| GREENBERG NO CAFÉ RITZ
O JORNAL É A GRAVURA MAIS POPULAR QUE EXISTE
Entrevista organizada por Didonet Thomaz (1)
Contraponto de Adriane Perin (2)
Resumo: Clement Greenberg (Nova York, 1904-1994), foi jornalista
e fundador de um novo estilo de crítica de arte. Sua
obra vem sendo traduzida e cada vez mais debatida também
no Brasil, por onde esteve, de passagem, em 1964. Paradoxalmente,
a influência de seu sistema é marcante e o conhecimento
disto deve ser para todos. A Prof.a Dr.a Cecília Cotrim3
organizadora do livro Clement Greenberg e o Debate Crítico
(juntamente com a Prof.a Dr.a Glória Ferreira, Funarte&Zahar,
1997) pondera nesta entrevista, sobre a possibilidade de desmontar
o texto especializado numa folha de jornal.
boogie woogie
no Café Ritz - vozes dos freqüentadores e dos garçons
Didonet Thomaz: "Resposta a Clement Greenberg",
texto escrito por Barnett Newman foi publicado somente em 1969
e era a resposta deste artista ao ensaio Review of Adolph Gottlieb,
de Greenberg, publicado no The Nation, 06 de Dezembro de 1947,
conforme está escrito nas Notas da edição
brasileira. Newman foi convidado por Greenberg a responder a
seus comentários, produzindo este texto no mesmo mês.
Estranhamente, The Nation se recusou a publicá-lo, alegando
ser excessivamente especializado para os leitores da Revista.
O que ocorreu realmente? Um duplo vínculo da parte de
Greenberg, provocando a interrupção do diálogo?
Cecília Cotrim: Acredito que não, Greenberg
sempre gostou, procurou o debate. A gente nota pela maneira
como enfrenta a crítica posterior, depois dos sessenta
e setenta, quando começa a escrever os famosos Seminários,
que são respostas acirradas, afirmativas e até
mesmo violentas. É muito interessante, irônico,
perspicaz... isso é a delícia do Greenberg...
você ler os debates ao vivo, por exemplo, tem isso no
livro do Thierry De Duve, Clement Greenberg entre les lignes
- nas entrelinhas... aí, tem um debate com um público
enorme, em 30 de março de 1987, na Universidade de Ottawa.
E a gente vê como ele é bom no debate, não
foge da discussão, já idoso. Apesar de que não
é uma pessoa aberta a mudar de ponto de vista...
Adriane Perin: Ele acredita muito no que fala....
CC: É absolutamente convicto do que pensa e vê...
além disso, o respeito pela arte e pelo texto... como
escreve nas suas "Notas autobiográficas", "A
crítica de arte, eu diria, é a mais ingrata forma
de escrita elevada que conheço."...ou seja, ele
sabe da dificuldade de se encontrar palavras para uma obra,
a despeito de toda a vulgata... de toda cristalização
em que se transforma sua "teoria da arte". Mas isso
é um segundo momento: primeiro ele tem esse momento de
escrever sobre arte. E depois, a crítica passa a interferir
diretamente no mercado de arte... e aí é que a
coisa ganha outros rumos, começa a ter esse tipo de problema,
textos muito "direcionados", quase esquemáticos.
E há a reação dos artistas. O Newman pede
uma desculpa que é importante para pensar o que começou
a acontecer ali... este artigo, está neste livro, por
conta da importância da resposta dos artistas à
crítica... A passagem é uma pequena frase, esclarecedora,
e o Newman diz: "... Foi precisamente em defesa dessa última
idéia..." - uma idéia que ele vem desenvolvendo
no artigo - "... que invadi algumas vezes os domínios
do crítico...". Quanto a sua pergunta, de fato,
não acredito que tenha havido isso... acho que é
um problema, talvez... uma resenha de uma exposição
é uma coisa, não é? Uma resposta que pareça
mais...
DT: Provocativa?
CC: Não, que entre mais em questões específicas...
talvez o The Nation tenha dito o que corresponde a...
DT: Formação de opinião.
CC: É, não tenho meios, agora, para decidir
isto.
boogie woogie no
Café Ritz - vozes dos freqüentadores e dos garçons
DT: Considerando a ironia da expressão a história
não pode mais nos salvar, gostaria de tomar esses fatos
históricos como referência para dialogar sobre
o que ocorreu após o lançamento deste livro, organizado
por você e pela Gloria Ferreira, apontando para o que
diz John O'Brian no Prefácio desta edição:
"... Não ficaria surpreso em saber que Clement Greenberg
foi mais discutido que lido no Brasil...".
CC: Ele começa a ser discutido agora, no mundo
todo há uma retomada da discussão, por conta desta
crise de juízo em que nos encontramos... ou seja, nenhuma
perspectiva se abre desde sessenta... não é mau
nem bom, mas a gente tem que lidar com isto. O movimento natural
é voltar ao contemporâneo para retomar esses limites
da arte moderna que foram meio postos ali no final do expressionismo
abstrato. Acho que o que acontecia no Brasil é que o
Greenberg era lido por algumas pessoas que liam em inglês.
Ele, agora, pode ser mais discutido e melhor discutido por conta
do lançamento de Arte&Cultura, também.
DT: De 1996.
CC: A gente não pode esquecer disso.
DT: Tem um prefácio excelente do Rodrigo Naves.
CC: Claro. Os dois livros são importantíssimos
para que a gente possa discutir o Greenberg.
boogie woogie no
Café Ritz - vozes dos freqüentadores e dos garçons
DT: Neste citado Prefácio de John O'Brian, consta
que "... Greenberg passou pelo Brasil em 1964, quando voltava
de Buenos Aires onde foi jurado de uma exposição
internacional...". Além desta menção
ao Brasil e aos brasileiros, neste DEBATE CRÍTICO, consta
na microbiografia de Yves-Alain Bois, historiador e crítico
de arte, autor de artigos sobre o modernismo e arte contemporânea
que escreveu sobre o trabalho de Lygia Clark. Existe algo mais
sobre a "exclusão" do Brasil e dos brasileiros
que nos tenha passado despercebido nesta obra?
CC: Na obra do Greenberg?
DT: Nesse livro, achei fantástico encontrar o
"Brasil" escrito ali e o nome de "Lygia Clark".
Por isto estou fazendo esta pergunta...se eu deixei passar?
CC: Não tenho conhecimento disso, certamente Greenbeg
não escreveu sobre Hélio Oiticica.
boogie woogie
no Café Ritz - vozes de freqüentadores
e dos garçons
DT: Após a publicação d'O DEBATE
CRÍTICO, a Gazeta do Povo solicitou uma resenha desta
obra. Foi impossível realizar satisfatoriamente este
pedido, em 1997. Na época, fiz uma Leitura Informal dando
ênfase às moções das idéias
(idéias que vem passando e parando de longe em longe,
contaminando e proliferando pela tradição, até
onde sabemos) e ao booggie woogie curitibano; uma junção,
se é que se pode usar essa imagem que vem de Mondrian4
e significa, em tradução informal, "fracionar
e dinamizar pela dinâmica da cidade e do som" - neste
caso, horários e barulhos dos carros e das sirenes de
Curitiba, pelas manhãs e pelas noites, durante todo período
em que a leitura foi sendo escrita, localizado no mapa da cidade
onde o raciocínio foi processado. Tudo isto foi feito
com a finalidade de motivar a publicação. O livro
não contém imagens e ao buscá-las para
uso deparamo-nos com muitas proibições. Foi infrutífero.
O assunto parecia e parece ainda hermético; é
difícil engolir a exclusão, também. Este
livro é osso duro de roer embora impecavelmente organizado.
Onde erramos ou parecemos errar?
CC: Vou interromper agora, só para te dizer uma
coisa, queria que isto ficasse. É muito bom estar aqui,
mas para mim falta uma pessoa nesta conversa, sem sombra de
dúvida... é a Glorinha. E dizer que o projeto
do livro começou nos intervalos de aula, entre a ida
a uma aula numa escola no boulevard Raspail e outra aula noutra
escola perto de Saint-Michel. Então, a gente sentava
num café, tínhamos duas horas de intervalo e ficávamos
trocando idéias de projetos. A Glorinha trabalhando arte
americana, já muito envolvida com essas questões
e a gente, ao mesmo tempo, preocupada com a falta de condições
de pesquisa no Brasil. Quer dizer, a gente lá tendo todas
as condições de pesquisar... e começamos
a pensar na importância de editar coletâneas de
artigos de época... tudo começou em conversa de
café, com a Glorinha que está faltando aqui nesta
mesa...
DT: Ela está sendo lembrada, ela está presente...
CC: É engraçado você dizer que o
livro é hermético. É a primeira vez que
ouço, é sempre bom ouvir uma opinião diferente.
Enfim, talvez porque eu esteja muito envolvida... mas discordo
de você que seja hermético. Em que sentido você
diz que o livro é hermético?
DT: Essa é uma colocação que estou
trazendo do jornalista José Carlos Fernandes, da Gazeta.
Eu disse "vou tentar de novo aquele material". E ele
falou: "manda ver, mas não pode ser hermético".
Guardei a palavra nesse sentido.
AP: O jornalismo, principalmente o padrão, que
é o que a Gazeta faz, exige as coisas de um jeito mais
popular para usar esta palavra, de uma forma que os preâmbulos
da teoria da arte, digamos assim, referências... acho
que é nesse sentido que o Zé comentou que o material
entregue estava hermético... porque é o transformar,
pegar de repente uma teoria da arte e colocar no jornal de um
jeito que qualquer dos nossos leitores possa ler, porque não
são pessoas especializadas... como vocês que estão
há anos pesquisando e se dedicando a isso...
CC: Concordo com você, porque isso é que
leva o leitor ao livro, como uma resenha de uma exposição
também deve levar o público à exposição.
E talvez aí esteja a questão lá, ligada
ao Newman. Pode ser que tenha havido um bloqueio, porque, de
fato, o Newman é muito... enfático, é uma
posição muito dura e talvez, na época,
não se quisesse artistas respondendo a críticos.
Isso, hoje pode ser até mais comum. Não sei, talvez
esteja mais aí a resposta. O livro em si não é
hermético... aliás, isso eu penso de todo livro,
de toda obra. Não acho que para estudar filosofia você
tem que começar de Platão. Ou para ler Merleau-Ponty
você tem que começar do primeiro livro do Merleau-Ponty.
Acho que qualquer pessoa pode abrir O Visível e o Invisível
do Merleau-Ponty, por exemplo, e se deliciar com a escrita e
aí sim ser tocado pela coisa... pela obra. É isso
que espero desse livro, que possa ser lido, que não seja
tão hermético assim... Na época do lançamento
do livro a gente fez duas entrevistas completamente diferentes...
uma para aquele jornal da Globo, tarde na noite. O De Kooning
tinha acabado de falecer e usaram esse gancho jornalístico.
E outra entrevista com o Pedro Bial, para a Globo News... chegamos
a discutir sobre o significado do juízo estético,
falamos de Kant, de estética...
AP: Exatamente... no Caderno G, é difícil...
complicado conseguir fazer essa transição.
boogie woogie
no Café Ritz - vozes dos freqüentadores
e dos garçons
DT: Está escrito que o teórico Arthur Danto
disse: "... A beleza da contribuição greenberguiana
reside no fato de que ele propôs ao mesmo tempo uma nova
narrativa, uma definição do modernismo e um quadro
crítico apropriado tanto à narrativa que apresenta
quanto à época de que trata...". Concordamos
com sua fala. Apesar do que foi dito acima, hoje pela manhã,
fiz uma consulta de mercado e a obra não está
indicada nos computadores, está esgotada. Qual a dificuldade
persistente na práxis da expressão folha de jornal
como gravura mais popular que existe - publicação
de textos especializados/
CC: O livro não está esgotado... deve ser
um problema de distribuição. E de todo modo, sem
a Funarte, sem a ajuda do Fernando Cocchiarale, esse livro não
teria saído. As universidades, bibliotecas, precisando
do livro... devem se dirigir a loja da Funarte (MEC/RJ), pois
um dos seus papéis, nessa edição é,
justamente, de difundir a reflexão sobre Artes Plásticas.
Acho importante informar o editor porque é um interesse
da Zahar que o livro venda o máximo possível...Agora,
eu podia fazer uma pergunta? Queria que você explicasse
o que você quer dizer com essa expressão folha
de jornal como gravura mais popular que existe?
AP: Eu também queria, isso aqui me interessou.
DT: Acho que os jornais poderiam trabalhar mais neste
sentido. A Gazeta do Povo tem oferecido páginas inteiras
com poemas, livros, crônicas, coisas que normalmente não
se vê num jornal... é muito legal.
AP: Os Cadernos de Domingo... são os mais completos...
CC: Mesmo assim tem esse problema... por exemplo, o Jornal
de Resenhas da Folha de S. Paulo é algo de excelente
qualidade, mas parece pouco lida, pelo público "geral".
AD: É uma opção do jornal... acho
que o jornal deveria sim abrir e colocar coisas mais complexas...
porque o leitor só vai poder melhorar se tiver alguma
coisa que exija dele...
CC: ... Senão as pessoas vão continuar
comprando a Folha de São Paulo no Domingo, e não
outros jornais.
DT: Você pode imaginar Greenberg desmontado numa
folha de jornal? Não é demais, não é
a gravura mais primitiva, a mais barata, todo mundo tem acesso?
Pelo menos vão perguntar... o que é isto?
CC: Te interessa é o fato de que a participação
dele... era feita numa revista... The Nation não era
para a elite...
AP: Acho que o problema é a mídia.
CC: "A Pintura Modernista", por exemplo, foi
um texto irradiado pela Voz da América...
DT: Porque isso não pode acontecer também
aqui? Peguei esse gancho do Barnett Newman para chegar na experiência
de não conseguir atingir as metas de um jornal falando
d' O DEBATE CRÍTICO... fiquei com essa situação
que devia ter contornado melhor e não consegui, fiz todas
estas perguntas... pela possibilidade de colocar algo que se
diz hermético, entre aspas, numa folha de jornal... vamos
desmontar isso numa folha de jornal... ele anda.
CC: Agora, é interessante a sua insistência,
porque você poderia ter escrito, proposto uma resenha,
por exemplo, para a Folha de S. Paulo, ou para o JB, ou para
o Estadão...
DT: O Ronaldo Brito disse, durante o curso do ano passado,
na sala de aula da Belas, que eu sou... "carne de pescoço"...
Acho que ele tem razão.
CC: É verdade, porque você está lutando
pelo jornal daqui...
DT: Sou nômade, estou aqui, agora. O que tenho
para fazer aqui? Quais são as possibilidades? Então
é esta, tenho que atingir esta possibilidade... você
passa por aqui e pensei em conversarmos... está bom?
CC: Está ótimo.
boogie woogie
no Café Ritz - vozes dos freqüentadores
e dos garçons
DT: Você tem mais alguma coisa para dizer?
CC: O que eu tenho a dizer é... espero que o que
o John O'Brian disse no Prefácio, se torne verdade, ou
seja, que o livro dê ao leitor idéias que valem
a pena, para concordar e discordar.
DT: Obrigada Cecília, Adriane!(5)
1 THOMAZ, D. Artista e pesquisadora. Especialista em História
da Arte do Século XX, Escola de Música e Belas
Artes do Paraná.-EMBAP.
2 PERIN, A. Jornalista. Pós-graduanda
do Curso de Especialização em História
da Arte do Século XX - Escola de Música e Belas
Artes do Paraná - EMBAP.
3 COTRIM, C. Pesquisadora. Professora do Programa
de Pós-Graduação em História Social
da Cultura, PUC/RJ e do Curso de Pós-Graduação
da Escola de Música e Belas Artes do Paraná -
EMBAP.
4.MONDRIAN, Piet (Amersfoort, Utrecht, 1872-1944,
Nova York). Pintor. Motivado pela dinâmica (música
e dança - o boogie woogie) da cidade de Nova York, realizou
trabalhos como Broadway boogie-woogie (1942-43) e Victory boogie
woogie (1943-44), inspiração para este texto.
5 Transcrição parcial da a entrevista
Greenberg no Café Ritz, publicada no jornal Gazeta do
Povo, Curitiba/PR, 09 jul. 2000, Caderno G, p. 4. Disponível
em: <http://www.artewebbrasil.com.br>, a partir de julho
de 2003, faz parte do seu arquivo, atualmente. Observações:
a entrevista ocorreu no Café Ritz, em Curitiba/PR, em
06 abr. 2000.
6 Agradecimentos: à Cecília Cotrim
e Adriane Perin; à Antônia Schwinden, pela revisão.
Greenberg no Café Ritz. Diálogo publicado no jornal
Gazeta do Povo,
Curitiba, 09 jul. 2000. Caderno G, p. 4.
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