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Geraldo Leão - A exposição da Bicicleta
foi muito importante porque foi a primeira exposição
em que participei que teve um grau de comprometimento com um pensamento,
com a concepção, desde a concepção
da exposição até a execução
final. Isso é uma coisa que não tínhamos
aprendido na escola. Passamos, na escola, criando, fazendo uma
coisa mais livre, sem muito acompanhamento. E em 82, após
dois anos já formado, nos reunimos e houve uma série
de discussões, encontros, debates. Sobre o que seria a
exposição, qual a importância de fazer a exposição
com aquelas pessoas, o que esta exposição deveria
significar? Então, foi o primeiro contato que tive com
uma atitude responsável diante da produção.
Isso foi muito importante.
Deise Marin - A que conclusões chegaram nesses
debates, nessas reuniões, para a Bicicleta tomar esse corpo
que ela teve?
GL - Chegamos a conclusão que estávamos
extremamente insatisfeitos com o cenário artístico
que se encontrava na cidade. E nosso âmbito era na cidade
mesmo, dentro dessa área, em termos de Brasil e de mundo
não tínhamos esse alcance. Mas, ao mesmo tempo,
não assumíamos mais a idéia de atitude de
vanguarda, não tínhamos essa ilusão, nem
essa pretensão. Queríamos, o que praticamente todos
queriam - fazer o seu trabalho independente de qualquer tipo de
pressão, seja social, seja estética, seja econômica.
Estávamos saindo da ditadura, a ditadura, estava em processo
de acabar, meio dentro ainda. Todos tínhamos crescido como
adolescentes sendo pressionados pelos militantes mesmo, pelas
pessoas que enfrentaram a ditadura. Eu fui formado (na ditadura)
para tomar sempre atitudes socialmente conseqüentes, responsáveis.
Achávamos que o trabalho artístico era uma coisa
que discutia diretamente nesse ambiente, mas não devia
ser necessariamente direcionado apenas por ele. Então,
chegamos à conclusão que não tínhamos
nada em comum com todas estas pessoas, a não ser mostrar
o trabalho, esta produção, Escolhemos o nome "Bicicleta"
exatamente por isso, porque não significada nada, não
tinha um significado que desse algum tipo de unidade entre o pensamento
das pessoas. Aprendemos que havia uma profunda divergência,
e que essas diferenças eram para serem respeitadas. Ao
contrário do que tanto os militares pregavam, quando os
de esquerda pregavam na época, a unanimidade não
existia.
Deise Marin - E depois na Bicicleta, o que você
estava desenvolvendo? E os desenhos?
GL - (...) esses eram os desenhos que eu sempre fazia
na escola.
Deise Marin - Você chegou, como no Motocontínuo
a fazer um contexto, montar alguma outra coisa ou estavam expostos
da maneira tradicional?
GL - Eles estavam na parede mesmo... mas, um pouco antes
de finalizar os trabalhos para a exposição, percebi
que estava discutindo desenho e também o modo como a imagem
é transformada em linha, em caligrafia, que era essa discussão
da letra, da forma. Daí se imaginar de que forma o desenho
se comporta qual a origem dele, por que ele existe. Comecei a
perceber que tudo acontece a partir do movimento corporal. Então,
comecei a pensar que o desenho é nada mais que o registro
do movimento físico. Então, fiz aqueles moldes no
torso porque chamavam atenção para este aspecto.
Deise Marin - Daí a ligação com o
torso?
GL - É, existe com registro que torna super estranho,
que fixa alguma coisa que está permanentemente em movimento
que é o corpo, e tem esta questão do tempo, da colocação
da linguagem. A meu ver, o torso, o molde de gesso tem esse caráter
de fixar mesmo alguma coisa que está sempre se transformando.
Deise Marin - Fixar o momento?
GL - É, não no sentido de morte, mas de
suspensão temporal e tudo mais.
Deise Marin - E agora, falando em Motocontínuo,
daí passou-se logo em seguida? Não demorou muito
tempo.
GL - Um ano, foi em 83. Bicicleta em 82, Motocontínuo
em 83.
Deise Marin - Na parte da Bicicleta vocês tinham
algum embasamento teórico, vocês chegaram a escutar
é ... algo teórico?
GL - Não.
Deise Marin - Não ainda?
GL - Por isso que a única... cada um... todos líamos
bastante desde o tempo de escola. E a gente era muito diferente,
não havia nada que unificasse isso. Por isso, acho que
o Raul apareceu no último dia de entregar as provas do
cartaz da impressão com uma frase do Nietzsche, da sua
obra Assim falou Zaratustra, que falava justamente isso: "venham
todos que estiverem a fim de comer". Por isso fizemos aquela
foto da "Santa Ceia", era uma idéia de juntar
a diferença mesmo.
Deise Marin - E daí você partiu para o Motocontínuo.
Nesse meio tempo, você foi desenvolvendo seu trabalho e
deu para notar que você saiu do desenho super forte para
a colagem, uma coisa mais ...
GL - É. A idéia era no Motocontínuo,
a Bicicleta era um negócio muito diferente, as pessoas
eram muito diferentes mesmo, era muita diferença junta.
Então, continuamos aquelas conversas, que acabaram naturalmente
se restringindo a um grupo menor, que eram essas pessoas que formaram
o Motocontínuo. Resolvemos fazer uma exposição
um pouco mais fechada, menos solta que a Bicicleta tinha sido.
Porque passamos muito tempo conversando, discutindo, brigando,
mostrando o trabalho um para o outro.
Deise Marin - Seis meses ou um ano.
GL - Pelo menos um ano. Seis meses mais concentrado, mas
um ano de conversa, pelo menos uma vez por semana, mostrando o
que tinha feito durante a semana. Como essas conversas eram necessariamente
mais rígidas, obrigavam à conseqüência
maior da gente, do trabalho. Comecei a pensar que o desenho era
uma coisa muito espontânea, solta, automatizada, que devia
fazer uma coisa com a qual não estava acostumado. Testar
o novo. Quando se costuma fazer certos tipos de movimentos, faz
sem pensar, mas existe uma gama muito maior de possibilidades
que não se faz, justamente por estar habituado a uma possibilidade
só. Então, fiz justamente o oposto. Nunca tinha
trabalhado com cor. Era só uma linha super orgânica
e completamente monocromática. Então, resolvi trabalhar
com formas geométricas e cor só.
Deise Marin - Mudou tudo!
GL - Para criar problema!
Deise Marin - Nova experiência.
GL - Mas as cores não são por acaso. Escolhi
as formas geométricas porque por essa referência
racional. Se queria trabalhar com questões menos espontâneas,
menos emotivas. Escolhi, propositadamente, as formas geométricas.
E como estava estudando muito, pensando na origem da nossa cultura,
na falta de origem da nossa cultura, da falta de cultura que a
gente tem na origem, passei a estudar a "Semana de Arte Moderna".
Talvez isso seja um dos primeiros momentos da história
em que essa questão foi proposta muito radicalmente. Então,
de brincadeira, escolhi o verde, amarelo, azul e branco, as cores
com as quais trabalhava.
Deise Marin - Brasil mesmo....
GL - De onde viemos, qual é a nossa cara? Mas era
tudo uma brincadeira com a idéia de antropofagia. Usava
uns logotipos da bananeira...
Deise Marin - Aqui a sua preocupação era
mais com a organização do espaço?
GL - Com a cor. Papel super barato, está descorando;
mesmo fechado, está descorando.
Deise Marin - Mas também! Está guardado
há tempos!
GL - Sim, bastante tempo.
Deise Marin - E com esse resultado que você chegou,
o por que de... isso seriam moldes do seu próprio corpo?
GL - É, meu e de pessoas que estavam na exposição.
Era uma referência daqueles torsos, da Bicicleta. Achava
muito importante, era quase uma busca de realismo, do que realmente
somos. E essas esculturas foram feitas na hora em que as pessoas
entravam na vernissage, na inauguração. Eu fazia
moldes deles e incorporava na exposição. Eram esculturas
instantâneas. Pode reparar...
Deise Marin - A partir desse trabalho é que você
estudou essa coisa do movimento, de corpo, esses aqui que têm
Motocontínuo embaixo, isso estava exposto também?
GL - Esse aqui foi exposto naquela segunda parte da exposição,
mas eles eram usados como cartazes, eram pregados na rua também.
Deise Marin - Queria que você falasse dessa exposição
do Motocontínuo. Como é que aconteceu? O que mais
que tinha? É... tiveram algumas performances, né?
GL - Sim.
Deise Marin - Esses contatos que vocês tinham tanto
com pessoas quanto com as pessoas que faziam performance e vocês,
os artistas, no dia lá o que aconteceu assim? Qual a impressão
que ficou para você?
GL - O que queríamos, como o nome que escolhemos
diz, era mexer com a s pessoas, lidar com a questão que
para nós nunca foi estática, definida. Enquanto
víamos o tempo todo, escutávamos o povo falar de
manifesto de arte, críticas de arte, opiniões de
arte, o que víamos, o que percebíamos na nossa vivência,
é que a arte é tudo, menos definição,
menos o que possa ser definido. Era um movimento perpétuo.
Daí chegamos a essa idéia de Motocontínuo.
Queríamos fazer uma exposição que rompesse
aquela expectativa da obra pronta, porque estamos sempre em processo.
A obra acaba quando morremos. Não tem uma coisa fechada,
isso aí é subproduto, produzimos objetos, são
produtos do nosso trabalho, do pensamento.
Deise Marin - E a obra mesmo seria todo o conjunto delas?
GL - Daí a ligação que tínhamos
com os poetas, músicos, atores, foi um passo natural. O
Orlando Fraga, o Norton Dudek são professores da Belas
Artes, e da Federal. Hoje até estão nos EUA ou Inglaterra,
tocaram não sei quanto tempo. Beto Perna que era bailarino
e ator, fez uma performance lá, tinha teatro, peças,
cinema, super oito. Então, era uma exposição
natural dessa idéia da gente.
Deise Marin - Parece que no dia lá na vernissage
tinha umas folhas no chão, vocês colocaram alguma
coisa que fizesse barulho. Você não lembra disso
melhor? Acho que foi a Eliane que falou. Vocês fizeram alguma
coisa que pudesse mudar tudo aquilo!
GL - Ah, não. Isso foi na Bicicleta.
Deise Marin - Na Bicicleta?
GL - Porque era tão caótica a mistura, era
tudo tão diferente, tinha muito artista. Então,
as folhas foram pensadas para dar unidade no espaço. Foi
uma coisa que pensamos como diversão, assim, uma coisa
legal. A única maneira de reunir aquilo tudo, dar uma unidade
à exposição, era encher a sala inteira, o
hall do Guaíra inteiro com uma camada de uns quinze centímetros
de folha de plátano. Era um problema, tivemos que varrer
tudo, chegaram os bombeiros lá, era um perigo aquilo. Jogam
um cigarro lá e seria uma tragédia.
Deise Marin - Na Bicicleta havia toda essa diversidade
de obras, essas performances, mas me parece que vocês tiveram
uma certa preocupação com essas coisas dos meios
de comunicação, até porque vocês levaram
a obra para a rua, fizeram os cartazes. Isso era uma preocupação
consciente de vocês?
GL - Isso era fundamental. A gente queria fazer tudo,
menos trabalho de museu, trabalho de galeria. Acho que o que fizemos
na época, foi pouco entendido principalmente nesse aspecto,
porque houve algumas cobranças da falta de acabamento do
trabalho. Muita gente pensou no que expomos como se tivessem a
preocupação de ser obra acabada, objetos estéticos.
Queríamos fazer tudo menos isso. Queríamos que o
nosso trabalho, o nosso pensamento, fosse para rua dialogar com
as pessoas, no dia-a-dia, no ponto de ônibus. Para isso
que é a arte mesmo, ela mexe com a vida das pessoas, faz
com que, elas, discutindo quebrem o ritmo banal. Banal, no sentido
de automatizado, de cotidiano, que é essa experiência
diária.
Deise Marin - Foi uma ação que quebrou o
uso normal da vernissage, da exposição, vocês
levaram para a rua e aí fizeram uma segunda exposição,
do Motocontínuo, dentro da mesma mas com coisas novas,
sempre com essa coisa de renovação.
GL - Com a idéia de movimento.
Deise Marin - E o nome? Alguém em especial conseguiu,
chegou a esse nome ou era brainstorming total assim?
GL - Sabe que não lembro! Tudo era brainstorming
no total mesmo, mas não lembro quem foi. Engraçado,
mas não lembro .
Deise Marin - Foi uma idéia que foi surgindo assim...
GL - É. .. não lembro...
Deise Marin - Na época que você trabalhou
tanto na Bicicleta quanto no Motocontínuo, tinha algum
artista ou algum teórico que tivesse influência sobre
você e que você sentisse essa influência no
seu trabalho?
GL - O escritor Julio Cortazar. E logo depois, a partir
do Motocontínuo, como estava estudando bastante a "Semana
de 22", os críticos que foram a minha principal base
teórica, da teoria literária. Fui estudar Artes
Plásticas bem mais tarde, dez anos depois. Foi basicamente
o Antonio Cândido, Haroldo de Campos, os irmãos Campos
em geral, Benedito Nunes, que faziam aqueles ensaios discutindo
a "Semana de Arte Moderna".
Deise Marin - O seu trabalho no Motocontínuo daria
para falar assim, a grosso modo, que seria uma reinterpretação
da Semana de 22?
GL - Não.
Deise Marin - Não?
GL - Não. É uma discussão sobre os
aspectos formais da pintura, mas acho que, mais ligada à
questão da origem da cultura, da nossa cultura. Quase um
modo de ver, um tema, sabe como quem vai formar uma paisagem...
Deise Marin - Você enquadraria o seu trabalho nessas
duas exposições cada um dentro de algum movimento,
de alguma linha?
GL - Não. Não por questão de consciência
mas ignorância mesmo, fazia um desenho que é completamente
pessoal, depois parti para coisas completamente impessoais mesmo.
Deise Marin - Qual era a sua postura diante da tradição
dos anos 79/80? Vocês eram totalmente contra tudo aquilo
que marcou essa tradição?
GL - Bom, não éramos contra, só não
sentíamos nenhum tipo de relação com aquilo,
com a nossa tradição, passado artístico do
Paraná. Era um legado que não reconhecíamos,
que não nos informava.
Deise Marin - Não dizia nada.
GL - Não dizia nada, não aprendíamos
nada com o Guido Viaro, com as pessoas da Escola. Pessoas que
até gosto, mas que artisticamente não transmitian
nada com o que pudesse discutir.
Deise Marin - Na época, vocês tinham alguma
informação através de livro, revista, sobre
o que estava acontecendo lá fora ou era uma coisa só
entre vocês mesmo, uma troca de informações?
GL - Mais literária do que teórica.
Deise Marin - E nisso tudo vocês estavam tentando
fazer...
GL - Falo de mim, caráter pessoal.
Deise Marin - Sim. Vocês estavam tentando fazer
um movimento paranaense? Tinham uma idéia assim de movimento?
GL - Não.
Deise Marin - Não?
GL - Idéia de movimento. Não de um movimento,
só o fato de se mexer, fazer coisas, de quebrar o automatismo,
de quebrar a falta de percepção da realidade com
atitudes não cotidianos, não habituais. Nunca admitimos
esta história de grupo, de um movimento, era um evento.
Deise Marin - Um evento. E esses jornais que vocês
faziam com grafismos, isso era totalmente livre? Cada um fazia
o que bem entendia?
GL - O que bem entendia.
Deise Marin - E isso era distribuído não
só no dia da vernissage, mas depois também?
GL - Sim. A semana inteira, o mês inteiro, saíamos
colando pela cidade essas coisas, no meio das feiras, dos eventos
Deise Marin - Vocês sentiram algum retorno da comunidade
nesta ação?
GL - Não, não. (risadas)
Deise Marin - Vocês sentiram alguma modificação
ou inovação do cenário cultural com essas
duas exposições?
GL - Acho que para alguns artistas mais jovens, que vieram
logo depois da gente, acrescentou alguma coisa, principalmente
na possibilidade de se fazer uma produção não
restrita assim ao "objeto artístico", pronto
e acabado. Que eles não precisavam fazer quadrinhos, podiam
ter uma atuação mais efetiva mesmo junto com as
pessoas.
Deise Marin - Uma postura mais solta?
GL - Mais responsável. Mais solta por um lado,
mas mais responsável por outro.
Deise Marin - Mais pensamento, mais conteúdo?
GL - Sim.
Deise Marin - Na época, fora essa influência
literária, vocês tinham influência de artistas
plásticos, talvez até os clássicos?
GL - Não.
Deise Marin - Não?
GL - Particularmente, foram fundamentais para minha formação
e também para muitos da minha geração, por
um lado o Zimmermann, o Rones, a Bia Wouk e o Ruben Esmanhotto.
Por outro lado, justamente pelas qualidades opostas, tem o Rogério
Dias, o Rettamozzo, o Solda, o Leminski, que eram pessoas extremamente
irreverentes. Gostava muito da visualidade mais moderna, contemporânea,
como já me referi anteriormente, do Zimmermann, do Rones
da Bia, que quebravam aquela coisa das paisaginhas que tinha na
Escola. Mas, por outro lado, achávamos que eram muito comportados.
Não éramos tão comportados quanto eles e
isso é um problema, sabe? Não era capaz de fazer
uma coisa tão bem feitinha e me sentir satisfeito. Por
outro lado, achávamos que o Rogério, o Retta principalmente,
o Lemiski, eram irreverentes demais.
Deise Marin - Dois extremos.
GL - Enquanto uns eram extremamente competentes do ponto
vista formal, os outros eram extremamente competentes do ponto
de vista intelectual. Aprendi pela primeira vez Semiótica,
Teoria da Comunicação, com eles, com o Retta, Leminski,
Rogério, mas, formalmente, eles eram avacalhados demais.
Acabamos caminhando pelo meio, pegando algumas coisas de inconformismo
por um lado e uma certa visualidade mais responsável e
mais bem acabada por outro.
Deise Marin -Geraldo, gostaria que você me ajudasse
a escolher um dos seus trabalhos que do Motocontínuo, para
tentar fazer essa análise de semiótica.
GL - Primeiro separe você alguns que você
acha mais interessantes.
Deise Marin - Acho esses.
GL - Separe uns com que você tenha mais afinidade,
assim fica mais fácil. Por exemplo, recortava isso aqui,
depois escolhia e pegava isso aqui e colocava ali. Todo trabalho
eu fazia assim. Estes elementos aqui, usava como ligação
entre uma coisa e outra. Acabei usando bastante na pintura.
Deise Marin - Ah, isso aqui você transferiu?
GL - Sim, usei várias coisas que aprendi aí
na minha pintura posterior.
Deise Marin - Aquela fase das mulheres coloridas, com
bastante contraste, isso foi depois?
GL - Sim, depois. Estas coisas praticamente de pinturas,
coisa que, praticamente, nunca tinha feito na Escola.
Deise Marin - Escolhi esses três aqui.
GL - Você quer levá-los pra pensar neles?
Deise Marin - Acho que eu vou levá-los, tiro um
xerox reduzido, alguma coisa, para poder trabalhar.
GL - Está bem.
Deise Marin - Se puder levar?
GL - Claro, pode.
Deise Marin - Não trouxe nada, senão poderia
fotografar tudo.
GL - Eu acho que todos ficaram bem, gosto mais deste aqui.
Este tem o elemento da bananeira.
Deise Marin - Da (...) é legal
GL - [...] que estou até usando agora porque eu
fiz na época a capa do jornal, você tem, né?
Deise Marin - Eu tenho.
GL - O jornalzinho (...)
Deise Marin - Acho que tenho e também o catálogo,
agora da Bicicleta, não tenho nenhum material.
GL - Me ligaram do jormal pedindo para fazer uma camiseta,
mas já tenho pronta. É bem desta época. E
têm todas estas setinha que usava no trabalho.
Deise Marin - Então, por trás dessa idéia
do colorido, da questão da origem, há, na verdade,
uma grande preocupação formal?
GL - Percebi como aspecto de juntar, para formar uma coisa
inteira, com a intenção de manter a identidade mesmo,
tanto cultural, do país, quanto a minha, de saber quem
eu era. Escolhi elementos racionais e tentei arranjar isso do
conseqüente jeito que parecesse uma "cara". Acho
que a idéia de organização aí é
uma coisa bem clara.
Deise Marin - Se você tivesse que fazer uma leitura
semiótica disso, existe alguma coisa que chame a atenção?
GL - Semiótica ? Eu não sei como começar.
Mais começa-se separando os elementos, não é?
As cores são nacionais. Essas cores são transformadas
em módulos formais, esses recortes, formas geométricas.
Mas dos recortes saíram formas não geométricas
que acabaram incorporadas também. Isso também é
um elemento que parte das minhas idéias. Elas nunca acabam
como no projeto inicial, isso é um elemento forte nesse
trabalho.
Deise Marin - E é legal ver porque até hoje,
por exemplo, desde o começo você tem essa ligação
com a forma de captar o instantâneo e essa outra preocupação
mais formal. E até hoje você mantém isto no
seu trabalho, vai ser o teu embate até...
GL - Até eu ter uma resposta...
Deise Marin - Me lembro que você, de uma época
para cá, tem uma pesquisa bem embasada.
GL - Na verdade, é uma coisa de explicar a parte
prática, porque a vida mesmo não tem explicação.
Então, isso que a gente chama de teoria é, na realidade,
uma tentativa de entender o que se faz, o que se sente. Quando
comecei, mergulhei na pintura, depois, parti, de 86-87, a estudar
pintura. Vendo a História da Arte, os artistas começaram
a me interessar, não pela questão teórica,
mas pela maneira que enfrentavam os problemas.
Deise Marin - Descobriam uma resposta?
GL - É, exatamente. Então, o Pollock era
fundamental. Ele coloca muito esta questão de levar ao
extremo. Ao mesmo tempo que leva ao extremo a expressão
individual, pelo movimento, pela gestualidade, consegue criar
uma imagem que é complementarmente, acima do indivíduo.
Aquilo qualquer pessoa podia fazer. Não tem como reconhecer
a caligrafia pessoal dele. Ficamos sem palavras. Na prática
ele mostra que a nossa terminologia é insuficiente, ou
seja, é juntar coisas que aparentemente são opostas.
Isso é que é maravilhoso! Enfrentei este dilema,
isso me ofereceu muitas soluções para o meu trabalho.
Depois, Jasper Johns, Rothko Brice Marden, volta e meia descubro
alguma coisa que eles também tinham descoberto e fizeram
bem antes, questões assim conturbadas às vezes.
Deise Marin - o seu trabalho agora? Qual a sua preocupação?
O que você está tentando descobrir?
GL - Eu não estou tentando descobrir nada, estou
tentando ouvir.
Deise Marin - As vozes internas ou não?
GL - Não, pelo contrário, as vozes externas.
Deise Marin - Externas?
GL - É. Ouvir o outro. Por isso que trabalho com
materiais que são completamente intensos, eloqüentes.
Interfiro o menos possível neles, deixo que eles falem.
Trabalho cada vez mais deixando que as coisas falem por si. Houve
uma daquelas entrevistas engraçadas, que têm no jornal,
onde se pergunta de cor, signo e coisas assim. Achei uma pergunta
muito legal, quando me perguntaram qual a cor que mais gostava,
respondi que era a cor que as coisas têm. Não tem
uma cor que eu goste. Acho que é isso que penso desse trabalho.
O que me interessa, o que estou fazendo agora é esse tipo
de embate, como fazer com que uma coisa se declare totalmente,
que se apresente como um ser, sem que eu dirija isso ou projete
meus desejos, minhas condutas.
Deise Marin - Isso é uma coisa quase, não
que seja impessoal, mas que não tenha uma marca?
GL - É, que tenha a personalidade da coisa.
Deise Marin - Da coisa. E essa sua escolha dos dípticos,
trípticos, é por causa disso?
GL - Uma coisa só existe em função
da outra, não existo mais sozinho, sozinho não tem
sentido.
Deise Marin - Quando você usou cobre, tem aquela
coisa do conceito do que é o cobre?
GL - Só isso que tem. Isso, a força dele
como material, é isso. O fato de ele ter uma cor e de ter
um sentido, uma história.
Deise Marin - E essa história, você tenta
montar com alguma outra coisa que está ao lado para eles
terem um outro significado, uma continuação?
GL - Não, a história é a conversa
dos dois. Cada um. Sozinho não anda, é uma coisa
que... um pedaço de cobre. Ele vem muito mais revelar sua
força quando colocado ao lado do outro, de um outro diferente.
O homogêneo não oferece esta leitura, tem que haver
uma diferença para haver uma intenção, juntar
nesse sentido.
Deise Marin - Nossa! Que bonito!
GL - Esses são os mais narrativos. São paisagens.
Eu fiz uma viagem a Foz do Iguaçu e fiquei tão encantado
com as Cataratas, já fazia muitos anos que não ia
lá e fiquei impressionado com o seu poder. É uma
coisa tão maior que a gente! Vim e fiz uns oito trabalhos
assim, um projeto com oito homenagens às Cataratas. Todos
têm uma faixa de terra embaixo e, normalmente, uma faixa
de azul em cima. E alguma coisa que está entre elas, a
terra e o azul, e o ultra-mar. E naquele caso não, porque
é somente cataratas mesmo.
Deise Marin - Então, muito obrigada, Geraldo.

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