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Geraldo Leão - [...] Já não me lembro
mais destas coisas. Já não me lembro mais destas
coisas.
Denise Bandeira - Ficar repetindo essa história
...
GL - O legal é você ficar repetindo, mas
melhorando.(risos)
DB - É, mas o pior são as nossas ausências.
O Renato, o Raul e o Mohamed que a gente perdeu assim, de repente.
GL - E eu não estou me sentindo muito bem. (Há,
há... é uma piadinha.)
DB - Acho que representa uma perda, porque no fundo tínhamos
todo um processo coletivo.
Deise Marin - E vocês depois nunca pensaram se não
foi este fato que atrapalhou a coletividade de vocês ou
cada um foi seguir o seu caminho mesmo?
DB - Não, não é. É como uma
contribuição mesmo. O próprio Mohamed, o
processo de trabalho dele teria hoje uma outra resposta. O Raul
também. Então, são obras interrompidas precocemente.
Acabou aquela seqüência, a troca toda com a discussão
da pintura. Eram todos pintores? Então, essa é uma
questão que muda o panorama que fica disso tudo. E você
sente falta de uma discussão hoje e precisa ter uma obra
para se relatar, se remeter a ela.
GL - Eu acho que está na hora de fazer outra exposição
do Mohamed.
DB - É mesmo.
Eliane Prolik - É, poderia. Já faz uns dez
anos que se fez, não é?
GL - Em 86.
EP - Pois é, mais de dez anos. Talvez mais enxuta
até. Mas acho que do Raul também.
GL - É, do Raul e do Mohamed. Mas do Raul teve
em Paranaguá.
DB - Teve em Paranaguá.
EP - Você viu?
DB - Não. Você foi?
EP - Fui.
[...]
DB - Esse trabalho da segunda parte da exposição
foi destruído.
GL - Só tenho uns dois cartazes.
DB - Você ainda tem? Eu não tenho nada.
Deise Marin - Esse é seu? Esse é que xeroquei
para você. Essa foto aqui você já tinha visto?
GL - Não, que legal!
EP - De onde você conseguiu esta foto?
Deise Marin - Está numa ficha de vocês no
MAC.
DB - Nossa! Escreveram algumas coisas? Fico olhando este
material e pensando: " - Mas o que eles devem ter deste material.
Devem ter tudo, que você não quer que publiquem...".
Deise Marin - Se vocês quiserem... Os artigos de
jornais não são muitos, porque, na verdade, na pasta
da Adalice tem uma série, na pasta da Bicicleta, do Motocontínuo,
são mais ou menos as mesmas. Posso até xerocar,
mas acho que vocês têm a maioria.
EP - Agora, sobre não continuarmos o trabalho juntos,
acho que já foi difícil nesses dois eventos não
ser rotulado de grupo, de movimento. Não queríamos
jamais ter essa rotulação e estar associados a tudo
isso.
Deise Marin - Vocês não queriam mesmo ser
um movimento?
GL - Não. Quando começava já se explicava
que não era grupo.
DB - Isso era quase uma forma convencional de colocar
algumas questões de trabalho coletivo.
EP - Imagine, nós, naquela época, começando
e fazendo uma exposição de um trabalho e já
ser rotulado. Poderia fazer mal.
GL - E acho que tínhamos uma consciência
muito clara que estávamos começando a construir
um pensamento. Não havia um produto pronto para andar exposto
assim como apresentar uma marca. Era contra isso justamente que
nos voltávamos.
Deise Marin - Não rotulavam as coisas?
GL - Era uma crítica à produção
característica, você olha o trabalho e reconhece,
pela marca.
EP - Talvez tenha sido o nosso problema de várias
inserções ou não, dentro da geração
80 de uma maneira mais ampla A geração 80 era aquele
tipo de pincelada, aquele tipo de pontinho ou a geração
serrote, não entrávamos nesse contexto.
DB - E o que a Adalice queria muito era nos rotular realmente.
Para ela, talvez com uma crítica, com olhar externo, tornasse
mais fácil até pensar desta forma.
Deise Marin - Como grupo, movimento...
DB - É, como movimento. Assim como era no Rio,
como era em São Paulo. E então também em
Curitiba seria como? E não havia uma preocupação
quanto a isso.
Deise Marin - Esse pedacinho aqui. Isso aqui foi distribuído
nas mãos das pessoas ou foi uma coisa interna de vocês?
EP - Isso foi do Puppi no dia da abertura.
Deise Marin - Ele coloca várias referências
de pessoas, por exemplo, o Zé Buffo participou também
ou ele coloca aqui como uma referência também. Você
sabe?
DB - Não, não sei lhe dizer.
GL - O Zé Buffo pixava muro na época e fazia
poemas em graffitti.
DB - E o Puppi já é toda essa vinculação
com a questão da linguagem, da escrita. Ele entra como
um poeta, como (...) entravam os literatos, na parte de escrita
com (Jacques Brand, César Bond).
Deise Marin - E esse intuito de vocês de reunir
todos os tipos de artista: música, escritores, enfim, toda
essa gente; isso é uma coisa da qual vocês sentiram
falta porque vocês não viram isso no passado recente,
naquela época, ou surgiu assim? Tinha alguma vontade de
juntar forças ou alguma coisa do gênero?
DB - Acho que é mais para alcançar várias
artes, expandir mesmo.
Deise Marin - Abrir?
GL - É uma conversa entre as produções.
DB - É a coisa da produção mesmo
que cada área tem, vinculando então todos esses
processo.
EP - Também porque já existia um grupo de
pessoas, nos encontrávamos e era fácil abrir para
as outras áreas e levar a discussão ampla e interessante.
GL - Isto é importante.
Deise Marin - Era mais real?
EP - Poderia ter sido mais real, mais efervescente.
Deise Marin - Era uma coisa só de dia?
EP - Não, até que na parte da literatura
para o jornal, o pessoal depois participava das reuniões,
lembra?
DB - As pessoas agendavam os horários para todo
mundo, para conversar com as pessoas. Eu acho que era assim...
até porque vinculou todo mundo depois. Hoje você
vem, eventualmente, encontrando o (César Bond, o Jacques
Brand). Você tem um vínculo com essas pessoas.
Deise Marin - Voltando às influências que
talvez vocês tenham tido: o grupo Fluxus era uma coisa,
então, que talvez em Bienal um ou outro tenha percebido?
Os Dadás acho que era uma coisa bem conhecida por vocês,
na pintura, nos textos... E daí, por exemplo, Jasper Johns
vocês conheciam?
GL - Sabia que ele pintava bandeiras naquela época,
mas não muito mais que isso. A minha relação
era mais direta com a pintura, mais expressiva, mais jovem.(no
mau sentido)
Deise Marin - Olhando isso aí, foram algumas pessoas...
a gente levantou - eu e o Lorenzo - com algumas pessoas parecidas
ou não, com quem vocês poderiam ter tido influências
GL - É muito importante que não esqueçamos
a força da discussão do neoconcretismo, da semiótica,
na nossa formação. Então, a relação
com os meios de massa vêm muito por aí.
DB - Talvez pela a leitura da poesia concreta, mas, Lygia
Clark e Hélio Oiticica, vim conhecer muito depois. Vi no
catálogo da FUNARTE, era o único material que se
tinha
EP - Mas aquilo saiu em 80.
DB - Pois é, mas é difícil você
ter uma introdução, conhecer a produção
da Lygia Clark naquele catálogo. É pouco. Qualquer
publicação dela hoje tem uma profundidade muito
maior.
GL - Acho que conhecíamos, teve uma exposição
do Hélio Oiticica, lembra? No Guido Viaro. Quando foi isso?
Foi bem depois?
EP - Dos meta esquemas?
GL - De qualquer maneira, conhecíamos mesmo. Em
todo caso, onde me baseava mais conscientemente mesmo era a Teoria
de Comunicação e Semiótica pelo viés
da poesia concreta. Mas conhecia a Ligia, o Hélio, não
de maneira profunda, mas sabia o que era.
Deise Marin - E em relação aos materiais
que vocês usavam? Tinha algum limite ou cada um fazia o
que podia? Trabalhava com o material que podia?
GL - Acho que cada um fazia o que bem entendia.
Deise Marin - Você trabalhou com pedra, foi a única
que trabalha com tridimensional? Não. O Geraldo tem essas
moldagens
GL - Isso é tridimensional?
Deise Marin - Já começa, não é?
Já sai do bi...
GL - Era pintura, para mim.
EP - Pintura de massa.
Deise Marin - Essa forma de exposição, vocês
colocavam como uma forma bem livre, para fugir do normal, que
era tudo certinho, quadrinho, tinha alguma outra coisa que vocês
quisessem?
GL - Não que fosse tudo normal, eu acho.
EP - Para denotar a importância do processo.
GL - É por aí. Chamando a atenção
para se ver o mundo, criticamente. A intenção era
trabalhar a informação e não aceitar passivamente.
Levar a produção para fora, na cidade para que,
de alguma maneira, as pessoas dessem de cara com o inesperado
e a partir daí despertasse um processo reflexivo. Não
para ser normal.
Deise Marin - Vocês nunca pensaram em interagir
com o observador? Não era o intuito. Vocês queriam
criar essa coisa do observador pensar e levar uma crítica.
EP - A proposta do Raul, por exemplo, tinha isso. Ele
não queria fazer isso num painel, queria fazer numas mesinhas.
As imagens eram jogos, mosaicos. Mas ele não conseguiu
realizar o objeto destas mesinhas para que as pessoas pudessem
manipular. Mas já estava ali questão.
DB - Depois, toda uma idéia de sair à rua,
você fazia isso com cada um, levava o material e conversava
com as pessoas. Levava, discutia, apresentava. Saía com
isso, ia em outros lugares, bares. Era um trabalho feito assim.
Ia nos bares, ia nas exposições.
Deise Marin - Como as pessoas reagiam, o que elas achavam?
Algum comentário específico?
DB - Na Feirinha a gente fazia isto. Não era uma
experiência negativa, talvez um certo espanto ao conversar
com as pessoas, apresentar o trabalho, dizer que ia haver uma
exposição, mas não havia nada que fosse contrário,
assim formalmente.
EP - É interessante porque estávamos voltados
ao urbano, através de cartazes, mas você tinha alguma
experiência em propaganda, você e o Mohamed,
GL - Na época não sei se vi claro, mas logo
depois percebi que nesses cartazes que fiz, nos trabalhos da época,
tem uma relação muito forte com a diagramação
do Mirandinha, o Miran. Com o processo de diagramação
dele, diagramação gráfica. É uma coisa
com a qual convivia mas que não tinha muita clareza. Aparentemente,
não é, isso não está muito claro,
mas eu percebi isso. No momento do processo, tinha uma relação
bem forte com o esquema de diagramação dele, de
página, de cartaz. Legal isso. Acho que nunca escrevi ou
falei isto
Deise Marin - Tem mais alguma coisa que vocês queiram
comentar ou lembrar? Coisas mais particulares que talvez me ajudem
em alguma coisa.
GL - Pessoalmente, estava usando essas cores e essas faixas,
por uma questão de busca de identidade. Então, estabeleci
um campo de um ponto de partida. Quando eu estava estudando modernismo
brasileiro, em busca de um passado assim, de alguma coisa para
se basear, meio de brincadeira escolhi as cores verde, amarelo,
azul e branco. E a forma geométrica é justamente
para me afastar do desenho que sempre fazia.
Deise Marin - E o seu trabalho, você tinha alguma
busca específica?
DB - Tenho assim essa relação mais poética,
mais emocional. Realmente tinham as palavras, não pensava
uma vinculação com isso ou com aquilo. Até
depois da Bicicleta, por exemplo, era para ter invadido outras
áreas, as pedras eram planas, o suporte servia para ter
esta outra área de atuação. Mas não
me lembro mais...
Deise Marin - E na Bicicleta também foi parecido
com esse?
DB - Eram pedras, estavam no nível do plano.
Deise Marin - Aí tem essa coisa da continuação
do corpo, da roupa, que você mais ou menos continuou nas
suas helios, que era essa coisa do cotidiano.
EP - Só que nesses aí, alterava na própria
revelação do papel, da cor, queimar o papel, da
revelação da imagem chegar a queimar o suporte como
prova de transmutação.
Deise Marin - Alguma coisa mais do processo?
EP - Acho que na Bicicleta havia grafismo, mais desenho,
apesar de alguns objetos reais. Mas aqui aquele momento mágico
da imagem que se revela. E estes elementos, também tinham
uma relação com a própria experiência
e idéia do Motocontínuo. As cores, a poética
de imprimir...
DB - Depois, esse trabalho acho que são digitais
também na seqüência. Daí foi um trabalho
de pintura, de extensão, mesmo de pintura. Tinha aquela
preocupação de fazer uma relação de
espaço externo, trazer para o terreno da exposição...
uma exposição grande de pintura. É um trabalho
já na seqüência do Motocontínuo.
EP - A fita está ainda com o MIS?
DB - Semana anterior, há uns quinze dias atrás,
liguei lá e pedi para ver se ele podia terminar a fita.
Mas ele não tinha feito a cópia.
Deise Marin - Talvez seja melhor vocês até
pegarem de volta porque não tem as condições
lá de...
DB - Controle de material...
Deise Marin - Não é nem de controle de material,
parece que têm uns filmes bem antigos que têm problemas
assim de umidade do local, acaba meio que estragando.
DB - A gente deixou para ele fazer uma limpeza na fita
e aí copiar.
EP - Mas não era melhor perguntar para o Beto?
Fazer particular ?
GL - Pois é, é verdade.
DB - Mas, de repente, vou dar uma lembrada se ela vai
buscar.
GL - Ele cobra ali?
Deise Marin - Cobra, cobra assim uns...
EP - Eu vou ter que ir. Se precisar de alguma coisa...
EP - Tchau. Bom final de ano para todos!
GL - Para você também.
DB - Tem um pedacinho de recorte que vou levar para você,
mas dou uma ligada. Um recorte do "Impressões".
Viu que escolhemos e ficou uma caixinha. Ficou bem legal.
GL - Tem um trabalho que o Bubenik fez quando o Bernardo
nasceu!
DB - E você está guardando?! (risadas)
GL - Tchau. Até já! Falta mais alguma coisa?
Deise Marin - Mas acho que está jóia. Vocês
acham que têm um pouco mais de material para trabalhar?
Estava explicando para elas que vou dar um outro enfoque agora
porque o meu orientador é o Lorenzo. Mostrei todo o material
que tinha, falei o que estava querendo fazer e ele acha que não
devo me fixar nas obras dos artistas, e sim no contexto geral,
nos veículos que vocês usaram, na exposição,
como foi a montagem, como foi a experiência, enfim. Porque
falei para ele que estava com medo, porque as obras eram boas,
mas vocês eram novos ainda, estavam começando a trilhar
um caminho. Daí ele falou "- Você tem razão.
Vamos fazer..."
DB - A preocupação não era realmente
as obras.
GL - Exatamente.
Deise Marin - Era o processo.
DB - Era o trabalho que estava se desenvolvendo, era um
questionamento.
GL - Isso já percebíamos claramente na época.
DB - É, não havia essa valorização
de cada trabalho.
Deise Marin - Realmente, vocês queriam até
mostrar o contrário.
GL - Isso foi talvez a grande falha da minha parte na
exposição, porque acabei mostrando de uma maneira
muito convencional. Fiz esses trabalhos para funcionar mais como
cartazes mesmo e acabei usando aquelas molduras, por hábito.
Foi falta de discutir as coisas mais comuns. Usando aquelas molduras
de vidro da Fundação e isto deu uma endurecida e
só depois que percebi a contradição.
DB - Mas aí talvez essa reflexão a respeito
levou a alterar esse...
GL - Enchi as paredes com aqueles moldes de papel, na
tentativa de resolver isso.
Deise Marin - É, mas acho que essa coisa que vocês
tiveram, essa reflexão, daí mostraram em outros
trabalhos, na mesma exposição? É uma coisa
que não vi depois disso, claro que teria que levantar mais,
mas é uma coisa muito legal isso. Diferencial, não
é?
GL - É, com certeza. Pena que não dá
para fazer isso, mas dá vontade de fazer sempre.
DB - Olha, na verdade, acho que isso é o grande
processo desse trabalho todo. Essa é uma força que
tem no Motocontínuo, por não ter se exaurido. Pelo
fato de ter se mantido fiel ao processo e não à
obra em si. Esta questão do resultado final não
ser a obra. Acho que esse é o grande fundamento nessa idéia
do Motocontínuo, por isso que tem esse nome. Por ser uma
coisa que se refaz. E para nós também, se refaz
sempre.
Deise Marin - Muito interessante. Você que estava
ligada a essa coisa tropicalista, via alguma coisa dos irmãos...
GL - Augusto e Campos? Sim. Sim.
DB - Augusto e Campos ... temos essa relação.
GL - Diretamente, nos trabalhos deles mesmo; indiretamente,
na discussão teórica deles da semiótica e,
principalmente, no meu caso específico, porque, na época,
no final dos anos 70, houve uma revalorização do
Oswald de Andrade e a Civilização Brasileira, a
editora, publicou as obras completas dele. E normalmente, os prefácios
eram feitos pelo Aroldo, Augusto, Décio e pelo Antônio
Cândido também.
DB - O Mário Pedrosa também, o Ferreira
Gullar. Conhecíamos todos eles.
GL - Estávamos acostumados não só
a ler literatura, mas discutir a crítica à literatura
também. A minha formação de teoria de artes
plásticas foi posterior à minha formação
de teoria literária.
Deise Marin - Acho que até pela falta de material
mesmo.
GL - Sim.
Deise Marin - Não sei se tinham críticos
de arte atuantes na época?
DB - Não. Tinha, na realidade, reprodução,
não tinham com conteúdo. Você não tinha
assim uma reflexão da história da arte do Brasil.
Então, você tinha realmente o quê? Literatura,
inclusive porque era um veículo mais forte, o livro alcança
mais. Não existe uma reflexão sobre a obra de arte,
mas tinha a literatura. Você tinha, então, acesso
a estes conteúdos, que acabava lendo. Tinha toda a literatura
latino-americana, que era comum. Os escritores Jorge Luiz Borges,
o Cortazar...
Deise Marin - Interessante isso. Vocês se alimentavam
por outras vias, não é?
GL - Depende do texto, do jeito de escrever, de pensar,
da linguagem verbal.
DB - A Clarice Linspector, A Lígia Telles, o Cortazar,
eram literatura comum, que líamos com certeza. Gostava
muito de poesia. Lia bastante poesia e continuo lendo. Mas é
um material que existia fartamente, então, dava para trocar,
você tinha informação recente.
Deise Marin - E todo mundo tinha acesso a isso no grupo?
GL - E discutíamos. A idéia do Cortazar era
que o texto, de certa maneira, refletia a estrutura do pensamento
que ele está querendo passar, é fundamental para
o jeito que penso arte hoje em dia.
DB - O Borges também em "Os labirintos".
A questão de você continuar fazendo...
.
GL - Como o sentido da coisa deve ser igual ao que você
diz, foi fundamental para mim também.
Deise Marin - Na época, fora o atelier de vocês,
quais eram os lugares de encontro?
GL - A casa dos outros.
Deise Marin - Na casa das pessoas? Não tinha aquela
coisa de ir em bar?
GL - Tomávamos café na casa da Denise e
domingo era lá em casa.
DB - Na casa do Raul, da Denise Roman. Então, nos
visitávamos assim.
Deise Marin - A amizade de vocês continuou muito
tempo depois. Nasceu na Escola? Todo mundo se conheceu na Escola?
Turma legal essa, hem! Puxa!
GL - É, todo mundo. Conheci a Denise Bandeira no
cursinho preparatório para a Belas Artes. Então,
foi em 76. O Raul estava fazendo, a Denise Roman estava fazendo.
Deise Marin - Das fotos vocês já me falaram...
todos os escritores... Assim, eu quero entrevistar uma pessoa
que tenha feito a escrita. Vocês me recomendam quem? O Puppi?
Ele foi a pessoa que mais trabalhou na parte da escrita? Acho
que o Jacques Brand talvez.
GL - O Jacques, o Puppi , a Josely Batista, mas ela não
fazia parte das discussões, escreveu poemas e tudo, mas
não escreveu nada para a exposição.
DB - Não.
GL - Mas o Puppi e o Jacques.
Deise Marin - O Jacques... Bem... então, a geração
80, vamos dizer assim do Parque Lage, essa coisa, vocês
acham que tomaram conhecimento dela depois. Um pouco antes, em
83, que seria o ano desta exposição, não
saía nada em jornal? Vocês tiveram contato com a
obra deste pessoal em jornal ou não rolava isso?
GL - Aqui não tinha estas coisas, não tínhamos
contato porque a crítica de arte era da Adalice e completamente
local. Aliás, devemos muito a ela, justamente porque independente
de qualidade, ela fazia uma questão enorme de dizer que
todo mundo era ótimo sempre. Se ela tem uma certa culpa
na falta de nosso senso crítico, por outro-nosso lado,
ela tem uma parcela muito grande por ter incentivado, de efetivar
um impulso. Ter mantido um ambiente artístico.
DB - Acaba sendo a única interlocutora que você
vai ter durante muito tempo. Ela tem um processo longo de permanência
num órgão pequeno, no jornal. O jornal é
praticamente um órgão que ocupa um espaço.
Depois, ainda o Correio de Notícias, o Jornal do Estado
acabam... Mas fortemente a Gazeta do Povo manteve nesse período
todo uma coluna dela, onde havia semanalmente um informe. Então,
você tinha contato com a coluna dela, depois, o Jornal do
Estado rompeu.
Deise Marin - Tem algumas pessoas que escrevem, que até
entendem um pouco mais, senão fala-se o que o artista disse,
repete-se com outras palavras.
GL - O Virmond, que já está retirado faz
um tempo, fez um texto para a minha exposição em
84. Ele já não assumia que era crítico, não
publicava regularmente crítica de arte.
DB - Mesmo o Ennio também não tinha uma
publicação regular. Fazia assim, ficava cultuado
em alguma abertura de exposição, de algum artista
que ia diretamente ao crítico e aí tinha um material
escrito sobre o seu trabalho. Então, havia essa reflexão
crítica do meio aqui que era uma coisa muito pequena, incipiente.
Deise Marin - Quem é que estava no poder da Secretaria
de Cultura ou da própria Fundação?
DB - O próprio Ennio.
GL - O Virmond não lembro se estava.
DB - Também era, fez parte, mas depois a Adalice
ficou no MAC um tempo, bem mais tarde.
Deise Marin - Entrevistei o Ennio, ele não lembra
de nada, não sabe de nada. Ou até não quis...
GL - O Ennio fez uns comentários, na época,
sobre o Motocontínuo e ele achou problemas na parte de
acabamento das obras. Me lembro até que eu falei: "Olha,
Ennio, mas não era essa questão." A gente era
muito jovem. Ele estava procurando outras coisas, outros valores.
Ele gosta até hoje do tipo de produção bem
acabada, da produção hiper-realista, mais...
DB - É a escolha dele, não é?
GL - É, é a visão dele.
Deise Marin - Ele chegou a comentar de você: "Ah!
Aquela exposição tinha o Geraldo!" E eu fui
falando dos participantes. " - O trabalho do Geraldo sempre
foi muito bom."
DB - Mas ele já está vendo assim...
Deise Marin - Mas ele não criticou, não
falou nada.
GL - Exatamente, me lembro que ele falou do Motocontínuo
exatamente isso, já na época.
DB - O que você aí nos textos da Nery Batista
ou mesmo da Adalice...
GL - Botaram as nossas palavras lá, porque eles
não tinham um parâmetro para discutir a obra. Tinham
até boa vontade, tanto que reproduziam tudo o que falávamos
mesmo. Não era conversa.
DB - Acho que até hoje eles têm uma falta
da reflexão do crítico, isso é uma coisa
que não se preencheu em Curitiba. Então, reflexão
crítica... Você vê pelo próprio Salão
Paranaense. Agora, você vai ver o que tem de reflexão
crítica. Nenhuma. Então, é comum acontecer
e não ter uma reflexão crítica a respeito.
GL - Exatamente.

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