Cabeça,
Tronco e Membros
Quatro caixas transparentes e vazias com imagens de partes do meu
corpo. Essas caixas foram montadas na instalação Cabeça,
corpo e Membros. Na galeria do galpão da PPGAV - EBA foi
construído para elas um ambiente especial. Como era um lugar
de freqüência limitada, executei o meu projeto na íntegra,
cobri de água todo o piso da galeria e propus a todos que
quisessem entrar que tirassem os sapatos.
Sugerida pelas bolas de basquete mergulhadas na água de Jeff
Koons e por Damien Hirst com seus animais conservados em formol
dentro de tanques, construí um recipiente para as minhas
imagens. As caixas aparentemente vazias têm um conteúdo
cheio de imagens formadas pelos fotolitos e reflexos que se fundem
sobre suas superfícies. Por sua forma e organização
em módulos no espaço, uma depois da outra: cabeça,
tronco e membros; as caixas também podem ser consideradas
uma citação à arte minimalista. Mas diferente
da opacidade do objeto minimalista, o significado delas está
no seu interior ser aparente e vazio, mas um vazio pronto para incorporar
as características do ambiente em que estão.
Quando coloquei a água sobre o chão com as caixas
penduradas sobre ele, imaginei estar transportando um suposto conteúdo
líquido de dentro delas para o espaço externo. A sala
se tornou um outro recipiente que absorvia as imagens e os movimentos
dos corpos dentro dela. A água funcionava como um revelador
da presença dos objetos, um segundo plano visual que mostrava
do que era composto (um chão de cimento), ao mesmo tempo
em que refletia sobre si seu plano oposto (o teto).
O recurso dos reflexos traz objetos que estão fora do campo
visual para dentro. Eles multiplicam os olhares, quebram a planura
da visão e proporcionam uma espécie de visão
espacializada. Nas fotos, essa visão simultânea do
espaço fica estabelecida em um mesmo plano (princípio
cubista), mas considerando o tempo de deslocamento do espectador
teremos esse espaço multifacetado em movimento, aumentado
sensitivamente em percepções visuais. O deslocamento
no espaço é que proporciona a fruição
da tridimensionalidade, para percebermos o espaço é
preciso tempo para interagir com ele, por isso busquei construir
um lugar onde o corpo reagisse ao espaço e o espaço
reagisse à presença do corpo.
A água, o ar e o chão da sala, podem ser considerados
os espaços que contém os objetos. O reflexo é
a aura do objeto, é sua imagem irradiada no espaço
e projetada em outros objetos a seu redor, ao mesmo tempo em que
recebe sobre si o reflexo desses outros objetos. O reflexo é
uma imagem virtual, o objeto não está ali, mas sua
presença é uma referência da sua proximidade,
uma delimitação da sua área de influência.
Se a imagem observada pelo espectador é um reflexo rebatido
superposto; se o acrílico da caixa ou a água como
planos refletores, refletem o espectador que as observa ou que nelas
se observa, é, portanto, quase sempre ele, o espectador,
que se vê no reflexo que observa. Pode se ver no teto, no
chão, na parede, na caixa, e em qualquer plano que se superponha
à sua imagem refletida. Esse jogo resgata a lenda de Narciso,
que acredita ver um outro, quando é sempre a imagem dele
mesmo que está admirando. Uma fundamental particularidade
ocorre aqui: as superfícies refletoras referidas (a água
e as caixas) são ambíguas, ao mesmo tempo em que mostram
ao fundo uma imagem (o chão ou as fotos), refletem na superfície
o espectador e seu plano de fundo. O narcisismo ocorre pela possibilidade
do espectador ver a sua imagem situada em qualquer lugar da sala.
Sobre o olhar do espectador paira uma dúvida, para onde é
que ele está olhando, para sua própria imagem, para
o reflexo de algum objeto ou para a imagem que está por trás
da superfície?
Para mim, as caixas foram uma espécie de conclusão
da minha pesquisa visual desde O quarto. Com elas, percebi claramente
a arte como pensamento, na instalação construo várias
relações do corpo com o espaço. Segundo Bergson,
"o corpo é uma imagem favorecida, percebida em profundidade
e superfície, sede de afecção e fonte de ação".
As imagens transparentes e refletoras das caixas colocam o corpo
como superfície, pois "a superfície é
o limite comum do exterior com o interior, é a única
porção da extensão que é percebida e
sentida ao mesmo tempo1".
Na década de 30, quando Bergson escreveu Matéria e
Memória, o cinema começava a dar seus primeiros passos
decisivos e apesar do filosofo o ter considerado como ilusão,
formalmente nenhuma imagem se adaptou tão bem a sua teoria.
"A matéria, para nós, é um conjunto de
imagens", em sua análise parte do pressuposto que a
consciên-cia está no mesmo plano que os objetos.
Quando fiz as caixas não tinha lido Bergson, mas foi na sua
teoria que encontrei afinidades literais com a minha prática.
No meu ver, seu pensamento trabalha com certa antecipação
a crescente necessidade de virtualizarmos o real em um mundo que
tende a degradar seu ambiente natural. Procurando retratar o mundo
em que vivo, incluo o meu corpo e o dos espectadores em um ambiente
reflexível onde está implícito o advento da
vitrine, da fotografia, do cinema, da TV e do computador.
Notas:
1.Bergson, Henri, Matéria e Memória. trad. Paulo
Neves da Silva. Ed. Martins Fontes. SP. 1990.
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