O
corpo como mapa de si mesmo o corpo como casa
Manoel Ricardo de Lima (1)
O que nos solicita de atenção para
esticar o olho aos mapas enquanto não estamos procurando nenhum
ponto fixo ou de passagem? Desde seus quandos, seus primeiros tempos,
os mapas, como desenhos da cartografia dos limes de uma terra, tomam
sugerir que as suas linhas de configuração, num sentido
o mais aproximado possível de uma representação
do real, do mundo objetivo, são talvez ou mesmo uma representação
dos sulcos e das vincas de nosso corpo. Um jeito para nos encontrarmos
ou, ao menos, para não nos perdermos. E tomando assim o nosso
corpo como escala, como meridiano, como substantiva condição
de nossa própria cartografia ética e política,
para imprimir outra sugestão que pode ser resumida a uma pergunta:
como estar no mundo?
E é desta pergunta que uma conversa com
a imagem e com a re-configuração dela entre os mapas e
o corpo, entre o corpo e os mapas - qual cartografia, qual organismo,
qual o sentido, qual o norte ou qual desnorte de nossas essencialidades,
de nossos prismas de rasgo e risco em existir -, que a artista visual
Eliana Borges parte para desenvolver os objetos de seu último
trabalho, a exposição CARTO+GRAFIAs. Numa relação
clara entre a dista e a entranha, os materiais utilizados agora neste
trabalho de Eliana confirmam, ampliam e problematizam os impasses aos
desfazimentos gagos e balbuciados da imago, também como discurso,
nas estruturas falidas das sociedades contemporâneas.
É possível assim pensar que partindo
desta pergunta aparentemente banal - como estar no mundo? - e tomando
a direção do simples gesto de rodopiar sobre si mesmo,
sem interrupções, que o nosso corpo se esturra em padecimentos
e se estabelece, numa justa, como um corpo-precário. E Eliana
Borges, neste trabalho, e em sua pesquisa e trabalhos anteriores, parece
nos perguntar como estamos lançados em nossas precariedades,
como quedamos a nossa luta mais tenra, a da vida nela mesma; ou ainda,
com mais rigor, parece nos perguntar qual a possibilidade de nos sairmos
e nos fugirmos de nossa exausta e complexa precariedade corpórea,
hoje. Ao mesmo tempo em que indica um como, mas não uma saída,
mas um como dissesse ser a arte, ou alguma arte, ainda, um princípio
para retomar (atando e desatando) os nós da imago como espaço
afetivo, e aí, sim, como lugar da nossa mais profunda, ou inócua,
que seja, possibilidade de imaginar.
Neste trabalho de Eliana Borges é possível
lembrar também, quase imediatamente, da encantadora arte da cartografia
(entre o nome e o desaparecimento dele, entre o espaço e sua
representação) que está sugerida por Lewis Carrol
em seus livros Alice no País das Maravilhas, Alice Através
do Espelho e Sylvie e Bruno. Nestes trabalhos Carrol desfaz todo e qualquer
sentido lógico acerca das leis do tempo e, principalmente, do
espaço nas demarcações do território. Primeiro,
no bosque onde as coisas não têm nome, nem precisam ter.
O genial e incerto esboço das coisas sem nome, logo sem lugar.
Depois, quando um professor alemão de geografia quer desenvolver
um mapa para uma ilha, um mapa que tenha como representação
o mesmo ponto a ponto do território mapeado. Um mapa auto-referencial.
Mas nisso os lavradores do local percebem as impossibilidades: este
mapa terminaria por impedir a entrada de luz sobre a terra e mataria
tudo o que é vivo. E assim, eles, lavradores, passam a usar a
própria terra como mapa de si mesma.
É esta a questão mais interessante
do trabalho de Eliana Borges: usar o corpo como mapa de si mesmo, um
corpo que tenta estar para não se morrer num antes. O corpo como
casa, como primeiro lugar das intimidades, como primeiro espaço
interno, como lugar. O corpo como a primeira cartografia de afetos:
a primeira idéia de nossas afecções, o corpo como
casa, a primeira das zonas de fronteira, o corpo como primeiro campo
problemático. E perder o prumo do onde é casa, onde é
corpo, onde é mapa: esta a postura plástica deste trabalho
que se desfia no nome, etimologicamente: CARTO+GRAFIAs. O uso de materiais
como agulhas usadas pela acupuntura - "na verdade, somos todos
agulhas", afirma Eliana -, por exemplo, em tamanho mesmo e tamanho
agigantado, fincadas por todo o espaço da exposição
sobre mapas de todos os lugares logo de lugar nenhum, perfuram a paisagem
do entre alhures e nenhures: a paisagem do futuro: a paisagem do incerto:
a paisagem do sem lugar: perfuram e raspam a paisagem das imagens que
não nos aderem, que não nos doem: nos fotogramas, nos
tecidos, nas linhas, nos mapas. Eliana quer propor interrogar esta imagem
que desaparece nela mesma, fazer doer onde desapareceu doer. E mais:
num cruzamento dos objetos dentro do espaço ocupado pela exposição,
interferindo, intervindo, dar a ver um como trazer equilíbrio
e estímulo ao sentido mais denso do trágico: o corpo como
mapa de si mesmo.
1 - Poeta. Professor de Literatura Portuguesa, UFSC. Autor de Embrulho
(7Letras), Falas Inacabadas - objetos e um poema, com a artista visual
Elida Tessler (Tomo Editorial), As Mãos (7Letras) e Entre Percurso
e Vanguarda (Annablume).
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