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DIDONET THOMAZ (1)
ESPÓLIO DE SARA STENZEL - TEATRO MONÓTONO
memórias provisórias
Muitas vezes me acontece guardar um
objeto mesmo sem saber o que fazer com ele. Nem sempre entendo o impulso
que me leva a selecioná-lo, dentre uma infinidade de outros,
e conservá-lo ao meu alcance, mas sinto uma vaga certeza de vir
a precisar dele mais adiante. O que cria essa necessidade? É
provável que ao elegê-lo empreste a esse objeto o poder
de ativar em minha mente algo capaz de me fazer ver o que não
estou vendo, fazer outra vez o que não estou fazendo, pensar
e sentir outra vez o que foi sentido e pensado antes do momento presente
e em situação diversa da que me encontro agora. Essa "vivência"
é diferente da original e possibilita estender o olhar desde
outro ponto. Tal deslocamento ao passado proporciona um momento presente
genuíno, tão novinho e real como o que estou vivendo agora,
para fazer dele o que quiser.
O fenômeno memória, de importância fundamental para
o ser humano, é tomado como elemento principal na obra de DIDONET
THOMAZ. É transformado em instrumento ativo numa espécie
de jogo de conexões múltiplas. A obra de DIDONET estende
uma rede de possibilidades de relacionar memórias provenientes
de universos distintos, como as produzidas pelos objetos do Espólio
de Sara Stenzel,2 as colecionadas pela própria artista, as inevitávelmente
evocadas pela Sala Indice do Museu da Gravura Cidade de Curitiba --
onde acontece a exposição, situado no prédio histórico
Solar do Barão -- e as que vão sendo elaboradas pelo público
fruidor.
A estrutura dessa mostra equilibra-se entre um passado onipresente e
um presente contínuo, movediço e cambiante, flagrantemente
condicionado às flutuações de interpretações
pessoais. No entanto, o formato caixa/vitrine e o título da série
de obras Livro Informal Espetáculo, para a ocasião, segundo
a artista, sugerem um método quase científico de exibição.
Nela se encontram reunidos objetos pinçados do universo pessoal
da artista e desenhos anteriores, exibidos junto a mata-borrões
usados pela família Stenzel. Ao mesmo tempo, a disposição
dos elementos e o caráter provisório dessa "mostragem"
aponta para o universo em que esse objeto "científico"
transita: o da arte. Os títulos indicam o descompromisso da informalidade
e a finitude do espetáculo -- essas caixas já foram e
podem voltar a ser montadas em outras propostas, sem qualquer vínculo
com os Livros desta exposição. Alinhados na horizontal
e suspensos junto à parede direita da sala os Livros compõem-se
de uma caixa de madeira e vidro, parcialmente envolta por uma peça
de couro vestuário vermelho escuro. A associação
dos elementos contidos em cada Livro foi regida por uma ação
dominante -- fechar para o Livro Informal Espetáculo I, superpor
para o II, encostar para o III, suspender para o IV, amassar para o
V e empilhar para o VI. Uma etiqueta do mesmo couro, em formato semelhante
ao das malas de viagem,contem a legenda correspondente e acompanha cada
Livro.
No lado oposto da sala está uma mesa/armário de madeira
com tampo de vidro -- prateleiras vazias para acomodar os Livros ao
final da exposição -- e uma pele de coelho fixada à
parte interna da porta, sem esquecer a etiqueta.
Sobre a mesa, uma pequena e antiga vitrine de madeira (propriedade da
artista) mostra em seu interior dois chapéus femininos feitos
por Sara, um branco (do acervo de Gerda Wilhelm) e um preto (de Lydia
Stenzel), apoiados nos pratos de uma balança diminuta. Deitadas
na transparência do vidro, duas caixas/vitrine iguais às
dos Livros aninham em seu interior -- revestido pelo mesmo couro vermelho
escuro -- dois livros abertos, cujas páginas expõem gravuras
em preto e branco. O livro DIE NÄCHTE (As Noites), (2) de Alfred
de Musset, mostra, em águas-fortes originais, antigas imagens
noturnas das estações do ano -- uma alusão da artista
à ciclicidade do tempo. Na outra, o livro DER TOTENTANZ (A Dança
Macabra, As Imagens da Morte e O Alfabeto da Morte)(3) é composto
por provas das xilografias desenhadas por Hans Holbein e remetem à
morte.
Princípios básicos de gravura envolvem noções
de incisão, matriz, marca, impressão, inversão,
múltiplo, além de cheio e vazio, luz e escuridão
e uma infinidade de opostos -- o resultado final do procedimento pode
ser um corpo (o papel) que se apresenta marcado (impresso) pelo contato
com outro (a matriz), de natureza diversa (madeira, metal, pedra ou
qualquer material), do qual guarda uma espécie de memória
( o que estava gravado na matriz e foi impresso com tinta ou relevo).
São noções encontráveis em muitas situações
da vida passíveis de interpretação de acordo com
o contexto. DIDONET estende ao público essa matriz de interpretação
ao longo da exposição. Todos os elementos que compõem
essa mesa apontam nessa direção e para o passado. Foi
a própria Sara quem confeccionou os chapéus e também
as incisões exatas que preservaram a pele de coelho -- atividade
que repetia regularmente com o intuito de comercializar as peles e a
carne dos animais que criava especialmente com essa intenção.
Não há dúvida de que as incisões necessárias
para gravar as matrizes que deram origem às gravuras dos livros
antigos são de natureza diversa, embora tenham conduzido a noções
de cheio e vazio ao produzir marcas no corpo do animal e no do material
da matriz. O que as liga é o caráter definitivo dessas
ações -- uma clara alusão ao passado.
Esse caráter definitivo, no entanto, traz em seu bojo uma interrogação
incômoda -- se já aconteceu, como saber o que foi? -- indicando
permeabilidade a interpretações e tornando essa noção
de passado, outra vez incerta, movediça, sujeita a mutações.
Se a memória é interpretativa e oferece novíssimos
e sempre frescos momentos reais, o passado, como algo de oculto, encontra-se
no presente. Em alguns dos Livros há elementos que não
estão visíveis; a decisão da artista de manter
esses conjuntos de memórias pessoais junto a memórias
alheias, pensadas como obras apenas pelo tempo que durar a exposição,
estabelece a possibilidade de produzir novos presentes usando como matéria
prima fragmentos de numerosos passados. Fica evidente que a artista
reconhece diferenças entre os tipos de memórias e multiplica
as características de cada tempo -- trabalha oferecendo ao público,
além da parte fixa da exposição, um ritual cíclico
que se renova a cada semana, abrangendo todo o tempo da mostra, invariavelmente,
quintas-feiras, às dezessete horas, DIDONET abre as caixas e
vira uma página de cada livro de gravura. A artista estabelece
então, mais uma possibilidade do tempo: o que se pode controlar
e dominar, exibir e ocultar, por meio de pensamento e ação.
DIDONET THOMAZ preparou para o público uma trama riquíssima
de elementos ligados ao tempo, armados como peças de um jogo
que vai acontecendo à medida que se decifram suas peças,
em sua maioria não palpáveis ao tato, mas tão densas
quanto um objeto material qualquer. (4)
Curitiba, fevereiro de 2002.
ANA GONZÁLEZ
Fotografia e texto. Artista plástica e responsável pela
idealização e organização do programa INCISÃO,
MARCA E MÚLTIPLO.(5)
1 Didonet Thomaz. Artista plástica,
pesquisadora no Acervo Stenzel, 1986-2005.
2 DIE NÄCHTE (As Noites) de Alfred
de Musset (1810-1857) e águas-fortes originais de Christian L.
Martin, Editora Artur Wolf, Viena, 1920.
3 DER TOTENTANZ (A Dança Macabra,
As Imagens da Morte e O Alfabeto da Morte) e provas das xilogravuras
desenhadas por Hans Holbein (1497-1543), talhadas por Hanns Lützelburger
e outros, editadas por Amsler & Ruthardt, Berlin, 1922.
4 Este texto foi publicado pelo jornal
Gazeta do Povo, Curitiba, 9 fev. 2002, Caderno G. p. 4. O Projeto Espólio
de Sara Stenzel, Teatro Monótono: Livro Informal Espectáculo,
I, II, III, IV, V, VI, foi citado no artigo UMA CASA EM DESMANCHO, Teatro
Monótono: 1992-2004. In: Arte em pesquisa: especificidades. Maria
Beatriz de Medeiros (Org.). Brasília/DF: Editora da Pós-Graduação
em Arte da Universidade Federal de Brasília, 2004, v. 2, p. 231-240.
XIII Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores
em Artes Plásticas-ANPAP, Brasília/DF, nov. 2004. Disponível
em <http://www.corpos.org/anpap/2004/textos/clv/didonetthomaz.pdf.>.
5 INCISÃO, MARCA E MÚLTIPLO
foi um programa de exposições promovido pelo Museu da
Gravura Cidade de Curitiba através de sua Loja, com a intenção
de abrir espaço para discutir a relação produção
artística&comercialização. O programa privilegiou
produções de arte contemporânea que mantenham algum
vínculo com conceitos ou procedimentos de gravura, fazendo jus
à vocação do Museu ao mesmo tempo que, procurou
dar visibilidade à produção brasileira local e
nacional. Maria de Lourdes Gomes (12 ago. - 30 set. 2001), Isabel de
Castro (4 out. - 11 nov. 2001), Larissa Franco (14 nov. - 16 dez. 2001),
Didonet Thomaz (20 dez. 2001 - 10 mar. 2002) e Marga Puntel (7 mar.
- 14 abr. 2002) foram as artistas integrantes deste primeiro momento
2001/2002. Centro Cultural Solar do Barão - Sala Índice.
6 Agradecimentos à Ana González,
Cassiana Lícia de Lacerda, Célia e Guido Didonet, Elfi
Harlezki (in memoriam), Irma Penner, José Carlos Thomaz, Gerda
Wilhelm, Marli Kohls, Roberto Alves dos Santos Junior, Rosemarie Seely,
Solange Fiori, à família Stenzel, especialmente Norma,
Cida e João Nestor e Nestor (in memoriam). Agradecimentos à
Adelaide Rudolph pela tradução (do alemão para
o português) de DIE NÄCHTE e DER TOTENTAN Z; à Antonia
Schwinden pela revisão e ao Helton Tessari Brandão pela
editoração.
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