gado, para finalmente se estabelece
como proprietàrio e agricultor. De boiadeiro, vaqueiro, tropeiro
se fez fazendeiro, negociante e por fim, aposentado. Ainda jovem casou-se
com Abigail, bem mais jovem do que ele e uma das mais belas moças
do lugar. Gostava de contar que segurava um boi no laço, quando
jovem. E de fato lutou com bois e teve um braço e três costelas
quebradas e, também um perna rasgada por um marruaz valente. Fumava
cigarro de palha, ficou bêbado apenas uma vez, passou mal e jurou
nunca mais beber. Homem de opinião que eu vi chorar pela primeira
vez quando morreu seu burro estimado de nome dourado. Teve apenas seis
meses de escola, assim aprendeu a ler, a escrever e a fazer conta. Escreveu-me
poucas cartas, mas ainda guardo o desenho de sua caligrafia, rápida
e angulosa. Gostava de ler e recitar literatura de cordel - "As aventuras
de lampião no céu" , "A peleja do cego Aderaldo",
e "As Aventuras de Pedro Malazartes", entre outras. Vez ou outra
cantava: " boi tem força no cangote, cavalo no espinhaço
mulher na ponta da língua homem no punho e no braço."
Com minha mãe D. Biga, teve oito filhos, dois morreram cedo, um
jovem com dezenove anos, nós os outros vingamos e estamos por aí.
Ele se empenhou para que todos tivessem escola e, em parte, por isso,
se dispôs a viver na cidade. Nunca vi desajuste maior, morar na
cidade não era sua vocação e, no entanto ele ficou.
Aos poucos foi vendendo as terras que tinha e também o gado, tentando
sempre acertar os negócios.
O plano Collor foi o grande golpe e seu primeiro infarto. Lá se
foi sua última nesga de terra e as últimas cabeças
de gado. Ele que um dia fora convidado para ser o delegado da cidade de
Medeiros Neto-(BA), mas que recusou com a frase: " sei lidar com
gado, não com gente". Teve muitos amigos, desses que a gente
faz com vinte, trinta , quarenta anos. Mas lidar com a dor, lidar com
a morte, será que ele sabia? Lidar com animais, com a natureza,
ensina a lidar com o humano. Certamente ele soube muito eu é que
não sei, mesmo assim tornei-me professor de uma disciplina que
mais do que nunca me ensina isso: aprender o humano. Não vejo mais
a morte como aquela que vem tirar-me a vida mas como um ente que dela
participa, propiciando reflexões e sentido. Não tem sentido
viver no sem fim. O para sempre, infinitamente é igual à
não existência, ao não viver a experiência humana
das coisas e do ser.
Se compreendermos as coisas num constante crescendo e vir a ser , a morte,
ao invés de vilã é um dos grandes estágios
desta evolução. Esta foi a lição última
que meu pai em sua morte me deu e me propiciou viver. Noutra seqüência
de fotos ele está morto. Seu caixão coberto de flores amarelas
e vermelhas está no meio da sala. Devagar, com gestos quase calculados,
as pessoas vêem , olham e vão. Uma mulher de braços
cruzados espera na porta. Atrás dela um homem que também
espera. Quase ninguém fala, todos respiram um silencio de morte.
Meu pai morto está voltado para dois retratos na parede. Um è
dele próprio, o outro è da mãe dele, minha Vó
Floriana, quem eu não conheci. Ele falava muito dela. Na seqüência,
logo surge a figura da minha irmã Isabel, que outrora aplicava
a injeção, dobrada sobre o corpo de meu pai chorando. Ela
se debruça sobre ele morto, acaricia seu rosto e chora. Meu irmão
Lidio está em pé na contra luz, mudo. As pessoas esperam
e passam o tempo. No braço da minha irmã que chora, quase
imperceptível, quase uma sombra, um mosquito pousa. Ele me lembra
que todos os tecidos apodrecerão. Lembro do meu pai vivo e penso
- "meu pai você só morrerá quando eu morrer".
Fernando Augusto
Curitiba, 03 de junho de 2004 |
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