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Clevelândias
Em 1999 Cleverson fez uma exposição
em Curitiba onde havia, em destaque, uma escultura representando
uma cabeça: um auto-retrato com uma peruca de borracha
igual ao penteado do Super-homem. Diante dele, um pedestal com
uma caixa de acrílico onde se via o uniforme azul e vermelho
do herói kriptoniano e naftalinas, como um relicário.
Um relicário dedicado a uma figura de histórias
em quadrinhos. Bom, Cleverson também é como se fosse
um personagem de gibi.
A exposição, qualquer exposição, é
um santuário de um mundo de faz-de-conta, e as próprias
obras de arte podem ser vistos como relíquias de histórias
inventadas. O artista mesmo se apresenta como um personagem. De
qualquer modo, nas obras de arte raramente há lugar para
pessoas. Os autores, as pessoas, estão escondidas em algum
lugar.
Cleverson, o personagem que permeia sua obra desde então,
é uma versão distorcida daquele de azul e branco,
defensor do modo de vida norte-americano. Temos agora, entretanto,
um herói picaresco e fajuto, em vídeos, fotografias
e desenhos, um pouco como os três patetas ou os irmãos
Marx - ou ainda como Didi, dos trapalhões, sempre pronto
para olhar para nós no meio do filme e dar uma piscadela
cúmplice.
É o que acontece em Rockaway Beach, uma espécie
de sonho dos brasileiros que fantasiam sobre os EUA ou ali residem,
onde um passeio à praia com amigos onde nada de especial
acontece torna-se o assunto para um vídeo grandiloqüente
e pomposo (quase um videoclip, mas com ares de nouvelle vague),
com música de Pink Floyd.
Nos filmes caseiros de pessoas importantes tudo parece uma celebração
ou um sinal; assistimos com interesse e assombro, por exemplo,
a Degas deixando um banheiro público em Paris, ou Osama
Bin Laden caminhando num cenário pedregoso. Rockaway Beach
fala sobre esse assombro, simula esse caráter solene, sem
ter a menor razão para isso; Rockaway Beach é um
mundo de faz-de-conta: Um home movie falso, talvez mais falso
do que os outros costumam ser. Alguns momentos de vida produzida
e encenada, ainda mais do que tem sido em nosso dia-a-dia.
Não por acaso Cleverson costuma fazer uso de brinquedos
e fantasias: fotografias de máscaras em close-up, ou de
pessoas (das quais vemos apenas silhuetas) usando adereços
como cartolas, bengalas, chapéus na forma de orelhas de
animais; no vídeo Atlantis, de 2002, vemos o artista empinando
uma pipa em forma de tubarão, que transforma o céu
azul em mar; no vídeo intitulado ...West, de 2003, assistimos
a uma improvável caçada a um gorila em plena Manhattan,
e nem é necessário dizer que o símio é
uma pessoa vestida, como num filme B norte-americano.
Também semelhantes a criaturas desse tipo de filme são
os enormes dragões chineses fotografados recentemente num
desfile em Chinatown. Não interessa ao artista a cultura
chinesa, mas o monstruoso e o falso. Não o falso monstruoso,
como num filme de horror hollywoodiano, mas a mostruosidade que
é própria daquilo que é claramente falso
ou encenado de modo grosseiro - como um jovem vestido de Papai
Noel, um travesti, um filme ruim, um trem-fantasma num parque.
As exposições de arte, aliás, de um tempo
para cá são como parques temáticos desmontáveis.
Lá existem dois artistas, um que é o criador, Walt
Disney, que seja, e outro que é Mickey. Não por
acaso, desde 1999 as exposições individuais de Cleverson
sempre se chamam Clevelândia.
Existe uma certa dose de presunção e de tolice em
se apresentar como um personagem num mundo inventado e sem problemas.
Talvez exista presunção mesmo em se proclamar artista.
Não há solução, disse Duchamp, porque
não há problema. Agora, dizer que não há
problema não significa que não exista angústia
- mas esse sentimento não pertence ao Mickey ou a Disney,
mas a nós.
Fernando Burjato
São Paulo, setembro de 2003
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