| De Bona: Luz, cor e paixão
"A arte para mim é
uma amante que não perdoa.
Sendo assim,
é necessário estar sempre ao lado dela e com ela."
(Theodoro De Bona)
O trabalho criativo de Theodoro De Bona, como é natural
nos artistas de gênio, começou quando ele era muito
jovem em Curitiba, na época Capital da Província
do Paraná. Nestes anos que ele ainda estava tateando como
aprendiz, além da compreensão e do ambiente da casa
do tio, encontrou duas artistas que nunca deixou de mencionar
e que foram as suas primeiras professoras: Gina Bianchi e Ercília
Cechi. Sempre comentou achar uma falha que os historiadores da
arte no Paraná jamais mencionassem o nome dessas artistas,
principalmente da segunda, que era "possuidora de título
de uma escola de ensino de arte na Itália".
Na casa do tio Arcângelo se fazia música de câmara
("meio rústica", segundo Erasmo Pilotto) e a
professora Gina Bianchi era mãe da violinista Bianca Bianchi.
De Bona amava a música e era apaixonado pelas óperas
de Verdi. Formava-se assim o seu espírito intelectual.
Foi, no entanto, o impulso dado por um artista mais experiente,
João Ghelfi, que o levou ao atelier e às aulas de
pintura de Alfredo Andersen. Foi o próprio De Bona quem
afirmou: "aqui começou, então, a minha verdadeira
carreira de pintor".
Andersen era um pintor norueguês de grandes qualidades técnicas
e pictóricas, ex-professor da Real Academia de Belas Artes
de Copenhague que chegou ao Paraná no início do
século XX e aqui ficou.
A construção do quadro, o desenho pictórico,
a organização das massas cromáticas que De
Bona desenvolveu em suas pinturas, tiveram origem certamente nas
aulas de Andersen. Mas Andersen também propiciava um ambiente
erudito que De Bona procurava, não somente a erudição
artística mas, principalmente, a cultural em todos os seus
sentidos. É possível que daí tenha De Bona
tido a idéia de procurar centros maiores e produtores de
arte, indo então a Veneza. A escolha de Veneza, segundo
ele, se deu pela importância da Academia e da Bienal, talvez
também pela proximidade da terra de seus ancestrais, mas
é provável que tenha sido atraído pelos artistas
que fizeram a reputação da cidade desde o renascimento.
Veneza tem personalidade e mistério: parece ter conseguido
fazer o tempo parar
num espaço próprio dela, que por sua vez se desloca
dentro do mundo moderno.
Diante da Cortina d'Ampezzo teve saudades do Marumbí de
sua terra natal, a sua montanha Sainte Victoire, como ele mesmo
diria:
"Essa montanha (o Marumbi) foi para mim, uma espécie
de Montanha "Sainte Victoire" para Cézanne".
Seus mestres na terra da Bienal davam continuidade ao que ele
procurava: o ambiente erudito, as discussões sobre arte
e a possibilidade de estar próximo dos grandes movimentos
artísticos. Assiste-se De Bona trabalhar a luz, desde a
luz límpida dos vedutistas venezianos até o uso
de uma luz mais dramática, ligada também ao realismo
italiano e presente nas paisagens de Ettore Tito. Em Veneza ele
começa a construir o espaço, mas separa-se do vedutismo
para construir ricas paisagens à partir da pintura ao ar
livre.
Ettore Tito e Vicenzo di Stefano em Veneza completam o trabalho
começado por Andersen e conduzem o jovem artista no desenvolvimento
de sua personalidade e na busca do rigor profissional.
Mas a participação no grupo de artistas venezianos
do Cà Pesaro deve ter lhe aproximado da sensibilidade expressionista.
Foi tocado também, quando procurava a luz-cor dos impressionistas,
pelos toscanos Macchiaioli e é quando sua pintura traduz
as vibrações da luz através de tons puros,
de manchas, que se exaltam mutuamente nos contrastes de claro
e escuro. Os Machiaioli resolvem a pintura de modo diverso dos
vedutistas venezianos, trabalham a tela com a pincelada fragmentada
e não somente com a perspectiva.
Um desenho de Veneza, a Ponte dos Suspiros de 1932, é característica
dessa idéia de veduta veneziana, que é uma vista
ou uma perspectiva cenográfica e ilusionística;
um segundo desenho realizado posteriormente, em 1967, já
mostra um recorte, um fragmento de paisagem, um estudo que deverá
ser completado com as interpretações de luz e de
cor.
Mas ele quer olhar a natureza com seus próprios olhos,
como ensinou John Constable, e não pela interpretação
dos mestres. Sem rejeitar os ensinamentos recebidos, em continuado
questionamento teórico, ele vai em busca de um caminho
que torne sua pintura viva e verdadeira, "ao artista não
se ensina, é ele que aprende", dirá De Bona.
Tem ainda a oportunidade de conhecer a obra de Cézanne
e de Morandi, ambos têm concepções de espaço
análogas, isto é, o espaço é materializado
pelo deslizamento dos planos numa inversão sutil da ordem
de combinação de elementos. É Cézanne,
mais do que o impressionismo, que o atrai na sua construção
do quadro, à partir de uma disciplina rigorosa cuja expressividade
é reforçada pelos efeitos cromáticos das
"pequenas sensações", produzida através
das pinceladas fragmentadas.
Um curto período em Paris e o retorno ao Brasil em 1936.
De Bona é então um artista maduro que constrói
seu quadro à partir dessas sínteses que nada mais
tem de acadêmico mas que mantém o rigor pictórico
à partir do desenho e é esta razão da regularidade
se suas formas e da harmonia do seu colorido. Sob uma construção
mental ele trabalha com as "manchas" contrastantes mas
que restam por toda a sua vida, imbuídas do cromatismo
luminoso e quente da tradição veneziana.
Os seus desenhos, estudos e esboços são os documentos
de seu percurso artístico. Sempre lhe agradou a pintura
ao ar livre como a dos impressionistas: "então eles
pegaram os cavaletes e foram pintar paisagens, para realizar pintura
dentro da paisagem", e o que interessa a De Bona é
a atmosfera, o "efeito do momento na paisagem", as cores,
as linhas de fuga e as distâncias. É a liberdade
do artista diante do tema que ele encontrou em Cézanne.
A imaginação e a "sensação pensada"
é que constróem o quadro.
De Bona é colorista, ele não dilui as formas na
luz, como os impressionistas, mas a constrói com a própria
cor; valeu muito a ele o ambiente de Veneza, aquele da luz e da
cor mas também o ambiente intelectual: "uma paisagem,
mesmo impressionista, se não tiver um sentido intelectual
nela, foge do sentido elevado dessa pintura".
No seu processo pictórico ele parte do desenho e das manchas,
o primeiro para estabelecer o espaço do tema no plano do
quadro, em seguida, com as manchas, estudava as posições
das massas e das cores que, obviamente, não precisavam
ser posteriormente obedecidas na realização da obra
final.
Theodoro De Bona se dedicou também ao retrato e ao auto-retrato,
e afirma ser este uma coisa muito difícil, pois o artista
não pode perder a sua personalidade como pintor e ao mesmo
tempo o retrato deve ter alguma relação com o retratado.
Seus estudos, suas manchas, mostram que eles também, como
as paisagens, são nada mais que pretextos, são um
suporte para a sua imaginação. Também no
retrato ele quer mostrar a sua própria atitude em relação
ao mundo visível e à arte.
Para Theodoro De Bona, o artista "é artista, quando
começa a criar, ou se propõe a criar em um sentido
universal, no espaço e no tempo".
Durante longo tempo de sua vida, De Bona deu aulas de pintura
na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, da
qual foi fundador. Seja na Escola ou em seu ateliê junto
aos amigos, ele nunca deixou de passar seus ensinamentos de que
somente num ambiente intelectualmente elevado, onde se cultiva
a cultura e as artes, tem o artista a possibilidade de se desenvolver.
De Bona nunca escondeu a vontade de fazer escola, de ter seguidores,
não imitadores, de amantes da arte e sobretudo da pintura.
Fernando A. F. Bini
Agosto de 2004
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