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Nietzsche, arte e criação
de valores
"Toute Pensée émet um Coup
de Dés"
(MALLARMÉ, Stéphane.)
Esse pequeno texto pretende retomar questões relacionadas
à arte e à estética, tendo em vista um
esclarecimento de determinadas temáticas e conceitos
de Friederich Nietzsche. Além disso, veremos também
como este autor trabalha o binômio arte e conhecimento
nas filosofias de Sócrates, Platão, Aristóteles,
Kant e Schopenhauer.
Em primeiro lugar, o que parece separar radicalmente Nietzsche
desses outros filósofos é a sua percepção
psicológica dos mecanismos emocionais que desencadeiam
o fazer filosófico, e mesmo o fazer científico,
como resultantes de um ideal de verdade, que tem como fundo
uma profunda desconfiança em relação à
vida e, em particular, uma negação da condição
humana, vale dizer, orgânica, que se traduz pelo desprezo
ao "mundo aparente".
É esse desprezo (traduzido por Nietzsche pela expressão
"ideal ascético") ao corpo e ao mundo, que
o autor da "Genealogia da Moral" vai considerar por
demais impregnado nos "homens do conhecimento", a
ponto de se perguntar em que medida ele próprio estará
livre disso: "Provavelmente também nós somos
'bons demais' para nosso ofício, provavelmente também
nós somos ainda as vítimas, as presas, os doentes
desse moralizado gosto atual, por mais que acreditemos desprezá-lo"(1)
.
Esse "ideal ascético", como um "imperativo
inconsciente"(2) , tão pregnante,
que tem o objetivo de curar o sofredor através da promessa
metafísica de outros mundos melhores do que este, isto
é, a busca de preservar a vida já como anti-vida,
ou como deslocamento da vida para um ideal alheio às
verdadeiras condições de existência, é
o que une, para o Nietzsche da Genealogia, o filósofo,
o sacerdote e o cientista.
Sim, também o cientista, esse mesmo homem de ciência
que já fora enaltecido por Nietzsche em outras obras,
surge agora interpretado como caso tardio do ideal ascético
-pois também ele professa um ideal de verdade, uma vontade
de verdade, como se existisse uma verdade-em-si:
"Nós, homens do conhecimento de hoje,
nós, ateus e antimetafísicos, também nós
tiramos ainda nossa flama daquele fogo que uma fé milenar
acendeu, aquela crença cristã, quer era também
de Platão, de que Deus é a verdade, de que a verdade
é divina... Mas, como, se precisamente isto se torna cada
vez mais incrível, se nada mais se revela divino, exceto
o erro, a cegueira, a mentira - se Deus mesmo se revela como a
nossa mais longa mentira?" (3)
Nietzsche aponta para a lacuna existente em cada filosofia,
para não falar nas religiões, estendendo essa
constatação aos homens de ciência e aos
ateus em geral, a respeito da interpretação e
justificação da vontade de verdade, isto é,
sugere que se discutem valores, sem que haja por trás
desses mesmos valores, antagônicos ou não, uma
crítica que estabeleça a origem e os pressupostos
dessas mesmas valorações.
Assim, Nietzsche denuncia a moral que ressurge sempre de novo,
como uma fênix, como "ideal ascético",
"niilismo" e "vontade de verdade", isto
é, como uma criação humana, refletindo
uma inconsciência fundamental: a da moral como grande
mestra da sedução, aquela que encantou com sua
autoridade os mestres do conhecimento, inclusive Kant e Schopenhauer,
que construíram seus edifícios teóricos
problematizando tudo, mas sem admitir enfocar a própria
moralidade como um problema sob a questão do conhecimento.
A moral da verdade sabe entusiasmar, do mesmo modo que sabe
apavorar:
"Freqüentemente consegue paralisar
a vontade crítica com um único olhar e até
atraí-la para o seu lado, havendo ocasiões em
que sabe fazê-la voltar-se contra si mesma: de modo que,
como o escorpião, ela crava o ferrão no próprio
corpo. Há muito tempo a moral conhece todas as artes
diabólicas da persuasão"(4).
Para Nietzsche, assim como para Schopenhauer, Kant não
teria necessidade de sua "Crítica da razão
pura", caso já não estivesse de antemão
voltado para uma tentativa de tornar a moral inatacável,
ou "melhor ainda, inapreensível para a razão"(5)
.
Há no prefácio da segunda edição
da Crítica, uma passagem citada por Rubens Rodrigues
Torres Filho (6), na qual escreve Kant:
"Tive de suprimir (aufheben) o saber para obter lugar para
a crença". Segundo Torres Filho, Kant tem a intenção
declarada de preservar os valores cristãos, justamente
sob uma ótica que não permite que esses valores
possam ser atacados: a razão prática.
Não entrarei aqui em maiores detalhes sobre a distinção
entre razão pura e razão prática, mas deixo
destacada a oposição entre uma lei moral, a da
razão prática, que preserva uma possibilidade
de julgamento e liberdade de escolha, e uma lei natural, a da
razão pura, baseada em fatos irredutíveis regulados
pelo nosso modo a priori de percepção.
A observação de Nietzsche mencionada acima, a
de que Kant astutamente preserva a moral do ataque dos céticos,
encontra, portanto, seu eco em diferentes vozes, mas Nietzsche
escreverá também que Schopenhauer, ao criticar
a moral kantiana, cai no mesmo erro, pois também ele
possui critérios não esclarecidos, passíveis
de uma interpretação psicológica como sintomas
de uma "vontade de nada", que apontam para um questionamento
da fundamentação da sua moral na compaixão,
como uma necessidade (sintoma fundamental, traço psicológico
básico) do próprio autor de "O mundo como
vontade e representação".
Essa moral da compaixão parecerá a Nietzsche um
retrocesso, pois retoma o paradigma cristão desde um
ponto de vista psico-fisiológico: Somos todos sofredores
nessa vida, vivemos sob o signo da opressão da necessidade
e do desejo, logo, somos todos merecedores de compaixão.
Esta moral schopenhauereana é considerada a moral do
sofredor, daquele que sente a vida como um fardo, mas que, por
outro lado, está ele mesmo repleto dessa vitalidade,
considerada opressiva e dolorosa.
Além disso, a própria idéia de um "fundamento"
da moral, seja o fundamento formal kantiano ou o fundamento
afetivo schopenhauereano, elimina de antemão a noção
de perspectiva dos valores adotados, isto é, de como
os valores se tornam verdades: a questão de Nietzsche.
Logo, este será impiedoso com ambos.
Para Nietzsche, esses valores são construídos
por pessoas reais, não têm caráter universal,
e se baseiam em motivos psicológicos inconscientes, isto
é, unilaterais e referentes às características
de personalidade daqueles que os professam, sendo, portanto,
passíveis de uma interpretação de suas
origens e finalidades.
Em Crepúsculo dos ídolos, Nietzsche seguirá
a mesma linha para criticar Platão e Sócrates
como "sintomas de decadência" e de "decomposição
grega" (7): "Esses sábios
entre os sábios mantinham entre si um acordo fisiológico,
para assumirem diante da vida essa mesma atitude negativa"(8)
.
Para Nietzsche, essas valorações a respeito da
vida são absurdas e, portanto, só podem ser vistas
como sintomas: "o valor da vida não pode ser apreciado"
(9), pois é objeto de litígio
entre os homens, em particular entre os filósofos.
Com Sócrates, segundo o autor do Crepúsculo dos
Ídolos, a razão foi erigida em tirana e, a partir
daí, qualquer concessão ao mundo dos instintos,
pulsões, e ao inconsciente, nos rebaixa. Essa é
a principal crítica a Sócrates: seu remédio
para a decadência do mundo grego é ele próprio
um sintoma de decadência. Assim, "ver-se obrigado
a combater os instintos é a fórmula da decadência,
enquanto que na vida ascendente, felicidade e instinto são
idênticos." (10)
Aqui nós vislumbramos a gênese da inversão
de sinais que promove Nietzsche em relação àqueles
filósofos que considera inimigos da vida: no lugar de
um ideal de verdade, um ideal de vitalidade. É isso o
que lhe permite inverter o sentido da epígrafe schopenhauereana,
"consagrar a vida à verdade" (11),
escrevendo então, em Aurora, uma outra fórmula:
"consagrar a verdade à vida". Busca com isso
associar as noções de vida e conhecimento, que
em filósofos como Sócrates, Platão, Kant
e Schopenhauer, parecem-lhe caminhar separadas e até
mesmo como tendências antagônicas, pois a verdade
foi entronizada como um ser supremo, não podendo representar
um problema. No entanto, a partir do momento em que a fé
ascética é negada, passa a existir esse novo problema,
o valor da verdade: "A vontade de verdade requer uma crítica"(12).
Para Nietzsche, também a ciência joga no mesmo
terreno do ideal ascético filosófico-religioso:
a superestimação da verdade, sendo, por isso,
aliados. E aqui, devemos citar o caso primordial que exemplifica
essa idéia: o da aparente oposição entre
Platão e Aristóteles.
É notório que Platão iguala as noções
de razão, virtude e felicidade. Nietzsche então
polemiza ao dizer que as duas diferentes escolas filosóficas
divergem apenas no modo como buscaram a verdade. No pensamento
de Nietzsche, o ideal ascético do primeiro, representado
pelo mundo das Idéias, é irmão da ciência
lógica e do empirismo do segundo, pois professam por
diferentes caminhos o mesmo ideal de verdade como meta da filosofia.
É isso que vai permitir, por exemplo a física
aristotélica, tão repleta de fantasia como a obra
de Hesíodo, mas que se apresenta como um artefato lógico
e, "portanto", "verdadeiro". Tem a pretensão
de avançar no terreno da verdade, e despreza o conhecimento
da natureza tal como se apresenta em Empédocles e Heráclito,
por exemplo, que do ponto de vista de nossa contemporaneidade
são bem mais conseqüentes do que ele, como admitem
Russell e Schopenhauer, por exemplo. No entanto, para Aristóteles,
faltava-lhes lógica, como bem vemos no primeiro capítulo
de De Anima, por exemplo, onde o autor faz uma revisão
bibliográfica da literatura psicológica existente
até então e descarta pensamentos conseqüentes
simplesmente por considera-los mal-formulados do ponto de vista
lógico-formal.
A super-estimação da verdade: é essa inesperada
correlação entre ciência, filosofia e religiosidade
que Nietzsche denunciará como sintoma também da
modernidade. Também a ciência positiva moderna
não é o antagonista natural do ideal ascético,
antes requer um ideal de valor, um poder criador de valores.
O autor abordará a questão nos seguintes termos:
Ambos, ciência e ideal ascé-tico,
acham-se no mesmo terreno - já o dei a entender -: na
mesma superestimação da verdade (mais exatamente:
na mesma crença na inestimabilidade, incriticabilidade
da verdade), e com isso são necessariamente aliados -
de modo que, a serem combatidos, só podemos combatê-los
e questioná-los em conjunto. Uma avaliação
do ideal ascé-tico conduz inevitavelmente a uma avaliação
da ciência: mantenham-se os olhos e os ouvidos abertos
para esse fato! (13)
Mas, onde então Nietzsche encontrará o antagonista
natural do ideal ascético? Na arte, mas não necessariamente
no artista:
(...) [A arte, onde] precisamente a mentira
se santifica, [onde] a vontade de ilusão tem a boa consciência
a seu favor, opõe-se bem mais radicalmente do que a ciên-cia
ao ideal ascético: assim percebeu o instinto de Platão,
esse grande inimigo da arte, o maior que a Europa jamais produziu.
Platão contra Homero: eis o verdadeiro, o intei-ro antagonismo
- ali, o mais voluntarioso "partidário do além",
o grande caluniador da vida; aqui, o involuntário divinizador
da vida, a natureza áurea. A vassalagem de um artista
ao ideal ascético é, portanto, a mais clara corrupção
do artista que pode haver, e infelizrnente das mais corri-queiras:
pois nada é mais corruptível do que um artista.(14)
É interessante notar que no mesmo trecho em que Nietzsche
elogia o poder instaurador da arte e o artista como divinizador
da vida, critica também o ideal ascético presente
entre os próprios artistas, o que os tornaria potencialmente
corruptos, vassalos do ideal. Isso porque não é
possível interrogar sobre a origem da arte a partir da
consciência do artista. A arte possui raízes mais
profundas, nas quais se perde o próprio intelecto, infenso
às coisas exteriores, que retira suas técnicas
e visagens da experiência, mas não pode acessar
suas fontes internas à vontade, pois a linguagem característica
da arte nasce de dentro pra fora, como uma avaliação
metafórica da existência, pré-conceitual.
Já o conceito, para Nietzsche, assim como para Schopenhauer,
é apenas o resíduo de uma metáfora instauradora,
límpida, e, ao mesmo tempo, obscura enquanto ponto de
origem. Ao conceito resta apenas a função de justificação
da experiência, a posteriori. Assim, o que há de
incompreensível e, portanto, incompleto, na experiência
do mundo, é também intimamente inapreensível,
a própria experiência da diferença e do
deslocamento de sentidos que caracteriza o fundo da linguagem
artística, que é para Nietzsche a própria
erupção da vida, desmedida, profusa, controlada
apenas pelo elemento apolíneo daquilo que em nós
busca clareza, luz, definição e amparo. Mas, não
há amparo, e o que surge e ressurge na arte é
esse elemento que nos impele rumo à própria diferença,
o mundo das forças que exigem consciência, mas
não podem ser definidas meramente por simples e vãos
conceitos. Como diz Ossip Mandelstam, em "O rumor do tempo",
"conceitos abstratos sempre fedem a peixe podre. É
melhor o chiado maldoso e alegre dos bons versos russos".
Com esta simples formulação do poeta russo, podemos
depreender o lapso de tempo passado entre o despertar da vida
na arte como experiência intelectual originária,
e as tentativas da cultura de definir o objeto e o transcorrer
artísticos, opondo seus mal-definidos conceitos às
realizações efetivas, que sempre ultrapassam a
linguagem definida, deixam um resto, que nos impele rumo ao
próximo fazer, à próxima revelação
da vida. Segundo Nietzsche, os grandes pensamentos são
também os maiores acontecimentos e, por isso, são
os mais tardiamente compreendidos: "as gerações
que lhes são contemporâneas não vivem tais
acontecimentos - sua vida passa por eles. Aqui acontece como
no reino das estrelas. A luz das estrelas mais distantes é
a que mais tardiamente chega aos homens; e, antes que chegue,
o homem nega que ali - haja estrelas". (15)
Também num escrito não-publicado em vida, chamado
"Verdade e mentira no sentido extramoral", de 1873,
Nietzsche vai trabalhar essa mesma relação entre
um conhecimento originário, metafórico, alusivo,
e um conceito que representa a vã sede de conhecimento
e segurança, uma vontade de verdade, que consola e ilude
o homem, que então "estabelece uma convenção
sólida", isto é, "mente em rebanho",
"inconscientemente":
"Enquanto cada metáfora intuitiva
é individual e sem igual e, por isso, sabe escapar a
toda rubricação, o grande edifício dos
conceitos, ostenta a regularidade rígida de um columbário
romano e respira na lógica aquele rigor e frieza, que
são da própria matemática. Quem é
bafejado por essa frieza dificilmente acreditará que
até mesmo o conceito, ósseo e octagonal como um
dado, e tão fácil de deslocar como este, é
somente o resíduo de uma metáfora, e que a ilusão
da transposição artificial de um estímulo
nervoso em imagens, se não é a mãe, é
pelo menos a avó de qualquer conceito, porém,
chama-se de verdade usar cada dado assim como ele é designado,
contar exatamente seus pontos, formar rubricas corretas e nunca
pecar contra a ordenação de castas e a seqüências
das classes hierárquicas. Assim como os romanos e etruscos
retalhavam o céu com rígidas linhas matemáticas
e em um espaço assim delimitado confinavam um deus, como
em um templo, assim cada povo tem sobre si um tal céu
conceitual matematicamente repartido e entende agora por exigência
de verdade que cada deus conceitual seja procurado somente em
sua esfera. (...) Como gênio construtivo o homem se eleva,
nessa medida, muito acima da abelha: esta constrói com
cera, que recolhe da natureza, ele com a matéria muito
mais tênue dos conceitos, que antes tem de fabricar a
partir de si mesmo." (16)
Assim, a vontade de verdade é um hábito secular
que ilude a consciência tendo em vista o antropomorfismo
da operação, ou seja, tudo se refere, kantianamente,
ao modo como opera a racionalidade para erigir as cidadelas
da cultura. Só que aqui vemos Kant radicalizado, e Schopenhauer
radicalizado, pois Nietzsche nega um refúgio, quer sejas
ele uma "razão prática", como em Kant,
quer seja um "puro sujeito do conhecimento", como
em Schopenhauer. Estamos sozinhos e nus diante do universo,
sem que este tenha nenhuma qualidade que não seja apenas
humana, pois a tudo tingimos com as cores de nossa sensibilidade
de animal avaliador por excelência. Só não
podemos esquecer, nesse contexto, que toda avaliação
é transitória, alusiva, metafórica, inconstante,
e que não é nenhuma vantagem extraordinária,
pelo menos do ponto de vista artístico, congelar o mundo
em conceitos. Antes, o conceito e o homem que o cria, devem
suportar a báscula constante dos sentidos, a constante
re-instauração do mundo pela linguagem, partindo
das fontes obscuras daquilo que em nós antes de circunscrever,
amplia os limites da experiência. Por isso, a arte não
pode ser subordinada à moral (sua contra-natureza), à
política, à ciência, à filosofia
- ela está alhures, no princípio das coisas, junto
às fontes vitais.
A arte como estimulante da vida
Esses "contemplativos" que vão
para o Diabo!
(NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos.)
Há um trecho específico do Crepúsculo
dos ídolos em que Nietzsche aborda a relação
de Aristóteles e Schopenhauer como dois que não
compreenderam o sentido da arte como afirmação
da vida, por não terem suportado o regime de forças
que puderam vislumbrar de modo incompleto na experiência,
e é essa insuportabilidade que a ausência de controle
acarreta, que será denunciada tanto no silogismo (Aristóteles),
quanto na metafísica do belo (Schopenhauer). A primeira
traduzida como um triunfal, apolíneo e antropomórfico
sentido de domínio conceitual da natureza, e a segunda
como um sentido de descrença e de desilusão no
interior dessa mesma lógica:
A psicologia da orgia como sentimento de vida
e força transbordante, dentro dos limites do que até
a dor opera como estimulante, deu-se a chave da idéia
do sentimento trágico, que nem Aristóteles nem
nossos pessimistas lograram compreender. Tão longe está
a tragédia de demonstrar algo a favor dos pessimistas
gregos, no sentido de Schopenhauer, que poderia ser considerada
como sua refutação definitiva. A afirma-ção
da vida até em seus problemas mais árduos e duros;
a vontade de viver, regozijando-se no sacrifí-cio de
nossos tipos mais elevados, é o que eu chamei de dionisíaco,
e nisso acreditei encontrar o fio condu-tor que nos conduz à
psicologia do poeta trágico. O fim da tragédia
não é desembaraçar-se do medo e da piedade,
nem se purificar duma paixão perigosa, mediante sua descarga
impetuosa como o entendeu Aristóteles - mas realizar-se
em si mesmo, acima do medo e da piedade; é a eterna alegria
que leva em si o júbilo do aniquilamento... (17)
Ora, aqui temos a exata expressão da noção
de arte dionisíaca, a arte trágica. A arte que
instaura padrões e por isso só pode ser medida
por seus próprios axiomas, que são em si mesmos
extramorais:
A arte pela arte. -A luta contra a finalidade na
arte é sempre uma luta contra as tendências moralizadoras,
contra a subordinação da arte à moral. A
arte pela arte quer dizer: "ao diabo com a moral". Essa
mesma inimizade denuncia o poder preponderante ainda daquela preocupação.
Porém ainda que se excIua da arte o fim de edificar e melhorar
os homens, não se conclui daí que a arte deva carecer
em absoluto dum fim, duma aspiração e dum sentido;
que seja, numa palavra, a arte pela arte -;- a serpente que morde
a própria cauda. - "Antes não ter um fim que
ter um fim moral!" Assim fala a paixão. Porém
um psicólogo pergunta, ao contrário: O que em toda
espécie de arte faz? Não louva? Não glorifica?
Não isola? Com tudo isso a arte fortalece ou enfraquece
certas avaliações; é isso um acessório,
uma coisa acidental? É algo em que o instinto artístico
não tem participação completa? É que
a faculdade de poder do artista não é a condição
primeira da arte? Está o seu instinto básico dirigido
à arte, ou preferivelmente ao sentido da arte, à
vida, a um desejo de vida? A arte é o grande estimulante
da vida. (18)
Nietzsche deplora a noção de uma "contemplação
desinteressada", e isso o leva a perguntar o que significa
um artista se render ao ideal ascético. Pensa especialmente
no caso de Wagner, que toma a filosofia de Schopenhauer como
modelo e inspiração para a sua obra tardia. Para
ele, Wagner...
Compreendeu de imediato que com a teo-ria e
a inovação de Schopenhauer podia-se fazer mais
in majorem musicae gloriam [para maior glória da música],
isto é, com a soberania da música, tal corno Schopenhauer
a compreendia: a música separada de todas as demais artes,
a arte independente em si, não, corno as outras, oferecendo
imagens da fenomenalidade, mas falando a linguagem da vontade
mesma, diretamente do "abismo", corno sua reve-lação
mais própria, mais primordial, mais imediata. Com essa
extraordinária elevação do valor da música,
que parecia decorrer da filosofia schopenhaueriana, também
a cotação do músico subiu prodigiosamente:
tornou-se um oráculo, um sacerdote, mais que um sacerdote,
urna espécie de por-ta-voz do "em-si" das coisas,
um telefone do além - já não falava apenas
música, esse ventríloquo de Deus - falava metafísica:
corno admirar que um dia falasse em ideais ascéticos?
(19)
Nietzsche percebe um extraordinário contra-efeito da
valorização da arte por Schopenhauer, o surgimento
da figura do artista como oráculo: articulação
da metafísica do belo que fala diretamente à vaidade
do artista.
Por outro lado, Nietzsche vê nos artistas um perigo: a
necessidade de proteção, de amparo em uma religião
ou filosofia qualquer, das quais seriam os "criados".
Seria exatamente esse o caso de Wagner em relação
a Schopenhauer.
Mas o que significaria o ideal ascético schopenhauereano?
Teria independência em relação à estética
do "desinteresse" de Kant, na qual aparece a figura
de um "belo aderente", isto é, a contaminação
do interesse do artista na obra de arte que a desqualificaria
em relação à produção espontânea
da natureza?
Nietzsche vai escrever bastante sobre isso na Genealogia da moral,
contrapondo também essa estética do desinteresse
a uma outra personificada em Stendhal, mas que podia ser estendida
com igual justiça a Baudelaire:
Schopenhauer fez uso da concepção
kantiana do problema estético - embora certamente não
o contemplasse com olhos kantianos. Kant imaginava prestar honras
à arte, ao dar preferência e proeminência,
entre os predicados do belo, àqueles que constituem a
honra do conhecimento: impessoa-lidade e universalidade. Este
não é o lugar de discutir se isto não foi
essencialmente um erro; quero apenas sublinhar que Kant, corno
todos os filósofos, em vez de encarar o problema estético
a partir da experiência do artista (do criador), refletiu
sobre a arte e o belo apenas do ponto de vista do "especta-dor",
e assim incluiu, sem perceber, o próprio "espectador"
no conceito de "belo". Se ao menos esse "espectador"
fosse bem conhecido dos filósofos do belo! - conhecido
corno uma grande realidade e experiência pessoal, como
urna ple-tora de vivências fortes e singularíssimas,
de desejos, surpre-sas, deleites no âmbito do belo! Mas
receio que sempre ocorreu o contrário; e assim recebemos
deles, desde o início, definições em que,
como na famosa definição que Kant ofe-rece do
belo, a falta de uma mais sutil experiência pessoal aparece
na forma de um grande verme de erro. "Belo", disse
Kant, "é o que agrada sem interesse." Sem interesse!
Compare-se esta definição com uma outra, de um
verdadeiro "especta-dor" e artista - Stendhal, que
em um momento chama o belo, de une promesse de bonheur[uma promessa
de felicidade]. Nisso é rejeitado e eliminado precisamente
aquilo que Kant enfatiza na condição estética:
le désintéressement. Quem tem razão, Kant
ou Stendhal? - É certo que se nossos estetas não
se cansam de argumentar, em favor de Kant, que sob o fascí-nio
da beleza podemos contemplar "sem interesse" até
mes-mo estátuas femininas despidas, então nos
será permitido rir um pouco à sua custa - as experiências
dos artistas são, neste ponto delicado, mais "interessantes",
e Pigmalião, em todo caso, não foi necessariamente
um "homem inestético". Tenhamos uma opinião
mais alta da inocência de nossos este-tas que é
refletida em tais argumentos; creditemos em honra de Kant, por
exemplo, o que nos ensina sobre a peculiarida-de do tato, com
a ingenuidade de um pastor de aldeia! - E aqui voltamos a Schopenhauer,
que teve com as artes uma aproximação maior do
que Kant, e no entanto permaneceu na órbita da definição
kantiana: como aconteceu isto? O fato é bem curioso:
ele interpretou a expressão "sem interesse"
da maneira mais pessoal, a partir de uma experiência que
para ele devia ser das mais regulares. Sobre poucas coisas Schopenhauer
fala de modo tão seguro como sobre o efeito da contemplação
estética: para ele, ela age precisamente con-tra o interesse
sexual, assim como lupulina e cânfora; ele nun-ca se cansou
de exaltar esta libertação da "vontade"
como a grande vantagem e utilidade do estado estético.
Seríamos mesmo tentados a perguntar se a sua concepção
básica de "vontade e representação",
o pensamento de que uma salva-ção da "vontade"
é possível somente através da "representa-ção",
não teve origem numa generalização dessa
experiência sexual. (Em todas as questões relativas
à filosofia de Schopen-hauer, diga-se de passagem, não
se deve perder de vista que ela é concepção
de um jovem de 26 anos; de sorte que não participa apenas
do que é específico de Schopenhauer, mas também
do que é específico dessa idade da vida.) Escutemos,
por exemplo, uma das mais explícitas passagens, entre
as muitas que escreveu em louvor do estado estético (O
mundo como vontade e representação, III, seção
38), escutemos o tom, o sofrimento, a felicidade, a gratidão
com que foram ditas estas palavras: "Esse é o estado
sem dor que Epicuro lou-vava como bem supremo e estado dos deuses;
por um momento nos subtraímos à odiosa pressão
da vontade, cele-bramos o sabá da servidão do
querer, a roda de Íxion se detém...". Que
veemência das palavras! Que imagens de tor-menta e de
longo desgosto! Que contraposição quase patoló-gica
entre "um momento" e a "roda de Íxion",
a "servidão do querer", a "odiosa pressão
da vontade"! - Mas supondo que Schopenhauer tivesse mil
vezes razão no que toca à sua pes-soa, que se
ganharia com isso para a compreensão da nature-za do
belo? Schopenhauer descreveu um efeito do belo, o efeito acalmador
da vontade - será ele regular? Stendhal, como vimos,
natureza não menos sensual, mas de constitui-ção
mais feliz que Schopenhauer, destaca outro efeito do belo: "o
belo promete felicidade"; para ele, o que ocorre pare-ce
ser precisamente a excitação da vontade ("do
interesse") através do belo. E não se poderia,
por fim, objetar a Schopen-hauer mesmo que ele errou em se considerar
kantiano neste ponto, que de modo algum compreendeu kantianamente
a definição kantiana do belo - que também
a ele lhe agrada o belo por "interesse", inclusive
pelo mais forte e mais pessoal interesse, o do torturado que
se livra de sua tortura? E, para voltar à nossa primeira
questão, "que significa um filósofo render
homenagem ao ideal ascético?", eis aqui ao menos
uma primeira indicação: ele quer livrar-se de
uma tortura. (21)-
Em outra ocasião, Nietzsche faz uma crítica semelhante
a Schopenhauer, incluindo Platão de um modo inesperado:
Vou fixar-me num caso concreto. Schopenhauer
fala da beleza com um ardor melancólico. Por quê?
Porque vê nela uma ponte pela qual se pode ir mais longe,
ou na qual se adquire a ânsia de ir mais longe. A beleza
é para ele a emancipação da vontade por
alguns momentos, e atrai para a emancipação eterna.
Elogia-se sobretudo como redentora do foco da vontade, da sexualidade:
no belo vê a negação do gênio da reprodução.
Santo extravagante! -- houve quem te contradissesse: a natureza.
Por que há beleza nos sons, nas cores, nos perfumes e
nos movimentos rítmicos da natureza? O que é que
impulsiona a beleza a manifestar-se ao exterior? Felizmente
também o contradiz um filósofo, e não dos
piores. O divino Platão (como o chama o próprio
Schopenhauer) sustenta com sua autoridade outra tese: que toda
beleza impele à reprodução e que este é
precisamente seu efeito natural, da grosseira sensualidade ao
mais elevado espiritualismo. (...) Platão via mais longe.
Diz, com uma inocência para a qual se necessita ser grego,
que não haveria filosofia platônica não
tivessem existido formosos mancebos em Atenas, posto que sua
contemplação é o que transporta a alma
dos filósofos num delírio erótico e não
lhe deixa ponto de repouso até que não tenham
espalhado a semente de todas as coisas elevadas por um mundo
tão belo. (22)
Aqui temos outro santo não menos extravagante: não
crê alguém em seus olhos supondo que se creia em
Platão. Adivinha-se, ao menos, que em Atenas se filosofava
de outro modo: desde logo, tudo se fazia em público.
Nada menos grego que se consagrar a tecer teias de aranha solitariamente
com as idéias, amor intellectualis dei, à maneira
de Spinoza. Melhor seria definir a filosofia tal como a pratica
Platão, como uma espécie de palestra erótica,
que continha e aprofundava a antiga ginástica agonal
com todas suas condições prévias. O que
é que resulta em última instância desse
erotismo filosófico de Platão? Uma nova forma
da arte do Agon grego: a dialética. Recordarei contra
Schopenhauer e a favor de Platão, que toda a elevada
cultura literária da França clássica gira
em torno de motivos sexuais. Nela podem ser buscados em todas
as partes a galanteria, os sentidos, a luta sexual, a mulher:
e não há por que recear que sejam buscados em
vão.
O que quer Nietzsche agora com Platão? Este já
não havia sido descartado como um cristão antes
do cristianismo, ou, em outras palavras, o cristianismo não
foi visto por ele como "platonismo para o povo"? O
que tem a ver Platão com sensualidade? Estará
Nietzsche certo em estabelecer essa contradição
entre os dois filósofos?
Certamente a imagem do ideal ascético ocidental se origina
em Platão, mas não encontra nele a expressão
acabada, definitiva - os gregos estavam mais próximos
das fontes vitais, e o que Nietzsche chama de decadência,
do ponto de vista da Grécia clássica, não
é nada comparado aos "hospitais da cultura"
que denuncia como sendo a experiência do niilismo moderno.
Platão ainda pulsa com vigor, enquanto Schopenhauer (Mas,
também Nietzsche não se exclui dessa relação,
desconfiado da atividade moral inconsciente...) já fede,
recuperando a imagem de Mandelstam, a "peixe podre".
Isto porque estamos mais profundamente mergulhados no mundo
conceitual, que vai apoiar sua crença inconsciente na
verdade em toda sorte de moral (encobridora de um mal-estar,
de uma angústia...) que pretende, pela atividade consciente
do intelecto, resumir o mundo aos seus estreitos padrões,
à razão usada para combater a vida. Estamos enredados
na teia da cultura, empobrecidos. Assim, resta à arte,
como em todos os tempos, a missão de reabrir as fendas
pelas quais a vida, como uma nascente subterrânea, pode
gerar novos signos e valores, diferentes visões e possibilidades
de existência: o júbilo da vida.
A arte, do ponto de vista de Nietzsche, tem a missão
de instaurar o mundo, ainda que o artista nem sempre esteja
à altura dessa exigência de gravidez fundamental.
1 - NIETZSCHE, Friederich. Genealogia da moral
- uma polêmica (1887). Terceira dissertação,
p. 128.
2 - NIETZSCHE, Friederich. Genealogia da moral - uma polêmica.
Terceira dissertação, p. 139.
3 - NIETZSCHE, Friederich. Genealogia da moral - uma polêmica.
Terceira dissertação, p. 140, citando A Gaia Ciência
(1882), livro V, seção 344.
4 - NIETZSCHE, Friederich. Aurora (1881). Prólogo, p.
10.
5 - NIETZSCHE, Friederich. Aurora. Prólogo, p. 12.
6 - TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Ensaios de filosofia ilustrada.
P. 138.
7 - NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos ídolos (1896).
O problema de Sócrates, p. 17.
8 - NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos ídolos. O problema
de Sócrates, p. 18.
9 - NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos ídolos. O problema
de Sócrates, p. 18.
10 - NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos ídolos. O problema
de Sócrates, p. 22.
11 - NIETZSCHE, F. Aurora. Aforismo 459, p. 236.
12 - NIETZSCHE, Friederich. Genealogia da moral - uma polêmica.
Terceira dissertação, p. 140.
13 - NIETZSCHE, Friederich. Genealogia da moral - uma polêmica.
Terceira dissertação, p. 141.
14 - NIETZSCHE, Friederich. Genealogia da moral - uma polêmica.
Terceira dissertação, p. 141.
15 - NIETZSCHE, Friederich. Para além do bem e do mal.
Obras incompletas. Parágrafo 285, p. 293.
16 - NIETZSCHE, Friederich. Verdade e mentira no sentido extramoral.
Obras incompletas. P. 49.
17 - NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos ídolos (1896),
p. 110.
18 - NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos ídolos (1896),
p. 79.
19 - NIETZSCHE, Friederich. Genealogia da moral - uma polêmica.
Terceira dissertação, p. 93.
20 - O verbo sublimar (em alemão: sublimieren, termo
que remonta ao latim sublimare, "elevar") deve ser
lembrado na interpretação dessa questão
de Nietzsche para com Schopenhauer. O termo aparece em Schopenhauer
definido como uma superação prática e momentânea
dos afetos inconciliáveis, através da criação
e contemplação das obras de arte. A palavra possui
uma longa história. Remonta à Idade Média
e foi empregada por vá-rios antecessores do filósofo
de Frankfurt. Posteriormente, também por Nietzsche e
Freud. Segundo Paulo César de Souza, em nota de Além
do bem e do mal, um dos precursores é Novalis, por exemplo,
que no fragmen-to 77 de Pólen (1798) opõe o "filisteu
rústico" ao "sublimado", e no frag-mento
96 diz que "se o mundo é como que um precipitado
da natureza, o mundo dos deuses é uma sublimação
dela" (Pólen, trad. Rubens Rodri-gues Torres Filho,
pp. 81 e 91). Essa imagem derivada da química - onde
sublimação é a passagem de um corpo do
estado sólido para o gasoso e vice-versa - surge no §
I de Humano, demasiado humano, onde Nietzs-che propõe
uma "química dos conceitos e sentimentos",
para demonstrar que "também nesse domínio
as cores mais magníficas são obtidas de maté-rias
vis e mesmo desprezadas". E no segundo volume da mesma
obra ele fala de "sexualidade sublimada" (parte I,
§ 95). Segundo Walter Kaufmann, Nietzsche foi o primeiro
a usar o termo no sentido mais difundido atual-mente, em geral
associado ao nome de Freud (cf. Kaufmann, Nietzsche: Philosopher,
psychologist, Antichrist, Nova Jersey, Princeton University
Press, 1974, 4a ed., p. 219). Mas é preciso lembrar que
Schopenhauer é o precurssor imediato de ambos, pois leva
em consideração justamente o impulso (Trieb) sexual.
Transcrevo a seguir um trecho do Cap. 5, aforismo 189, p. 89,
de Além do bem e do mal: "Para as raças laboriosas
é um grande fardo suportar o ócio: um golpe de
mestre do instinto inglês foi tornar o domingo tão
sagrado e tedioso que, sem se dar conta, o cidadão in-glês
anseia novamente pelos dias de trabalho da semana -como uma
espécie de jejum sabiamente inventado e inter-calado,
do qual há muitos exemplos também no mundo an-tigo
(embora não precisamente com respeito ao trabalho, co-mo
é óbvio nos povos meridionais -). Tem que haver
je-jum de muitas espécies; e em toda parte onde vigoram
i-mpulsos (Triebe) e hábitos poderosos, os legisladores
têm de cuidar para que se intercalem dias em que um tal
impulso seja acorren-tado e conheça novamente a fome.
Vistas de um ponto mais elevado, gerações e épocas
inteiras, quando surgem infecta-das por qualquer fanatismo moral,
apresentam-se como es-ses intervalos de coerção
e jejum, durante os quais um im-pulso aprende a se curvar e
se rebaixar, mas também a se pu-rificar e aguçar;
também determinadas seitas filosóficas (a Stoa,
por exemplo, em meio à cultura helenística e sua
at-mosfera tornada lasciva e carregada de eflúvios afrodisíacos)
permitem uma tal interpretação. - Eis também
um indício para explicar o paradoxo de por que justamente
no período mais cristão da Europa, e apenas sob
a pressão de juízos de valor cristãos,
o impulso sexual foi sublimado em amor (amour-passion)".
A crítica a Schopenhauer se refere ao uso dessexualizado
do conceito, quando, para Nietzsche, o que há é
um refinamento do impulso (Trieb).
21 - NIETZSCHE, Friederich. Genealogia da moral - uma polêmica.
Terceira dissertação, 6.
22 - NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos ídolos (1896).
Passatempos intelectuais, 22-2,3 p.76-78..
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. SCHOPENHAUER, Arthur. Sämtliche Werke, Stuttgart/ Frankfurt-am-Main:
Cotta-Insel, Wolfgang Frhr. Löhneysen, 1960- 1965.
2. --------. Sobre o Fundamento da moral. São Paulo,
Martins Fontes, 1995.
3. --------. Os Pensadores: Crítica à filosofia
kantiana e Parerga e Paralipomena. São Paulo: Nova Cultural,
1991.
4. NIETZSCHE, Friederich. Werke in drei Bänden. München,
Carl Hanser verlag, 1956.
5. --------. Nietzsche's Werke. Leipzig, C.G. Naumann Verlag,
1901.
6. --------. Além do bem e do mal. São Paulo:
Companhia das Letras, 1992.
7. --------. Aurora. São Paulo: Companhia das Letras,
2004.
8. --------. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia
das Letras, 2001.
9. --------. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia
das Letras, 1998.
10. --------. Obras incompletas/ Coleção Os pensadores.
São Paulo: Abril Cultural, 1978.
11. --------. Crepúsculo dos Ídolos. São
Paulo: Hemus, 1976
Outros autores:
1. MALLARMÉ, Stéphane. Mallarmé. Separata:
Un coup de dés jamais n'abolira le hasard. São
Paulo: Perspectiva, 1991.
2. MANDELSTAM, Ossip. O rumor do tempo. São Paulo: Editora
34, 2000.
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