O herdeiro e o método
de organização do mundo
Ninguém deve ampliar, além
do necessário, o número de entidades requeridas para
explicar algo (1)
Qualquer ciência [...] é
ciência só de proposições, e de proposições
conhecidas, porquanto só as proposições são
conhecidas. Todos os termos dessas proposições são
apenas conceitos, e não substâncias externas. (2)
Todas as coisas devem ser feitas tão
simples quanto possível, mas não mais simples. (3)
Organizado em um canto do atelier, um glossário de figuras
vai se compondo e se modificando ao longo do tempo. Uma catalogação
das coisas do mundo. Um álbum de tudo. Mas esse é um
glossário sem verbetes, pois estes somente poderão inscrever-se
em outro lugar: entre a tela onde as imagens aparecem - já
incorporadas ao discurso do artista - e o olhar do fruidor. Lá,
elas reaparecem inseridas em uma criptografia. Já destituídas
da familiaridade da qual dispunham em seu contexto de origem são
matéria que todavia requisita sentido, a ser construído
por decifração. Elas são recolhidas de revistas
e da iconografia religiosa, achadas casualmente, reproduzidas da TV,
podem ser partes de croquis ou de obras de outros artistas, ou de
ilustrações científicas. Trata-se aqui de localização,
de relações que a proximidade entre os elementos instaura.
Trata-se de sintaxe. Inseridas na tela, as figuras portam a ambigüidade
do conhecido que não se deixa ler. Colocam-se como enigma à
espera do contato decifrador... ou inventor de nova lógica.
Este colecionador de imagens-palavras é um herdeiro.
Do pai, herda o ofício de anatomista diletante - o livro repleto
de lâminas onde os músculos, os ossos, os órgãos
e a corrente sangüínea se revelam em traços pretos
e vermelhos. Da mãe, o ofício de geômetra amador,
inventando uma nova medição do mundo. Um estojo de veludo
azul contém o instrumento medidor: um compasso com uma enorme
quantidade de acessórios. Um compasso que, assim organizado,
lembra instrumentos cirúrgicos. O corpo pelo avesso e o mundo
esquadrinhado.
Élder Rocha tem seu método de organização
do mundo: de um lado, o rigor da pintura e de outro, o distanciamento
da gênese simbólica de suas fontes, seu reinvestimento
como receptáculos, matéria pronta a acolher versões.
Se o sentido está na superfície, há sempre o
perigo de ser enganado pelos olhos. Herdeiro também do "obstinado
rigor" leonardiano (4), não se deixa
seduzir pelas facilidades dos materiais. Trata-se aqui de pintura.
E é da especificidade (e do alargamento das possibilidades)
da técnica que o artista lança mão... mesmo quando
produz objetos/instalações.
Na série "O Aparelho Sugador-Excretor", ele repete
exaustivamente, em telas e objetos, o mesmo sistema orgânico
de seu repertório anatômico-fantástico. Uma repetição
de um mesmo que "ao ser repetido, se inscreve como distinto",
não se refere à reprodução já que
a repetição tem aí o estatuto de uma "intrusão
conceitual", de uma insistência significante. Os elementos
aqui se repetem para deliberadamente fazer aparecer o que não
se mostra. (5)
Elementos de difícil esvaziamento, tomados da simbologia religiosa
vão constituir o desafio ao método, em "Solve et
Coagula", série repleta de ícones cristãos
- o Sagrado Coração de Jesus; as chagas; a espada; o
Livro, depositário da verdade transcendental, para aqueles
que "sabem ler"; o sangue... mãos, pés e olhos,
sempre os olhos... martírio, purificação,
absolvição, santificação; vermelho, azul,
branco e preto. E o dourado, ouro...folha de ouro(que ele leva para
a série seguinte), a cor/emblema carregada das ambigüidades
das suas possíveis significações(às quais
ele agrega outras): Jerusalém era a cidade dourada (a noiva
de Deus) pela natureza pia de seu povo. Babilônia (a prostituta)
era a cidade dourada pela riqueza. As igrejas foram revestidas de
folhas de ouro para exaltar a glória de Deus... Nada mais distante
da idéia da pobreza evangélica como única forma
de enaltecimento da palavra divina. Etimologicamente essa instabilidade
do símbolo se revela: dourar é dar brilho, realçar,
enaltecer...tornar ditoso, alegrar...encobrir, disfarçar.
Mas... não é disso que trata a série. Nem essa,
nem qualquer outra. O tema nelas é proposto para em seguida
ser desestabilizado, dissecado, apagado. Torna-se suporte.
Para "A Navalha de Occam", Élder transporta a alusão
à religiosidade. Mas, ao experimentar uma redução
radical do repertório de signos, desmantela a possibilidade
de sustentação de uma versão religiosa. Aqui,
os objetos tomam o lugar da representação pictórica.
Aqui a ausência do corpo provoca uma leitura (paradoxalmente)
claramente erótica. É uma instalação de
poucos elementos que se repetem em diferentes organizações:
seis bancos/estantes de madeira; o longo cabelo negro que nasce dos
bancos - intrusão da temporalidade na solidez da madeira (pois
o que cresce, morre). Em versões diferentes, aparecem:
as velas votivas brancas dentro dos copos de vidro, as fitas/veias
vermelhas, o assoalho chama/chão de tacos de madeira, a tela
dourada. Cada elemento carregado de significados implícitos.
Todos despossuídos ao interagirem uns com os outros. Relações
improváveis estabelecem-se entre eles... compõem-se
por pares: dois que podem ser um... Mas há um terceiro elemento
sempre presente, três que são três isolados...
impedimento da fusão de dois (da cópula). "A Navalha
de Occam" oferece seu silêncio, suas partes que neutralizam
uma a fala das outras. Estruturas que devolvem ao fruidor a tarefa
de compor um (im)possível discurso.
"Des(Re)conhecer", a série mais recente, apropria-se
da diversidade das figuras do glossário. Incorpora largamente
as heranças do artista. Nesses trabalhos, o recorrente
é a estrutura, ela é que define a série, não
um tema identificável. O próprio nome aponta para isso:
fruir é exercitar leitura.
Nas telas retangulares da série, o cachorro desenhado com durex
preta é construído pelo método da pintura: por
máscara. Ao retirá-la, está constituída
a ilusão (a representação de que trata a pintura).
A mancha de tinta, em outro quadro, cuja massa sugere uma gestualidade
insuspeita em seu trabalho, é também construída
milimetricamente, a forma definida anteriormente no papel vegetal.
É artifício! E há o ideograma que não
representa. O cristal que é cruz, o jacaré inflável
que é letra, o sapatinho budista que é lâmpada,
o cabelo que é pontuação e marca de objeto onde
só existe a representação bidimensional, o feixe
de músculos que se decompõe em puro grafismo. Élder
propõe a image trouvé como eco daquele
objet trouvé dos surrealistas. E há regras rigorosamente
seguidas: não há relação hierárquica
entre as imagens; não há tratamento pictórico
do fundo, ou seja, o suporte se deixa ver; a pintura é feita
em três camadas; as imagens matrizes são classificadas
em tipos. Pode-se pensar assim: quando não há mais nenhuma
possibilidade de estabelecimento de narrativa pelo tema, resta-nos
a cartografia estabelecida pelo método. Como um raio X da linguagem,
onde o que resta para se ver é estrutura. É ela que
propõe o percurso do olhar. É ela que se abre para tantas
narrativas, tantas...
Essas telas são expostas seguindo uma maquete, feita previamente,
em que as paredes da galeria recebem pintura e relevos, unindo os
trabalhos e transformando-os em partes de uma instalação.
Élder experimenta esta "invasão" do ambiente,
este deslocamento do espaço estritamente bidimensional, há
algum tempo. Se, em "Solve et Coagula", a inclusão
de um suporte diferente (o livro) - colocado frente a uma parede de
folha de ouro - e o intenso azul que dominava a galeria, criavam um
contexto provocador do trânsito entre evocação
e resistência a ela, nas diferentes versões de "A
Navalha de Occam", o artista conserva a tela somente como uma
citação entre os objetos que compõem a obra.
Convidando a uma leitura do conjunto, esta organização
parece, paradoxalmente, reforçar o estatuto de suas partes
constitutivas: o de serem pinturas.
Des(re)conhecer agora se desdobra em telas redondas (que ocupam os
espaços como pontuação de um texto que
se espalha) e em imagens que extravasam a tela e tomam a parede. Reproduzidas
em enormes dimensões, quase se desfazem em estampa, se abordadas
de perto. E elas se localizam em nichos que impedem uma visão
total de sua configuração. É preciso distância,
memória visual e imaginação para recompô-las
com o olhar (pois elas estão lá, nesse espaço
entre o olho e a pintura).
Sobre esse suporte/imagem, aparecem os assoalhos (herdeiros daquela
chama/chão) propondo-nos uma leitura paradoxal: partes do piso,
localizadas sobre a parede (e sobre o chão), que representam
as constelações (deslizadas do céu, talvez).
Seus pontos/estrelas, balizadores do contorno que dá forma
ao assoalho, são furos (o que faz lembrar da fantasia infantil
da gênese das estrelas: o céu noturno como enorme colcha
azul, cheia de furos, dos quais escapa a luz). Ou, em uma leitura
às avessas, sugerida em uma correspondência do artista,
essas figuras míticas, adivinhadas desde sempre no céu,
configuram-se no suporte/chão quando este é baleado
e mostra o que há por baixo dele.
Como ecos das novas telas, inúmeras bolhas de acrílico
se espalham pelo espaço. Em sua profusão, elas ousam
citar uma estética que remete aos anos sessenta, e nos deixam
com a incômoda impressão de nos avizinharmos do kitsch
(lição herdada da estética pop). Mas, somente
num primeiro olhar - porque, a partir daí, elas jogam o jogo
sintático da pontuação e o jogo visual
da anamorfose. Orientação que desorienta. O número
certo de elementos requeridos por sua proposição: a
de estranhamento do aparentemente decodificado, a de re(des)conhecimento
de seus nomes.
É o que se opera também nas paredes da nova instalação
(oferecidas pelo artista como suporte para as outras vozes), quando
avançam pelo chão e às vezes também são
invadidas por ele. Essa ausência de limites definidos, essa
narrativa polifônica - suas anotações das coisas
do mundo - nos revelam os lugares da pintura: no cérebro e
no olho do artista, no olho e no cérebro do fruidor. Eis uma
possível organização das coisas do mundo.
Marília Panitz
fevereiro/outubro de 2001
1 - Aforismo de Guilherme de
Occam (1285-1349), franciscano inglês, pertencente ao último
período do pensamento escolástico, herdeiro de Agostinho
e de Abelardo, citado por Élder Rocha, em seu projeto para
"A Navalha de Occam". Este princípio é conhecido
como "a navalha de Occam" ou "lei da economia"
ou "lei da parcimônia", usada ao longo do séculos
- de Lutero a Galileu, de Newton a Einstein.
2 - Guilherme de Occam, citado por Nicolas Abagnano em seu "Dicionário
de Filosofia", Ed. Martins Fontes, 1999, p.
3 - Albert Einstein, depois de Guilherme de Occam, citado no site
da Enciclopédia Britânica.
4 - Hostinato Rigore, divisa de Leonardo, citada por Paul Valéry
em sua "Introdução ao Método de Leonardo
da Vinci", Ed. 34, 1998, p. 13
5 - Idéias desenvolvidas por Jacques Lacan, a respeito da compulsão
à repetição, à qual todo humano está
sujeito. In, Kaufmann, Pierre, "Dicionário Enciclopédico
da Psicanálise - Legado de Freud e Lacan", Jorge Zahar
Editor, São Paulo, 1998, pp. 448-453