BICICLETA: NADA NOS LIGA
Texto retirado da monografia de Deise Marin, Bicicleta e Moto Contínuo - A Arte fazendo história em Curitiba
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BICICLETA: NADA NOS LIGA

A convite da Secretaria de Cultura do Estado do Paraná, na pessoa do então diretor Ennio Marques Ferreira, o governo cede o local e patrocina o convite de uma coletiva com 11 novos artistas, em sua maioria recém-formados pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná: Antonio Carlos Shrega, Denise Bandeira, Denise Roman, Eliane Prolik, Geraldo Leão, Leila Pugnaloni, Luiz Hermano, Mohamed, Marco Antonio Camargo, Raul Cruz e Rossana Guimarães. A mostra que acontece em maio de 1982 no Hall do Teatro Guaíra, contando também com a participação de convidados das áreas de música, literatura e dança.

Os artistas ocuparam os espaços com obras compostas das mais variadas técnicas e tipos de expressão: Antonio Carlos Shrega com desenhos em técnica mista, Denise Bandeira com esculturas, Denise Roman com litogravuras, Eliane Prolik com heliografias e instalação, Geraldo Leão com desenhos, moldes de gesso e pinturas de figuras humanas, Leila Pugnaloni com desenhos, Luis Hermano com aquarelas, Mohamed Ali El Assal com pinturas, Marco Antonio Camargo com desenhos, Raul Cruz com desenho em técnica mista, Rossana Guimarães com desenhos feitos a lápis de cor.

Uma vez conseguido o espaço para a exposição, esses artistas realizaram diversos encontros, em que discutiam o que deveria ser esta exposição, que forma deveria ter, o que deveria significar e qual a importância para as pessoas envolvidas. Segundo Geraldo Leão, este foi o primeiro contato desses jovens com uma atitude mais responsável diante da produção. Era a primeira exposição da qual eles participavam com um grau de comprometimento com o pensamento, desde a concepção até a execução final da mostra.

Chegamos a conclusão que estávamos extremamente insatisfeitos com o cenário artístico que se encontrava na cidade. E nosso âmbito era na cidade mesmo, dentro dessa área, em termos de Brasil e de mundo não tínhamos esse alcance. Mas, ao mesmo tempo, não assumíamos mais a idéia de atitude de vanguarda, não tínhamos essa ilusão, nem essa pretensão. Queríamos, o que praticamente todos queriam - fazer o seu trabalho independente de qualquer tipo de pressão, seja social, seja estética, seja econômica. Estávamos saindo da ditadura, a ditadura, estava em processo de acabar, meio dentro ainda. Todos tínhamos crescido como adolescentes sendo pressionados pelos militantes mesmo, pelas pessoas que enfrentaram a ditadura. Eu fui formado (na ditadura) para tomar sempre atitudes socialmente conseqüentes, responsáveis. Achávamos que o trabalho artístico era uma coisa que discutia diretamente nesse ambiente, mas não devia ser necessariamente direcionado apenas por ele. Então, chegamos à conclusão que não tínhamos nada em comum com todas estas pessoas, a não ser mostrar o trabalho, esta produção, Escolhemos o nome "Bicicleta" exatamente por isso, porque não significada nada, não tinha um significado que desse algum tipo de unidade entre o pensamento das pessoas. Aprendemos que havia uma profunda divergência, e que essas diferenças eram para serem respeitadas. Ao contrário do que tanto os militares pregavam, quando os de esquerda pregavam na época, a unanimidade não existia (1).

Na Bicicleta os artistas iam de encontro à já estabelecida tradição artística do Paraná; eles não queriam amarras, não queriam vínculo com movimentos ou titulações. Queriam liberdade, queriam ser jovens, não tinham a preocupação com a escala urbana ou a vontade de inserir a arte no cotidiano. Não queriam ser reconhecidos como grupo.

Um elemento comum entre os participantes era a necessidade de mostrar os trabalhos, de pensar a produção. Não havia um tema principal ou um direcionamento no pensamento da criação. Era tudo muito livre, cada um iria desenvolver o sua proposta, o seu trabalho, sem qualquer limitação. Então, nessa etapa, foi preciso discutir o título da mostra, pois a denominação "Artistas Emergentes no Paraná", sugerido pelo diretor da Secretaria de Cultura, não lhes agradava. Não sem dificuldades, chegou-se a um denominador comum, BIBICLETA. Bicicleta era um termo que não criava unidade entre o pensamento das pessoas. A palavra Bicicleta não significava nada, não levaria as pessoas a terem uma idéia pré-concebida ou mesmo qualquer idéia. Era o nome ideal.

Com o nome decidido, criou-se um texto para a exposição,

"Bicicleta não é postura calada ou alienada, nem procura dar pontapés nos ferros de grades antigas e acadêmicas inconseqüentemente.
Bicicleta não é o novo arrogante e nem sequer se propõe a ser novo, ou agredir e lutar contra o velho. Ela justamente não quer discutir termos. E se ela tiver um espaço vai ser o lugar que lhe couber.
Bicicleta não é manchetes contra sistemas, principalmente quando o conceito de sistema é caquético e gasto dentro do senso refratário unilateral. Não está artisticamente na direita conservadora do uso tradicional de materiais e no clássico conceito de criadores. No entanto reconhece que a procura de uma vanguarda é uma coisa inconsistente, justificável apenas nas primeiras décadas deste século. O termo morreu e restou suas heranças fascistas. O que existe é gente fazendo coisas, sentindo, pensando, produzindo. Oferecendo mesmo que deste verbo faça parte um "embrulho" artístico dirigido remetido por nós artistas, instituições, críticos e marchands.
Bicicleta não é um título sem importância, é um nome sem significado próprio, escorregadio, para que o espectador não se agarre a ele.
Bicicleta é a procura do essencial para a sensibilização.
A produção e a expressão."

Para o cartaz/convite foi produzida uma foto. Nela cada integrante da mostra aparece com objetos aleatórios, cujo significado fosse conveniente ou proporcionasse prazer a cada artista.

(...) Para a realização da foto, foi escolhida uma rua qualquer na periferia da cidade, com casas de ambos os lados, perto do local onde um dos artistas habitava. O fotógrafo Julio Covello fez as fotos, e a selecionada mostra o grupo atrás de uma mesa, cada um em uma atividade diferente com os seus respectivas objetos, numa hipotética ceia. Coindidentemente a foto foi feita em uma quinta-feira, assim como a Santa Ceia aconteceu numa quinta-feira.

Foto escolhida para o cartaz Bicicleta. Fotógrafo Julio Covello. 1982.

No último dia, antes da impressão do cartaz, Raul Cruz apareceu com a frase de Nietzsche em Assim falou Zaratustra: "Uma palavra no momento oportuno: não me convidaste para participar da tua refeição? E aqui estão vários outros que percorreram longos caminhos. Não pretendo, de certo, nutrir-vos com palavras!". Esta frase então foi usada no cartaz /convite da exposição.

Cartaz Bicicleta

 

Na hipotética ceia da Bicicleta, a idéia era a de juntar as diferenças para que os convidados delas partilhassem.


A foto nos remete a uma estética renascentista; nela notamos um ponto de fuga central, a divisão da obra por um eixo central mostra a equivalência (simetria) de ambos os lados. Alguns dos objetos escolhidos são também referências renascentistas como o pão no centro, o copo em frente ao pão, a flauta no lado esquerdo, as flores à direita e nos cabelos de Leila Pugnaloni, a cesta em vime em frente à mesa. O presente, o cotidiano, é indiciado pelo espelho refletindo os fios de luz.


A exposição Bicicleta ainda não traz a preocupação explícita com o urbano, isto é, a intenção de levar a arte para rua, apesar de a situação da "ceia" acontecer numa rua e não em um espaço fechado.

Da mesma forma, a proposta não pretendia a total ruptura com o já instituído, pois "se ela tiver um espaço será o que lhe couber". Coube-lhe estar encerrada em espaço predeterminado, em sala de exposição institucional.

Depois de montada a mostra, com uma profusão de obras de cada artista, "basicamente 10 obras de cada artista", o resultado foi caótico, segundo Geraldo Leão, pois os trabalhos eram muito diferentes. Então para dar unidade, foi depositada no chão do hall do teatro uma camada de aproximadamente 15cm de folhas secas de plátano, que resultou na esperada unidade e ainda enriqueceu o resultado, pois a este foi acrescido o som das pessoas andando sobre as folhas.

A solução, porém, não agradou ao comando do Teatro, muito menos aos bombeiros. No perigo eminente de causar um incêndio, ordenou-se que no dia seguinte as folhas fossem retiradas.

A diferença entre as obras expostas serviu para confirmar que os artistas não constituíam um grupo, embora assim tivessem sido percebidos pela crítica.

Alguns dos participantes da exposição Bicicleta formaram posteriormente o Grupo Moto Contínuo.

(1) Entrevista com Geraldo Leão12/11/98
(2) STTILES, Kristine. Between Water and Stone. In: ARMSTRONG, Elizabeth e ROTHFUSS, Joan. In the spirit of Fluxus, p. 86.

Pesquisa: Deise Marin
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