| ARTE E TRIEB: OS CAMINHOS DA
INTERPRETAÇÃO FREUDIANA
A vida é a arte do encontro,
Embora haja tanto desencontro nessa vida.
(Vinícius de Moraes)
A arte, do ponto de vista da vida pulsional, possui um alcance
que extrapola o fazer artístico - independente do que
exista de próprio no fazer artístico. A própria
pulsão engendra a necessidade de atividade criativa,
como o seu momento anterior, impondo-lhe não regras,
mas um princípio de diferenciação, que
está na base da possibilidade da vida, não mais
como uma estética propriamente, mas como um considerar
da singularidade na duração, que carrega em si
um elemento sublime, tanto no sentido das avaliações,
quanto no sentido das ações.
Sublime no sentido kantiano, porque não pode ser abarcado
pela imaginação. Para entender melhor isso, é
recomendável ter em mente as opiniões de Kant
sobre o espaço, o tempo e a causalidade, conferindo-lhes
como característica a peculiaridade subjetiva e não
a universalidade, do mesmo modo como faz com o juízo
estético, guardando coerência com a diferenciação
entre o que as coisas são como fenômenos e como
são em si mesmas (um X desconhecido).
Nossa imaginação só abarca os fenômenos
e existem esferas perceptivas que in concreto ultrapassam nossas
capacidades formais de concepção e dimensionamento.
Esta perspectiva exige a contemplação estética
- Em Kant sempre "desinteressada", isto é,
formal, objetiva, intelectual -fora do âmbito do belo:
num terreno paradoxal, alusivo, metafórico, experiência
rigorosamente fora do conhecimento, mas que se torna, num ponto
avançado da vivência do intelecto frente ao objeto,
uma exposição do real - a instauração,
isto é, a colocação do mundo da experiência,
em seus limites, no mundo da linguagem - palavra exigida também
em seus limites.
Ora, essa é exatamente a experiência do Trieb(1)
(impulso, pulsão), o conceito sublime, por assim dizer,
da psicanálise. O Trieb é o terreno obscuro pelo
qual se moveram, como almas no Hades de Homero, uma verdadeira
linhagem de autores tão diversos entre si como Schopenhauer,
Nietzsche, Freud e, tardiamente, Lacan.
Aliás, esse também é o próprio ponto
de apropriação que Schopenhauer faz da estética
kantiana, vista pelo viés da vontade, que em suma, enquanto
exposição em um organismo, é puro caldeirão
de Triebe. É exatamente a capacidade de perceber e se
orientar no mundo da pulsão, isto é, o mundo efetivo
(autodiscordante, conflituoso), o que vai caracterizar, do ponto
de vista schopenhauereano, o artista de gênio, em oposição
ao medíocre.
O gênio conseguiria abarcar com um olhar todo o mundo
como representação e, além disso, poderia
expor essa visão numa obra superior, cujo caráter
seria a um só tempo a articulação do princípio
instaurador, a idéia, presente em tudo como sua unidade
dentro da multiplicidade de formas resultantes; mas, além
disso, seria também a formulação inusitada
já no universo da linguagem, daquilo que necessita de
uma expressão própria para sequer existir, sendo
então novidade absoluta e de difícil assimilação
pela humanidade.
Tal circunstância esclareceria a um só tempo a
dificuldade de aceitação imediata do artista de
gênio pela sua contemporaneidade e, por outro lado, a
sua permanente referência, como um farol para essa mesma
humanidade através dos séculos, devido ao seu
ponto de vista elevado e profundo.
As artes, em geral, avançam gradativamente de formas
mais concretas para as mais abstratas, avançam em graus
de formas mais representativas para aquelas que colocam a vontade,
isto é, a pulsão, de uma maneira mais direta.
Como a música, no tempo de Schopenhauer, era a forma
artística aparentemente mais liberta do mundo como representação,
foi considerada pelo filósofo como um verdadeiro correlato
da vontade: por isso, o filósofo a colocava no topo de
sua hierarquia das artes. Interessante para nós, nesse
sentido, como Schopenhauer interpretaria as artes visuais na
nossa contemporaneidade, que vivem sob tendências que
variam desde um expressionismo abstrato até a arte assim
chamada conceitual. Certamente, a sua hierarquização
poderia sofrer mudanças. Ou será que, como Freud,
Schopenhauer negaria a arte contemporânea?
Freud, ao contrário de Schopenhauer, dizia não
se interessar tanto por música, por não conseguir,
segundo ele, explicar a si mesmo a que se deve o seu efeito.
Com a música, ele se dizia quase "incapaz de sentir
qualquer prazer" (2). Segundo ele, uma inclinação
mental racionalista ou talvez analítica, revoltava-se
contra o fato de se comover com uma obra sem saber por que era
assim afetado e o que é que o afetava (3). No entanto,
sabe-se que ele, quando algum paciente faltava, tinha o hábito
de ir à ópera para ouvir Mozart.
Nietzsche, por sua vez, não vai jogar num campo diverso
desse estabelecido anteriormente por Schopenhauer e Kant, mas
vai alterar sensivelmente o sentido das valorações
schopenhauereanas. Apontará as diferenças entre
o conceito de desinteresse do ponto de vista de Kant e Schopenhauer,
e se filiará decididamente aos pontos de vista de Stendhal
e Baudelaire, cujas apreciações estéticas
serão entendidas por Nietzsche como internas, isto é,
apreciações do ponto de vista do artista e não
mais do ponto de vista exterior que aparece em Kant e Schopenhauer
(e futuramente em Freud): o do "contemplador" de obras
de arte; assim, em Nietzsche a arte não é mais
a "libertação" fugaz do jugo pulsional;
a teoria do belo associado ao "desinteresse" é
vista como sintoma de decadência. Alem disso e ironicamente,
Nietzsche vê, pelo contrário, a secreta afirmação
da vontade através da sublimação dos afetos
(e nisso será acompanhado por Freud mais tarde).
Ora, a sublimação, pela perspectiva schopenhauereana,
era exatamente uma possibilidade de interromper os clamores
do querer, substituindo-os pela atitude contemplativa, que,
supostamente, paralisaria por alguns momentos a "roda de
Íxion" (entendida aqui como a metáfora do
apego à vida e ao querer que trazem o inevitável
e recorrente sofrimento). Toda essa estrutura de pensamento
é comentada por Nietzsche na Genealogia da Moral. Ele
atribui a Schopenhauer, e especialmente à juventude de
Schopenhauer, o paradoxo de sustentar a vontade através
de sua própria negação: "é
preferível querer o nada a nada querer" (4).
O que se expõe, pela ótica de Nietzsche, na metafísica
do belo de Schopenhauer, é uma "vontade de nada".
Porém, essa vontade de nada, isto é, a tendência
ao niilismo, à descrença, à negação
da existência, é uma encarnação mal-compreendida
da própria vontade, de um ponto de vista, diríamos
hoje, superegóico. A pulsão não interrompe
jamais a sua marcha rumo ao mundo efetivo, fazendo uso até
mesmo, como arma derradeira diante da aniquilação,
daquelas forças presentes na cultura e também
no indivíduo, que possuem caráter moral e, além
disso, autodestrutivo.
Assim, o psicólogo Nietzsche vai ler a Metafísica
do belo (5) como uma sublimação das pulsões
sexuais, interpretadas por ele como extremamente pregnantes
em Schopenhauer. Este possuiria, levando em consideração
a sua biografia, uma constituição bastante saudável
do ponto de vista sexual, mas uma inadequação
psicológica a essa carga pulsional. Nesse ponto Nietzsche
o considera um antípoda de Stendhal.
É essa dificuldade em lidar com a questão do sexo,
e em particular com o seu próprio desejo, o que tornaria
Schopenhauer o inimigo público da sexualidade, ainda
que em sua exuberância, necessitasse satisfazer-se 'sexualmente'
inclusive na beligerância. Nesse caso, Nietzsche se refere
ao evidente prazer de Schopenhauer em sustentar inimizades e
polêmicas, especialmente contra aqueles que o filósofo
de Dantzig chamou de "os três sofistas", isto
é, Hegel, Fichte e Schelling.
Indiretamente, essa interpretação de Nietzsche
do 'caso' de Schopenhauer tem importância histórica
para a psicanálise, pois abre portas para as tentativas
de Freud de encarar o artista e a obra de arte pelo viés
da interpretação do inconsciente, entendendo a
pulsão como o mar obscuro no qual se articulam todos
os pensamentos e linguagens. Estes são qualquer coisa
secundária ao desejo direto do corpo e, portanto, do
ponto de vista psíquico, à experiência interna
desconhecida, inconsciente. A experiência consciente do
que pode um corpo, é uma atividade originária
de avaliação qualitativa de objetos, tomada de
decisões e consecução de atos derivados
da exigência pulsional, que por sua vez refletem a carga
física e psíquica, isto é, uma quantidade
de força, que é o fundamental da pulsão.
Assim como em Nietzsche, em Freud também é a composição
de forças, o conflito de tendências pulsionais,
a "assembléia íntima", o que secretamente
governa as nossas explorações da experiência
do estranho e do desconhecido, que não pode ser formulada
ou conhecida senão provisória e precariamente,
tendo, portanto, um valor sublime: uma grandeza que excede a
capacidade de reflexão da consciência empírica.
Deste modo, percebe-se que, num mesmo movimento, Nietzsche afirma
o conceito de vontade de acordo com Schopenhauer, pois ela só
pode ser conhecida nos atos e não em sua totalidade,
mas recusa a função metafísica da arte
e do artista como negações do ímpeto desejante
do organismo (considere-se aqui a insaciabilidade do querer,
a perpétua renovação das formas pelas quais
o desejo nos oprime de dentro pra fora, características
que nos tornam mais vulneráveis à realidade interna
do que à externa, pois desta última se pode fugir
utilizando os subterfúgios descritos por Freud em O Mal
Estar da Cultura, enquanto que do mundo interno não é
possível se afastar a não ser pela via do recalque).
Em Nietzsche, como em Freud e Schopenhauer, não há
fuga possível para a opressão desejante do ser
vivo. A questão é o que fazer com isto.
Existem belas páginas schopenhauereanas não apenas
sobre a nossa submissão ao desejo, mas também
sobre a inadequação de nosso aparato intelectual
para a contemplação do mundo pulsional (6). Desse
modo, no próprio Schopenhauer encontramos traçadas
as linhas que demonstram a impossibilidade de uma auto-análise.
Na prática, Nietzsche usa a própria argumentação
schopenhauereana para esclarecer que a esperança de superar
o desejo é já um estado de desejo inconsciente
de negar e que a aniquilação do desejo de afirmar
é uma forma de gozo onde a alegria é hospitalizada.
O passo além de Nietzsche em relação a
Schopenhauer, foi ter reconhecido o caráter pulsional
da sublimação e incorporado, de certa forma, o
sublime não só na arte, mas também nas
figuras do artista e do filósofo, ao considerar a impossibilidade
de um "puro sujeito do conhecimento" (expressão
que pode ser traduzida como 'intelecto puro'), figura que adquire
então um caráter de ficção metafísica.
Nietzsche critica Schopenhauer não por este ter olhado
o mundo pela ótica pulsional, mas sim por ter sobreposto
a esta, em seus limites, isto é, nas avaliações
morais e estéticas, uma lógica alienada, absolutamente
contraditória com a crítica da razão feita
pelo próprio filósofo de Frankfurt. Isto porquê
as noções de "idéia platônica"
(matriz da pluralidade fenomênica) e "puro sujeito
de conhecimento" são abstratas, articuladas para
servirem de ponte intelectual entre o mundo da vontade e da
representação, traindo aí um desejo: o
de negar a vontade, isto é, a pulsão.
Comparado a esses mestres que o antecederam, Nietzsche e Schopenhauer,
Freud é um estranho ao mundo da arte. Nisso, pode ser
comparado a Kant, pois ambos tem que utilizar como referência
apenas ao seu próprio pensamento, que provêm de
outras fontes e vão considerar a arte desde um ponto
de vista secundário, o do contemplador (Schopenhauer,
apesar de propor uma estética da contemplação
teve maior proximidade com a arte do que Kant, pois era ele
próprio um músico e apreciava tocar flauta após
as refeições.), e, com a agravante de que ambos
são inexperientes no contexto da atividade artística.
São dois artistas intelectuais, como diz Schopenhauer,
mais no sentido dos artesãos medievais, dos mestres do
ofício, do que propriamente como artistas da arte, no
sentido que usamos a palavra hoje em dia. É assim que
Freud vai entender a palavra quando aplicada ao seu próprio
contexto: "A arte da psicanálise não foi
invenção minha e sim de Breuer" (7). Ou quando
o psicanalista fala na "arte" da interpretação
dos sonhos (8).
No entanto, como os grandes artistas, Freud e Kant puderam,
cada qual ao seu modo, levar a termo uma revolução
copernicana, e, no sentido que Heidegger estipula em seu texto
sobre a origem da arte, puderam instaurar o mundo e obrigar
o pensamento, pelas conseqüências das suas obras,
a um contínuo deslizamento dos conceitos usados para
pensar outros conceitos. Provocaram, cada qual a seu modo, uma
reavaliação não apenas das nossas perspectivas
intelectuais de avaliação da existência,
mas também de nossos modos de interpretação
do passado: suas obras (e nisso elas se irmanam às obras
de Nietzsche e Schopenhauer) vão ocasionar uma ruptura
do tecido da realidade, forçando novas interpretações
do mundo sensível e do mundo limítrofe (o Real
lacaniano), que nas estéticas de Schopenhauer e Kant
será entendido como sublime, e nas obras de Freud e Nietzsche
será lido como uma interpretação, clínica
ou não, dos Triebe originários.
Sob esse panorama, através do qual Freud está
contextualizado numa certa tradição de língua
alemã, através da consideração que
fiz acerca do binômio filosófico "interesse"
e "desinteresse", que implica um posicionamento sobre
a questão da possibilidade do conhecimento do objeto
- a aparência fenomenal desvalorizada por Kant e Schopenhauer
e valorizada por Nietzsche-, e do sentido interno do objeto
- o Trieb-, chegamos a uma leitura interna dos textos de Freud,
para além da "mitologia" da psicanálise.
As metáforas freudianas ("aparelho psíquico",
"complexo de Édipo", etc.) encontram o seu
fundo na questão do Trieb.
Essa leitura, pelo seu viés metodológico, procura
entender a estética como ambiente qualitativo em relação
ao qual, como uma torrente subterrânea sob o campo florido
do intelecto, articulam-se os regimes quantitativos, a konstant
Kraft dos Triebe: o ímpeto do organismo no sentido da
experiência do mundo, apenas parcialmente abarcado pela
capacidade humana de concepção e análise.
Tal como a própria subjetividade, um simples sonho desdobra-se
numa amplitude sublime de significados, que podem ser melhor
observados pelo sentido das forças que instauram o mundo
do ponto de vista psíquico. Os significados do sonho
são incomensuráveis com a experiência racional,
mas é possível depreender dos signos ali presentes,
nas imagens e narrativas condensadas, uma amplitude de tendências
que, se por um lado permitem uma interpretação
clínica do sonhador, por outro revelam a concentração
desmesurada dos códigos sintetizados inconscientemente
na mensagem do sonho: uma mensagem que só será
entregue de uma certa forma, e de algum modo, mas que em si
mesma é sempre inacessível à análise.
Assim como se pode beber um pouco da água do rio, mas
não o rio em si. Isso corrobora o pensamento de Freud
a respeito da análise dos sonhos, tida como coisa fragmentária,
ainda que se possa, no contexto analítico, selecionar
fragmentos essenciais do ponto de vista do conjunto de forças
que atuam desde e sobre o sujeito em questão.
Independente do que se possa fazer com o sentido das forças
inerentes à existência, elas são constantes,
tendem a seguir certas tendências facilitadoras e podem
ser interpretadas naquilo que se revela um ambiente distinto
de uma teoria estética, ainda que próximo da atividade
do artista criativo: o mundo efetivamente é colocado
ali, como o foi por Goethe ou qualquer grande artista, mas,
sob uma roupagem diferente: a da "jovem ciência"
da psicanálise, que se revela ao mesmo tempo máscara
do real, no sentido nietzscheano, mas também possibilidade
interpretativa do real. E esse é um trabalho clínico
necessário, mas que, em seus limites, confunde-se com
a atividade do filósofo metafísico. Em suma, têm-se
que lidar, no dia-a-dia da psicanálise, com esse mesmo
elemento sublime que se oculta sob a humanidade consciente do
artista: o Trieb (a pulsão ou impulso).
Nas palavras de Freud, a pulsão é um território
inexplorado, diáfano, exatamente como ainda podemos percebê-la
agora: muito mais do que um conceito, uma metáfora do
real.
Seja o sublime visto como categoria estética ou como
limite interpretativo, pede de qualquer modo a consideração
de uma permanente alteridade ou estranhamento em relação
ao objeto: sempre outra coisa - pois aquilo para que não
se tem palavras não pode ser igualado a nada-; porém,
pode ser a cada vez dito de um modo mais adequado, na percepção
do próprio movimento instaurador, que sempre pede um
novo corte, uma nova perda, para continuar vivo. É essa
a perspectiva da clínica do artista e da arte que Freud
vai tentar realizar em alguns trabalhos que não são
apenas polêmicos, mas também mal compreendidos,
quando não consideram a importância que o conceito
de Trieb tem ao fundo das considerações freudianas
mais aparentes.
O Trieb como tecido do real
Para esclarecer a função do Trieb como conceito
articulador da teoria e da prática clínica, devemos
perceber que, em Freud, se o intelecto possui um método
avaliativo próprio, ligado à noção
de conservação do organismo, o psiquismo ligado
ao corpo também avalia de acordo com seus próprios
interesses, que nem sempre correspondem às avaliações
da consciência própria, gerando então conflitos
no interior do próprio psiquismo, derivados da dinâmica
basal de oposição relativa entre o organismo e
o mundo exterior. Aliás, dentro da tradição
de Schopenhauer e Nietzsche, Freud considera o Trieb como o
próprio sentido avaliador originário, em relação
ao qual o intelecto é secundário, restando a este,
no mais das vezes, apenas a função de justificar
as avaliações inconscientes.
As avaliações pulsionais possuem caráter
inconsciente e um objetivo geral de obter satisfação
para as demandas do corpo orgânico, enquanto que as forças
do Eu consciente possuem um caráter restritivo, cuja
tendência é conciliar os interesses próprios
desse organismo com as possibilidades efetivas da experiência,
com o intuito de reduzir ao máximo a tensão interna
ao aparato psíquico.
Devido ao seu modo próprio de funcionamento, que sempre
busca a coerência e a regularidade, o Eu pode definir
valores muito diversos daqueles ligados à experiência
interna do organismo, acentuando o conflito entre interior e
exterior e tomando o partido da ordem exterior, ligada, fundamentalmente,
às necessidades de conservação e às
restrições de pensamento e comportamento.
O ponto crucial desse conflito, de acordo com Freud, como um
eco da metafísica de Schopenhauer, é a questão
da sexualidade. A força incomparável do psiquismo
orgânico está baseada em seu caráter sexual,
que supera o ponto de vista da sobrevivência e define
o indivíduo do ponto de vista biológico. Essa
definição de uma força biológica
avaliadora de possibilidades de satisfação e definidora
de ações efetivas é o que será,
dentro da psicanálise, considerada a partir da noção
de Trieb (9).
Essa associação do psiquismo ao Trieb é
primária para a psicanálise, determinando todas
as outras relações, inclusive as intelectuais,
que aparecem então como alguma coisa derivada, como uma
estratégia avaliadora suplementar e que está submetida
à estratégia primária, não-racional,
que visa sempre ações ligadas à satisfação
das demandas internas do organismo, sejam elas necessárias
ou não, do ponto de vista da manutenção
da vida.
A manutenção da vida é ainda um grau muito
baixo dentre as possibilidades da pulsão. Isto está
na linhagem interpretativa de Schopenhauer e Nietzsche.
Do mesmo modo, a pulsão é considerada como uma
força afetiva indestrutível e definidora, diante
da qual o intelecto deve se posicionar e, no mais das vezes,
submeter-se, pois é o desejo o que ativa as representações
e não a razão. Não é possível
emancipar-se do mundo pulsional e, portanto, a atividade sublimatória
é algo inerente à própria pulsão
e não uma libertação desta, como queria
Schopenhauer.
A pulsão vista como princípio instaurador ativo
do corpo e da realidade psíquica, procura controlar as
representações de acordo com os seus fins, mas,
como os Triebe nem sempre são compatíveis entre
si, ocorre com freqüência um conflito de interesses.
Assim, a oposição entre diferentes possibilidades
de escolha tem como fundo a expressão de combates entre
desejos incompatíveis, como se observa em Schopenhauer
e Nietzsche.
O aspecto essencial do Trieb é o ímpeto (Drang)
como fator motor, ou seja, a sua capacidade para iniciar o movimento.
É o acúmulo de estímulos o que o faz surgir
no psiquismo como sentimento de urgência ou ânsia,
estando, portanto, entre a necessidade fisiológica e
o querer, no sentido de desejar. É esse acúmulo
o que provoca um tipo de pressão que é percebido
psiquicamente como ímpeto.
A percepção é acionada em busca de objetos
de alívio e são executadas ações
motoras que propiciem descarga da excitação e
conseqüente satisfação. Assim, o ímpeto
é a quantidade de força ou a "magnitude de
atividade " (10) que o Trieb representa para o psiquismo
(11).
Define-se então o ímpeto como a parte propulsora
da pulsão, ocorrendo após a estimulação
e antes do ato, estando na fronteira entre o querer do organismo
e as representações psíquicas que geram
a linguagem e uma ação correspondente, no sentido
da descarga e do alívio. Nessa concepção
psicofisiológica, o ímpeto é a porta de
saída do orgânico e a porta de entrada do psíquico,
pois é apenas sob a forma de ímpeto que o Trieb
adquire dimensão psíquica, através das
imagens carregadas de afetos de desconforto, urgência
e alívio: um Trieb nunca pode se tornar objeto da consciência,
só a representação que o representa pode
(12).
As representações, do ponto de vista pulsional,
são como uma ponte ou linguagem para a consecução
dos atos, formando uma extensa malha de sentidos e imagens inter-relacionados
pela memorização de vivências; informam
sobre conexões causais, relações lógicas
e sobre os afetos associados a cada estímulo. Conclui-se
que o Trieb é a própria unidade de medida pela
qual se pode avaliar o sentido íntimo de toda ação
humana como qualquer coisa enraizada no puro desejo, tenha ele
ou não um claro objeto.
Mas, pode-se seguir adiante com essa explicação,
para melhor dimensionar a aparente arbitrariedade do pensamento
freudiano em relação à arte e à
figura do artista: é o ímpeto que conecta o estímulo
ao psiquismo, já percebido na forma de uma representação
com carga afetiva. Deve-se ressaltar que é assim que
a pulsão ou impulso influencia o intelecto e controla
as decisões do Eu, fazendo com que o indivíduo
modifique o mundo para buscar o que lhe falta . É por
isso que o Trieb é avaliativo: na ânsia de satisfazer
a pressão dos estímulos, é preciso encontrar
o objeto de alívio, pois, do contrário a demanda
pulsional se torna uma pressão insuportável. É
nesse ponto que o intelecto adquire a sua máxima conexão
com o impulso (13), já que as representações
se mostram passíveis de serem controladas pelo ímpeto
do organismo, que decide inteiro por aquilo que quer, restando
ao Eu consciente o trabalho de tentar dirigir o ímpeto
de sua cavalgadura, controlando a força opressiva e agressiva
do psiquismo originário, enquanto atividade pulsional
- que em 1923 Freud vai chamar de Es ("Isso"), termo
que tem sua origem em Nietzsche.
É só a experiência que permite ao Eu consciente
dar vazão compatível à força do
Trieb, controlando a descarga de excitações pela
construção psíquica de objetos adequados
para a satisfação, inventando caminhos para eliminar
esses estímulos, dentre os quais a atividade artística:
"As satisfações substitutivas, tal como as
oferecidas pela arte, são ilusões, em contraste
com a realidade; nem por isso, contudo, revelam-se menos eficazes
psiquicamente, graças ao papel que a fantasia assumiu
na vida mental" (14). A arte, como o sonho, satisfaz desejos.
No entanto, ao surgirem as representações psíquicas
dos afetos, e ao se articularem redes qualitativas que avaliam
o sentido do objeto representado, também este passa a
exercer pressão psíquica sobre o indivíduo,
na forma de desejos e pensamentos que consideram as circunstâncias
de obtenção de prazer, sob a influência
da realidade exterior ao psiquismo. Assim, o circuito pulsional
pode ser alimentado não apenas desde dentro, mas também
desde fora.
As pulsões se esclarecem em suas linhas de força
e singularidade. Em seus níveis superiores, deslocam-se
entre significantes cada vez mais diáfanos e menos unilaterais:
fundamentam um sim que sempre insiste em permanecer sim, e que
sempre retorna, sob diferentes formas, ainda que sempre como
uma afirmação da existência, da percepção
imediata e da própria vida em seu devir constante, conforme
entendia Heráclito.
Note-se que a tendência contrária ao movimento
pulsional é a inércia psíquica frente aos
valores ativos da experiência. O saber vinculado à
percepção verdadeira é, no mais das vezes,
recalcado e deverá sempre retornar, a cada vez que as
resistências ao conhecimento do que se sabe e se sente
puderem ser superadas. Toda defesa é uma negação
do movimento pulsional.
Uma das formas de superar o recalque é a sublimação.
No limite da lógica pulsional, a sublimação
substitui o finalismo do objeto por deslocamentos extremamente
facilitados, como aqueles que encontramos no fazer artístico.
A razão desse sumário da teoria do Trieb exposta
acima é propiciar ao leitor, que não está
acostumado com o conceito de psiquismo inconsciente (no qual,
desde Schopenhauer, a consciência é apenas um epifenômeno),
uma possibilidade de leitura das entrelinhas de Freud em seus
textos sobre arte, artistas e sobre a noção de
sublimação.
É preciso, antes de tudo, conferir às metáforas
erigidas por Freud para falar desse universo relativamente obscuro,
em suas conexões com a constituição do
mundo simbólico e suas nuances, um valor de simples referência,
de manejo e recriação do modo de pensar as coisas
dentro de uma articulação teórica, que
não pode, se considerarmos a extrema dificuldade de conciliar
o Trieb com a série da racionalidade, isto é,
da ordem consciente e sua previsibilidade, o campo conceitual,
prescindir de analogias. Ora, essas analogias, essas imagens
da teoria, não podem ou não deveriam receber um
valor de "coisa", de objeto puro e simples, pois,
ao se referir ao psiquismo inconsciente como atividade, é
necessário que coloquemos toda construção
teórica como uma interpretação do real
da realidade, e não como realidade em si, como espelho
do objeto perdido. É um pressuposto da psicanálise
que o mundo simbólico se constrói de certo modo
como engodo, mas também, por outras vias, como interpretação,
que se mostra efetiva não pela via teórica, mas
pela prática da experiência vital que, de um modo
mais especializado e controlado, encontramos na clínica
psicanalítica. Um sumário disso está na
seguinte passagem de Freud:
O trabalho de minha vida se dirigiu a um só
objetivo. Observei os mais sutis distúrbios da função
mental em pessoas saudáveis e enfermas e procurei inferir
- ou, se preferirem, adivinhar -, a partir de sinais desse tipo,
como o aparelho que serve a essas funções é
construído e quais as forças concorrentes e mutuamente
oponentes que nele se acham em ação. O que nós
- eu, meus amigos e colaboradores - conseguimos aprender seguindo
esse caminho pareceu-nos de importância para a construção
de uma ciência mental que torna possível compreender
tanto os processos mentais normais quanto os patológicos
como partes do mesmo curso natural de eventos (15).
O caminho da inferência ou da adivinhação,
como ironicamente escreve Freud, não parece, num primeiro
momento, muito próprio de uma ciência, mental ou
não. No entanto, a ciência, desde Kant, Fichte,
Schopenhauer e Nietzsche, está impedida de extrair do
real da realidade a sua essência própria, mas apenas
verificar certas relações entre os sinais desse
real, que configuram uma interpretação desde certos
pressupostos.
Na verdade, essas idéias são bastante comuns em
nossa atualidade, e creio que não tenho dificuldade nesse
ponto em me fazer compreender, desde uma visada hermenêutica,
por exemplo, ou, na linguagem nietzscheana, dentro do horizonte
de um perspectivismo (assim também a polêmica idealista
sobre a distinção kantiana entre fenômeno
e coisa-em-si).
Como os fenômenos mentais precisam ser descritos teoricamente
de alguma maneira, para então serem estruturados e correlacionados
nos termos de uma dinâmica, surge então a necessidade
do dizer metafórico que, na tradição de
Schopenhauer e Nietzsche, é o dizer originário,
retrato do espanto filosófico diante do mundo, tão
bem visualizado nas produções dos filósofos
pré-socráticos. Ao se deparar com um mundo íntimo
tão abissal quanto o firmamento, tão inconsciente
quanto o universo físico, e, no entanto, ativo e configurado
sob certas formas às quais se atribui existência
e uma aparente teleologia, não há saída
a não ser fazer escolhas, que vão sempre possuir
um sentido de construção de linguagem. Outro exemplo
disso é o modo como Hegel, por exemplo, situa a linguagem
de sua filosofia na fronteira do indizível, tendo com
isso a intenção de justificar a obscuridade de
certas passagens de sua obra (16).
Mas Freud, como Schopenhauer, não pretende ser obscuro,
mas antes claro e didático, no sentido de um auto-esclarecimento
máximo na ordem interna de seus textos. Mas é
exatamente aí, ao erigir a ciência como metáfora
estruturante da teoria, como Weltsanchauung da psicanálise,
que Freud apresenta ao seu leitor um universo conceitual que
sugere realidade, enquanto na verdade se move no campo indefinido,
alusivo, que está localizado nas fronteiras da atividade
do organismo e de seu psiquismo primário, com esse acréscimo
de linguagens efetivas, que vão inscrever o sujeito na
série sujeito-objeto presente na consciência como
significantes instauradores da realidade do real. Sublime ciência
da psicanálise.
Encarar as metáforas freudianas como conceitos tradicionais
seria empobrecer a teoria, mas, creio, a escrita freudiana,
a sua letra, remete o leitor a essa visada que, considerada
literalmente, pode ser interpretada como uma alusão pseudocientífica
a um mundo fantástico (17), sintomático e referenciado
na personalidade de Freud, que tentou, em sua auto-análise,
surpreender o seu eu profundo em ato, através da identificação
das sutilezas expressivas da pulsão em seu próprio
caso clínico: os sonhos de Freud.
Então, em se tratando de Freud, é preciso, como
diz Lacan, não apenas ficar de ouvidos bem abertos, mas
também levantar e balançar um pouco as orelhas.
A interpretação dos textos deve levar em consideração
muitas camadas de pressupostos, mantendo em permanente tensão
os argumentos, no contexto da própria escrita freudiana
e na tradição filosófica à qual
ele está vinculado.
Talvez um dos recortes em que esta dificuldade de leitura se
exponha com mais facilidade, seja o campo da interpretação
da arte e do artista do ponto de vista dos textos freudianos.
Se não podemos fugir de nossas próprias sombras
e a linguagem é em si mesma sintomática, ainda
assim podemos arriscar um olhar por trás dessa cortina
e perceber, analogicamente, o que pretende mostrar Freud nos
textos em que fala sobre artes visuais, literatura e estética
em geral.
O sentido que referenciamos acima, que, evidentemente, procura
situar Freud num lugar diferente do habitual, o do Trieb como
tecido sobre o qual se inscreve a linguagem, é dado,
ao meu ver, num comentário feito pelo autor a respeito
de Goethe:
Penso que Goethe não teria rejeitado
a psicanálise num espírito inamistoso, como tantos
de nossos contemporâneos fizeram. Ele próprio dela
se aproximou numa série de pontos; identificou, através
de sua própria compreensão interna, muita coisa
que pudemos confirmar, e certas opiniões, que nos acarretam
crítica e zombaria, foram por ele expostas como evidentes
por si mesmas. Assim, estava familiarizado com a força
incomparável dos primeiros laços afetivos das
criaturas humanas. Celebrou-as na Dedicatória de seu
poema Fausto, em palavras que poderíamos repetir para
cada uma de nossas análises: Ihr naht euch wieder, schwankende
Gestalten,
Die früh sich einst dem trüben Blick gezeigt,
Versuch' ich wohl, euch diesmal festzuhalten? (18)
.......................................................................
Gleich einer alten, halbverklungenen Sage
Kommt erste Lieb' und Freundschaft mit herauf (19)
Explicou a si mesmo o impulso mais forte
de amor que experimentou como homem maduro, apostrofando sua
bem-amada: 'Ach, du worst in abgelebten Zeiten meine Schwester
oder meine Frau. (20)
Assim, não negou que essas primeiras inclinações
perenes assumem figuras de nosso próprio círculo
familiar como seu objeto.
Ora, se fizermos desse trecho uma leitura psicanalítica
tradicional, nos confessaremos por fim vulneráveis diante
de uma crítica, que se apega justamente à ênfase
dada a essas figuras de linguagem que são utilizadas
pelo psicanalista vienense para descrever o sentido ocasional,
acidental, acessível à linguagem dos fenômenos
clínicos, e que por isso está em primeiro plano
na construção da teoria psicanalítica.
Ora, o prólogo da terceira edição dos Três
ensaios já manifesta claramente a hierarquia, a disposição
dos materiais que servirão como bússola, como
mapa, ao psicanalista:
A subordinação deste escrito às
experiências psicanalíticas, que levaram à
sua redação, mostra-se ainda não apenas
na escolha do material, como também em sua ordenação.
Ao longo de todo ele observa-se uma certa seqüência
de instâncias, dá-se prioridade aos fatores acidentais,
deixa-se em segundo plano os fatores disposicionais, e o desenvolvimento
ontogenético é considerado antes do filogenético.
É que o acidental desempenha na análise o papel
preponderante, sendo esta dominada por ele quase por completo;
o disposicional só vem à luz por trás dele,
como algo despertado pelo vivenciar, mas cuja apreciação
ultrapassa amplamente o campo de trabalho da psicanálise.
O que não se pode ignorar é que entre as séries
acidentais e as séries onto-filogenéticas, inscreve-se
a pulsão como região fronteiriça necessária
e incessantemente evocada na clínica, como o seu próprio
abismo. Dito de outro modo, a pulsão é a fronteira
entre um mundo que se afirma enquanto atividade e linguagem
inconscientes, e um mundo histórico, determinado, conseqüente
com a série de padrões conscientes que farão
a mediação entre mundo interno e mundo externo.
Nietzsche já aponta, em seus fragmentos póstumos,
a confusão histórica que faz prevalecer uma noção
de conservação sobre a de atividade (orgânica
e afirmativa do querer), e confere a esta a primazia na experiência.
Com isso, pode-se pensar o acidental à luz do desejo
de desejo e não meramente à luz de um desejo já
vinculado a qualquer objeto.
Do mesmo modo, em Freud, a fisiologia do sistema nervoso é
primariamente uma magnitude de força, constante, que
dá origem às séries éticas e estéticas
(formas avaliadoras) e que exige realização constante
na experiência. Essas séries constantes, as séries
pulsionais, afluem e estabelecem confronto direto ou indireto
com a força de inércia do psiquismo consciente,
cuja missão, do ponto de vista econômico, é
reduzir o impacto dos estímulos internos e externos sobre
o conjunto do psiquismo, reduzindo ao máximo sua necessidade
de atividade (não é à toa que a imagem
da felicidade sempre esteve ligada na humanidade a uma certa
paz e inatividade expressas, por exemplo, na noção
de 'nirvana'). Porém, paradoxalmente, mesmo a tentativa
de redução de atividade psíquica, se não
é sintoma, é já uma dessas "formas
adejantes" da atividade sublimada. É exatamente
esse o "erro" de Schopenhauer apontado por Nietzsche:
tratar da estética do ponto de vista do "desinteresse"
e da sublimação como supressão parcial
da atividade da pulsão.
Para que os conceitos gerais da psicanálise não
entrem em conflito com a metapsicologia, deve-se entender que
os padrões relativos à estruturação
da personalidade do ponto de vista do significante, isto é,
da perspectiva de inserção humana no mundo simbólico,
não podem prescindir da consideração do
aspecto econômico da vida enquanto atividade inconsciente
de afirmação do organismo.
É esse ser-organismo que vai primariamente impor as condições
prévias à inserção no mundo simbólico,
considerado aqui como o letreamento que poderá instaurar
as séries de possibilidades configuradas como fenômenos
acidentais. Assim, se podemos falar de uma "tabula rasa"
do ponto de vista do conteúdo da experiência, a
radicalidade da individuação se dá anteriormente,
no conjunto de forças em conflito no organismo, como
ponto de encontro do real primário e autodivergente,
com a possibilidade de vinculação objetal aos
conteúdos subjetivos passados na forma de linguagens
conscientes e inconscientes já na cultura, como função
materno-paterna.
O Édipo nada mais é do que uma configuração
de dupla via entre a força dos Triebe, como atividade
psíquica primordial, com as possibilidades de realização
efetiva dos afetos já inseridos e parcialmente dominados
por valores éticos e estéticos consagrados no
ambiente cultural humano, demandando respostas específicas
do psiquismo, e ações determinadas no âmbito
do comportamento.
Cada uma dessas relações entre ambiente externo
e corpo-psiquismo vai determinar novas permutações,
das quais apenas uma série relativamente organizada e
habitual poderá participar do séqüito da
consciência, enquanto toda a atividade que não
esteja matizada e normatizada pela inserção simbólica,
será confinada às catacumbas do inconsciente recalcado,
como persona non grata, na medida em que essas formas de atividade
afirmativa aparentemente não favorecem a sobrevivência
do ponto de vista do Eu consciente, além de sempre estilhaçarem
a sua unidade fantasmática.
Inicialmente, no ambiente social, o conflito de tendências,
além de não ser facilmente suportável como
fenômeno primário, parece também não
favorecer a interação com os valores sociais.
Logo, será objeto de recalque. Isto é, as possibilidades
do corpo orgânico serão reduzidas duas vezes, a
primeira por uma repressão externa, e, em segundo lugar,
pelo recalque, como atividade inconsciente da força psíquica,
a libido, contra si mesma. Isso pode ser lido não apenas
em Freud. A concepção original desse pensamento
não exclusivo à Psicanálise já foi
expressa no livro IX da República e no Fedro, de Platão,
e, menos remotamente, e de modo bem mais preciso, na Genealogia
da Moral, de Nietzsche.
O Eu consciente humano é fruto de uma longa série
de vicissitudes e de possibilidades concretas de realização
de desejos, que poderá ser objeto de uma interpretação,
tanto no sentido das forças, quanto no sentido da organização
dos valores primários inerentes à linguagem, que
serão incorporados pelo indivíduo e deverão
desse modo filtrar os elementos que constituirão a realidade
consciente, nas perspectivas sujeito-objeto, tendo como fundo
a série prazer-desprazer. O fenômeno externo ao
organismo assume essa referência por se deslocar no tempo
e no espaço, essas formas de nossa subjetividade, de
acordo com Kant, podendo, de certa forma, ser evitado, enquanto
o organismo não pode se livrar de si mesmo. A insuportabilidade
da finitude expressa nessas idéias, é o mesmo
fator que nos leva a preencher as lacunas de nosso psiquismo
com a massa de imagens constitutivas que estarão parcialmente
flutuando num mundo imaginário, do qual o próprio
eu é a conseqüência mais forte. O simbólico
é, assim, o efeito acumulativo de uma miragem, a da antecipação
do sujeito na relação especular com o mundo, e
trás como conseqüência uma impossibilidade
de concretização dessas formas apenas pressentidas,
e que deverão, falando em termos expressamente analíticos,
abandonar as suas pretensões de fundamentar o real da
realidade.
É sobre esse fundo paradoxal, o da constituição
da experiência simbólica sobre um engodo inicial,
que se perpetua através das gerações o
mecanismo primário de inserção na série
da realidade do real. O desmascarar dessa ordem é o niilismo.
Em suma o niilismo moderno resulta indiretamente do reconhecimento
da esfera kantiana da subjetividade. A máscara subjetiva
(o papel do Eu é sempre uma forma de se apresentar enquanto
máscara) se inscreve sobre um quantum de força,
que é sempre força de singularidade, de diferenciação.
Essa tendência impedirá para sempre a confirmação
do eu como entidade estável, ainda que se fixe alienadamente
num tipo humano. Para compreender melhor esse assunto, recomendo
a leitura da primeira parte do texto O Eu e o Isso (1924), de
Freud.
Assim, muitas tendências psíquicas serão
objeto de recalque, a medida em que tentam expressão
efetiva. O querer não pode nunca se completar como totalidade,
pois é objeto de resistências, inicialmente exteriores
e depois interiores ao próprio psiquismo, que forçarão
a constituição de uma imagem do Eu, já
amputada de toda uma série de possibilidades, que só
poderão ser recuperadas, parcialmente, ou através
da superação prática das resistências
na análise, como uma forma parcialmente sublimada de
experiência, ou então como expressão e contemplação
artísticas, já que no fundo de toda linguagem
está a linguagem da arte.
Aliás, é exatamente isso que está expresso
nos "conceitos" psicanalíticos de Freud: a
absoluta impossibilidade de descrição literal
do real da realidade. Num primeiro momento, toda nova fronteira
do conhecimento humano é abordada desde metáforas
plausíveis, que numa segunda etapa, após sua inserção
na série lógica da cultura, serão transformadas
em conceitos e 'coisificados'.
São as "moedas sem efígie", como escreve
Nietzsche em seu texto Verdade e mentira num sentido extramoral,
que nunca foi completado pelo autor, mas que considero uma chave
para a interpretação do perspectivismo nietzscheano,
no que diz respeito à realidade do real.
Vale também uma referência à teoria schopenhauereana
da prioridade da linguagem intuitiva sobre o conceito, considerado
por ele como uma representação de representações,
isto é, qualquer secundária e subjetiva, frente
à objetividade da intuição sensível
que constitui o objeto para o entendimento. A própria
distinção entre sujeito e objeto, em Schopenhauer,
entra já sob a rubrica da representação,
pois só é possível um objeto para um sujeito
constituído como tal (na linguagem), ficando o seu próprio
fundo ativo como um agente desconhecido (na experiência),
que só vai se esclarecer enquanto magnitude de força
desejante e não do ponto de vista das qualidades que
constituirão as formas objetivas dessas forças
inerentes ao organismo como sua visibilidade.
E antes do conceito, vem a intuição intelectual
imediata que constituirá originariamente o conhecimento:
as representações primárias em relação
às quais os conceitos serão representações
secundárias.
Os textos freudianos que tratam do problema da arte e da
psicologia do artista
James Strachey fez uma lista das principais obras em que o
psicanalista vienense refletiu sobre questões estéticas.
Essa relação de textos está na Edição
Standard das Obras Completas, em seqüência ao discurso
de Freud proferido na casa de Goethe (por ocasião do
prêmio que recebeu, em 1930, não apenas como reconhecimento
do valor psicológico, mas também estético
de suas obras).
O tradutor inglês transcreve as referências de cerca
de vinte obras (mas aquela não é uma relação
exaustiva), compostas por textos muito variados, desde correspondências
pessoais onde declara suas opiniões sobre arte contemporânea,
passando por tentativas de interpretar a psicologia dos artistas
e os mecanismos psicológicos do ato criativo, indo até
textos mais amplos em que Freud expõe seu pensamento
acerca das relações entre arte, cultura e realização
de desejos.
Em certos textos toda uma gama de relações é
abordada e fixada sob a égide do desejo, em outros as
referências à arte e a estética são
apenas parciais, digressivas ou tratadas a título de
exemplos. Em todos eles uma característica parece ser
fundamental: a primazia da criação artística
e das próprias obras como uma chave para o entendimento
da atividade psíquica inconsciente.
A arte aparece como uma intersecção originária
entre o desejo e a linguagem, entre o afeto e a experiência
do viver. Assim, a linguagem artística é uma variável
do sonho, funcionando, como este, através de mecanismos
inconscientes de deslocamento e condensação de
cadeias associativas, que se ocultam sob a linguagem acessível
ao pensamento, produzindo, também no observador, no contemplador,
uma série análoga de deslocamentos e condensações
já no âmbito da interpretação. Essas
formações de linguagem vão constituir,
no jogo entre a criação do objeto e a sua fruição,
toda uma gama de possibilidades de leitura, cada qual tão
verdadeira e tão falsa quanto a outra. É por isso
que Freud, ao fazer um comentário sobre as possibilidades
de interpretação do objeto artístico, vai
dizer o seguinte:
(...) Algumas das maiores e mais poderosas criações
da arte constituem enigmas ainda não resolvidos pela
nossa compreensão. Sentimo-nos cheios de admiração
reverente por elas e as admiramos, mas somos incapazes de dizer
o que representam para nós. Não tenho leitura
suficiente do assunto para saber se esse fato já foi
constatado; possivelmente, na verdade, alguém que escreva
sobre estética já descobriu ser esse estado de
perplexidade intelectual condição necessária
para que uma obra de arte atinja seus maiores efeitos. Tenho
a maior relutância em acreditar na necessidade dessa condição.
Não quero dizer que os conhecedores e aficionados da
arte não encontrem palavras para exaltar esses objetos.
Eles são bastante eloqüentes, segundo me parece.
Mas, geralmente, diante de uma grande obra de arte, cada um
diz algo diferente do outro e nenhum diz nada que resolva o
problema para o admirador despretensioso. A meu ver, o que nos
prende tão poderosamente só pode ser a intenção
do artista, até onde ele conseguiu expressá-la
em sua obra e fazer-nos compreendê-la. Entendo que isso
não pode ser simplesmente uma questão de compreensão
intelectual; o que ele visa é despertar em nós
a mesma atitude emocional, a mesma constelação
mental que nele produziu o ímpeto de criar. Mas por que
a intenção do artista não poderia ser comunicada
e compreendida em palavras, como qualquer outro fato da vida
mental? Talvez, no que concerne às grandes obras de arte,
isso nunca seja possível sem a aplicação
da psicanálise. O próprio produto, no final de
contas, tem de admitir uma tal análise, se é que
realmente constitui uma expressão efetiva das intenções
e das atividades emocionais do artista. Para descobrir sua intenção,
contudo, tenho primeiro de descobrir o significado e o conteúdo
do que se acha representado em sua obra; devo, em outras palavras,
ser capaz de interpretá-la. É possível,
portanto, que uma obra de arte desse tipo necessite de interpretação
e que somente depois de tê-la interpretado poderei vir
a saber por que fui tão fortemente afetado. Arrisco-me
mesmo a esperar que o efeito da obra não sofrerá
qualquer diminuição após termos conseguido
analisá-la. (22)
A perspectiva freudiana é a de não se deixar
levar meramente pelo jogo de opiniões conscientes possíveis
a respeito da obra, dentre as quais as opiniões estéticas
dos especialistas, mas derivar da apreciação uma
possibilidade de interpretar as próprias raízes
que tornam possível não apenas a criação
de obras, mas a sua apreciação. O movimento inconsciente
(23) que leva o artista a criar aparece como um correlato do
movimento que leva o admirador de objetos artísticos
à contemplação.
Tudo se passa como se o artista impusesse, sem o saber, o seu
mundo interno, já transfigurado em linguagem, que por
sua vez produz toda uma série consciente de analogias
e referências, que, em ato, produzirão alhures
seus efeitos. Seria essa a raiz da objetividade conferida ao
ato criativo por Picasso, que dizia "não procurar",
mas apenas "achar". Aquilo que se acha sem procurar,
sempre esteve ali, só precisava ser visto ou ativado.
Ora, nada mais schopenhauereano do que esse dito do artista
catalão, pois para Schopenhauer, a relação
entre o intelecto do artista e o do cientista, é exatamente
a de que enquanto aquele é objetivo, este é subjetivo.
Ora, em Schopenhauer como em Freud e Nietzsche, o mundo externo
é sempre subjetivo: só aquele pensamento ou ato
que expressa a atividade própria originária, isto
é, a linguagem da arte, é objetivo.
A expressão artística como qualquer coisa direta,
portanto objetiva, inverte os sinais de um conceito do senso
comum que admite que a arte é subjetiva, enquanto a ciência
é objetiva. É, portanto, um traço inovador
do pensamento artístico de Schopenhauer, e que orientará
a interpretação do psiquismo do artista, em textos
controversos de Freud como Delírios e sonhos na Gradiva
de Jensen, de 1907, e Uma lembrança infantil de Leonardo
da Vinci, de 1910.
Nesses textos, o que apareceria objetivamente na arte é
a repetição das cenas do psiquismo infantil, através
dos elementos concretos existentes na composição
das obras, que confeririam à linguagem uma dobra inconsciente.
Esses elementos inconscientes representariam os conflitos inerentes
à afirmação de desejos e, de modo oposto,
à castração, entendida como elemento ordenador
do mundo simbólico dentro do conjunto do psiquismo mais
amplo, constituído basicamente de forças vivas
e atuantes. A seguinte passagem de Freud pode oferecer ao leitor
uma direção para pensar o problema da arte:
As forças motivadoras dos artistas são
os mesmos conflitos que impulsionam outras pessoas à
neurose e incentivaram a sociedade a construir suas instituições.
De onde o artista retira sua capacidade criadora não
constitui questão para a psicologia. O objetivo primário
do artista é libertar-se e, através da comunicação
de sua obra a outras pessoas que sofram dos mesmos desejos sofreados,
oferecer-lhes a mesma libertação. Ele representa
suas fantasias mais pessoais plenas de desejo como realizadas;
mas elas só se tornam obra de arte quando passaram por
uma transformação que atenua o que nelas é
ofensivo, oculta sua origem pessoal e, obedecendo às
leis da beleza, seduz outras pessoas com uma gratificação
prazerosa. A psicanálise não tem dificuldade em
ressaltar, juntamente com a parte manifesta do prazer artístico,
uma outra que é latente, embora muito mais poderosa,
derivada das fontes ocultas da libertação instintiva.
A conexão entre as impressões da infância
do artista e a história de sua vida, por um lado, e suas
obras como reações a essas impressões,
por outro, constitui um dos temas mais atraentes de estudo analítico.
Quanto ao resto, a maioria dos problemas de criação
e apreciação artística esperam novos estudos,
que lançarão a luz do conhecimento analítico
sobre eles, designando-lhes um lugar na complexa estrutura apresentada
pela compensação dos desejos humanos. A arte é
uma realidade convencionalmente aceita, na qual, graças
à ilusão artística, os símbolos
e os substitutos são capazes de provocar emoções
reais. Assim, a arte constitui um meio-caminho entre uma realidade
que frustra os desejos e o mundo de desejos realizados da imaginação
- uma região em que, por assim dizer, os esforços
de onipotência do homem primitivo ainda se acham em pleno
vigor. (24)
Nota-se que junto a interessantes comentários sobre arte
pelo viés pulsional, Freud usa, por um lado, os termos
"ilusão", "símbolos" e "substitutos"
para se referir à arte, numa visão que se aproxima
à grande tradição aristotélico-platônica
da mímese, mas, por outro, interpreta à maneira
de Nietzsche o fenômeno da sublimação das
pulsões como realização de desejos, dentro
de um regime mais tênue, é certo, do que a realização
efetiva, mas, justamente por isso, como um grande agente civilizatório,
devido ao registro simbólico em que se insere o ato,
escapando da esfera do real e indo se situar no campo da linguagem.
A perspectiva em relação à qual Freud
se coloca, ao analisar o psiquismo de Leonardo da Vinci, por
exemplo, ou ao pensar o interesse da psicanálise para
o mundo da arte, não é de modo algum excluir os
valores próprios deste mundo, com suas tradições
e rupturas próprias, mas sim deslocar a discussão
para outro terreno: o da atividade psíquica inconsciente.
Assim, obtemos uma complexa rede de sentidos passíveis
de interpretação, que extrapolam o âmbito
da arte e se estendem para os da existência e constituição
do sujeito, campos próprios da psicanálise. É
nesse ponto que, para a revolta de muitos, a arte se tornaria
um campo específico da expressão psíquica,
ainda que originário, e, portanto, passível de
interpretação psicanalítica.
Para certos críticos de Freud, é como se a ciência
pretendesse dar conta do mundo da arte desde fora. Mas, essa
visão desconsidera o caráter de fazer artístico
inerente à constituição da psicanálise
como fronteira do conhecimento e não como realização
do conhecimento. O testemunho de Freud a esse respeito é
bastante incisivo no que concerne à flutuação
dos conceitos e das metáforas que constituem a sua teoria.
Com certeza, ironicamente, a tentativa de clareza de Freud,
que o leva a estender a psicanálise à interpretação
do psiquismo dos homens eminentes (Moises, Leonardo da Vinci,
Michelangelo, etc.), é fonte de obscurecimentos.
De certo modo, é um exercício de teoria estética
pura, muito diferente daquele que se obtém da clínica
cotidiana, na qual a observação direta das pessoas
favorece uma apreciação melhor das características
psíquicas peculiares, de um modo bastante distinto daquilo
que uma biografia ou obras podem nos sugerir. Os textos em que
Freud aborda os personagens ilustres do mundo artístico
talvez não passem de exercícios virtuosísticos
bem intencionados, e talvez exponham em sua própria concepção
a fragilidade dos dados nos quais se apóiam, como biografias
e opiniões de autoridade.
A maior parte das críticas aos textos de Freud sobre
arte vão se basear nessa fragilidade, que se estende
então, nessas críticas, à tentativa pura
e simples de interpretar o inconsciente. Apontada a falha metodológica,
desmorona o sistema inteiro. Mas considerar isto dessa maneira
seria ingenuidade, pois Freud não escreve como os filósofos,
baseado apenas em seus pensamentos, mas antes os confronta com
a clínica, e é essa a sua visão de atividade
científica, metódica, experimental, provisória,
desvinculada da necessidade de postular 'verdades', mas sim
posições que parecem a Freud mais conseqüentes
que outras.
Então, no exemplo mais famoso de "erro" freudiano,
isto é, o escrito sobre Leonardo (25), o artista aparece
como exemplo patológico. Alguns fatores inconscientes
resultam em certo prejuízo do artista frente ao cientista,
como expressão de um conflito do homem em relação
à sua própria sexualidade. A narrativa, baseada
numa biografia mal-traduzida, surge como uma espécie
de pantomima grosseira, na qual são encenados os pressupostos
da psicanálise. Um tiro na água.
Ora, que tudo seja assim, não impede que a visão
que Freud nos apresenta da experiência artística
corresponda aos seus mecanismos ativadores, que são diferentes
da história das técnicas e das escolhas conscientes.
Se for correto afirmar que Freud, naquele texto, baseou-se em
informações inverídicas, sendo desviado
de uma interpretação adequada, isso não
faz que o sentido da interpretação, caso o dado
biográfico fosse correto, não pudesse ser também
correta. Na verdade, para ser testada teria que ser observada
a reação imediata de Leonardo em análise,
coisa de antemão impossível, o que revela por
si as limitações da aplicação da
psicanálise às grandes figuras do passado, mas
por outro lado isenta Freud dessas críticas. Ora, toda
vez que o psicanalista interpreta, é a reação
do paciente o que vai dar o sentido da interpretação.
Na relação transferencial, quem faz a interpretação
que interessa é o analisante, não apenas como
avalista da interpretação do psicanalista, mas
porque é assim que se constitui uma possibilidade de
mudança na complexa vida psíquica humana. O tempo
da interpretação, nesse sentido, é o mais
importante.
O exercício de Freud, portanto, é claramente uma
tentativa de ampliar o interesse da psicanálise frente
aos diversos setores da cultura, e envolve questões muito
mais amplas do que a psicanálise como método de
cura, e da arte, seu mundo e pressupostos. Portanto, o valor
do texto apesar de bastante relativo, é o de possibilitar
a interpretação da origem da arte no afeto, e
da origem das leituras possíveis da obra nesse mesmo
afeto. Tudo isso é independente da estética convencional,
mas pode conviver despretensiosamente com ela.
É curioso observar como o narcisismo humano se revolta
com as teses da psicanálise, opondo-lhe uma resistência
absolutamente desproporcional. Tudo se passa como se as apreciações
da arte de Freud não tivessem valor nenhum, mas a ênfase,
o vigor dos argumentos, a onipresença das críticas
dos detratores do psicanalista vienense, parecem configurar
um campo no qual, paradoxalmente, lhe é dada a máxima
importância. Freud surge como um perigo para a arte e
para o artista, justamente porque unifica todas as possibilidades
de linguagem sob a égide da vida pulsional:
Consideremos a obra-prima de Shakespeare, Hamlet,
peça hoje com mais de três séculos. Tenho
acompanhado de perto a literatura psicanalítica e aceito
sua pretensão de que somente depois de ter tido o material
da tragédia sua origem remontada pela psicanálise
ao tema edipiano é que o mistério de seu efeito
foi por fim explicado. [Cf. A Interpretação de
Sonhos, Ed. Standard Bras., vol. IV, 280-2.] Mas antes que isso
fosse feito, que volume de esforços interpretativos diferentes
e contraditórios, que variedade de opiniões sobre
o caráter do herói e as intenções
do dramaturgo! Pede Shakespeare a nossa simpatia para um homem
doente, um alfenim fracassado ou um idealista que simplesmente
é bom demais para o mundo real? E como muitas dessas
interpretações nos deixam frios! - tão
frios que em nada contribuem para explicar o efeito da peça,
nos levando a pensar antes que o seu apelo mágico está
apenas nos pensamentos impressionantes que expressa e no esplendor
de sua linguagem. E no entanto esses próprios esforços
não revelam a necessidade que sentimos de descobrir nela
alguma fonte de poder além desses? (...)
No entanto, esses mesmos intérpretes devolvem a Freud
a sua concepção como uma arbitrariedade, e mais
do que isto, como uma invasão estrangeira aos domínios
da arte e da crítica de arte.
Quando Freud estava chegando aos Estados Unidos, com Jung, para
uma série de conferências de divulgação
da psicanálise, diante da estátua da liberdade,
no meio da conversa com os colegas, disse que mal sabiam os
americanos que ele estava ali para lhes trazer a peste. Por
outro lado, ao analisarmos o que a psicanálise americana
fez com o método e a teoria da psicanálise, vemos
de novo a capacidade neurótica humana de sempre recobrir
a fenda irracional da existência com os valores paranóicos
da consciência, que refletem a constante tendência
à unidade do Eu, exatamente por essa falta de consistência
do conjunto do psiquismo, que não pode se haver com altas
taxas de experiência. Esta, é vista como desestabilizadora
e fonte de sofrimento. Sem dúvida, a experiência
freudiana se contrapõe a essa vis inertiae, o caráter
aniquilador e ilusório da cultura e de seus mecanismos
de defesa, frente à possibilidade de superação
das condições de existência convencionais,
que se baseadas em defesas neuróticas.
Um exemplo claro desse tipo de argumentação de
que falamos acima, está no seguinte trecho de um texto
de Ostrower presente no livro Criatividade e processos de criação:
"(...)Há em Leonardo da Vinci uma
tal unidade de vida e de vivência, do fazer, saber e sentir,
as atividades artísticas e científicas interpenetrando-se
em todos os níveis de consciência e umas enriquecendo
as outras, que não cabe realmente o comentário
de Freud sobre um processo 'regressivo' que se teria verificado
em Leonardo, porque este em seus últimos anos se dedicasse
mais a projetos científicos do que à arte e conseqüentemente
estivesse perdendo em pujança criativa. Não apenas
a afirmação de Freud implica que o setor artístico
seria 'mais criativo' do que o setor cientifico ("o artista
antes empregara o pesquisador como seu servo, agora o servo
se tornou o mais forte e subjugou o seu mestre"), como
a distinção de categorias criativas separando
a visão artística da científica, no caso
de Leonardo, não faz sentido. (26)
Disso se pode dizer apenas que, pelo contrário, Freud
aponta para a interpenetração das esferas artística
e científica, sendo a arte a esfera primordial, dada
a própria constituição do eu, que só
alcança o "teste de realidade" na terceira
fase de desenvolvimento do Eu. A própria linguagem do
inconsciente, seus deslocamentos e condensações,
guarda identidade com o fenômeno da arte.
Seguindo o mesmo texto de Ostrower, encontramos também
as seguintes afirmações:
Na obra tardia de Leonardo da Vinci, as figuras
humanas, os anjos e a virgem aparentam traços físicos
andróginos. Essa caracterização tem sido
interpretada como expressão de tendências homossexuais.
É bem possível que as tendências existam.
Mas ver a obra nesses termos é, no fundo, não
vê-la; é elaborar um diagnóstico a partir
de um referencial alheio à linguagem ou ao contexto da
obra e é, por essa razão, o que se chama de 'interpretação
literária' sem maior interesse a não ser para
aqueles que a buscam, uma vez que nada acrescenta a nossa compreensão
do conteúdo expressivo da obra. As significações
que a obra tem, que ela a um tempo funde e comunica, só
podem ser compreendidas respeitando-se os termos de linguagem
usados por Leonardo. Referida às ordenações
espaciais que existem no quadro, a imagem unificada dos dois
sexos se insere no contexto de um simbolização
global que tem por base uma determinada visão de vida
-- no mesmo simbolismo com que, em graduações
quase que imperceptíveis, o claro e o escuro são
vistos não como estados antagônicos e sim complementares,
numa síntese que infunde tanto o sorriso da Monalisa
como toda a paisagem em sua volta. Nessa visão de vida,
de unidade e ulterior harmonia em que se revelavam, para Leonardo,
as forças cósmicas e os mínimos aspectos
particulares do acontecer universal, a caracterização
física humana faz parte da caracterização
física dada ao quadro todo e pode ser compreendida como
símbolo de uma fusão ideal, vista ao nível
da existência humana."
Outro comentário presente em nota do mesmo texto, conclui
o seguinte:
Esse ensaio dá um impressão curiosa
de tratar-se de um caso clínico hipotético. Leonardo
da Vinci existe como um personagem mas não como pessoa,
e tampouco o contexto histórico com seus problemas concretos,
sociais, políticos, culturais parece afetar o desenvolvimento
e os valores da pessoa. A situação é de
mitos: 'um' filho, 'um' pai, 'uma' mãe, ou, aliás,
duas mães. (...) O livro é rico em hipóteses
e interpretações; no entanto, não leva
em consideração os dados concretos expressivos
que existem, isto é, as formas estilísticas da
obra de Leonardo, a maneira dele falar e os conteúdos
vivenciais sobre os quais fala. O problema é que Freud
buscava, nas artes plásticas, a representação
de objetos e não a configuração de um conteúdo
significativo em termos visuais. Via o sorriso, isoladamente,
e não via o conjunto do quadro
Acho muito difícil que Freud se prepusesse a tarefa,
mediante tudo o que sabemos dele, de estabelecer um método
de criação a partir da noção de
inconsciente, pois isso se revelaria absolutamente inútil
para o artista, a não ser do ponto de vista de um esclarecimento
das condições prévias ao ato criativo e
aos possíveis signos e conjunções de elementos
ali presentes. Ou seja, o interesse é de esclarecimento
do ser humano e não propriamente uma interpretação
estética convencional.
O curioso é que, apesar de Freud não se propor
a isso, desse modo respeitando o campo próprio ao mundo
da arte, isto é cobrado por Ostrower, que vê nisso
um problema, entrando em completa contradição.
Ora, se o autor reconhece que a história dos processos
criativos possui peculiaridades próprias, estando a psicanálise
de Freud numa outra circunscrição, por que exigir
dele justamente que invada um terreno em relação
ao qual confessa de antemão sua inabilidade?
Sem dúvida, poderíamos lembrar trechos de Psicologia
de massas e análise do eu e O mal-estar na cultura em
que Freud comenta a respeito dos laços libidinais dos
agrupamentos humanos, sua referência fechada em determinadas
formas comuns e litúrgicas, o que provocaria um efeito
de aliança interna entre os membros do grupo e um antagonismo
com relação a tudo o que lhe apresenta uma imagem
diversa do mundo. Assim, a psicanálise continua espalhando
a peste, e os anticorpos do psiquismo inercial continuam atuando
para combater a doença. Perguntamos, com Freud, por que
a intenção inconsciente do artista não
poderia ser comunicada e compreendida em palavras, como qualquer
outro fato da vida mental? Por que é tão difícil
aceitar que, por trás dos processos criativos, da pesquisa,
da história, das rupturas, do conjunto de valores presentes
na obra, exista uma força constante de atividade que
extrapola a nossa capacidade de interpretação,
quando usamos as vias convencionais?
E se o nosso psiquismo se esforça no sentido de se realizar,
é natural que encontre na arte uma grande possibilidade
de ser efetivo, já que o prazer obtido da realização
artística pode, justamente, ser controlado e independe,
de certo modo, do mundo real, pois é sublimado:
Outra técnica para afastar o sofrimento
reside no emprego dos deslocamentos de libido que nosso aparelho
mental possibilita e através dos quais sua função
ganha tanta flexibilidade. A tarefa aqui consiste em reorientar
os objetivos instintivos de maneira que eludam a frustração
do mundo externo. Para isso, ela conta com a assistência
da sublimação dos instintos. Obtém-se o
máximo quando se consegue intensificar suficientemente
a produção de prazer a partir das fontes do trabalho
psíquico e intelectual. Quando isso acontece, o destino
pouco pode fazer contra nós. Uma satisfação
desse tipo, como, por exemplo, a alegria do artista em criar,
em dar corpo às suas fantasias, ou a do cientista em
solucionar problemas ou descobrir verdades, possui uma qualidade
especial que, sem dúvida, um dia poderemos caracterizar
em termos metapsicológicos. Atualmente, apenas de forma
figurada podemos dizer que tais satisfações parecem
'mais refinadas e mais altas'. Contudo, sua intensidade se revela
muito tênue quando comparada com a que se origina da satisfação
de impulsos instintivos grosseiros e primários; ela não
convulsiona o nosso ser físico. E o ponto fraco desse
método reside em não ser geralmente aplicável,
de uma vez que só é acessível a poucas
pessoas. Pressupõe a posse de dotes e disposições
especiais que, para qualquer fim prático, estão
longe de serem comuns. E mesmo para os poucos que os possuem,
o método não proporciona uma proteção
completa contra o sofrimento. Não cria uma armadura impenetrável
contra as investidas do destino e habitualmente falha quando
a fonte do sofrimento é o próprio corpo da pessoa.Enquanto
esse procedimento já mostra claramente uma intenção
de nos tornar independentes do mundo externo pela busca da satisfação
em processos psíquicos internos, o procedimento seguinte
apresenta esses aspectos de modo ainda mais intenso. Nele, a
distensão do vínculo com a realidade vai mais
longe; a satisfação é obtida através
de ilusões, reconhecidas como tais, sem que se verifique
permissão para que a discrepância entre elas e
a realidade interfira na sua fruição. A região
onde essas ilusões se originam é a vida da imaginação;
na época em que o desenvolvimento do senso de realidade
se efetuou, essa região foi expressamente isentada das
exigências do teste de realidade e posta de lado a fim
de realizar desejos difíceis de serem levados a termo.
À frente das satisfações obtidas através
da fantasia ergue-se a fruição das obras de arte,
fruição que, por intermédio do artista,
é tornada acessível inclusive àqueles que
não são criadores. As pessoas receptivas à
influência da arte não lhe podem atribuir um valor
alto demais como fonte de prazer e consolação
na vida. Não obstante, a suave narcose a que a arte nos
induz, não faz mais do que ocasionar um afastamento passageiro
das pressões das necessidades vitais, não sendo
suficientemente forte para nos levar a esquecer a aflição
real.
Freud aparece aqui com uma visão que considera ao mesmo
tempo a questão schopenhauereana do sofrimento inerente
à vida e a questão nietzscheana da arte como afirmação
do desejo.
Disso não se pode depreender nenhuma definição
do conceito de arte, mas justamente expõe o vazio de
tais definições, na medida em que a arte, ao ser
definida, perde justamente aquilo que lhe é inerente:
a sua origem obscura no ambiente da pulsão. E aqui entendemos
melhor a questão heideggeriana a respeito da origem da
arte não no objeto ou na intenção do artista,
mas na sua capacidade de reinventar o mundo forçando
a reinterpretação universal dos pressupostos,
através do ato realizado, isto é, a obra.
A obra é o símbolo da colocação
do mundo como fato de intensidade, à medida que redimensiona
e requalifica todas as definições previamente
aceitas. E isto, na história da arte pode ser facilmente
visto em seus movimentos de ruptura das tradições
pré-existentes. Assim, o artista criativo não
modifica apenas o futuro da arte, mas modifica todo o seu passado.
Essa é a lógica inerente à vida pulsional.
É vida em si através das linguagens possíveis,
trazendo em seu núcleo todas as possibilidades futuras
do fazer e do compreender a arte.
Então, se a linguagem de Freud parece às vezes
despropositada, do ponto de vista de uma estética qualquer,
jamais o será do ponto de vista do que instaura a possibilidade
de qualquer estética, seja ela do ponto de vista dos
artistas ou dos críticos e filósofos da arte:
a luta psíquica por realização de desejos
está no fundo da constituição da linguagem.
Além disso, a arte propicia um inegável consolo
para os desejos não realizados, e nisso é inestimável.
Além disso, Freud aponta uma função social
para a arte, na medida em que esta eleva os sentimentos de identificação
das pessoas, "proporcionando uma ocasião para a
partilha de experiências emocionais altamente valorizadas"
, dotando a vida humana de unidade cultural, dentro da diversidade
e conflito real da existência.
Como se vê, Freud, um homem culto, mas não um artista,
estava em condições de atribuir um alto valor
à arte como realização humana, como uma
dessas realidades criadas pelo desejo, para satisfação
de nossa demanda interna de felicidade. A arte, para Freud,
é sempre benéfica, porque articula ilusão
e realidade com harmonia, propiciando possibilidades de experiência
que vão muito além das nossas realizações
e condições concretas, sendo, portanto, um fator
de saúde mental para a humanidade submetida a toda sorte
de revezes.
Uma das mais belas páginas de Freud sobre arte está
no texto Sobre a transitoriedade (1916) onde ele expõe
que o valor da arte não está em sua conservação
enquanto objetos reais, mas na sua constante renovação.
Essa transitoriedade do objeto real não é vista
por Freud como uma diminuição do valor das coisas,
mas sim como um aumento desse valor. E aqui ele está
sendo um perfeito nietzscheano:
O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo.
A limitação da possibilidade de uma fruição
eleva o valor dessa fruição. [É] incompreensível
[...] que o pensamento sobre a transitoriedade da beleza interferisse
na alegria que dela derivamos. Quanto à beleza da Natureza,
cada vez que é destruída pelo inverno, retorna
no ano seguinte, do modo que, em relação à
duração de nossas vidas, ela pode de fato ser
considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece
para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua
evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado
encanto. Um flor que dura apenas uma noite nem por isso nos
parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que
a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou
de uma realização intelectual deveriam perder
seu valor devido à sua limitação temporal.
Realmente, talvez chegue o dia em que os quadros e estátuas
que hoje admiramos venham a ficar reduzidos a pó, ou
que nos possa suceder uma raça de homens que venha a
não mais compreender as obras de nossos poetas e pensadores,
ou talvez até mesmo sobrevenha uma era geológica
na qual cesse toda vida animada sobre a Terra; visto, contudo,
que o valor de toda essa beleza e perfeição é
determinado somente por sua significação para
nossa própria vida emocional, não precisa sobreviver
a nós, independendo, portanto, da duração
absoluta. (28)
Se essas palavras não servem de consolo aos pessimistas,
ainda assim revelam uma aguda consciência sobre a nossa
tendência de nos apegarmos aos objetos e aos hábitos
mentais aos quais nos afeiçoamos, ou, como diz Rilke,
"que se afeiçoaram a nós". (29)
Por outro lado, revelam a possibilidade de superar o luto por
esses objetos e concepções perdidos, deixando
que a vida se renove livremente e que tudo se reconstrua em
outras bases.
Em suma, se a abordagem de Freud às vezes parece descontextualizada
do mundo da arte, o próprio mundo da arte precisa sempre
se reencontrar com a vida e se renovar na experiência.
Nesse sentido, é legítimo interpretar que o movimento
inerente à existência é a força que
impulsiona o desejo rumo aos seus objetos.
Este estímulo vital impele não apenas o artista,
mas qualquer um, sendo, portanto, a força pela qual a
arte pode provocar identificações e, além
disso, reinterpretações de seu próprio
sentido na cultura e reavaliações na trajetória
do artista, independente do contexto histórico em que
se encontrem. A vida é profusa e busca o seu sentido
constantemente nas interpretações humanas que
não podem, desse modo, restringir-se a uma concepção
estética particular, mas sempre instaurará a nova
estética, a nova arte e o novo artista - esse é
o mundo da pulsão.
1 - O termo Trieb é traduzido na psicanálise
como instinto, pulsão e, de um modo mais raro, como impulso.
Instinto, na obra freudiana, corresponde ao termo Instinkt,
usado, como em Schopenhauer, no restrito contexto da determinação
biológica, mecânica, das espécies animais,
sem a plasticidade e abrangência do termo Trieb. Desse
modo, o termo instinto escamoteia o uso distintivo dos termos
Trieb e Instinkt. No entanto, P.C. de Souza (1998) considera
que o termo instinto já se "aclimatou" ao vernáculo
(p. 249). O termo pulsão, por outro lado, é um
neologismo adaptado da física newtoniana e adotado a
partir da escola francesa de psicanálise; pulsão
não corresponde a nada que existisse no campo semântico
de Freud, quanto mais no de Schopenhauer. Conforme Laplanche(1996),
o surgimento do termo "pulsion" vem a reboque da tradução
do termo Drang como "impulso" (p. 80-81). P.C. de
Souza (1998) opina que a tradução francesa é
uma forma mais curta de impulsion, à qual faltaria justamente
a idéia de ímpeto dada pelo prefixo "im"
(p. 250).
Parece que a dificuldade de tradução apontada
pelos especialistas em Freud pode ser melhor superada caso sejam
consultadas as traduções de Schopenhauer e os
usos que nelas se faz dos termos Trieb e Drang. A tradução
inglesa de O Mundo... utiliza os termos urge e impulse, como
vemos no Vol. II, Suplementos, Cap. 28 chamado Caracterização
da vontade de viver, onde se lê: [...] "a blind urge,
an impulse wholly without ground and motive" (p.357).Em
português, essa correlação foi captada por
Barboza, que traduz "blosser blinder Drang" como "mero
ímpeto cego" (BARBOZA, 2001, P. 42) e Cacciola,
que também traduz Drang como ímpeto (1995, p.
55), muito embora mantenha o uso psicanalítico do termo
pulsão.
O uso freudiano do termo Trieb em geral é o mesmo de
Schopenhauer. Verificar, por exemplo, no segundo volume de O
mundo como Vontade e como Representação, Cap.
12, 22, 23, 27 (onde a diferença entre os termos Instinkt
e Trieb se explicita), 28, 42, 44 e 45. Discorda-se de Kemper
(1997), para quem "Freud forjou o termo Trieb a partir
do vernáculo alemão" (p. 81). O termo "forjou"
parece inapropriado; considera-se que Freud apenas expandiu
o termo.
Do ponto de vista desta dissertação são
duas as opções mais plausíveis para a tradução
do Trieb de Freud: (a) Optar por um neologismo, como pulsão;
(b) ampliar o sentido de uma palavra já existente, como
Schopenhauer faz com o termo Wille. Tendo um substituto para
a tradução de Drang na palavra "ímpeto",
o termo impulso surge como candidato natural, já que
ele naturalmente acentua as noções ativas de predisposição,
fonte (Quelle) e ímpeto (Drang), sendo entendido então
para além da mera noção de impulsividade
como ação-reação. A opção
pelo termo impulso pretende também: a) Assumir o vínculo
dos usos do termo em Freud e Schopenhauer, indicando o filósofo
como predecessor do psicanalista nessa articulação
conceitual; b) Evidenciar o estilo de Freud como alguma coisa
muito mais simples e clara do que aparece nas traduções
oficiais; c) Negar a necessidade ou exclusividade da terminologia
psicanalítica consagrada. Além disso, mais importante
do que recusar uma ou outra tradução/ tradição
é apontar que a essência do Trieb em Freud é
sua "vis activa", e não seu objeto [conforme
SCHIAVON (2002), p. 12 e HANNS (1999), p. 43]; como em Schopenhauer,
trata-se de uma força constante,que se exprime em atos,
em relação aos quais o objeto é indeterminado,
mas que em relação ao indivíduo é
singularmente determinado. Assim, acreditamos reconduzir o Trieb
ao seu lugar de origem como afirmação da experiência,
sem ignorar as diferenças específicas: o acento
demoníaco do Trieb (compulsão de repetição)
de Schopenhauer, em contraste com o acento mais afetivo, instaurador
e avaliativo do Trieb freudiano.
2 - FREUD, S. O Moisés de Michelangelo.
3 - Idem ibidem.
4 - NIETZSCHE, F. Genealogia da Moral, trad.
De P.C. de Souza, p. 149.
5 - Sob esta expressão podemos colocar
tanto as preleções de 1820, traduzidas para o
português por Jair Barboza, editadas pela Ed. UNESP, quanto
o terceiro livro de O Mundo como Vontade e Representação.
Como em Freud, também não se trata propriamente
de uma estética, mas sim das condições
de possibilidade do surgimento de obras de arte, artistas e
das estéticas possíveis.
6 - Conferir, por exemplo, o ensaio chamado
Sobre a liberdade da vontade.
7 - FREUD, S. Fluctuat Nec Mergitur.
8 - FREUD, S. O manejo da interpretação
dos sonhos na psicanálise.
9 - O Trieb freudiano apresenta três
diferentes aspectos: (A) Fisiológico: O tipo de excitação
produzido pelo pulsão diverge da excitação
produzida pelos receptores da sensibilidade ligados ao mundo
exterior por suas características: (a) sua origem é
interna, (b) possui força constante, (c) é impossível
se lhe escapar por ações de fuga; (B) Biológico:
Na ausência da possibilidade de fuga, impõe-se
a tarefa de controlar as excitações internas,
tendo como parâmetro de sucesso para esse controle as
flutuações constantes da série prazer-desprazer;
(C) Psicológico: a pulsão se apresenta como um
conceito-limite entre o somático e o psíquico,
sendo então o verdadeiro representante do corpo frente
ao psiquismo, dado como uma exigência de trabalho ou satisfação,
que é imposta ao psíquico pela sua estreita conexão
com o organismo.
10 - Conceito que, segundo Maria Lúcia
Cacciola, é um verdadeiro ponto de convergência
entre os filósofos do Idealismo alemão.
11 - FREUD, Triebe und Triebschicksale (1915),
BN, V. II, p. 2042.
12 - E aqui entendemos um distanciamento entre
Freud e Lacan, pois para Lacan a lógica do significante
não é representativa.
13 - As razões pelas quais tomo como
intercambiáveis os termos pulsão e impulso são
explicadas em nota da minha dissertação de mestrado
"Corpo e mundo em Schopenhauer e Freud", de 2003.
14 - FREUD, S. O mal-estar na civilização.
15 - FREUD, Sigmund. O prêmio Goethe.
Edição Standard, 1930E.
16 - Sobre isso, conferir o livro de Colomer,
chamado O pensamento alemão de Kant a Heidegger, vol.
II.
17 - Ao modo de H.G. Wells, por exemplo.
18 - GOETHE, W. Fausto. Dedicatória:
"De novo chegais, ó formas adejantes! Encontro-vos,
Tão cedo à minha vista enevoada brilhais! Tentarei
uma vez mais vos apreender e vos cingir?"
19 - GOETHE, W. Fausto. Dedicatória:
"E, como uma antiga tradição semi-extinta,
O primeiro amor retorna, com a amizade em seu séqüito."
20 - GOETHE, W. "Ah, vós fostes,, numa vida passada,
minha irmã ou minha esposa". Poema "Warum Gabst
du uns die tiefen Blicke", dedicado a Charlotte von Stein.
21 - FREUD, Sigmund. O prêmio Goethe.
Edição Standard, 1930E.
22 - FREUD, S. O Moisés de Michelangelo
(1914).
23 - "A atitude estética é
lúdica". FREUD, em Os chistes e sua relação
com o inconsciente (1905). Outro aspecto dessa atitude lúdica
do artista é o prazer do contraste, conforme a segunda
parte de O mal-estar na Cultura (1930).
24 - FREUD, S. O Interesse Científico
Da Psicanálise (1913). Parte II - O Interesse Da Psicanálise
Para As Ciências Não-Psicológicas. (F) O
Interesse Da Psicanálise Do Ponto de Vista Da Ciência
Da Estética.
25 - Sigmund Freud, Das Unbewusste - Eine kindheitserinnerung
des Leonardo da Vinci, Deutsche Buchgemeinschaft, Berlim-Darmstadt-Viena,
1963, pg. 180: "... ein Vorgang, den man nur den Regressionen
bei Neurotiken na die Seite stellen kann". E na mesma página:
"diese regressive Ersetzung".
26 - OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos
de criação. Rio de Janeiro: Imago, 1976. pgs.
47-48-50.
27 - FREUD, S. O futuro de uma ilusão.
28 - FREUD, S. Sobre a transitoriedade.
29 - Conferir a primeira Elegia de Duíno.
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