|
Diálogo N.°1 - 18/06/2000
- 19h00min.
Você pode retirar a venda dos meus olhos?
Didonet Thomaz: O que você está materializando
no tempo invisível?
Tânia Bloomfield: Um calendário, de
marcação repetitiva mas sintética...
é um recorte no tempo, fora do modelo social, para
estabelecer uma linha de fuga no imaginário.
DT: Do recorte no tempo, emerge no espaço,
uma forma sólida e composta sob a pontuação
do número sete.
TB: Uma fileira de travesseiros retangulares, um colado
quente no outro, pelas pontas, na vertical, compõe
um módulo de sete. Na totalidade, um conjunto de
onze módulos de sete compõem um território
de saliências e reentrâncias e vazados; de
setenta e sete peças relacionadas entre si, na
horizontal, também. Ao encostar o conjunto numa
parede, emergem do espaçamento positivo-negativo...
desenhos variados. Quero essa geografia porque resulta
em acréscimo de luz e de sombra, na criação.
DT: Cada travesseiro está amarrado com
um arame fino e nenhuma amarração é
no mesmo ponto. É proposital?
TB: É proposital. Tencionar cada travesseiro
em determinado ponto releva a linha metálica sobre
o tecido branco, além de formar um plissado nesses
limites de compressão, alterando a forma no singular
e no plural; interessa o fato de o objeto escultural sustentar
a sua materialidade. Estou interferindo para que entre
em harmonia... inteiramente, pelos próprios fragmentos,
cada travesseiro é um fragmento da ocupação
toda.
DT: Observando isoladamente um travesseiro, é
imanente a possibilidade maleável da sua forma;
do arame fino, a possibilidade de resistir - são
corpóreos de atrativo, de permissão e desejo
simbólicos. Por quê? A vontade-força
humana é necessariamente urgente para alterar com
objetividade estruturas em repouso aparente. E harmonizar
com ressonância, mais ainda... É ingênuo
dizer é assim. O que mais você quer?
TB: Um duplo querer por caminhos inversos: quero
que o travesseiro seja conformado pelo arame e quero,
também, conformar o arame ao redor do corpo do
travesseiro.
DT: Finíssimo anel... variando o peso do
travesseiro, isto é igual a um travesseiro+arame
= contraste de matérias aglutinadas em processo
de conformação. Você poderia ter escolhido,
novamente, um fio de náilon para cada travesseiro.
TB: O fio de náilon escapa, solta e acaba
por sair do lugar. Quero que seja fixo o metal remanescente;
opressor que vem diminuindo de valor pelo tamanho, volume,
formato pelas seleção das matérias...
É um objetivo tentar me livrar do metal, corroído
de propósito, corroído pela ação
do tempo, ou não corroído, simplesmente
puro.
DT: Sobre a cor branca.
TB: Olhei a cor... tinha que ser branca.
DT: Por quê?
TB: Porque o simbólico vem crescendo no
meu trabalho. E o branco é um código representativo;
mas branco sobre branco é disciplina de impacto
para um conceito de luz-sombra em construção.
Eu quero construir para o resplandecer do olho em atitude.
 |
|

Diálogo N.°2 - 27/06/2000
- 19h00min.
Para onde você está me levando?
TB: Não é uma ironia... permanece
a questão do metal que aprisiona outro material.
De fora para dentro, da grade para o travesseiro,
que mede 0,65cm por 0,45cm, o objeto escolhido para
ser capturado. Mas há uma sobreposição
de poros, contrastantes. E, por meio dessa trama
feita por produtos industrializados, ocorre um vazamento
de ar - tanto pelo metálico da grade, como
pelo sintético do tecido... até chegar
na espessura da espuma interna do travesseiro. E
então parece que ocorre uma exaustão
e em seguida o rebote torna-se inevitável.
É algo mais próximo do orgânico...
é uma respiração condicionada.
Se eu quisesse mostrar essa prisão contundentemente,
teria fechado todo o metal...
DT: É uma ironia? Fale mais sobre
esse compartimento.
TB: É racional. O caminho vai da
grade ao arame. A simbologia da opressão
é muito forte, o que me angustia. A grade
está mais próxima dos meus trabalhos
anteriores, das caixas metálicas comprimindo
objetos dentro... No caso do travesseiro com a cinta
e do travesseiro com o arame, a forma escapa para
os lados... há uma adequação
à opressão; ao mesmo tempo, uma sobrevivência
a ela. Mas ainda não está livre.
DT: Você comprime o travesseiro num
compartimento feito justamente para colocá-lo
dentro; e mantendo a forma, permanece inteiro. Travesseiro
= "Almofada de paina, penas, lâminas
de cortiça, etc., que se estende ao longo
da testeira superior do leito e serve de apoio à
cabeça de quem se deita: Aurélio,
2000". A escolha do objeto é racional?
TB: Há um descompasso no trajeto,
tal como na testeira das relações
humanas.
DT: É um trajeto - com paradas obrigatórias
para concluir etapas anteriormente interrompidas;
assim, você confeccionou primeiro o travesseiro
com arame, apesar de ser este um raciocínio
posterior ao processo de confecção
do travesseiro com grade. Cortar-torcer um pedaço
de arame fino pode ser uma tarefa individual; mas
cortar tiras de metal largo e grosso para dar solda
de ponto formando xadrez exige mais de um prático.
No caso, você e o serralheiro/soldador fazendo
um cruzado. São preocupações
de pessoas diferentes para modos e tempos diferentes
de execução. Enquanto você pensava
na possibilidade de estouro do ponto de solda, surgiu
a forma intermediária, a do travesseiro com
cinta ou escultura aparentada para um diálogo
de meio.
TB: As idéias, às vezes, antecedem
o lugar da visão; espaços amplos e
abertos para ir e vir - são linhas de fuga.
Isso tem ligações intrínsecas
com a submissão à concentração
e não-dispersar, puxa de volta. Pensei sobre
cada função que o lugar já
teve... igreja, convento, escola, hospital... hoje,
um centro cultural... quer dizer, instituições
de disciplina. Para que se verifique o arranjo do
espaço no tempo a ponto de provocar a pergunta
"para onde você está me levando?",
mais uma sensação naquele que vai
ver... travesseiros, corpos em fila, pendurados
nas paredes, nos tetos... sim, o espectador tem
que sair a cata de um nível para o olhar,
para o céu disponível ao campo visual...
DT: Exibir a circularidade de um ato-pânico,
como nos "pescadores e o turbilhão".
O que mais você quer?
|
 |
|
Fig. N.°1. Fileira de travesseiros com
arames (fragmento da Ocupação).
Fig. N.°2. Travesseiros com arames -
Espaçamento positivo-negativo.
Fig. N.°3. Travesseiro com grade metálica
corroída (fragmento da Ocupação).
Fig. N.°4. Travesseiro com grade.
Fig. N.°5. Travesseiro com cinta metálica
corroída (fragmento da Ocupação).
Os diálogos primordiais foram utilizados
no processo de conhecimento da OPUS; sendo mantida
sua essência, posteriormente, foram reorganizados
sob influência da leitura de BATESON, Gregory.
Metadiálogos;. CALVINO, Italo. Seis propostas
para o novo milênio. DELEUZE, Giles. PARNET,
Claire. Diálogos. ELIAS, Norbert. Sobre o
Tempo; GOETHE, J.W. Doutrina das Cores; LESSING.
Laooconte.
02/08/2000 - 14h55min.
|
|
Diálogo N.°3 - 15/03/2001
- 22h41min.
O que vejo me pertence?
TB: Está perdida a falsa sensação
de controlar limites... No começo ,corri
arás do travesseiro branco... na minha frente,
o que mais posso tirar dele? Como se mostra enquanto
resposta às minhas inquietações
sobre aprofundamento? Antes, a questão formal
ancorava aquelas de caráter simbólico,
o trabalho pedia mobilidade por estar envolvido
em rigidez, é isso que está se mostrando...
Num segundo momento, o comentário é
outro, o que se coloca? É como se o alinhamento
de travesseiros falasse: "estivemos conformados,
vamos dar uma volta pela parede, ver o tipo de reação
que causa em quem vê...". A entrada na
próxima parede? Vejo como a possibilidade
de percorrer o espaço inteiro e voltar para
o ponto...
DT: O desenho do compartimento define uma
figura geométrica=retângulo, quadrilátero
formado por linhas retas, compactadas irregularmente.
Assim sendo, o proveitoso do espaço desdenhado
enquanto inteireza é apenas uma parte da
nebulosa tinta branca capaz de comprimir a turbulência
provocada pela Ocupação paralela;
justamente, onde o ângulo de duas das quatro
paredes flexibiliza o percurso dos fragmentos da
fileira única, sendo concentrada a dramaticidade
da questão no recorte minimal do território
adjacente, como se fosse um livro quase aberto,
de aparente fundo infinito. O que você quer?
Cruelmente, promove um paradoxo, advertindo sobre
uma hipótese de movimento encurralada. É
pelo menor número de fragmentos que se inicia
o abstrato passeio "para voltar ao ponto",
ou pelo maior, o avançamento através
da massa de ar?
TB: Talvez eu tivesse que ir para uma outra
linguagem para mostrar uma movimentação
mais contundente, mas, pela natureza dos objetos,
neste momento, a sugestão de movimento é
o bastante. A primeira coisa que vi em relação
à direção foi da direita para
a esquerda; os travesseiros se movimentando nesse
sentido, apesar de que, acidentalmente, pode-se
pensar o contrário...
DT: O alinhamento de travesseiros com grades
concerne a uma cena já vista?
TB: Sim, mas num contexto diferente. Insisto
que apesar de usar matéria supostamente indestrutível,
ou que demora para ser destruída, de me manifestar
em escultura, preferencialmente, essa premissa sempre
esteve em todos os meus trabalhos. Nas mulheres
que tinham a minha estatura, como se fossem clones.
A proposta fica no lugar de, momentaneamente, ou
logo a seguir - não posso precisar em que
tempo - efemeridade?Não, ao contrário...
O cânone não estabelece uma diferença
radical entre ocupação e instalação
no sentido de tomar posse de, mas a primeira expressão
tem boa leveza para este ritual de passagem, menos
ilegal, um pecado perdoável.
|
|
Diálogo N.°4 - 22/03/2001 - 22h21min.
Posso imaginá-lo, se o tenho?
DT: A incidência da luz sobre os materiais
superpostos vai imprimindo um xadrez desparelho
na superfície dos travesseiros; sangrados
pela ferrugem castanha da grade, passivos da alteração
da sua nebulosa retangular. Do tecido a descoberto,
diz-se sujeira desse amarelado que emerge débil,
não uma cor propriamente dita, proveniente
de escolha; nem a outra, traiçoeiramente
'branca', que ficou sob o metal, na sombra. É
esse o princípio casual da gravura e da fotografia?
A disciplina de impacto, de branco sobre branco,
desequilibra-se no processo de exposição&guardamento
dos fragmentos: travesseiros 'bons' poderiam substituir
os 'ruins', os metais polidos conservariam a pureza
monocromática. Não! Agora, o olho
em atitude resplandece diante da desconstrução
do conceito primordial de sombra-luz.
TB: É possível percorrer um
caminho e não conhecê-lo; conhecer
sem conhecê-lo... Eu poderia ter usado a cor
preta para fazer valer um contraste acentuado com
o branco, mas seria explícito... A cor castanha
que vem de oxidação é uma possibilidade
de mostrar que existe uma relatividade na questão
da oposição, é conflituosa,
a diferença não é tão
absoluta...
DT: E como se não bastasse, o contraste
de temperatura provocado pelo vai&vem, umedecendo
e ressecando a espuma interna do travesseiro, transforma
o leve, num mais pesado. Sem toque, a massa se redistribui,
favorecendo a formação de relevos
não homogêneos, num trecho ou outro,
do objeto que vai murchando lentamente, como um
bolsão que se esvazia ao render-se.
TB: A forma e a cor ali se complementam.
A corrosão do metal continua acontecendo
e marcando.
DT: O simulacro está inchado da morte?
TB: Dentro da arquitetura do Centro Cultural
São Francisco, a montagem dessa Ocupação
tomou uma dimensão grave... a questão
da morte está presente, sim, aqueles corpos
pendurados na altura de dois metros, do final do
travesseiro, para baixo até o chão,
remetiam à tortura, imediatamente, à
morte... São torsos, só torsos, sem
membros... carne pendurada em ganchos, esse tipo
de referência...
DT: Precede de modo imediato a visão
do holocausto - travesseiros com arames, travesseiros
com cintas, travesseiros com grades, amontoados
numa redoma - um recuo do fragmento. A imagem certa
ajuda?
TB: Ajuda o artista, ou aquele que está
emitindo... pode ser uma desvantagem para o receptor,
uma mensagem imposta, não aquela que ele
quer pegar.
|
|
Fig. N.°6. 8 Travesseiros em ângulo de
90° - hipótese de movimento encurralado.
Fig. N.°7. Ocupação 2 - 40 travesseiros
com grades metálicas corroídas.
Os diálogos primordiais foram utilizados
no processo de conhecimento da OPUS; sendo mantida
sua essência, posteriormente, foram reorganizados
sob a influência da leitura de FOUCAULT, Michel.
As Palavras e as Coisas, Arquitetura do Saber; WITTGENSTEIN,
Ludwig. Investigações Filosóficas,
Zettel, O livro Azul, O Livro Castanho, Anotações
sobre as Cores; e do roteiro de Matrix, The Wachowski
Brothers.
02/04/2001 - 18h07min.
|
 |
 |
|
Diálogo N.°.5 - Tarde (MASAC) - 26/06/2001
Fuga N.°1 - 12/06/2001 - 23h45min.
Tânia Bloomfield: Pudor é um
conceito variável... Posso ser pudica fazendo
coisas execráveis e condenáveis do
ponto de vista social e me sentir pudica...
Didonet Thomaz: Na obra de arte entra o pudor?
TB: O pudor entra na percepção,
ou na sensação de ter excedido o ponto
ótimo onde devia ter parado... Na situação
do espaço que vai se tornar cênico,
o que está por trás é coberto
por causar uma interferência, não sei
se tem a ver com o pudor... Tem mais a ver com a
questão da limpeza... Ligando a palavra limpeza
ao pudor, as duas idéias, talvez... A minha
vontade é de um isolamento visual de toda
a interferência que possa ocorrer na obra...
(Casa tomada - luz acesa)
DT: O que é o agora?
TB: Agora é um incômodo perceber
que tenho mais um dilema que ultrapassa o meu próprio
trabalho... Vou ter que repensar toda a ocupação...
(Casa tomada - luz apagada)
DT:O que é o agora?
TB: Agora é lúgubre... Sem
a luz artificial é como se a realidade pudesse
vir mais crua... Estamos num lugar sem as possibilidades
do contemporâneo... A luz entra pelas aberturas
e não chega de maneira suficiente... Há
uma espécie de passagem para um outro tempo...
É um lugar histórico que tem uma sacralidade
e talvez nem devesse ser ocupado da maneira como
está...
(Casa tomada - luz acesa)
DT: O que é o agora?
TB: Agora é falso... Cores, relação
volumétrica, percepção espacial
se alteram com lâmpadas dicróicas...
Fuga N.°2 - 03/07/2001 - 10h35min.
DT: O que é isto?
TB: É uma peça (Fig. N.°8)
que tem a minha altura, com duas chapas levemente
abauladas, uma na frente e outra atrás...
Cabe um travesseiro dentro... Prenuncia um corpo
representado pela haste-coluna que dá vertical
do corpo, pelo tripé que faz às vezes
do pé e pela vestimenta-armadura... Para
que a figura possa ficar ereta é necessário
que haja uma estrutura de sustentação...
Não precisaria ser, mas o metal é
uma constante no meu trabalho... Houve uma trajetória
até chegar nessa peça, como num gradiente...
O serralheiro tinha feito o ombro reto, querendo
tirar o canto vivo para que as pessoas não
se machucassem... Eu falei não, o cortante
tem que ficar porque é o que não fere
contra o que fere e está fora, o exo-esqueleto...
Com a distância entre as duas chapas, próximas
uma da outra, pedi para ele alargar mais para que
o travesseiro pudesse ter um conforto...
DT. Você articula o conceito de contraste...
A materialidade conseguida pelo uso-não-uso
do metal esgota-se em cada ato voluntarioso, depois
tanto faz... O que entendo como experiência
mais livre de preconceitos para revisões,
é uma estupidez pensar em definitivo... Neste
caso, há reforço do uso do metal e
o objetivo de tentar eliminá-lo parece ter
perdido o sentido, se não fosse a tangência
de um fragmento-travesseiro... Caberiam dois naquele
oco? Claro que sim...
DT: Por onde você começou a
fazer a peça?
Raulindo Brusamolin: Pelo pé e pelo
corpo, tem que pensar tudo junto... É só
uma chapa 24 fina a frio, com o tubo três
oitavos, solda elétrica, solda ponto numa
estrutura metálica...
DT: Qual a diferença entre ver um
material descoberto e vê-lo através
de uma máscara?
RB: O que mais impressiona é a solda...
A partir do momento que se joga a solda, pode-se
ver a cor verde por causa do vidro da máscara...
|
 |
|
Diálogo N°.6 - Manhã (MASAC) -
03/07/2001
|
|
(Casa tomada)
TB: O lugar combina com a falta de luz...
Pensando nas peças, talvez, a escuridão
ou a penumbra favorecessem mais o arranjo da mostra...
DT: Qual a possibilidade da vidraça
que divide a torre da Igreja ao meio servir para
indicar uma seqüência produtiva entre
passado-presente? Na parte de cima poderiam ser
colocados os primeiros torsos, pendurados a uma
altura que sugerisse ascensão no sentido
de que o que foi feito não precisa ser repetido...
Embaixo, aproveitando a sucessão de ogivas,
ocupá-las agora com os resultados derivados...
TB: Não me apego às coisas...
Nascem, desenvolvem e morrem... Tudo na vida tem
uma trajetória...
DT: Quero acreditar que você provoca renovamento&morte&constância
ao mobilizar geração&destruição...
TB: Expurgos são coisas deixadas
para trás, ou expelidas de uma maneira não
ordenada, não sistemática, não
regular e isso me incomoda... Tenho a necessidade
e a vitrine demanda um ordenamento... Expondo alguma
coisa, uma coleção, objetos, de uma
maneira que se apresentem, ou apresentem um determinado
pensamento, ou intenção daquele que
está ali colocando... Pensei nas paredes
dos ex-votos, impressiona... É uma maneira
desordenada de colocação de coisas,
o oposto da vitrine...
Fuga N.°3 - 26/07/2001 - 14h40min.
(Casa esvaziada)
DT: Fale do probjeto-OPUS... Você está
para iniciar um outro ritual de passagem ao ocupar
esta casa/ edificação/ habitação
- de objetos, santos e memoráveis - que estava
tomada por 'outramente' ...
TB: Quando vou fazer uma exposição
penso, sempre, que o projeto está pronto
e não é o que está se configurando...
Ontem, umas imagens foram surgindo e me surpreendo
porque estou rompendo com o modus operandi... E
de continuar criando quando, na minha cabeça,
a coisa deveria estar acabada...
|
|

Diálogo N°.7 - Noite (MASAC) - 27/07/2001
(Ocupação - luz apagada)
DT: É noite, a porta está fechada
e a claridade entra de cima para baixo, pelo visor
da torre... Observo um universo de figuras-sombras
suspensas, outras parecem levitar porque a base-chão
está a maneira negra... Um tenebramento...
Abstrações?
TB: Remete ao tempo ancestral... Perpassa a
história como uma memória... São
figuras arquetípicas....
DT: Ao tateá-las sinto a aspereza
da ferrugem...
TB: Não tem importância... Faço
o que tenho que fazer, sinto urgência... Os
expurgos da vitrine (Fig. N.°8) tinham que sair,
materializaram-se dessa forma...
DT: É possível compenetrar o olhar
na sombra da sombra da sombra de dois... quatro...
seis... oito fragmentos = travesseiros brancos conformados
por arames traídos por luxuosas protuberâncias;
expurgos = lâminas chatas e triangulares,
telas, chapas dobradas e redobradas, retalhos de
grades, pequenas caixas, arames torcidos e retorcidos,
cilindros, retângulos, semicírculos,
microgaiolas... A sua intenção se
definiu ao recolher e organizar o que encontrou
disperso na serralheria, como se não pudesse
ser diferente...
TB: Sugiro a contundência, a possibilidade
de esses expurgos terem sido os causadores das deformações
nos fragmentos... Lembram uma mesa cirúrgica,
instrumentos de tortura, mas são alusões...
Amarrar com arame é quase-neurótico,
interessa... A caixa de retalhos, eles dão
possibilidades, interessa... Ah, me encaixo aqui,
ali... O tarô tem figuras isoladas que funcionam
em conjunto... Mais ou menos essa lógica...
DT: Efetivamente o espaço tornou-se cênico,
porque você recobriu parte da arquitetura
da casa com um biombo de tecido plissado (o mesmo
do forro dos travesseiros), envolvendo uma estrutura
metálica quase na medida do pé direito
da parede paralela original que não pode
ser tocada... O espaço construído
remete a um teatro de sombras, circunstanciado à
movimentação no local, em alguns momentos...
O que existe além dessa descrição
ligeira?
TB: Um artifício (Fig. N.°10) pela
necessidade de melhor orientação para
as peças perfiladas do lado direito de quem
sai do corredor, descendo o degrau e chegando próximo
da vitrine... Elas podem ser movidas e colocadas
em angulações diferentes...
DT: Retornando para a porta de saída,
olhando para cima constato que a hipótese
curatorial, realizou-se formalmente... A seu modo,
você separou o passado-presente como a vidraça
(Fig. N.°9) que divide a torre da Igreja ao
meio... Debaixo para cima, decidiu pela ocupação
dos espaços vagos entre as placas, as escadas...
Não cessou! Mandou colocar três torsos
como se fossem estranhas ventosas nas paredes ao
redor da ogiva... Subindo com outros deles, seis
ao todo foram amarrados num estrado, com o propósito
deliberado de tê-los jogados de volta na redoma...
TB: Em alguns momentos, a gravidade, a física,
ajuda a segurar os objetos embaixo... Mas o que
está dentro doa grade, o travesseiro, tenderia
a subir por se tratar de uma matéria mais
leve... Mas o contrapeso é forte, segura,
não deixa que as peças vão
para onde querem ir... Por quê? Por estarem
ainda ligadas ao material...
|
|
Houve uma troca consciente de faces entre a Tânia
e eu. Sabíamos, desde o princípio,
que seria necessário fazer sacrifícios
para que OPUS continuasse emergindo via raciocínio
de ambas, tentando chegar através de uma
nova semântica, onde dizem que a arte está.
A transcrição das gravações
ocorreu normalmente, exceto no trecho da 'Noite',
quando se operou in loco um distúrbio na
rotação do gravador. As vozes que
saíram dele eram as nossas, mas estavam transformadas,
não sendo possível afirmar se eram
masculinas ou femininas... Sobre vozes, um outro
fato ocorreu num dia subseqüente quando eu
aguardava na porta do Museu de Arte Sacra e ouvi
um murmúrio ininterrupto... Distraída,
fechei os olhos e pensei - quem ora, quem canta
tragicamente insinuante? Não havia fenômeno,
dei por mim... Confundindo-se com a reza dos fiéis
na Hora do Angelus, o repertório musical
da Ocupação - de onde estão
as esculturas, os fragmentos, os expurgos - dissipava-se
na frieza do Largo da Ordem.
|
|
Os diálogos primordiais foram utilizados
no processo de conhecimento da OPUS; sendo mantida
sua essência, posteriormente foram reorganizados
sob a influência da leitura de BATAILLE, Georges.
A Santidade, o Erotismo e a Solidão; CORTÁZAR,
Julio. Casa Tomada; HEGEL, Georg. A Fenomenologia
do Espírito; HUSSERL, Edmund. Investigações
Lógicas; PONGE, Francis. O Murmúrio,
Parti Pris des Choses; RICOUER, Paul. A Metáfora
Viva, O Mal, Outramente; e da música de PÄRT,
Arvo. Tabula Rasa.
14/08/2001 - 14h15min. - Curitiba
Fig. N.°8. Grande angular (a peça citada
é a primeira da direita). Fig. N.°.9.
A torre dividida. Fig. N.°10. Artifício
cênico.
___________________
1 BLOOMFIELD, Tânia. Artista.
Especialista em História da Arte do Século
XX, Escola de Música e Belas Artes do Paraná-EMBAP,
1998-2000.
2 THOMAZ, Didonet. Artista. Especialista
em História da Arte do Século XX,
Escola de Música e Belas Artes do Paraná-EMBAP,
1999-2003. Mestranda em Poéticas Visuais,
Escola de Comunicação e Artes-ECA,
Universidade de São Paulo-USP/SP, 2004.
3 Nesta etapa, antes de proceder
à organização dos Diálogos
N.°5, N.°6 e N.°7, foram verificados
os interditos referentes à Igreja da Ordem
3ª de São Francisco das Chagas, ao Museu
de Arte Sacra da Arquidiocese de Curitiba e ao Patrimônio
Histórico, Artístico e Cultural. Agradecemos
ao Pe. Aleixo W. de Souza (Cúria Metropolitana);
à Ana Lucia Ciffoni e Ana Karla de Queiróz
Barboza (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano
de Curitiba-IPPUC); à Cassiana Lícia
de Lacerda e Guilmar Silva (Fundação
Cultural de Curitiba-FCC); ao Prof. Dr. Luiz Renato
Martins pelas referências bibliográficas
sobre Fenomenologia; ao Le Senechal, pelas fotos
e à Antônia Schwinden, pela revisão
das plaquetes.
4 Os Diálogos N.°5,
N.°6 e N.°7 foram publicados no jornal Gazeta
do Povo. Curitiba/PR, 02 set., 2001, Caderno G,
p. 12.
5 Revisão de Texto: Antonia
Schwinden.
6 Fotografia: Ivonaldo Alexandre,
Le Senechal, Roberto Coura.
7 Design: M. Betti.
8 Técnico de Computação:
Helton Tessari Brandão.
|
|