| Nunc Stans
Quando eu era um menino de quatro anos de idade, apaixonei-me
por duas questões. A primeira dessas perguntas começava
assim: dizem que o universo é infinito. Mas, sendo infinito,
onde ele acaba? E se essa infinitude acaba, o que a envolve?
Outros infinitos igualmente finitos? É possível
imaginar infinitos infinitos dentro do infinito que não
abarcamos? A segunda questão enigmática era a
distinção que as pessoas faziam entre vida e morte
e era traduzida por mim da seguinte maneira: Se eu acabar, acabar-se-á
também o mundo? Posso ser a imaginação
ou o sonho de alguém? Ou, se pelo contrário, o
mundo só existe em mim, acabará quando eu morrer?
Poderia eu ser responsável pela condenação
do mundo, ou ser condenado caso o sonhador do mundo acordasse?
Qual de nós, entre tantas pessoas existentes no mundo,
seria o verdadeiro responsável pelo sonho da existência?
Eu pensava essas coisas muito espontaneamente, enquanto brincava
de forte apache, sentado no chão da cozinha. Só
muito tempo depois percebi, no contato com o mundo, que se tratavam
de questões filosóficas.
É da mesma época a minha primeira lembrança
do cinema. Nesse tempo eu morava no interior e havia todo um
privilégio do cinema em relação à
televisão, que estava ainda restrita às cidades
maiores e eu só vim a conhecer um ano mais tarde na casa
de uma tia, em Curitiba.
Gosto que tenha sido assim. Que o meu primeiro contato, já
que faço parte de uma geração limítrofe,
tenha sido com o cinema e não com a televisão.
Lembro-me fielmente dessa experiência inaugural. Recordo-me,
por exemplo, de ter reparado na materialidade da sala de exibição,
as fileiras de cadeiras estofadas, imitando couro, vermelho
carmim, a estrutura e os braços de madeira que terminavam
numa curva suave, cuja intenção era expressar
suntuosidade. Depois, o conjunto das fileiras no balcão,
a amplitude geral da sala com a grande platéia abaixo
de mim, quando sentei no colo de minha mãe. Se não
sentasse no colo, o parapeito me impediria de ver a tela. Reparei
também no pé direito da sala, que se configurava
aos meus olhos como a estrutura de um palácio ou de uma
igreja, enfim, a um só tempo um ambiente solene e lúdico,
que em sua própria objetidade já carregava consigo
a aura da presença do que depois vim a chamar de cinema.
Depois, para além da materialidade arquitetônica
e decorativa, vieram as expressões sonoras inundando
o ambiente. Aparentemente do nada surgiu o ruído de um
sino, de timbre grave, ritmado, deixando meu coração
em completo suspense com o que se daria a seguir. Não
sei quantas badaladas foram, mas depois de um certo tempo a
luz ambiente começou a declinar e prestei atenção
no palco onde ficava a imensa tela branca revelada pelas cortinas
de veludo vermelho que se abriram suavemente, em perfeito uníssono
com as badaladas e o declínio da luz. Meu queixo caiu,
senti-me completamente entregue àquela experiência,
que eu só poderia chamar agora de místico-religiosa.
Era algo muito além da espacialidade vulgar da casa,
da vizinhança, do mundo em que eu vivia até então.
O forte apelo dramático desse pequeno momento me marcaria
para sempre.
Mas a surpresa maior ainda estava por vir. Quando as cortinas
terminaram de se abrir, as luzes apagaram completamente e o
sino finalmente parou de soar, eu vi a imensa tela branca sozinha
em sua própria obscuridade. Nisso, criou-se em mim a
expectativa do que estava por vir. A tela branca era para mim
como o papel branco em que eu desenhava com meus lápis-de-cor,
e, apostei, alguma coisa iria acontecer ali, pois tudo na sala
parecia convergir para aquele ponto, inclusive o olhar das pessoas
em volta. A platéia parecia repleta de uma expectativa
ansiosa, muda - com a escuridão reinou um súbito
silêncio. Mas, eu não sabia o que esperar de tudo
isso, ainda que tivesse mesmo a certeza de que algo aconteceria.
De repente, à minha direita, um raio de luz intermitente
cortou a sala e atingiu a tela, inundando-a de cores e... imagens
em movimento! Para mim, acostumado às fotonovelas da
minha irmã e às histórias em quadrinhos
que viviam espalhadas pela casa, aquilo foi o choque maior.
A luz transportara pessoas para dentro da tela, e não
apenas isso, todo um mundo, uma cena completa, além disso,
acompanhada de música e das vozes dos protagonistas que
inundavam a sala a partir das caixas de som estrategicamente
distribuídas ao fundo da tela branca e nas laterais da
sala.
Nesse ponto, a experiência começou a extrapolar
os limites da minha imaginação e eu supunha que
o que eu via, como num número de mágica, era a
própria realidade, a realidade em si, fiquei emparedado
no filme, e me relacionei com ele como coisa efetiva, sem diferenciá-lo
minimamente daquelas experiências humanas que eu conhecia
em meu próprio mundo.
Assim como eu imaginara a vida como um sonho, também
pude imaginar o sonho como vida, sem distingui-los um do outro.
E isto foi um pouco demais para mim.
O filme era uma comédia, e pela imagem que tenho em minha
memória, o protagonista conseguia transformar uma tarefa
simples, como pintar as paredes de uma casa, em uma complexa
sucessão de desvarios. Havia uma espécie de gato
mecânico, cuja função era abocanhar lixo,
que fugiu ao controle e tentava morder o pé do comediante,
que se equilibrava sobre uma escada. Em seguida, este perde
o equilíbrio e enfia o pé em um balde de tinta,
que fica preso, e ele tenta assim fugir do gato mecânico,
sem grande sucesso. Pelo menos é essa a cena que recordo.
Como eu não podia fazer a transposição
dos acontecimentos para o plano simbólico, não
pude associar nada disso com humor e vivi o desespero do protagonista,
justamente encenado para nos fazer rir. E, ao sentir-me identificado
com o sofrimento dele, de algum modo querendo que aquilo cessasse
imediatamente, reparei também nas risadas que chacoalhavam
a audiência inteira, incluindo mamãe. Esse segundo
elemento, as risadas, pareceu-me de uma crueldade sem limites
e, ao ver minha mãe rindo também, não suportei
mais e desatei a chorar, aos gritos, do fundo do fundo de meu
coração, simultaneamente pelo que acontecia ali,
na cena, e pelo que acontecia na sala, como uma espécie
de pesadelo acrescido a outro.
Porém, aquela reação incontida, por ser
proporcional aos meus sentimentos verdadeiros, pode fazer a
catarse, imagino, do evento, e não desenvolvi nenhum
tipo de repulsa ao cinema, que poderia ser suposta na minha
reação inicial. Muito pelo contrário! Tornei-me
um rato de cinema. Dos quatro aos sete anos, quando ainda não
tinha idade para assistir aos filmes sozinho, o dono do cinema,
responsável por toda aquela magia, ciente da minha paixão
por aquela estranha forma de mundo que aparecia na tela, deixava-me
entrar. Ele sempre, com um olhar maroto, perguntava-me que idade
eu tinha. Eu não sabia dizer sete anos, mas mostrava
sete dedinhos para ele que, satisfeito com aquilo, deixava-me
passar por baixo da roleta e ver qualquer coisa que estivesse
passando lá dentro, várias vezes por semana, de
dia ou de noite.
A minha verdadeira formação cinematográfica
se deu nesse tempo e passei a compreender a arte, antes de entende-la
como arte, como uma experiência e como um fato da minha
sensibilidade. Eu acho que isso é o que se deu de verdadeiramente
decisivo, do ponto de vista de minhas concepções
estéticas, das pessoas de quem me aproximei, especialmente
artistas, e da minha visão de mundo, que privilegia a
arte como este nunc stans, isto é, como um ser no presente
que engendra todos os mundos possíveis, inclusive os
mundos aparentemente tão distantes do fenômeno
e da linguagem da arte, como aqueles da ciência e da filosofia.
O mundo comum, nesse sentido, sempre me pareceu um mundo que
se esqueceu de sua origem na arte, enquanto que o papel da arte
é o de instaurar sempre de novo a humanidade e a cultura.
Cada grande momento de criação exige uma resposta
do mundo, que este, como eu naquela primeira experiência
com o cinema, não está em condições
de oferecer e de se contrapor à altura, exigindo então
uma reviravolta das interpretações da vida, dos
valores e das linguagens possíveis na experiência
de simbolização.
Do mesmo modo como nunca me livrei da experiência do sagrado
naquela sala de cinema, também nunca me livrei da impressão
de idealidade e fantasmagoria do mundo real, da questão
da vida como sonho, e da morte da infinitude como grandezas
sublimes, que, se por um lado, alienam-me do real da realidade,
criam uma fenda intransponível no mundo efetivo, por
outro, lançaram-me e me lançam ainda hoje frente
aos limites possíveis de minha própria interioridade,
os dois cosmos, o de dentro e o de fora, incomensuráveis,
grandezas que jamais pude abarcar, mas que me alimentam decisivamente
numa espécie de pesquisa de meios, que me possibilitem
ensaiar uma interpretação, ainda que metafórica,
de minha experiência no mundo.
É por isso que acredito que o evento inaugural do mundo
humano, desse mundo feito de linguagens, de técnicas
e tecnologias, seja uma espécie de profecia, e, sendo
profecia é já poesia, quando não música,
que anuncia a eternidade do efêmero. Não vejo nisso
que escrevi um mero jogo de palavras: por trás do artifício
de linguagem resta o fato de que há uma experiência
subjetiva em qualquer linguagem humana, e é essa experiência
que se repete em cada existência individual, em cada contexto
cultural, em cada história particular ou mesmo nos grandes
movimentos coletivos, que parecem todos nos sugar para o centro
do abismo do conhecimento, enquanto que as coisas criadas pela
humanidade, ainda que não carreguem a dor das existências
efetivas, carregam consigo toda carga emocional da existência
possível, pois é do ponto de vista da idealidade
do mundo que podemos compartilhá-lo, já que efetivamente,
senão pela arte como experiência emocional comum,
cairíamos inevitavelmente no solipcismo, isto é,
no egoísmo teórico. É do mundo da arte
que surgem todas as linguagens propriamente humanas.
Assim, indo mais longe nesse raciocínio, não vejo
nenhuma barreira insuperável, por exemplo, entre arte
e tecnologia, pois tudo pode se por como instrumento da arte,
mesmo conceitos e técnicas, ainda que a arte ao se alimentar
desses seus subprodutos, jamais poderá ser isolada neles,
ou ser dependente deles. Assim como Baudelaire disse que, ao
se suprimir o ópio do drogado, este arrumará mil
outras formas para se drogar, eu digo que, caso suprimamos os
meios do artista, ele arrumará também inúmeras
outras maneiras de expressar o paradoxo da existência,
ainda que, circunstancialmente, num gesto desesperado de impotência
diante da total ausência de meios. Simplesmente porque
o próprio do artista é a atividade de instaurar
o mundo, que já é o Trieb básico da vida
como fato humano. Não que eu queira dizer com isso que
um meio determinado equivale a todos os outros possíveis,
como se a literatura, por exemplo, já pressuponha o cinema,
ainda que, no entanto, ambos compartilhem os universos narrativos.
A peculiaridade dos ambientes narrativos influencia decisivamente
a forma, ainda que subsista, ao fundo, o atavismo de uma história
contada ao pé da fogueira. Em parte, a arte media o conhecimento
das possibilidades, e, em parte preserva os mundos incomunicáveis
numa espécie de diálogo onírico, em que
o comunicado nem sempre é o que é interpretado
e, quase sempre, a profusão de interpretações
possíveis faz restar sempre como última alternativa
uma nova metáfora, não apenas como deslocamento
de sentido, mas também como hermenêutica, como
arte da interpretação do universo colocado pelo
artista. Nesse sentido, ainda que as interpretações
sempre venham a convergir para o mundo da arte, este não
deve ser pressuposto em toda interpretação, pois
há sempre algo para ser apropriado na arte desde onde
se está. É por isso que se pode dizer que os artistas
são aqueles cujas noturnas luzes iluminam o mundo inteiro,
ainda que esse mundo criado pelo artista na escuridão
inconsciente de sua obra seja virtualmente incomunicável,
pois a forma substantialis se perde na amabilis insania do artista
e a cada vez precisa ser de novo acidental, fortuita como uma
interpretação. É por isso que Kant elege
como seu problema o juízo de gosto, declarando que não
é possível universalizar tal coisa, a não
ser no âmbito do senso comum, como uma reinvindicação
vazia de sentido mais profundo. Assim, a loucura é a
festa da imaginação, enquanto os deslizamentos
de sentidos nos remetem sempre adiante, excluindo qualquer pretensão
de objetividade em arte.
Vendo a coisa novamente pelo ponto de vista da técnica,
existe como que uma subversão das relações
envolvidas num determinado fenômeno, ou num determinado
instrumento, quando esses são utilizados como meios pelo
artista. Pois ali, naquela técnica, não é
mais o útil o que importa, como na técnica em
geral, mas sim o possível no fato da técnica.
Assim, não é mais o 'para que' no tempo, mas o
'o que' fora do tempo o que interessa. A atitude, bem como o
olhar, perdem-se das relações habituais, para
se reencontrarem alhures, onde tudo simplesmente é, pois
só o que existe fora do tempo permanece e esta é
a única forma de eternidade possível, aquela que
nos aponta para a liberdade do gesto criativo, fazendo irromper
na técnica um sentido atemporal, para muito além
do entretenimento, da reflexão ou da utilidade. Assim,
a cada vez surge diante de nós uma visão da eternidade
na finitude da técnica.
Eu gostaria de puxar toda essa conversa agora para o horizonte
do meu trabalho em particular, para dizer que todos esses elementos,
se discutíveis do ponto de vista de uma estética
universal, que não existe nem pode existir, são
pelo menos pertinentes com o horizonte que se impõe a
mim quando crio uma coisa qualquer, seja um poema, um livro,
uma gravura, um filme, um vídeo, ou mesmo quando escrevo
um texto como esse, de caráter ambíguo, transitando
entre o confessional e o filosófico.
Como eu jamais pude me livrar das impressões infantis
que vivenciei, e como certas coisas são de certo modo
inacessíveis no âmbito de uma única existência
humana, parece-me que o cinema e, em especial um tipo de arte
experimental que se pode fazer com a técnica do cinema,
seja o verdadeiro ponto de convergência de todas as minhas
possibilidades e impossibilidades de experiência, transfiguradas
numa única experiência possível. Explico:
Nunca consegui, por exemplo, tornar-me um músico profissional,
ainda que ame a música e em especial o jazz. Desse modo,
um dos elementos mais significativos do meu trabalho até
o momento, é não apenas a apropriação
das músicas de jazz realmente existentes, como acontece,
por exemplo, já de cara em "Olhos de Rubi",
com Charles Mingus, mas também, e principalmente, adotar
um método de composição, edição
e finalização dos trabalhos, próximo da
linguagem do jazz, no sentido disso que chamei de improviso
virtuoso, ou seja, do privilégio da apercepção
sobre a preparação.
Digo isso para privilegiar o papel da técnica como possibilidade
do efetivo e não como amarra do real.
Tem mais: Jamais me tornei um pintor no sentido literal, apesar
de meu profundo envolvimento com as técnicas vinculadas
às artes plásticas, especialmente as da gravura,
mas o cinema me permitiu fazer todo tipo de experiências
com composição, profundidade de campo, iluminação,
modificações cromáticas e de textura, imagem
em negativo, desfoques, e ainda acrescentando a abordagem do
tema da ilusão do movimento, e aqui eu remeto o leitor
ao paradoxo de Zenão de Eléia (1) , o que nos
impele imediatamente para os domínios do sonho e da imaginação
infantil, como comentei no início do meu texto, numa
abordagem indisfarçavelmente vinculada ao idealismo,
por um lado, e a categorias existenciais, por outro.
Na verdade, o que pode fazer com que um sujeito como eu escape
um pouco do delírio individual, é fazer com que
mais pessoas se exponham às imagens oníricas e
fragmentárias que me povoam como fantasmagorias. Em meus
trabalhos, tudo é verdade de experiência, embora
não se deva esperar de mim nenhuma literalidade ou linearidade,
mas sim, permitir que das máscaras e ilusões que
proponho, possamos nos remeter para um mundo ativo que subjaz
aos sentidos possíveis e os constroem de dentro pra fora.
Apenas acontece que, no meu caso, fico mais do lado do caos
primordial, dionisíaco, trágico, do que da narrativa
apolínea, que espera encerrar o caos no sentido. Não
vim para trazer a paz. E nem seria capaz disso, pois sou esporeado
por demônios.
Ainda do ponto de vista das imagens, não me importo muito
em produzi-las para o trabalho específico, ainda que
o faça, não me importando (e até necessitando
disso) em utilizar meus arquivos pessoais. Isso tem o sentido
de extrair as imagens de seu contexto histórico e remete-las
ao plano ideal, onde não poderá ser tocadas pelos
sentidos que as aprisionavam nos contextos originais. O exemplo
das imagens do poeta, cineasta e ator Ricardo Carvalho em "É
novo o vento de outono" que, destituídas de sua
função original em outro trabalho que jamais finalizei,
adquirem caráter farsesco, por um lado, e inquietante,
por outro, é típico. Deslocadas de seu contexto
original, o espectador precisa decidir se lhes atribui um caráter
romântico e naive, ou se as interpela pelas vertentes
do não-senso ou do estranho, enquanto emergência
do inconsciente.
Do ponto de vista da definição das imagens, pois
esse é um universo pelo qual transitam todas as tecnologias
cinematográficas, sempre procurei conhecer e utilizar
as idiossincrasias dos meios e inclusive tirar partido delas,
ampliando-as, como no caso de granulações, ou
costurando-as com outras peculiaridades, como no caso de misturar
mídias com níveis de definição muito
diferentes, o que sempre conduz a um resultado impossível
do ponto de vista de uma única mídia particular,
gerando assim um tipo de informação que não
pode ser reconhecida por seus pontos de origem, mas apenas pelos
contornos que assumiu definitivamente nos processos de finalização,
que acaba sendo para mim o momento maior da criação,
pois é nesse momento que convergem para a tela todos
os planos de realidades e sonhos nos quais estive mergulhado
durante o processo inteiro. É na finalização
que o trabalho aparece inteiro, e surge diante de nós,
comparativamente, como uma apresentação ao vivo
de jazz, onde todo o estudo e a técnica apurada convergem
para um momento de ampliação da consciência,
um momento não-necessário, mas que se explica
pelo próprio processo e revela-se, a partir disso, como
qualquer coisa existente e, portanto, em si mesma definitiva.
Do ponto de vista da palavra, que pode ou não estar presente,
não lhe dou um privilégio estruturador, mas antes
um papel de desestruturadora narrativa, até porque não
estou, até o momento, interessado em contar histórias,
mas sim em expor brutalmente condensações de sentidos
humanos possíveis, deslocados da lógica e da poética
aristotélicas que possuem privilégio narrativo,
por estarem mais vinculadas à percepção
vulgar, mas que apresentam o defeito da própria percepção
humana, que é o de se tomar como substituto literal do
objeto, sem atentar para a esquize da experiência no ato
perceptivo. Assim, a palavra mesmo que surja na forma de uma
seqüência de poemas, não existe ali necessariamente
para ser lida, mas exige, pelo contrário, uma espécie
de transformação daquilo que seria talvez um livro
em movimento, no movimento do livro na direção
do filme, isto é, puro cinema não-narrativo. É
por isso também que raramente roteirizo qualquer coisa
em meus próprios trabalhos autorais, ainda que seja autor
de muitos roteiros de filmes e vídeos essencialmente
narrativos e até mesmo lineares. Em todo o caso, não
é isso o que eu faço quando pesquiso alguma coisa
mais próxima do improviso virtuoso. Esse jazz pode ser
dito, de outra maneira, como a tradução prática
de uma técnica dentro da técnica contra a técnica,
e não a ausência de técnica.
Para resumir esse tipo de proposta de trabalho no sentido de
suas linhas de força, teríamos talvez que evocar
alguns binômios possíveis, como ser e não
ser, tempo e eternidade, sanidade e loucura, encontro e perda
do objeto, narrativa e caos, unidade e multiplicidade, mekhané
e origem, simplicidade de execução e objetivos
complexos, perda no encontro e encontro na perda, só
para citar alguns caminhos possíveis de interpretação
do que aparece.
No fundo, com tudo isso, quero dizer que o privilégio
da arte não é o conceito, mas a sua desestabilização
no processo. Não se trata de explicar nada, mas de avançar
decididamente rumo à obscuridade formativa do ser, onde
se origina toda obra de arte e que, como diz Heidegger, enquanto
se mostra, oculta-se. Assim, se não podemos revelar o
ser naquilo que ele é, restam pelo menos os atos que,
na parcialidade do tempo presente, revelam o humano ao humano,
e nos obrigam a uma reinterpretação constante
de tudo o que já fez provisoriamente algum sentido.
A questão é agüentar a báscula dos
sentidos aderentes à obra. E depois, regozijar-se da
incerteza conquistada como campo de possibilidades inaugurais.
1 - Filósofo grego, nascido entre 490
e 495 a.C. e falecido provavelmente nessa mesma cidade em data
desconhecida. Zenão opunha à evidência sensível
uma série de raciocínios destinados a refuta-la.
Sobretudo, dizia que o movimento, por não ser racional,
não podia ser real: por ser impensável, o movimento
é impossível. O primeiro argumento sustentava
que todo móvel, para atingir dado ponto, devia primeiro
percorrer a metade da distância que o separa dele e antes
a metade da metade e assim por diante até o infinito.
O segundo argumento, "Aquiles", afirma estritamente
a mesma coisa, mas para uma distância qualquer e indeterminada:
nunca o veloz Aquiles alcançará a tartaruga preguiçosa,
pois, como a distância que os separa consiste numa série
infinita de pontos distintos uns dos outros, Aquiles nunca acabará
de atingir pontos que a tartaruga já deixara para trás.
O terceiro argumento, a "flecha, pressupõe, além
de uma decomposição do espaço real em pontos
geométricos, uma decomposição semelhante
do tempo em instantes indivisíveis: uma flecha não
pode atingir seu alvo por deslocamento em relação
ao lugar, uma vez que ela estará ocupando um espaço
igual a si mesma em cada um dos instantes de seu trajeto, e
que uma série de imobilidades, mesmo infinita, nunca
fará um movimento. Não citarei aqui o quarto argumento,
mais obscuro, mas antes comentarei que o terceiro argumento
é a base da ilusão especular do cinema, pois neste,
cada um dos fotogramas está imóvel e se ajusta
à idéia do movimento por um defeito da retina,
chamado de "persistência retiniana".
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