ESTRANHOS
"PENSAMENTOS ESTRANHOS"
ou a possível catalogação do que não pode
ser dito
O que chamamos de mistério do mundo, mistério da
vida, não é em si mais
estranho que a incapacidade dos olhos de ver as costas do dono.
A nuca é um mistério para o olho
Paul Valéry
Criando uma anatomia poética muito particular, Élder
Rocha mapeia as regiões de percepção do cérebro.
E é na nuca - esta que os olhos jamais tocam, a sempre suposta
e jamais decodificada - que localiza esta faculdade de saber do humano
que resiste à articulação pelo verbal...Ou seja,
é a nuca que acolhe o que atravessa o olhar deixando a cicatriz
do que não foi apreendido pela consciência.
Este anatomista é herdeiro de um outro, que um dia comprou
para si um manual, destes impressos em duas cores - preto e vermelho
-, onde vão se sucedendo as lâminas com os recortes do
corpo humano. Músculos, ossos, a corrente sangüínea...
A vida vista pelo avesso. E ele incorporou esse código de desnudamento
ao longo de sua obra. Uma incorporação formal, distanciada
da funcionalidade da representação científica
e inserida na sua narrativa criptográfica, onde todo sentido
está na superfície.
A outra herança está guardada em um belo estojo de veludo
azul que abriga, separa e expõe de maneira lógica o
seu conteúdo: um compasso com os seus mais de vinte complementos
a serem substituídos uns pelos outros, para as mais diferentes
funções. A mais absoluta precisão. O controle
quase absoluto do traço. Quase instrumentos cirúrgicos.
O arbítrio que se impõe ao gesto casual. Mas, ele desconhece
as funções dos instrumentos. Portanto, as reinventa
e incorpora à sua coleção de fontes de imagem.
Na parede do atelier, um glossário de figuras - recortadas
de revistas, achadas casualmente, reproduzidas da TV - vem sendo composto.
Uma catalogação das coisas do mundo. Mas seus verbetes
terão de ser constituídos por quem as olhar, já
incorporadas ao discurso do artista. Lá, nas telas, onde reaparecem
(fielmente reproduzidas) inseridas em sua criptografia. Articulando-se
em linguagem que não deixa constituir outros significados além
daquele de sua própria estrutura, as imagens se associam umas
às outras, orientam o olhar em determinado sentido, são
claramente identificadas. Mas não evocam. Ou melhor, ao serem
associadas neutralizam-se no que tem de evocativo.
E é esta familiaridade que as imagens isoladas evocam o que
provoca estranhamento no contato com seus quadros. Esta ambigüidade
do conhecido que não se deixa ler. Este deslocamento que não
permite reconhecimento mas que assombra por ser tão próximo.
Coloca-se como enigma à espera do contato decifrador... ou
inventor de nova lógica.
Nas séries em que trabalhou nestes últimos anos - ele
sempre trabalha séries, este é o seu método de
trabalho, sua ordenação do mundo -, parece já
estar apontada a questão (esta mesma questão que atravessa
sua obra) da constituição do discurso que se distancia
de sua gênese simbólica e se apresenta como forma esvaziada
de conteúdo à espera das possíveis versões
( E não é assim que se constitui a linguagem, se a pensamos
radicalmente?) .
Em 1997, o Aparelho Sugador-Excretor repete exaustivamente, em telas
e objetos, o mesmo sistema orgânico de seu repertório
anatômico-fantástico. Mas uma repetição
de um mesmo que "ao ser repetido, se inscreve como distinto",
que não se refere à reprodução já
que a repetição tem aí o estatuto de uma "intrusão
conceitual", de uma insistência significante. Os elementos
aqui se repetem para deliberadamente fazer aparecer o que não
se mostra.(1)
Em 1998, Solve et Coagula vai trazer elementos de difícil esvaziamento,
pois vêm da simbologia religiosa, são ícones como
o Sagrado Coração de Jesus, ou as chagas, a espada,
ou o Livro, depositário da verdade transcendental, para aqueles
que "sabem ler", ou o sangue... mãos, pés
e olhos, sempre os olhos ...martírio, purificação,
absolvição, santificação... dourado, vermelho,
azul, branco e preto . Mas... não é disto que trata
a série. Nem esta, nem qualquer outra de suas séries.
O tema nelas é proposto para em seguida ser desestabilizado,
dissecado, apagado. Torna-se suporte. À maneira da escrita
imagética alquímica (ou da cabala), as figuras (conhecidas)
que compõem a narrativa são embaralhadas. Exigem uma
abertura para "fazê-las falar". Criam a ausência
de significados estabelecidos a priori o que nos obriga a tratar a
obra não mais como objeto de leitura, mas como sujeito de uma
fala que pressentimos.
Com A Navalha de Occam, de 1999, cujo nome faz alusão a William
de Occam (1285-1349) - de quem ele toma a epígrafe da série
"Ninguém deve ampliar, além do necessário,
o número de entidades requeridas para explicar algo"-,
radicaliza a concisão de signos dentro de um discurso eloqüente.
Aqui, os objetos tomam o lugar da representação pictórica.
Instalação de poucos elementos que se repetem em diferentes
organizações: o banco/estante de madeira, com 1,2 m
de altura; o longo cabelo negro que nasce do banco; as velas votivas
brancas dentro dos copos de vidro, que são seus recipientes.
Em uma outra versão, há a fita vermelha que eventualmente
amarra os outros elementos ou se espalha por um fundo também
vermelho - uma corrente sangüínea inserida, talvez, nesses
objetos ambíguos que revelam a temporalidade (e a evanescência)
do orgânico, pois, tudo o que cresce, morre. Cada elemento carregado
de significados implícitos. Todos despossuídos, emudecidos,
ao interagirem uns com os outros. Nas obras dessa série (nomeadas
pelos seus números, adicionados a o nome da série :
Navalha de Occam 1, 2, 3... ) o que se altera é a localização
e a associação dos elementos: de onde crescem os cabelos;
em que lugar estão as velas; quantos bancos constituem a obra;
quando a fita virá dar seus laços. O que então
está sendo dito?
Se o sentido está na superfície, há sempre o
perigo de ser enganado pelos olhos. Esta é a questão
que a última série vem sintetizar. Herdeiro também
do "obstinado rigor" leonardiano (2) , Élder não
se deixa seduzir pelas facilidades dos materiais. Trata-se aqui de
pintura...e é da especificidade ( e do alargamento das possibilidades)
da pintura que o artista vai lançar mão...Rigorosamente.
Afinal, trata-se de método.
O cachorro desenhado com durex preta (é assim que se lê
a imagem) é construído pelo método da pintura:
delimita-se os contornos com fita adesiva e o interior (que constitui
as linhas do desenho) é pintado. Ao retirar a máscara,
está constituída a ilusão (a representação
de que trata a pintura).
A mancha de tinta, em outro quadro, cuja massa sugere uma gestualidade
insuspeita em seu trabalho, é também construída
milimetricamente, a forma definida anteriormente no papel vegetal
que é o primeiro estágio do quadro. É artifício!
E há o ideograma que não representa. Se pensarmos na
concepção dessa escrita como uma combinação
(uma cópula) de elementos representáveis por imagem
(substantivos concretos como olho, água, etc. ...) de forma
a podermos representar conceitos, ações, abstrações
(como o choro, por exemplo), este ideograma - inventado a partir de
uma estampa de quimono japonês- pode figurar uma síntese
desta escritura que ele propõe: linguagem sem código
pré estabelecido, forma que desafia o olhar do fruídor
a construir sentido.
O cristal que é cruz, o jacaré inflável que é
letra, o sapatinho budista que é lâmpada, o cabelo que
é pontuação e marca de objeto onde só
existe a representação bidimensional, o feixe de músculos
que se decompõe em puro grafismo. Élder propõe
a image trouvé como eco daquele objet trouvé dos surrealistas.
Mas o que parece se operar aqui é algo que ele herda do readymade
duchampiano: a ação deliberada, calculada, de desafio
às fronteiras entre reconhecimento e vertigem alucinatória.
E, do pop, herda a apropriação do imediatamente legível
num contexto de resistência à legibilidade.(3)
E há regras rigorosamente seguidas: não há relação
hierárquica entre as imagens, no que diz respeito à
escolha e à associação (um detalhe reproduzido
tem a mesma importância do todo, um olho de um desses quadrinhos
japoneses, o mesmo estatuto de um Mercúrio retirado de uma
antiga carta celeste); não há tratamento pictórico
do fundo, ou seja, o suporte se deixa ver; a pintura é feita
em três camadas; as imagens matrizes são classificadas
em três tipos. Pode-se pensar assim: quando não há
mais nenhuma possibilidade de estabelecimento de narrativa pelo tema,
resta-nos a cartografia estabelecida pelo método. Como um raio
X da linguagem, onde o que resta para se ver é estrutura. É
ela que propõe o percurso do olhar. É ela que se abre
para tantas narrativas, tantas...
Élder diz que pinta pensamentos. Seu sobrinho, ao receber esta
resposta à sua pergunta sobre o que seu tio pintava, declarou:
" pensamentos estranhos !". Esta parece ser toda a extensão
de sua aventura. Confrontar-se com isso que, por ser já sabido
por algo em si, apresenta-se como totalmente outro. Não há
transcendência, significados ocultos. Há sim, a arbitrariedade
da linguagem... E um falante que sabe não ser senhor da sua
fala.
Talvez como aquele personagem de Guimarães Rosa, no conto O
Espelho que, depois de muitos anos a refletir sobre a sua imagem
refletida ( "A alma do espelho - anote-a - esta metáfora"
), relata:
E...Sim, vi a mim mesmo, de novo meu rosto, um rosto; não este
que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto - quase
delineado, apenas - mal emergindo qual uma flor pelágica, de
nascimento abissal... Só.(4)
Não se trata, pois, de recuperar um
olhar virgem, de ingenuamente acreditar no impossível. Trata-se
de, a partir de um modelo de estrutura, desafiar o olhar com o que
não tem lugar...embora sempre tenha estado aí. De des(re)conhecer
o já conhecido. Talvez.... abrigado em nossa nuca.
Marília Panitz Silveira
Novembro de 2000
1 Idéias desenvolvidas por
Jacques Lacan, a respeito da compulsão à repetição,
à qual todo humano está sujeito. In, Kaufmann, Pierre,
"Dicionário Enciclopédico da Psicanálise
- Legado de Freud e Lacan", Jorge Zahar Editor, 1998, pp. 448-453
2 Hostinato Rigore, Divisa de Leonardo, citada por Paul Valéry
em sua "Introdução ao Método de Leonardo
da Vinci", Ed. 34, 1998, p. 13
3 Idéias apontadas pelo artista e desenvolvidas em conversa
com a autora do texto.
4 Guimarães Rosa, João, "O Espelho", In, "Primeiras
Estórias", Ed. Nova Fronteira, 1988, 42ª edição,
pp. 67 e 72 .