| RELAÇÕES ENTRE AS NOÇÕES
DE ARTE E CONHECIMENTO
Aristóteles não concebia uma faculdade de imaginação
que não fosse uma mera ordenação das percepções
num sentido único. Em De Anima e também na Poética
existe uma literalidade de relações, uma pretensa
objetividade factual, que não pode explicar nenhum ato
ou processos criativos. E que, naturalmente, não dão
conta do real da realidade como atividade fabulatória,
e até mesmo sonambulesca, no sentido dos comandos pulsionais,
e onírica, do ponto de vista das formações
e linguagens do inconsciente. Na verdade, como escreveu Rilke
nas Duineser Elegien, "para nós não há
amparo nesse mundo definido".
E esse é todo o problema do idealismo alemão:
Por um lado, atividade pura da vida se manifestando como mundo
efetivo e, por outro, mundo como criação da subjetividade.
É esse binômio kantiano o que esclarecerá
os caminhos da filosofia alemã: entre aquilo que pode
ser pensado e aquilo que deve ser feito, move-se a razão
humana.
Enquanto Kant interdita o acesso da linguagem filosófica
a certos domínios do discurso, como crítica à
metafísica e ao dogmatismo, Fichte, por outro lado, critica
em Kant justamente o modo de expressão de sua filosofia:
uma insuficiência de linguagem, uma dificuldade de adequação
entre aquilo que é pensado e aquilo que é efetivamente
escrito.
Para o idealista, a letra do autor da Crítica da Razão
Pura não corresponde ao espírito de sua filosofia.
Sendo então entendido por Fichte, sob os protestos de
Kant, que o filósofo de Könnigsberg teria querido
dizer "outra coisa".
A necessidade de Fichte de eliminar a noção de
coisa-em-si do vocabulário kantiano é digna de
nota nesse sentido. Justamente esse incômodo, isto é,
qualquer coisa que não pode ser pensada, então
nem coisa pode ser, o incondicionado, é aquilo de que
prescinde Fichte, por considerar esse conceito uma expressão
dogmática da filosofia de seu mestre.
Tudo isso evidencia que quando a razão ascende aos seus
limites, as coisas ficam tão indefinidas quanto no dito
de Rilke. E quanto de imaginação não é
necessário para preencher os espaços vazios da
racionalidade. Por isso, a atividade filosófica parece
a Nietzsche uma grande expressão da vida pulsional, como
predomínio do impulso fundamental que anima inconscientemente
o filósofo. Ou, na letra freudiana, a filosofia é
a expressão da personalidade do filósofo.
Assim, pode-se dizer, seguindo esse raciocínio, que se
a arte só utiliza conceitos para a subversão da
linguagem ou para a sua transmutação, mesmo aquelas
artes do conceito, a filosofia e a ciência, têm
no seu fundo a atividade de metaforização da vida
e do mundo que lhes deu origem.
Assim, a arte é a linguagem por excelência, aquela
à qual todas as outras devem se remeter, reconhecendo
o problema do conhecimento para além da lógica
e percebendo no pano de fundo da existência o mundo efetivo
incomensurável, irracional do ponto de vista do entendimento
humano, sublime pela sua grandeza, inconstante, fugaz, mas,
também, puro ímpeto; pura konstant Kraft.
Mas, existem problemas sérios que advêm do perspectivismo
dessas observações: Do ponto de vista existencial
é preciso suportar o peso da efetividade que não
é governada pelo bom telos, que não possui fundamento
racional e na qual todo conhecimento diz de outra coisa, de
um x desconhecido ao qual as relações não
abarcam, isto é, não se pode dizer o que é
cada coisa a não ser dizendo uma coisa que não
é a coisa. Esse problema assume sua dimensão quando
Dostoiewski formula um questionamento ético que exigirá
resposta: "Se Deus está morto, então tudo
é permitido". Assim, desgovernado, o mundo humano
terá que escolher entre o fundamentalismo e o dogmatismo
das concepções, e a possibilidade de fundar uma
ética da inconstância, uma ética da afirmação
do fatum da existência.
Do ponto de vista da arte como problema e como conceito, o que
pode uma estética? Na verdade, a estética só
pode constatar o que o artista impõe como verdade. A
estética normativa é uma pretensão, pois
não pode colocar por si mesma o problema da arte, mas
sim unicamente responder às indagações
que são originários dos atos e obras do artista.
Surge então, do ponto de vista deste artista, a necessidade
de colocar o mundo como verdade e subjetividade, redefinindo
a cada vez os conceitos de mundo, verdade e subjetividade. Missão
que não se completa antes que esse criador possua grandes
objetivos, por um lado, e os meios de alcançá-los,
por outro. E aqui fica apenas subentendida a questão
da técnica e de sua necessidade para a consecução
do mundo. E não se trata de uma simples utilização
de recursos, usos e costumes habituais, mas sim de uma atividade
que sempre faz a própria técnica começar
a sinalizar e responder, pelas suas transformações,
aos dilemas próprios do fazer artístico.
Os caminhos que se esclarecem a partir disso, não são
necessariamente abarcados pelo criador durante a atividade de
criação, do ponto de vista conceitual, mas correspondem,
antes de tudo, a esse dizer que instaura o dito, o fazer que
instaura o feito. E que ao invés de provocar uma reação
uniforme, engendra a pluralidade de interpretações,
além de exigir a reinterpretação dos referentes
anteriores e do próprio mundo da arte como possibilidade
na história.
Existe então toda uma hermenêutica da interpretação
que não pode jamais ser desconsiderada, sob o risco de
se barrar o caminho da reflexão sobre a arte, fixando-a
no reino dos meros conceitos, como letra morta. E isso não
tem a ver com arte como coisa viva.
|