De Bona: Luz, cor e paixão
Fernando A. F. Bini
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De Bona: Luz, cor e paixão

"A arte para mim é uma amante que não perdoa.
Sendo assim,
é necessário estar sempre ao lado dela e com ela."

(Theodoro De Bona)


O trabalho criativo de Theodoro De Bona, como é natural nos artistas de gênio, começou quando ele era muito jovem em Curitiba, na época Capital da Província do Paraná. Nestes anos que ele ainda estava tateando como aprendiz, além da compreensão e do ambiente da casa do tio, encontrou duas artistas que nunca deixou de mencionar e que foram as suas primeiras professoras: Gina Bianchi e Ercília Cechi. Sempre comentou achar uma falha que os historiadores da arte no Paraná jamais mencionassem o nome dessas artistas, principalmente da segunda, que era "possuidora de título de uma escola de ensino de arte na Itália".

Na casa do tio Arcângelo se fazia música de câmara ("meio rústica", segundo Erasmo Pilotto) e a professora Gina Bianchi era mãe da violinista Bianca Bianchi. De Bona amava a música e era apaixonado pelas óperas de Verdi. Formava-se assim o seu espírito intelectual. Foi, no entanto, o impulso dado por um artista mais experiente, João Ghelfi, que o levou ao atelier e às aulas de pintura de Alfredo Andersen. Foi o próprio De Bona quem afirmou: "aqui começou, então, a minha verdadeira carreira de pintor".

Andersen era um pintor norueguês de grandes qualidades técnicas e pictóricas, ex-professor da Real Academia de Belas Artes de Copenhague que chegou ao Paraná no início do século XX e aqui ficou.
A construção do quadro, o desenho pictórico, a organização das massas cromáticas que De Bona desenvolveu em suas pinturas, tiveram origem certamente nas aulas de Andersen. Mas Andersen também propiciava um ambiente erudito que De Bona procurava, não somente a erudição artística mas, principalmente, a cultural em todos os seus sentidos. É possível que daí tenha De Bona tido a idéia de procurar centros maiores e produtores de arte, indo então a Veneza. A escolha de Veneza, segundo ele, se deu pela importância da Academia e da Bienal, talvez também pela proximidade da terra de seus ancestrais, mas é provável que tenha sido atraído pelos artistas que fizeram a reputação da cidade desde o renascimento. Veneza tem personalidade e mistério: parece ter conseguido fazer o tempo parar
num espaço próprio dela, que por sua vez se desloca dentro do mundo moderno.
Diante da Cortina d'Ampezzo teve saudades do Marumbí de sua terra natal, a sua montanha Sainte Victoire, como ele mesmo diria:

"Essa montanha (o Marumbi) foi para mim, uma espécie de Montanha "Sainte Victoire" para Cézanne".

Seus mestres na terra da Bienal davam continuidade ao que ele procurava: o ambiente erudito, as discussões sobre arte e a possibilidade de estar próximo dos grandes movimentos artísticos. Assiste-se De Bona trabalhar a luz, desde a luz límpida dos vedutistas venezianos até o uso de uma luz mais dramática, ligada também ao realismo italiano e presente nas paisagens de Ettore Tito. Em Veneza ele começa a construir o espaço, mas separa-se do vedutismo para construir ricas paisagens à partir da pintura ao ar livre.
Ettore Tito e Vicenzo di Stefano em Veneza completam o trabalho começado por Andersen e conduzem o jovem artista no desenvolvimento de sua personalidade e na busca do rigor profissional.
Mas a participação no grupo de artistas venezianos do Cà Pesaro deve ter lhe aproximado da sensibilidade expressionista. Foi tocado também, quando procurava a luz-cor dos impressionistas, pelos toscanos Macchiaioli e é quando sua pintura traduz as vibrações da luz através de tons puros, de manchas, que se exaltam mutuamente nos contrastes de claro e escuro. Os Machiaioli resolvem a pintura de modo diverso dos vedutistas venezianos, trabalham a tela com a pincelada fragmentada e não somente com a perspectiva.


Um desenho de Veneza, a Ponte dos Suspiros de 1932, é característica dessa idéia de veduta veneziana, que é uma vista ou uma perspectiva cenográfica e ilusionística; um segundo desenho realizado posteriormente, em 1967, já mostra um recorte, um fragmento de paisagem, um estudo que deverá ser completado com as interpretações de luz e de cor.
Mas ele quer olhar a natureza com seus próprios olhos, como ensinou John Constable, e não pela interpretação dos mestres. Sem rejeitar os ensinamentos recebidos, em continuado questionamento teórico, ele vai em busca de um caminho que torne sua pintura viva e verdadeira, "ao artista não se ensina, é ele que aprende", dirá De Bona.
Tem ainda a oportunidade de conhecer a obra de Cézanne e de Morandi, ambos têm concepções de espaço análogas, isto é, o espaço é materializado pelo deslizamento dos planos numa inversão sutil da ordem de combinação de elementos. É Cézanne, mais do que o impressionismo, que o atrai na sua construção do quadro, à partir de uma disciplina rigorosa cuja expressividade é reforçada pelos efeitos cromáticos das "pequenas sensações", produzida através das pinceladas fragmentadas.


Um curto período em Paris e o retorno ao Brasil em 1936. De Bona é então um artista maduro que constrói seu quadro à partir dessas sínteses que nada mais tem de acadêmico mas que mantém o rigor pictórico à partir do desenho e é esta razão da regularidade se suas formas e da harmonia do seu colorido. Sob uma construção mental ele trabalha com as "manchas" contrastantes mas que restam por toda a sua vida, imbuídas do cromatismo luminoso e quente da tradição veneziana.
Os seus desenhos, estudos e esboços são os documentos de seu percurso artístico. Sempre lhe agradou a pintura ao ar livre como a dos impressionistas: "então eles pegaram os cavaletes e foram pintar paisagens, para realizar pintura dentro da paisagem", e o que interessa a De Bona é a atmosfera, o "efeito do momento na paisagem", as cores, as linhas de fuga e as distâncias. É a liberdade do artista diante do tema que ele encontrou em Cézanne. A imaginação e a "sensação pensada" é que constróem o quadro.
De Bona é colorista, ele não dilui as formas na luz, como os impressionistas, mas a constrói com a própria cor; valeu muito a ele o ambiente de Veneza, aquele da luz e da cor mas também o ambiente intelectual: "uma paisagem, mesmo impressionista, se não tiver um sentido intelectual nela, foge do sentido elevado dessa pintura".
No seu processo pictórico ele parte do desenho e das manchas, o primeiro para estabelecer o espaço do tema no plano do quadro, em seguida, com as manchas, estudava as posições das massas e das cores que, obviamente, não precisavam ser posteriormente obedecidas na realização da obra final.


Theodoro De Bona se dedicou também ao retrato e ao auto-retrato, e afirma ser este uma coisa muito difícil, pois o artista não pode perder a sua personalidade como pintor e ao mesmo tempo o retrato deve ter alguma relação com o retratado. Seus estudos, suas manchas, mostram que eles também, como as paisagens, são nada mais que pretextos, são um suporte para a sua imaginação. Também no retrato ele quer mostrar a sua própria atitude em relação ao mundo visível e à arte.
Para Theodoro De Bona, o artista "é artista, quando começa a criar, ou se propõe a criar em um sentido universal, no espaço e no tempo".
Durante longo tempo de sua vida, De Bona deu aulas de pintura na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, da qual foi fundador. Seja na Escola ou em seu ateliê junto aos amigos, ele nunca deixou de passar seus ensinamentos de que somente num ambiente intelectualmente elevado, onde se cultiva a cultura e as artes, tem o artista a possibilidade de se desenvolver. De Bona nunca escondeu a vontade de fazer escola, de ter seguidores, não imitadores, de amantes da arte e sobretudo da pintura.

Fernando A. F. Bini
Agosto de 2004

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