| Quando da mesa redonda em torno da exposição
"Lugar", que aconteceu no MusA entre março e
junho de 2005, da platéia, indagaram a Cleverson Salvaro
sobre sua obra apresentada na coletiva - o "Barraco Salvaro"
- se "o campo plástico [da proposta] estava no objeto
ou na relação" [sic]. Ou seja, perguntaram
o seguinte: o foco da sua ação poética abrange
o objeto em si, de forma isolada, o que remete a uma operação
moderna, ou a relação de um objeto com outro e com
o espaço, visto que seu significado varia conforme a posição
que ocupa no todo, de modo a tocar núcleos voltados à
linguagem contemporânea? Cleverson respondeu que essa parecia
uma "pergunta de vestibular". "Você quer
que eu me defenda?", provocou o artista.
O "Barraco Salvaro" constitui um grupo de vassouras
usadas, reunidas, na montagem sugerida pela curadoria da exposição,
em uma parede da sala do museu. São objetos do mesmo
gênero, embora preservem diferenças quando analisados
individualmente. Além disso, essa obra está ao
lado de outras, de autoria diversa, conforme os critérios
do recorte curatorial, o que influi na interpretação
do espectador. Teremos uma visão mais clara da situação
do "Barraco Salvaro" se compararmos cada uma das vassouras
a uma pessoa. Entramos na sala de exposição e
deparamo-nos com um grupo de indivíduos amontoados, todos
falando ao mesmo tempo e olhando em nossa direção.
Como falam na mesma altura e concomitantemente não distinguimos
o que cada um diz. Nossa atenção, então,
instintivamente, orienta-se a cada um deles em especial, fragmentando
a percepção total daquela gestalt para melhor
apreendê-la e relacionar-se com ela. Percebemos que cada
pessoa verbaliza e defende algo diferente, cada uma é
intrínseca no modo como organiza a sua existência
no discurso, mas é somente a sua conexão com outra
que gerará o efeito geral e imediato na nossa sensibilidade
e inteligência. Logo, existe, na obra, uma relação
entre elementos do mesmo gênero, que concorrem na sua
constituição como um todo, inerente à retórica
particular de cada elemento quando exilado do contexto. A única
coisa que pode ser tomada de modo isolado é o gênero
do objeto - são vassouras, e uma vassoura contém,
pela via do gênero, todas as outras -, mas somente num
momento muito vago dentro de um processo de análise mais
amplo e complexo. Existe, ainda, um outro complicador no campo
relacional: o deslocamento do objeto de um espaço cotidiano
para outro mais reservado, ação que incide diretamente
sobre a sua forma e o seu sentido, e que remete à proposta
estética de Marcel Duchamp (1887-1968). Exigir do artista
um foco, dada a fluidez sistêmica da obra, é querer
que ele solucione o problema que se esforçou em formular,
enfim, que resolva o enigma que se propôs a construir.
É uma atitude preguiçosa por parte do espectador,
que busca uma resposta exata na fonte da pergunta sem antes
desenvolvê-la sistematicamente em si mesmo, usando, sobretudo,
a obra, o fato concreto e público, como referência.
Tchekhov escreveu, em outubro de 1888, numa carta a Suvórin:
"Ao exigir de um artista uma atitude consciente em relação
ao seu trabalho, você tem razão, mas confunde dois
conceitos: a solução do problema e a colocação
correta do problema. Apenas o segundo é obrigatório
para o artista."(1) A pergunta a que me referi, proveniente
da platéia, reflete um ponto de vista preconcebido do
que seja uma operação estética e mesmo
uma obra de arte. Quando Cleverson recusou-se, indiretamente,
a resolver uma angústia alheia, os seus interlocutores
defenderam-se dentro da tendência à "mitomania"
- tudo o que o artista afirma ser arte vira arte, sem uma compreensão
mais aprofundada dos fatores implicados. Não perceberam,
contudo, que alimentavam essa mesma tendência com a pergunta
colocada. Pois o artista, como agente isolado, não determina
o que é ou não arte e a pergunta pressupunha,
num certo sentido, esse determinismo. Pontua-se nesse processo,
além da vontade do artista, também a ação
do tempo e da história; a recepção estética
imediata; e a chancela político institucional. Todos
esses fatores, juntos, acabam designando o mérito da
obra ser incluída ou não no campo da Arte. É,
em muitos aspectos, uma discussão fechada, não
fosse esse imenso buraco que se impõe entre a obra e
seu tempo, pois temos que contar, como fator, também
o inabordável. Cleverson disse uma frase que ilustra
bem essa falsa autonomia do artista no mecanismo de atribuição
de valor de arte à obra: "Posso não ser autoridade,
mas sou autorizado. Me deixaram falar nessa mesa".
Se postulássemos a questão nos moldes vestibulescos
do "é isso ou aquilo", teríamos, provavelmente,
uma teoria dogmática de conteúdo deficitário.
Pois o "Barraco Salvaro" existe na relação
e no fluxo da troca (espacial e simbólica) do objeto,
tanto que o artista afirmou estar investigando "qual o
lugar da imagem" dessa obra especificamente, que parece
não ter lugar nenhum. Há a consciência de
um jogo: eu mudo o objeto de ambiente, mas não sei até
que ponto esse ambiente atua sobre a essência do objeto,
que, de algum modo, resiste às tribulações
e vicissitudes externas, porque mudar o conflito de lugar não
resolve o conflito em si. O núcleo do conflito subsiste
à instabilidade do fenômeno de apresentação
que lhe corresponde. E, enquanto fenômeno, o conflito
é inesgotável. Mas o "Barraco Salvaro"
existe, também, no objeto per se, que não se descaracteriza,
não se separa da sua historicidade nem de si mesmo ao
ser deslocado, como ocorre com o ready-made duchampiano. É
o conceito de ready-made expandido, uma nova leitura dessa tendência
na história da arte.
A pergunta "o campo plástico está na relação
ou no objeto?" causa um belo efeito de retórica
mas é oca, e o artista se coloca além desses dogmatismos
vazios. Se refletirmos a fundo sobre ela, não é
difícil perceber que enquadra uma discussão complexa
nos moldes simplistas de uma consciência que faz uso de
argumentos pouco atentos às nuances da realidade sensível
da obra, auto-reguladores e definidos no seu próprio
eixo gerador, embora ilusoriamente justificados no objeto a
que aludem. Dão a falsa impressão de espelharem
o trabalho, quando apenas refletem a si mesmos. Além
disso, os espíritos críticos que subscreveram
a pergunta deveriam posicionar-se de um modo mais claro, pois
ao apresentarem suas dúvidas com base num método
truncado e obscuro, acabam apenas fomentando a mitomania que
tanto condenam, que não é, senão, uma falta
de clareza e acordo na colocação do problema acompanhada
de uma exigência de solução, o que, segundo
Tchekhov, por exemplo, vai de encontro ao propósito fundamental
da obra de arte. Essa pergunta reducionista encobre um desencontro
interno de caráter móvel e repetitivo - portanto
enfadonho -, porque se movimenta dentro dos limites do seu próprio
empreendimento e não rompe com uma necessidade histórica
e tradicional de efeitos lógico causais, ou seja, não
se afasta de estereótipos inócuos, produtos do
pensamento científico mais rasteiro e postiço.
Há um trecho do livro Um Copo de Cólera, de Raduan
Nassar, que oferece uma imagem capitular para pensar o assunto:
em determinado momento da história o narrador golpeia
a companheira: "'você me faz pensar no homem que
se veste de mulher no carnaval: o sujeito usa enormes conchas
de borracha à guisa de seios, desenha duas rodelas de
carmim nas faces, riscos pesados de carvão no lugar das
pestanas, avoluma ainda com almofadas as bochechas das nádegas,
e sai por aí com requebros de cadeira que fazem inveja
à mais versátil das cabrochas; com traços
tão fortes, o cara consegue ser - embora se traia nos
pêlos das pernas e nos pêlos do peito - mais mulher
que mulher de verdade'" [pg. 50]. A pergunta está
tão impregnada de conceitos prescritivos que, à
força do excesso, toma o lugar da obra na categoria de
problema e acaba fabricando-a, ao invés do contrário.
Mas o postiço se trai nos encaixes. Assim, é possível,
justamente pela detecção dos ajustes precários,
vislumbrar a pertinência da pergunta em relação
à obra no lugar de balizar a qualidade da obra com base
na pergunta, o que seria minimizar demais a amplitude estética
do fenômeno perdendo-se na esfera do conceito.
(1) ANGELIDES, S. A. P. Tchekhov: cartas para uma poética.
São Paulo: Edusp, 1995.

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