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De Bona, nascido em Morretes (1904), foi aceito como aluno
de Andersen em 1922, partindo posteriormente, em 1927, para
Itália, a fim de aperfeiçoar sua pesquisa plástica
e - subentende-se - teórica. Retornou ao Brasil em 1937
e, nesse intervalo, participou de um grupo de vanguarda italiano
alcunhado de Cà Pesaro, dos Salões dos Artistas
Venezianos de 1928 a 1935, figurando também na tão
disputada Bienal de Veneza, no ano de 1930, entre outros certames.
Justino considera que a fase mais criativa do artista se deu
na alvorada dos anos 40, quando demonstra, na liberdade do traço
e velocidade do gesto, uma despreocupação com
o resultado, dando ênfase, antes, ao processo. "De
Bona, nessa fase, alcança a linguagem expressionista"
[JUSTINO: 1989, pg. 02].
Tangenciam essa época os quadros Cá Foscari, Navio
Negreiro, Plantação de Alcachofra e Paisagem Alpina.
Já Erasmo Pilotto, na contramão das observações
da autora, considera que, mesmo tendo contato, na Europa, com
a proposta inovadora de alguns movimentos de vanguarda, o artista
se mantém fiel a si mesmo e foge ao sombrio, ao expressionismo,
desvia do "feio", buscando, outrossim, o domínio
poético, uma poesia doce e viril que incitasse a reflexão
[PILOTTO: 1967, pg. 28].
Já o próprio De Bona dizia-se ser essencialmente
um impressionista . Justino, ao colocar que o que permanece
do Impressionismo na produção do artista é
um modo de ver o mundo, a luz e a pureza das cores, ressalta
que o fascínio do paranaense estava mais direcionado
aos independentes atuantes numa etapa posterior desse mesmo
movimento, como Cézanne e Gauguin. Entretanto, a autora
arremata, De Bona não é um impressionista, pois
é patente em seu projeto o desejo de construção
(herdado de Andersen e endossado pela admiração
dirigida ao precursor do Cubismo). Assim, o artista "nunca
se permitiu a diluição da forma; a destruição
é insinuada sem contudo romper a estrutura (...). O processo
de criação aparece como problema de linhas, cores
e formas (...) volta-se ao objeto, à paisagem, para recuperá-los,
reconstruí-los (...)" [JUSTINO: 1989, pg. 02-03].
É dentro desse processo de construção,
imiscuído na vontade de alcançar uma arte universal,
sem, contudo perder-se das particularidades impressionistas
e de uma certa objetividade figurativa que tanto concorreram
na sua formação, que De Bona inaugura um horizonte
imprevisto, oxigenando e dando fôlego ao devir das artes
visuais em Curitiba e no Paraná. A Arte Paranaense, em
De Bona, enche de ar os pulmões como num prenúncio
do mergulho definitivo que viria, posteriormente, nas décadas
de 1950 e 60. Outros fatores que confluíram para essa
imersão na descoberta foram a oposição
à Andersen em Ghelfi, Lange de Morretes e Turim, sugerindo
os contornos do chamado estilo paranista, a criação
do Salão Paranaense de Belas Artes (1944) e a fundação
da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (1948),
da qual, inclusive, De Bona foi diretor e professor, lecionando
na cadeira de "pintura de nu acadêmico".
Convém lembrar que, não obstante essa tomada
de fôlego, a modernidade chega ao Paraná, por volta
da metade do séc. XX, com artistas cujo domínio
teórico e técnico dentro, logo, dessa práxis
do novo, era ainda limitado. Havia, pois, segundo críticas
proferidas quando da abertura do I Salão Paranaense,
uma divisão clara entre acadêmicos, que insistiam
na repetição dos cânones clássicos,
e modernos, que, apesar da iniciativa iconoclasta, circulavam
ainda num passo tacanho dentro das concepções
de base desse pensamento e prática diferenciados.
É consenso, voltando ao foco de nosso interesse, que
a estadia em Veneza foi peremptória quanto ao amadurecimento
da pintura de Theodoro De Bona. Quando retorna ao país,
porém, acaba produzindo telas mais facilmente digeríveis,
em vista, talvez, da necessidade de sobrevivência dentro
de um meio ingrato nessas condições. Até
sua morte, em 1990, alcançou, conforme Ferreira, uma
linguagem pessoal, fluente e realista, com nostálgicas
cadências impressionistas [FERREIRA, in: JUSTINO: 1989,
pg. 32]. Versátil, deixou um vasto conjunto de obras,
dentre as quais cintilam cenas de gênero, retratos, alegorias,
nus, composições de temática histórica
e murais religiosos, além de um considerável complexo
de paisagens. Araújo aponta para verve humana, terna
e vibrante que recende da pintura do artista, pois seus quadros,
geralmente, deixam transparecer menos o viés "angustiante
ou absurdo" do sujeito do séc. XX do que a presença
entranhadora de "uma grande paz" que lhe é
quase sempre alheia.
Ferreira coloca que o artista mantinha-se a uma distância
conveniente do mercado de arte - incipiente na capital a partir
da década de 50, com o surgimento da Galeria Cocaco -
muito embora estivesse indiretamente envolvido por ele. Atualmente
suas obras são objeto das mais altas cotações
da bolsa de Arte Paranaense (Ferreira refere-se também
a esse fato para mensurar o grau de importância de seu
trajeto para História do desenvolvimento artístico
no Estado). Segundo o autor, no íntimo, De Bona tinha
receio que esse tipo de comércio, estritamente relacionado
ao gosto do grande público consumidor, pudesse, paradoxalmente,
desvalorizar seu labor, num plano intelectual e estético
de qualidade artística, colocando em risco a respeitável
imagem profissional da qual então já gozava [Id.:
Ibid., pg. 34]. Mas não será essa demanda mercantil,
circunscrita à lei da oferta e da procura, que descolará
do legado do artista seu valor simbólico, sua qualidade
estética e sua densidade histórica. Pelo contrário,
um fator é conseqüência do outro, num efeito
circular que não permite a emissão irrefletida
de juízos de valor puristas ou preconceitos de natureza
diversa.
Theodoro de Bona se impõe à memória cultural
paranaense pela sólida devoção à
Arte, como um meio irreversível de devolver ao ser humano
sua dimensão de humanidade e de poesia, esquartejadas
com os eventos funestos que inauguraram o séc. XX no
mundo, instaurando a decepção nas camadas mais
remotas da consciência social. Mestre do objetivismo visual,
passageiro do bonde expressionista e artista profundamente sensibilizado
pelas cores do Impressionismo, De Bona carece ainda de um olhar
mais agudo da crítica e do público. Sua obra está
presente - compondo, juntos com outros fragmentos, essa complicada
discussão sobre a existência de uma identidade
regional paranaense. Ao escrever sobre a obra de Haroldo de
Campos, quando de seu falecimento, Ascher coloca que a melhor
homenagem que poderíamos prestar ao poeta concretista
seria ler seus livros. Talvez possamos, parafraseando-o, aludir
à apreciação crítica e sensível
do legado estético de De Bona como a melhor maneira de
honrar-lhe a devida importância dentro da História
da Arte do Paraná. Habitar seus quadros é o melhor
que podemos fazer para comemorá-lo.
Luciana Paes
1 - Adalice Araujo refere-se a esses artistas
como precursores do modernismo paranaense.
2 - A Geografia pode discorrer com mais propriedade
sobre essa questão. Segundo Ernesto Cohen, citado por
Milton Santos, cada um dos sistemas que compõem a estrutura
social - o da produção, o da estratificação
e o da dominação - se encontra em um processo
contínuo de transformação, embora com ritmos
diferentes e com diferente intensidade."Essa assincronia
é o resultado do funcionamento relativamente autônomo
de cada sistema e constitui um dado fundamental para compreensão
da estrutura social. Tal explicação acrescenta
um novo elemento ao entendimento da evolução social,
isto é, o fato do desenvolvimento desigual e combinado
das estruturas em movimento" (o grifo é nosso) [COHEN,
E. Estructura social y dependencia externa: interacción
y variables críticas. Lima, Peru, set. 1973 apud SANTOS:
1986, pg. 143]
3 - "O prazer que obtemos com a representação
do presente deve-se não apenas à beleza de que
ele pode estar revestido, mas também à sua qualidade
essencial de presente", escreve Baudelaire. [In: "O
pintor da vida moderna". COELHO: 1988, pg. 160]
4 - Araujo escreve: "[A Semana de 22 de
São Paulo], sobretudo no ponto de vista 'cronológico'
numa primeira etapa, e 'filosófico' numa segunda, é
que se constitui num acontecimento 'nacional'; visto que seria
temerário tentar explicar 'todo' o modernismo brasileiro
tomando por base única e exclusivamente [esse acontecimento]
(...). Em realidade, cada Estado viverá o seu próprio
processo evolutivo, substituindo não só a sua
'economia' agrária/fechada pela 'tecnologia dinâmica'
como também integrar-se-á, no ponto de vista cultural,
à realidade nacional e internacional, à sua própria
maneira'. [ARAUJO: 1974, pg. 157]
5 - "As telas (...), vibrantes de movimento,
com invulgar síntese plástica na cor e alusões
geométricas nos edifícios, respiravam uma liberdade
insólita para época, que causaria profunda impressão
nos espectadores" [ARAUJO:1974, pg. 175]
6 - "Sou de temperamento impressionista,
admiro profundamente Cézanne, que considero um dos maiores
pintores da idade moderna" [De Bona: excertos de artigos
publicados. In: JUSTINO: 1989, pg. 20].
Referências Bibliográficas
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1974. 423 f. Tese (Livre Docência em História da
Arte) - Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade
Federal do Paraná.
ASCHER, N. Haroldo de Campos (1929-2003). Folha de São
Paulo, 25 ago. 2003.
COELHO, T. (apresentação) A modernidade de Baudelaire.
Trad.: Suely Cassal. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
ENCICLOPÉDIA de Artes Visuais. Disponível no
site: <www.itaucultural.com.br>, Acesso em abr. 2004.
FER, B.; FRANCINO, F. et al. Modernidade e modernismo: a pintura
francesa no séc. XIX. São Paulo: Cosac & Naif,
1993.
JUSTINO, M. J. (apresentação) De Bona: um exercício
de criação. Curitiba: Scientia et Labor, 1989.
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aos anos 60. In: MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DO PARANÁ.
Tradição/Contradição. Curitiba:
1986. Catálogo de exposição.
NORONHA, M. C. A. Arte moderna. In: NOVO MUSEU. Panorama da
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2003. Catálogo de exposição.
PILOTTO, E. Th. De Bona. Curitiba: Livraria Universitária,
1968.
PONTUAL, R. Dicionário das Artes Plásticas no
Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1969.
SANTOS, M. Por uma geografia nova. 3ª ed. São Paulo:
Hucitec, 1986.

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