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Gostaria que você começasse falando sobre a sua formação
e o início de sua carreira, as primeiras exposições
e os caminhos que de lá surgiram.
Não tenho formação acadêmica
em Artes Plásticas. Meu desenvolvimento se deu através
de interesses pontuais, que me levaram a buscar uma formação
através de cursos sobre linguagens artísticas específicas,
como desenho, fotografia ou escultura, por exemplo. Com o passar do
tempo senti a necessidade de aprofundar meu envolvimento, e comecei
a participar de um atelier coletivo em minha cidade, São José
dos Campos. Em seguida iniciei um estudo em Filosofia da Arte, quando
passei a freqüentar o atelier do artista plástico Rubens
Espírito Santo e a participar de outros grupos de discussão
em São Paulo. As primeiras exposições foram organizadas
através do meu atelier coletivo, e posteriormente os Salões
para os quais fui classificado. Fui premiado em alguns Salões
importantes, como o Salão da Bahia, o Salão de Arte de
Goiás, a Bienal de Santos e o Salão de Santo André,
o que abriu caminho para uma exposição individual, na
Galeria Berenice Arvani em São Paulo, em 2004, Este ano participei
da Arco 05, em Madri, e do Programa de Exposições 2005,
do Centro Cultural São Paulo.
2. Como foi que você começou
a trabalhar com objetos cotidianos?
A escolha do material tem seu aspecto inconsciente,
mas obedece a critérios de conveniência e de possibilidades
reais. Desde o princípio senti a necessidade do manuseio, do
envolvimento físico com a obra, de exercitar uma habilidade mecânica
que não estava sendo adequadamente exigida. O trabalho tridimensional
respondia melhor a essa necessidade. Foi uma escolha que, como conseqüência,
me desviou de outras técnicas que exigem um maior apuro e uma
sintonia mais fina, como a pintura, a gravura, ou o desenho, por exemplo.
Desse ponto até chegar ao uso do material cotidiano, foi um passo
muito rápido, e aconteceu até por uma impossibilidade
de utilizar materiais mais nobres e conseqüentemente mais caros.
O atelier me oferecia o seu mobiliário e me possibilitava uma
ação mais rápida. O próprio caráter
ilustrativo das minhas obras exige objetos que já carreguem uma
simbologia. Além disso, sofro de um imediatismo irremediável,
que sempre me fez lançar mão de qualquer objeto que estivesse
ao alcance, e que fosse capaz de dar conta de uma questão urgente.
No início parecia algo a ser corrigido, mas aos poucos foi se
tornando um modo de trabalho, com amparo material e conceitual. Minhas
últimas obras envolvem a coleta ou a fabricação
de objetos mais específicos, o que me distancia um pouco do processo
que citei, mas mesmo agora, qualquer obra que permaneça no atelier
por muito tempo, corre o risco de ser desfeita, refeita, ou incorporada
a outra obra.
3. Boa parte dos teus trabalhos de escultura
trata da questão do equilíbrio ou da falta dele. Tratam
também de equilíbrios provisórios, que podem ser
mudados. Qual a tua relação com o equilíbrio?
Acho que o equilíbrio, em todas as suas leituras possíveis,
é a grande busca, além de ser o que se espera de cada
indivíduo, de cada situação, de cada objeto. Em
termos plásticos, me interessa a tensão gerada quando
esse equilíbrio se mostra precário, quando há um
risco iminente para a estabilidade. Minhas obras são divididas
em séries, e uma delas se chama "Mecanismos de reequilíbrio".
Nas obras que a compõe, busco o momento anterior à quebra
da estabilidade, apresentando modos de restabelecê-la.
4. Para mim as tuas esculturas remetem a estados provisórios
das pessoas, uma vontade constante de procurar um equilíbrio
mesmo que seja com apoio. Como se dão para ti essas situações?
Você tem interesse em falar dessas situações humanas?
Durante alguns anos, trabalhei como ilustrador em jornais. O processo
da ilustração é simples: deve-se criar uma imagem
gráfica, geralmente figurativa, que de alguma maneira pontue
ou defina um texto de opinião. O texto é o dado concreto,
imutável, e o desenho que se cria a partir dele é apenas
uma das possíveis tentativas de decodificação daquele
texto. Acho que o grande fascínio da Arte está na inversão
desse processo:.a imagem da obra, sua composição, é
o dado concreto e cada uma das infinitas leituras a que ela dá
margem é apenas uma entre as inúmeras possíveis.
A obra é a ilustração de um texto não escrito,
a tentativa de decodificar plasticamente uma sensação
não totalmente dominada. Nesse sentido entendo que o fato gerador
(a sensação não dominada) e o objeto gerado (a
obra) são elementos complementares. Um é o apoio do outro.
Na maior parte das minhas obras, até por conta do uso de objetos
reconhecíveis, cotidianos, já impregnados de significados,
esse processo facilita uma leitura baseada nas situações
humanas que você descreve. Para mim, esses objetos gerados permanecem
como sensações não dominadas, como motivo de inquietação.
5. Como as esculturas foram caminhando para
os trabalhos com movimento interno, como no caso do trem andando dentro
dos móveis?
Entendo o movimento coordenado como sendo o momento imediatamente posterior
ao equilíbrio. É a partir da conquista do equilíbrio
que se pode tentar o movimento, então vejo que esse era um caminho
natural para a minha obra. Gosto da atração que o movimento
exerce, da expectativa que ele cria (a expectativa da volta do trenzinho,
por exemplo). O movimento dentro da obra atrai a visão com mais
força, indica qual o caminho do olhar, prende a atenção
para um desfecho. São como estórias curtíssimas,
pequenas peças, que ao mesmo tempo em que limitam a leitura da
obra, permitem que o seu enredo aceite o encaixe de experiências
pessoais. O movimento cíclico estabelece um tempo mínimo
para que o olhar se dedique à obra (um ciclo, pelo menos). Além
disso, o movimento cria um segundo momento, que vem imediatamente após
a contemplação: a reflexão sobre sua mecânica.
É preciso desvendar como ela funciona. Isso leva apenas alguns
segundos, e nesse pequeno lapso de tempo a visão poética
cede espaço à curiosidade e à desmistificação
da poética. Minha pretensão é que exista um terceiro
momento, aquele em que, apesar de revelado o mistério, apesar
do conhecimento da estrutura de funcionamento, seja possível
a permanência do momento poético.
6. Nos teus trabalhos, apesar de você
usar móveis e objetos antigos, sempre há uma beleza aparente
neles, seja pelas cores, pelas composições, pela escolha
dos objetos. Como você trabalha com a beleza estética?
Qual é a importância que ela tem no seu trabalho?
Eu não tenho o domínio da cor, então me restam
os elementos sólidos e a composição, para tentar
dar à obra o caráter estético que ela necessita.
Apesar disso, algumas obras tem a cor como elemento importante, embora
eu não as trate como pintura. Na série de fusões
dos móveis de metal e de madeira, por exemplo, a cor, apesar
de fundamental, tem a função somente de estabelecer o
contraste entre as partes do trabalho, de definir melhor os volumes
para evidenciar sua junção.
Ultimamente, meu processo de criação tem se iniciado com
um impulso único e completo, com uma idéia que já
contém todos os elementos futuros da obra. A sua viabilização,
entretanto, envolve um longo caminho, e vai depender da localização
de objetos já existentes, e que já portem uma característica
plástica. Basicamente trabalho com cores industriais. Posso encontrar
um móvel colorido ou de cor natural, de metal ou de madeira,
com vidro ou sem vidro, ventiladores azuis ou brancos, etc. As diversas
possibilidades vão se fechando instintivamente quando eu seleciono
este ou aquele. A beleza estética que você cita, e que
eu obviamente busco, depende da minha capacidade de aproximar aquela
imagem ideal da obra concreta.
7. Quais são os teus próximos
projetos?
Desde o início venho ampliando a escala
dos meus trabalhos. Meu projeto maior é viabilizar a continuidade
dessa ampliação.
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