| Deise Marin - Escrevi, de antemão,
algumas perguntas. Fiz isso porque você é o primeiro
escritor ou pessoa que escreveu algum texto no Moto Contínuo
que entrevisto. E porque a pesquisa vinha sendo mais esquematizada
para os artistas que faziam pintura ou desenho. Então, vou
fazer umas perguntas para ver se você lembra. Como se deu
o convite para você participar no Motocontínuo? Como
é que foi o seu conhecimento do grupo?
AP - Bom, a minha ligação inicial foi com
o Mohamed. Em 1977 estudamos juntos. Era o primeiro ano do curso
de Desenho Industrial da Universidade Federal. Acabamos nos aproximando
logo e naturalmente. E por causa da semiótica, passamos
a discutir, a conversar muito e a nos encontrar com bastante freqüência.
Deise Marin - ...foi uma conseqüência...
AP - Foi sim. Com certeza. Acho que quase todos os participantes
do grupo conheci através dele. Na época, já
tinha conhecimento do trabalho...
Deise Marin - ... de cada um deles?
AP - Não. Eu não participei das reuniões.
Deise Marin - Ah, você não participava daqueles
encontros semanais que eles tinham lá?
AP - Muito esporadicamente. Mais como ouvinte, visitante,
do que como participante. Muito de vez em quando... Esses encontros
eles faziam ali, no atelier da Eliane (Prolik).
Deise Marin - Tinha aquele Fiat Flux na porta.
AP - Tinha, sim. Aliás, tem, ainda.
Deise Marin - (Falando sobre o jornal) Várias pessoas
escreveram nesse jornal, não é? Vocês escreviam
os textos individualmente ou faziam a coisa meio em conjunto,
à quatro mãos?
AP - Não, o que está publicado aqui foi
produto de trabalhos individuais de cada um de nós. Do
César (Bond), da Josely (Vianna Baptista), meu...
Deise Marin - Vejo assim, não analisei ainda, também
não entendo muito, até gostaria que você me
desse uns toques, vocês faziam parte, não digo de
uma Escola, um movimento, mas você lidava com essa questão
da semiótica, da metalinguagem e vocês trabalharam
quase todo mundo em cima disso também? Era uma coisa do
jeito na época ou uma particularidade do grupo de vocês?
AP - Olha, a semiótica era uma espécie de
estrela entre as teorias que informavam muita gente, inclusive
os artistas. E havia um grupo grande de pessoas ligadas à
Associação Brasileira de Semiótica. Na época
e mesmo antes disso, no final da década de 70, começo
da de 80, a ABS - Regional do Paraná era uma das mais ativas
no país. Essa Associação reunia gente de
muitas áreas de conhecimento diferentes, pessoas que se
encontravam, discutiam, promoviam encontros locais e nacionais,
eventos culturais... Uma coisa que acho que ajudou a difundir
esse interesse pela semiótica é que essa Associação
promovia, anualmente, Semanas de Semiótica, com muitos
convidados de expressão nacional, que aconteciam no ambiente
da Biblioteca Pública, da Universidade Federal, do Museu
Paranaense... O I Congresso Brasileiro de Semiótica foi
feito aqui em Curitiba, lá no Parque São Lourenço.
Deise Marin - Era forte mesmo...tinha vida. Paulo Leminski
tinha alguma coisa com isso? Ele era um mestre, mentor, um guia
espiritual?
AP - Ele conhecia a semiótica. Escreveu sobre semiótica.
Não se dedicou muito a ela. Mas ele a conhecia e a divulgava
em alguns artigos publicados em jornais. Acho que ele contribuiu,
sim, com essa questão. No Brasil, há uma forte ligação
da poesia com a semiótica. Um dos grandes divulgadores
dessa teoria no país foi o poeta Décio Pignatari.
Parece, até, que foi ele o responsável direto pela
sua importação inicial. A "culpa", por
exemplo, de hoje termos a semiótica incluída no
currículo mínimo dos cursos de Desenho Industrial,
é dele, Décio. Então, essas coisas ficaram
muito próximas - a poesia, em especial a poesia concreta,
e a semiótica. Mas não diria que Paulo Leminski
tenha desejado ser um mestre, um mentor, um guia no que diz respeito,
particularmente, à semiótica.
Deise Marin - Queria que você me explicasse porque
é uma coisa que não sei: Metalinguagem, pelo que
sei, não chega a ser um estudo de todas as linguagens mas
o que é exatamente? Você consegue me definir isso
assim, para eu entender melhor?
AP - Posso tentar. Metalinguagem quer dizer, etimologicamente,
"depois da linguagem". Na prática quer dizer
"linguagem que está além da linguagem objeto".
Trata-se de tentar entender o trabalho, a obra, a linguagem objeto,
enfim, a partir do próprio trabalho, da própria
obra. E tentar explicar isto, tentar codificar esse entendimento
em outro instante de linguagem; provavelmente de linguagem verbal.
A tradução metalinguística não precisa
ser necessariamente em forma de textos, mas a esmagadora grande
maioria é apresentada em forma textual.
Deise Marin - ... em forma textual...
AP - E a coisa da metalinguagem tinha uma importância
grande, porque era uma espécie de Cruzada Santa contra
os críticos, contra a forma crítica tradicional.
Ela, a crítica tradicional - que persiste ainda hoje -,
é mais mercadológica. Realiza mais o trabalho de
ajudar a vender a obra ou o artista, do que o de tentar entender
o que está "escrito" ali.
Deise Marin - Ler realmente o contexto da obra.
AP - Isso no sentido da Metalinguagem como tradução
verbal. Agora, tem também a Metalinguagem como a que o
Geraldo Leão faz, e o Mohamed também fez, que é
exercida através da própria produção
artística. Uma produção que é crítica
em relação à tradição. O Mohamed,
por exemplo, quando o conheci, fazia uma pintura assim, meio surrealista,
com um traço muito bom, um desenho de dar inveja. Depois,
com o passar do tempo, ele foi percebendo que o trabalho de pintura
deveria, necessariamente mesmo, se referir, fazer uma crítica
à forma tradicional da pintura. E nesse trabalho de crítica,
uma espécie de auto-crítica em relação
à sua própria tradição, foi se tornando
metalinguístico. E aí vem o uso, quer dizer, a exploração
que ele fez, o Geraldo fez, da tela não como uma janela
aberta para o mundo, essa tradição Renascentista,
figurativa, mas passaram a explorar os próprios constituintes
materiais da pintura sobre tela.
Deise Marin - O plano, essas coisas...
AP - Isso. Mais a delimitação do próprio
quadro... O Geraldo tem até um ponto de vista teórico,
uma visão muito precisa, muito legal do questionamento
dos limites do quadro. Ele teoriza sobre alguns pintores da história
mais recente que realizaram uma pintura que, embora tenha o limite
físico do quadro, a forma dela parece que...
Deise Marin - ...ultrapassa...
AP - Isto. É como se fosse um recorte de uma coisa
que é maior, que escorre além das bordas do próprio
quadro. Nesse sentido, então, o próprio trabalho
artístico também pode ser metalinguístico.
Deise Marin - E mesmo o Mohamed, se não estou enganada,
não comecei a fazer o levantamento dele ainda, ele quase
que cria um alfabeto só dele, uns signos, como se fosse
uma linguagem mesmo, não é? Isso tem referência
também a esse processo que estava tendo de tentar introduzir
a Metalinguagem ao trabalho dele?
AP - A busca por uma linguagem individual era uma pesquisa
comum, na época - acho que ainda é. Embora os artistas
do Motocontínuo estivessem reunidos em um grupo, embora
trabalhassem de uma forma mais coesa, embora eles tivessem idéias
em comum, acho que no trabalho de cada um a tentativa era de individualização
pessoal das possibilidades da linguagem artística. Quanto
ao Mohamed, acho que uma grande sacada dele, de desenvolvimento
pessoal da linguagem da pintura, foi a de explorar os gestos de
uma mão que escreve...
Deise Marin - Quase um alfabeto?
AP - O seu ponto de partida foi o gestual da escrita...
Deise Marin - ... árabe?
AP - Árabe. Na hora em que você pesquisar,
você vai ver isso. Vai sentir que as formas lembram muito
as letras árabes. Nessa época a sua exploração
era bem mais acentuadamente gestual: ele pintava valendo-se de
gestos semelhantes aos da escrita, cobrindo o quadro com essa
espécie de "letras". Depois, com o tempo, um
pouco antes de morrer, o trabalho dele começou a explorar
as próprias formas dessas "letras". Mas aí,
já tridimensionalmente. O volume aparece.
Deise Marin - Ah, isso não vi ainda. Eu vi essa parte do
papel mesmo. Até no Motocontínuo ele tem como se
fosse um pergaminho, enrolado, que você ia desenrolando
e enrolando, sabe, aí aparecia a obra ali. Não vi
ainda essa coisa do tridimensional.
AP - Mas não é um volume tridimensional
de fato. É tela mesmo.
Deise Marin - Ah! É tela mesmo!
AP - A forma que aparece na tela é que é
tridimensional. Essa tridimensionalidade surge relacionada à
observação imaginativa da intensidade e da temporalidade
do gesto de uma mão que escrevesse essa letra sobre um
plano macio, sensível à pressão. Aqui a pintura
já não é mais somente gestual, mas é
a representação tridimensional, cuidadosa, de uma
forma...
Deise Marin - Voltando ao Motocontínuo, parece
que houve uma distribuição de textos no dia da abertura
e em alguns dos eventos que foram realizados. Como esse aqui (
o texto pequeno que fala de várias pessoas)...
AP - Esse texto, de fato, estava lá para ser distribuído
no primeiro dia. Não sei se continuou. Agora, de outros
textos, não tenho notícia.
Deise Marin - Sei que é difícil, já
faz tanto tempo, mas me fale um pouquinho desse texto aí...
AP -Aí tem uma provocação e um pouco
de informação também. A provocação
tem a ver com aquela coisa do cuidado com a individualização
pessoal da linguagem. Daí o uso dos termos "pirataria",
"paródia"... Esse negócio do "o gozo
é a prova dos 69", por exemplo, é uma paródia
de "a alegria é a prova dos nove", de Oswald
de Andrade. Quem fez foi o José Buffo que, na época,
fazia parte de um grupo de poetas que se chamava Tatotal.
Deise Marin - Tem um outro texto, também, que não
sei se partiu direto dos artistas, mas acho que teve até
um pouco da mão de vocês, escritores, que é
esse aqui do 69.
AP - Da minha mão, acho que não tem, não.
Esse "eta moto mito" é uma coisa que me lembro
de ter ouvido do Mohamed. Agora, o que não tenho certeza
é se é um texto coletivo ou é só dele.
Deise Marin - É. Eu pensei que era um texto de
todos assim, das reuniões, cada um ia falando uma coisa,
o outro ia falando outra e daí...
AP - Eu acho que pode ser isso mesmo. Mas não tenho
certeza.
Deise Marin - Já que você estuda a história
da arte, você acha que tem alguma coisa a ver com os Dadás
esse tipo de linguagem?
AP - Ah! Com certeza tem. Mas não no sentido de
voltar a fazer o que já foi feito. Acho que se não
tivesse havido um movimento como o Dadá ...
Deise Marin - Não sairia isso aí.
AP - É. É muita fácil simplificar
toda a história assim... Mas que tem uma ligação,
que faz parte da mesma linha evolutiva, isso faz, com certeza.
Quer dizer, essa coisa da ação coletiva e aquela
que ainda perdura, da ocupação de um determinado
espaço, das instalações, acho que tem muito
a ver, tem uma ligação evolutiva sim.
Deise Marin - Estava vendo também que achei que
tem umas coincidências, uma das coisas que quero realmente
ver se tem ou não é com as idéias do Grupo
Fluxus. Eles tinham essa coisa também da metalinguagem
já vinda dos neo-dadás, essa coisa toda. Nem que
seja uma referência, não sei, estou pesquisando.
Quer dizer, vou ter que pesquisar para ver se eu acho alguma coisa,
não é?
AP - Você já conversou com quem? Com a Eliane?
Deise Marin - Com a Eliane, com o Geraldo, com a Rossana
e com a Denise. Não peguei nada do material ainda, tenho
um livro até lá, mas não comecei a ver nada
do Raul e nem do Mohamed, justamente porque os dois que não
estão aí, mas agora até não sei se
vou, qualquer hora eu quero ler alguma coisa, ou pegar algum material,
mas vou analisar mais o contexto como um todo. Antes ia fazer
uma coisa individual, tentar fazer uma leitura das obras. Mas
as obras estavam meio imaturas, estavam todos meio começando
nessa exposição; então, não iria ficar
muito legal . Acho que analisar o contexto da exposição
é muito mais...
AP - E a Laura Miranda não participou dessa?
Deise Marin - Não, ela foi participar depois porque
em vários jornais estava "Laura Miranda", depois,
ela vez acho com a Denise, Eliane e Laura. Ontem até perguntei
isso para a Eliane e ela não disse, parece que nem na Bicicleta
ela não tinha participado também.
AP - Na Bicicleta tinha Denise Roman também.
Deise Marin - Tinha. Eram mais, tinha Leila Pugnaloni...
AP - Ah, a Leila também.
Deise Marin - É. Tinha até uns meninos que
eu não conheço.
AP - Você tem aquela foto deles aí?
Deise Marin - Sei que não conheço o Sherega,
o Antonio Carlos Sherega...
AP - Ah, o Sherega! Ele é professor de Arquitetura
da PUC.
Deise Marin - De São Paulo?
AP - Não, daqui.
Deise Marin - Aqui? Quem mais não conheço?
O Marco Antonio Camargo... E o Luis Hermano que está em
São Paulo. É ele que está em São Paulo?
AP - O Luis Hermano participou também? Ah, é!...
Eu conheci o Luis Hermano em Marília ou em São Paulo,
em 1977, 78. Quem nos apresentou foi Júlio Villani , que
também é artista plástico e que hoje mora,
como a muitos anos, em Paris. Minha ligação mais
estreita com o Júlio começou em 77 lá no
interior paulista. Ele surgiu com a idéia de transformar
uma exposição sua - uma individual - em um evento
que, hoje, seria chamado de multimídia. Assim, eu, André
Bueno (um misto de poeta, dramaturgo, diretor e ator) e Márcio
Marinho (compositor, músico e cantor) nos juntamos ao projeto
inicial do Júlio e realizamos uma mostra de música-pintura-poesia-teatro
que foi batizada "Linguajaratual". A partir daí,
já com Júlio morando na França, a gente constituiu
o que ficou conhecido como grupo "linguajaratual", que
produziu esta espécie de festival multimídia de
inverno em 78, 79 e 80, sempre agregando, misturando ou combinando
várias modalidades de linguagem e de criadores. Foi assim,
então, por causa deste grupo e através do Júlio
que eu conheci o Luis Hermano. Depois disso, fiquei muito tempo
sem vê-lo. Aí, já em plenos anos 80, surpresa:
"- Ô!". Ele me aparece aqui em Curitiba...
Deise Marin - "- O que você está fazendo
aquí?...". E até essa coisa que você
falou do grupo é uma coisa muito forte, né, nos
anos 70, essa reunião de um grupo. E hoje em dia acho que
cada um segue seu caminho muito isolado. Você acha que isso,
a seu ver, é por causa da repressão, da ditadura?
Ou da falta de informação, então, as pessoas
procuravam se reunir para tentar se informar um pouco?
AP - Acho que era um pouco disso tudo, dessas duas coisas.
Mas também um sentimento que era muito próprio dos
anos 70, o de viver em bando. Aquela coisa da contra-cultura,
das comunidades hippies, era um modo da gente tentar viver de
uma forma diferente...
Deise Marin - Essa exposição, a Motocontínuo,
ela teve alguma importância para a sua carreira ou foi uma
coisa passageira?
AP - Passageira, porque a minha participação
no grupo foi bem pouco intensa. No evento limitou-se a essa minha
colaboração impressa no jornal e aos "panfletos"
distribuídos na abertura.
Deise Marin - Quanto aos textos, existia um critério
de escolha? Vocês mesmos escolhiam, eles faziam uma seleção,
tinha uma espécie de curadoria entre aspas?
AP - Olha, se me lembro bem, este meu trabalho que foi
impresso já estava praticamente pronto. Acho que foi a
ocasião de mostrar. Quanto ao "panfleto", não
houve avaliação prévia alguma, com certeza.
De qualquer modo, não ia dar tempo, mesmo. Ele ficou pronto
momentos antes de ser distribuído.
Deise Marin -Quais eram os seus escritores ou artistas
favoritos, que tenham tido alguma influência no seu trabalho?
AP - Em primeiro lugar, uma coisa vinda da infância
tardia, da pré-adolescência. Eu ficava intrigado
com poemas como "uma rosa é uma rosa, é uma
rosa...", de Gertrude Stein, ou "stop/ a vida parou/
ou foi o automóvel", de Manuel Bandeira. Daí,
a curiosidade me levou aos poemas e poetas concretos: Augusto
de Campos, Décio Pignatari, Haroldo (de Campos)... Da época
da adolescência, os poetas da chamada contracultura, da
"poesia marginal", os poetas de "mimeógrafo",
quase todos no Rio de Janeiro. Muitos deles fazendo dublê
de letristas da MPB. Torquato Neto, Wally Salomão, grupos
de poetas que se reuniam e publicavam revistas, como o pessoal
da Nuvem Cigana com o Almanaque Biotônico Vitalidade, por
exemplo... Nicolas Behr. Já em Curitiba, o Paulo Leminski,
com certeza.
Deise Marin - E haviam grupos semelhantes aqui?
AP - De poetas?
Deise Marin - Sim.
AP - Não. Curitiba... Bom, tinha sim. Tinha, nessa
época da década de 70, o grupo Tatotal, com José
Buffo, Artur Maiolli... Um pouco depois, Tadeu Wojciechovski,
Marcos e Roberto Prado, Edílson Del Grossi, entre outros,
agrupando-se e constituindo o que talvez pudesse ser chamado "núcleo
Oss". Paulo Leminski sempre foi um atirador livre, embora
trabalhasse com os músicos do Blindagem, com artistas como
Rogério Dias, Rettamozzo, com poetas como Alice Ruiz...
Deise Marin - Qual era a sua postura na época diante
da tradição?
AP - Era a de me opor sistematicamente a ela.
Deise Marin - Era contra mesmo?
AP - Hay gobierno? Soy contra!... Isso em todas as áreas:
na produção cultural, na existencial, na amorosa...

|