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DesAparecidas
Nesta inédita série, André
ANILINA Malinski, em impressões sobre tecido, bordados
e aplicações, lida com a indumentária da
Padroeira do Brasil - o Manto e a Coroa. Ícones da cultura
religiosa nacional recebem farto tratamento pop, ingênuo
e de humor sensível, características do trabalho
de ANILINA em que "fé e sentimento puro" é
fonte inspiradora e criativa. As lembranças são
dos altares familiares, dos pios, dos anjos e santos; catecismos
matutinos, medos e esperança. Memória de relíquias
de povos tementes a Deus, de culturas que misturam religiosidade
e crenças ancestrais. Há o refinamento dos bordados,
o brilho das lantejoulas, a paleta "fashion", o cuidado
profissional. As cores escolhidas, chapadas, em eloqüentes
contrastes, as impressões mecânicas - plotagens,
que se completam com hábil bordado, muitas vezes apenas
sugerem detalhes do Manto e da Coroa. Em todo o conjunto é
apurado o senso estético e o fazer técnico esmerado.
E entre esses dois universos, há o carnaval telúrico,
a apoteose popular, maracatus de raiz, ritos campais e costumes
de antanho. Entretanto, na ausência de Aparecida, resta
a incômoda sensação do supérfluo, do
ouro de tolo, do oco. E mais, o cerne moral da santa popular se
perdeu na rotina estapafúrdia dos jornais, na incômoda
atualidade, na valorização do externo. Uma singular
metáfora do uso do poder. É a arte brasileira olhando
para o umbigo do povo e tudo o que ele tem de melhor para, de
forma absolutamente não panfletária, mostrar uma
atualidade de 500 anos, de descaminhos e de oportunismos baratos.
É conteúdo brasileiro e
linguagem universal que, sem vergonha da própria existência,
vassoura preconceitos, investe na deslavada alegria do Brasil
em detrimento a sisudez acadêmica, formolizada e mal-humorada
dos mestres, lacaios do pré-estabelecido pela corte.
Em nada surpreende - portanto - a grande
empatia que "As desAparecidas" provoca no espectador.
Como repara o sábio Pietro Bardi em sua História
da Arte Brasileira, "...expressão pura da espontaneidade
popular, desejosa em introduzir a arte em todos os aspectos de
sua vida cotidiana". E, sob todos os aspectos,não
só nesta série que nos apresenta ANILINA, mas no
decorrer de sua organizada produção, atenta-se para
a incorporação de influências remotas e recentes,
uma colossal colcha de retalhos. A cara do Brasil.
João Henrique do Amaral, inverno 2005.
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