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O diálogo silencioso com a pedra
"... Camus diz de uma maneira enigmática:
'um rosto que sofre tão perto das pedras já é
pedra também.' Diria eu, exatamente o contrário,
que um rochedo que recebe tão prodigioso esforço
do homem já é homem também."
(Gaston Bachelard. A terra e os devaneios da vontade)
Imaginado por John Ruskin, os rochedos
de Dante "são de um acinzentado descorado, relativamente
manchado de marrom do ocre de ferro", e serão estilhaçados
pelo martelo do escultor. O basalto, conhecido como pedra ferro
(ou pedra capote) pela sua capa "marrom do ocre de ferro"
tem o seu interior, a sua alma, cinza escuro, que nos remete de
imediato à idéia de obscuro, de vazio ou de profundidade,
mas também de contemplação quase religiosa
ou mesmo existencial. O basalto, que é uma rocha vulcânica,
tem no Paraná jazidas de imensa extensão que o identifica
como o "basalto do Paraná" (bacia do Paraná,
uma extensão de um milhão de quilômetros quadrados
de derramamento basáltico).
Este não é o único
material de que Alfi Vivern faz uso. Ele passa das matérias
duras para as matérias moles, da talha direta à
fundição do metal, mas a sua paixão parece
ser a talha direta sobre o imenso rochedo basáltico dantesco,
pois este rochedo carrega consigo uma imagem primordial, de uma
origem, a mais afastada possível no tempo e, assim, carrega
nela toda uma história, a memória da terra. As camadas
da pedra devem ser descascadas, descamadas para desvendar o seu
núcleo, duro, escuro, como metáfora da eternidade.
O nome de família Vivern remonta
ao século XVII, talvez ao XII, oriundo de uma família
de ferreiros da região francesa do Béarn e da Bigorre
(os Pireneus Atlânticos e a Gasconha) que atravessaram a
Catalunha em direção à Argentina, ao Brasil
e ao Canadá. Alfi começou também como artesão,
mas sempre moldando a pedra, afastando a bigorna de seus ancestrais
para utilizar o cinzel e assim ele se automodela como grande escultor
brasileiro que é, mas que tem um falar um pouco diferente,
e guarda consigo a ancestralidade do trabalho sobre a matéria
dura, mas em uma relação de amor com a pedra. Alfi
desvendou os segredos do mármore, do granito e do basalto,
como também da madeira e do metal. Esta exposição
agora é toda especial, marcada pela proporção
reduzida das obras, mas que mantém ainda a sua monumentalidade,
marcadas pelo material e pelo tempo, lembranças das rochas
primordiais.
Estas obras nos ensejam uma interpretação
"mística", uma "memória do religioso"
como fala Didi-Hubermann a propósito da obra de Ad Reinhardt,
uma memória mística da história da terra,
uma gênesis, um ato cósmico da separação
das águas para a emergência da terra e a aparição
da luz um ato de criação demiurgo. Em primeiro,
o fogo de Heráclito, numa fonte de água e mercúrio
que surge da pedra, ligações com o hermetismo alquímico
dos elementos na criação cosmogônica do mundo:
a água, o ar, o fogo e a terra.
A pedra bruta contrasta com a transparência
da água e o reflexo especular do mercúrio que, pelo
fogo, queima o ar num ritual litúrgico primitivo; penetra-se
num santuário, nos mistérios originais, para os
quais o mercúrio é a prata-líquida, o princípio
passivo, preparando-nos para a reflexão e a contemplação.
"Para assim ter uma pequena idéia do Mistério",
diria Alfi Vivern, isto é, para que as pessoas possam penetrar
e sentir os materiais, ultrapassar o pórtico dos iniciados
num ritual de passagem. No interior do mito, uma mandala como
se fosse uma casa cheia de portas cujas chaves estão todas
misturadas e obrigam a dispor de um tempo para decifrá-las
o tempo para decifrar o Tempo. A mandala também é
a expressão, ou a tradução plástica,
de um conceito cosmológico, ela é um plano centrado
num eixo que lhe dá orientação, é
o cosmos divino numa superfície plana, o espaço
do sacrifício, o espaço ritual, é a tomada
de posse do terreno ao mesmo tempo em que se torna um templo provisório.
O círculo do fogo é o círculo
do conhecimento, da imprevisibilidade da chama e da estabilidade
da matéria, seguem-lhe formas que falam de entradas e saídas,
de interior e de exterior, de liso e de rugoso, de subida e de
descida, de efêmeros e de sólidos; volumes simplificados
para o qual o trabalho humano exalta a materialidade inicial da
pedra que se torna visível pelas suas irregularidades.
Ele explora as superfícies brutas com suas falhas e transforma
estes dados naturais em obras para onde convergem a memória
arcaica e o projeto racional do artista. Ele nos relembra Michelangelo
ao dizer que do bloco de pedra bruta ele extraia o que não
queria e o que restava era a escultura. A obra já está
pronta dentro da pedra, é só abri-la, é da
pedra bruta que sai a pedra polida.
O ritual do fogo continua, iniciado em
Faxinal do Céu, interior do Paraná, com a cumplicidade
do poeta Reynaldo Jardim. O fogo queima o provisório e
exalta o brilho do que é permanente o papel que o tempo
amarela e que o fogo devora evidencia a pedra que é depositária
da sua memória, no papel queimado está à
parte da memória que se perde.
Ressalta sempre um gosto pela matéria bruta e o respeito
pelas fraturas ou pelos acidentes de extração dos
blocos que, por vezes, tem-se a impressão que Alfi gostaria
de assinar os blocos mesmo de rochedo, ou assinar a pedra bruta.
Na seqüência, deparamo-nos ainda,
com um novo ritual de passagem, como se não bastasse a
afirmação de que dentro da pedra está o objeto,
que dentro da matéria está a idéia, ele agora
nos impõe a relação da matéria bruta
e da matéria elaborada cuja metáfora é o
arco e os pequenos cubos de pedra, a relação entre
o natural e o artificial, tirando daí que a arte é
artifício, criação humana, e então
o "quadrado preto" de Malevitch se torna cúbico,
isto é, a forma artificial por excelência.
Estas formas abstratas não têm
um fim em si mesmas, mas elas estão ali como uma maneira
de criar uma imagem característica de nosso tempo. Elas
buscam um anonimato, uma identidade com o "ovo original",
o "ovo cosmogônico", o caos que está na
origem do céu e da terra, a totalidade perfeita que se
assemelhava a um ovo; na cosmogonia órfica, pois foi do
caos que se formou o ovo de prata (referência ao mercúrio)
do qual saiu Eros.
Na procura do coração da
pedra ele passa pelo seu desnudamento. A brancura e a transparência
do mármore são os símbolos clássicos
da perfeição artística, mas são também
uma não-presença. O Basalto escuro produz mais reflexos
e quebra a quietude do material. Ao desnudar o basalto, ele encontra
o dialogo, um diálogo silencioso entre o artista e o Tempo.
Em oposição à instabilidade
da fumaça e da nuvem, metáfora da pintura, vem a
estabilidade da pedra como símbolo de eternidade. Para
Walter Benjamin "a queda da aura e a petrificação
da representação são uma mesma coisa".
Um elmo de pedra, uma cabeça fendida, um olhar petrificado:
as formas esculpidas por Alfi não são um estado
final, mas um processo de ordem e desordem, de construção
e desconstrução, jamais de destruição.
"Eu sou bela, oh mortais! Como um
sonho de pedra" (Charles Baudelaire). O "sonho de pedra"
dos mortais na busca da beleza dos "imortais", a "inquietante
estranheza" de Freud; a alegoria nos empresta agora a sua
força figural e nota-se a falência da linguagem humana.
Esta cabeça quer o diálogo, mas o diálogo
do silêncio, do olhar petrificado da Medusa que tudo petrifica
ao seu olhar, a cabe-ça-pedra, a cabeça imóvel,
"este sonho de pedra, este amor petrificado como a imagem
obsessiva de Benjamin tocando a alegoria «como imagem de
uma inquietude petrificada»" (Christine Bucci-Glucksmann)
e isto nos remete novamente à sua relação
de amor com a pedra. A fenda pede o toque, devemos abri-la para
penetrar no seu labirinto, no interior dos seus olhos, em cujo
final encontra-se o Minotauro, memória do conhecimento
ou do esquecimento, de petrificação, memória
das formas escultóricas primitivas como o da esfinge: "decifra-me
ou te devoro!". Das investigações místicas,
ou mesmo misteriosas, do tempo, Alfi nos conduz às reflexões
do conhecimento.
A arte contemporânea nasce do impasse entre o esquecimento
de sua história, uma amnésia, e o seu retorno, a
sua rememoração, a anamnese platônica, que
trata da imanência do passado no presente a condição
baudelairiana de modernidade entre o transitório ou o efêmero
e o eterno ou o imutável, onde "as metamorfoses são
freqüentes" tem a sua metáfora na relação
que se dá entre o papel e a pedra. Alfi, porém vai
mais longe nessa busca do eterno no transitório que passa
pelo "poético no histórico".
Ele mostra assim o terreno instável
da escultura contemporânea, que procura reinscrever na obra
presente a memória de seu passado. Alfi nos mostra principalmente
a impossibilidade do esquecimento uma vez que a memória
está na própria matéria e assim ele retoma
todos os materiais possíveis, desde o papel, a madeira,
o metal e a pedra para afirmar junto com Deleuze que "criar
não é comunicar, mas resistir".
Armários de memória, armários
que guardam a complexidade do sensível e que ao mesmo tempo
liberam a beleza da forma. O papel e a madeira, metáforas
do efêmero que se completam nos rolos de papel, pergaminhos
do conhecimento arcaico, guardados em armários de madeira,
estes também sujeitos ao desaparecimento pela sua efemeridade.
O transitório é, por sua vez, metáfora do
nomadismo, do viajante ou do peregrino. É neste momento
da exposição que todos os elementos dispersos começam
a formar uma unidade.O anonimato da pedra bruta é também
o não-território do nômade ou o não-lugar
do peregrino. Alfi é este viajante ou peregrino cuja missão
é rememorar a escultura, e como tal seu lugar é
a terra toda, o espaço dos exilados voluntários,
mas como nômade, ele tem também um ponto de saída
e um ponto de chegada., mesmo que a cada vez sejam pontos diferentes,
"nenhuma linha separa a terra e o céu, que são
da mesma substância" afirmou Deleuze.
Um obelisco-menhir pronto para a viagem,
é o essencial deste peregrino para quem a pedra é
utensílio e alimento, representado agora pela pedra-pão
dentro da "lancheira" do operário braçal,
é o espaço do signo com algumas referências
ao real, metáfora do próprio trabalho artístico,
do trabalho do escultor, no seu estado desordenado de coisa.
É neste aspecto que a obra de Alfi Vivern é mítica,
pois ela se apresenta sempre no seu estado original, no seu estado
de "ovo", mito fundador, ou como afirmou Hesíodo:
"o mito do estado originário do mundo".
Tornar sensível, este é o
ponto cosmogênico do Alfi-escultor. A afinidade que ele
encontra entre a matéria e a vida revela a concepção
orgânica de ambas, importante para os Orientais, mas que
ele transforma a partir da idéia de forma pura platônica,
que busca uma sabedoria anterior, uma sabedoria primeira, que
é a sabedoria da pedra.
O seu pensamento mítico ultrapassa a abstração
na busca do espaço com o qual oferece um maior poder poético
aos materiais, jamais impedindo a pedra de ser pedra. Para Alfi
a escultura é algo a ser vivenciado, não somente
observado.
Fernando A. F. Bini
Professor de História da Arte. Crítico de Arte
Fevereiro de 2003
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