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Uma experiência na cidade
Em outubro de 2004, fomos convidados para participar de um Seminário
Internacional de Arte Educação, evento que aconteceu
na cidade de Santa Rosa, organizado pela FEMA (Fundação
Educacional Machado de Assis). Sugerimos uma intervenção
urbana a ser realizada durante tal evento: uma projeção,
em um prédio, do vídeo complexos / vazios
que já havia sido apresentado em São Paulo, em julho
do mesmo ano, durante o Fórum Cultural. Lá, o complexos
/ vazios foi projetado na fachada externa do SESC Vila Mariana
reativando a atenção do público sobre o mesmo.
Esta experiência foi inicial e fundadora para este projeto.
Já em Santa Rosa tratava-se de buscar uma integração
do vídeo com a paisagem da cidade. O local escolhido foi
o prédio da antiga Prefeitura há alguns anos interditado
e desocupado. Tal escolha deveu-se a alguns fatores: é
uma edificação localizada no centro da cidade e
onde há intensa circulação pública;
é um lugar que tem um papel definido na memória
coletiva local (inaugurado na década de 40 e até
os anos 80 foi sede da prefeitura) e pela sua situação
atual - desabitado e em estado de abandono.
Ao chegarmos na cidade, no mesmo dia da projeção,
fomos visitar o local e escolher aonde realizar a mesma. A prefeitura
antiga é uma construção de dimensões
consideráveis e ocupa boa parte de um quarteirão.
A idéia inicial de projetar em uma fachada voltada para
a rua - local de circulação e fácil visibilidade
- foi abandonada quando conhecemos os fundos desta edificação,
um local com paredes amplas, tendo um pátio interno em
forma de "U". Decidimos realizar ali o trabalho e partimos
para as providências necessárias.
Durante a tarde, colhemos outras informações sobre
o prédio. Surgiu também a idéia de projetar
outras imagens (fotos) além do vídeo. Nos seduzia
a idéia de um atelier aberto, que é como
a artista Elaine Tedesco define as experiências realizadas
no projeto Sobreposições Urbanas* (apesar
da nossa projeção ter acontecido apenas por um dia,
sem termos tido tempo para outras experimentações
- a experiência ali teve este caráter de processo).
No restante deste dia ficamos envolvidos na divulgação
do trabalho ao mesmo tempo em que o estávamos produzindo:
conversas com o pessoal da parte técnica sobre os equipamentos
disponíveis e também busca por imagens antigas da
prefeitura. Estas foram obtidas junto ao setor de comunicação
e imprensa da faculdade e também com uma visita a um fotógrafo
local (Miguel Oliveira) onde conseguimos slides da época
da inauguração do prédio e ficamos sabendo
da existência de uma ONG que trabalha pela conservação
desta edificação. Há, inclusive, um projeto
realizado por arquitetos e engenheiros para a sua recuperação
e transformação em um centro cultural. Proposta
importante para a cidade, mas que se confronta com outros interesses
políticos e imobiliários.
Descobrimos também que já aconteceram manifestações
a favor da conservação da antiga prefeitura, inclusive
com a sua ocupação pela comunidade e por alguns
artistas. Terminamos a tarde divulgando a vídeo projeção.
Estratégia para dar visibilidade a nossa intervenção
e que foi intermediada pelo setor de imprensa da faculdade que
tinha interesse em divulgá-la dentro da programação
do Fórum.
A projeção do vídeo sobre aquela arquitetura
alcançou para nós um resultado fantástico:
não só as imagens do vídeo sobrepostas às
paredes descascadas do local funcionaram esteticamente, como também
houve reverberações dos vazios dos lugares do vídeo
sobre o vazio daquela construção e ecos dos sons
da projeção sobre as pessoas que lá estavam
e que não eram poucas. Sobreposições, transposições
de espaços e situações.
O público para chegar ao local da projeção
precisava andar cerca de uns 100 metros a partir da rua. Neste
percurso projetamos, ao longo de um muro, algumas fotos (da década
de 60) de eventos cívicos acontecidos ali com a presença
de adultos e crianças. Em outra parede, projetamos slides
do local quando de sua inauguração: a prefeitura
cercada de pessoas daquela comunidade.
Neste trajeto até a projeção do vídeo,
outro detalhe significativo é que as pessoas precisavam
passar em frente ao projetor de slides. Suas silhuetas se misturavam
às figuras das fotos ampliadas enormemente nas paredes
e o que poderia ter sido uma dificuldade do trabalho (uma interferência
na imagem projetada) tornou-se uma forma de integração
com o mesmo. A projeção na paisagem urbana revestiu-se
de amplo significado na medida em que agregamos a nossa primeira
intenção - a projeção do vídeo
já realizado - outras imagens de significado histórico
para aquela cidade e para aquele público.
A projeção das fotos que remetiam ao passado do
próprio prédio potencializou a memória, tornou
presentes as imagens de uma história muito próxima
e que, de certo modo, atualizaram-se numa situação
simbólica: recriando um espaço, uma memória
coletiva adormecida. Mais do que um discurso ou a simples amostragem
destas fotos, sua projeção precária e efêmera
trouxe luz à face apagada do lugar. Iluminou, para quem
assistia, uma outra visão sobre o mesmo.
Qual o nosso papel ali enquanto artistas? Podemos dizer que esta
intervenção na paisagem urbana de Santa Rosa ganhou
um contorno inesperado. A arte aproximou-se da vida integrando-se
a uma expectativa da cidade em relação a sua antiga
prefeitura, intervindo ativamente no imaginário local.
As projeções contextualizaram aquele prédio
de maneira diferente para muitos que ali estavam. Abriram-no para
receber e produzir outros significados, não de maneira
nostálgica a provocar a saudade de um tempo passado, mas
de provocar um questionamento do seu valor simbólico para
aquela comunidade.
Sobre complexos / vazios: das imagens ao encontro
Mas vamos falar um pouco sobre o vídeo em si mesmo: partindo
de um percurso pela cidade de Porto Alegre, iniciamos a busca
por lugares esvaziados e captamos suas imagens. As direções
tomadas foram determinadas no decorrer de cada passo dado. As
escolhas foram se evidenciando durante a conversa (em)caminhada.
Inicialmente o trabalho se encontrava imerso no campo do possível,
neste terreno movediço que foi o nosso marco zero.
Porém, ao nos depararmos com os lugares visitados, percebemos
que estes estavam em tensão entre o que são atualmente
e o que se espera que sejam. Aparelhos arquitetônicos que
já existem e projetos/construções em andamento
que se apresentam como respostas futuras às demandas culturais
da cidade. "A solidão de nós mesmos, a liberdade
pela inexistência das coisas - este vazio - é esta
uma primeira vivência daquilo que nomeamos com a palavra
espaço" **.
Exteriores opacos. Intransponibilidade visual que forma um corpo
sólido no espaço. A necessidade de desvios. A densidade
dos obstáculos transposta pela intensidade das ações.
Agir sem impedimentos através destes obstáculos.
Atuar sobre os seus vazios, nas brechas deixadas pela inexistência
das ações. Partindo do princípio de que o
vazio é o espaço entre as coisas, em complexos /vazios
procuramos trabalhar entre as possibilidades de vazios poéticos
e vazios político-simbólicos de certos lugares da
cidade.
No primeiro instante do vídeo se instala a tensão
inicial. Esta tensão se dá entre a "linearidade"
da descrição do conceito de vazio (visualmente reforçada
pela imagem do fio vermelho em movimento contínuo) e a
imagem da água-rio-mar. Ouve-se a definição
da palavra "vazio" e se vê a água tendo
a imensidão do mar e seus mistérios como uma imagem
mental a ser evocada, possivelmente como contraponto desta tentativa
de encontrar o sentido preciso para um termo abstrato: o vazio.
De quê é constituído o vazio? Qual é
a sua matéria?
Vamos pensar na condição que dá a ver o vazio:
a presença da luz. Sem esta não poderíamos
distinguir a existência do vazio e, aliás, nem dos
corpos que o delimitam. Vamos pensar em um foco de luz. Em iluminar
uma situação. Clarear um conceito. Então,
neste primeiro momento, estamos tratando de um vazio mais amplo,
de uma tentativa de definição de vazio em meio a
um lago de possibilidades.
No segundo instante do vídeo, surgem os elementos arquitetônicos:
são corpos materiais inseridos em um espaço vazio
exterior. Neste momento a intenção é apontar
para os vazios interiores destes equipamentos de contenção.
Apontar para os vazios simbólicos e fisicamente presentes
nestas construções. O vazio emparedado. O lugar
planejado para ter uma função. O espaço que
deveria ser praticado. O esvaziamento da prática pela impossibilidade
de cumprimento de suas atribuições. Assim como as
construções em andamento, as arquiteturas em potência,
cada uma no seu ritmo e dependentes de suas circunstâncias.
No terceiro momento do vídeo o vazio da boca, as palavras
que ecoam a partir desta fronteira entre os íntimos vazios
e os espaços exteriores. Um vazio interior é evocado
em contraponto ao momento inicial. Partimos da imensidão
das águas para um interior que deseja contato com o exterior:
podemos escutar o verso "beijei ventos em tardes vãs".
Imagens deslocadas: o vazio ocupa um lugar. Em Santa Rosa, no
momento da projeção do vídeo, somos invasores,
estranhos frente a uma condição sócio-espacial
desconhecida. A aspereza da situação de decidirmos
interagir com um espaço do lugar vai sendo maleabilizada
com nossas ações dentro das possibilidades da cidade.
Encontramos a antiga prefeitura. O trabalho se instaura a partir
deste convencimento de que é ali que as imagens e sons
do vídeo precisam se instalar. Mas, como vimos, não
há tempo para testes. Teremos apenas uma noite de experiência-trabalho.
Então este irá se apresentar como um atelier de
pensamentos a céu aberto. Aberto para erros e acertos que
foram propiciados pelo nosso convencimento anterior: este é
o lugar. Buscamos permitir que as imagens do vídeo iluminem
as escadas e as paredes, os cantos e as vidraças desta
outra arquitetura companheira de vazios. O interessante é
que os produtores e colaboradores locais acataram os nossos pedidos,
mas por fim denunciaram que estiveram todo o tempo resistentes
a eles. No exato instante em que o trabalho está em andamento
eles confidenciam: "- Agora eu entendi porque vocês
disseram que tinha que ser aqui. Realmente tinha que ser aqui!"
Mal sabem eles que estávamos compartilhando sentimentos
semelhantes: será que vai funcionar? Como vai ser? É
na apresentação do trabalho que somos, também,
confrontados com nossas expectativas. Neste momento o trabalho
sai do plano mental e se instaura diante de nós, iluminando
um vazio.
Dezembro de 2004
POIS - Claudia Paim (claudiapaim@hotmail.com), Luciano Zanette
(lucianozanette@uol.com.br) e Marcelo Gobatto (marcgoba@hotmail.com)
* Sobreposições
Urbanas é um projeto que ocorreu em 2004, em Porto Alegre,
em que a Elaine e outros artistas convidados projetavam imagens
sobre a paisagem/arquitetura da cidade. A partir de um lugar escolhido,
eram feitas diversas experimentações com imagens
de vídeo e slides. Estes procedimentos e a projeção
eram acompanhadas pelo público.
** MALACO, Jonas Tadeu Silva.
Dois Ensaios. Cidade: ensaio de aproximação conceitual.
Espaço, propriedade, liberdade. São Paulo: Alice
Foz, 2003, p. 41.
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