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A CASA
Fotografia e diálogo organizado por Didonet
Thomaz 1
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De: Didonet Thomaz. Para: Fórum
das Artes. "... José Bechara Elias Junior:
PROCURA-SE!... Características: chegou atrasado
e saiu antes do fim do período residencial no Faxinal
das Artes; esteve sempre acompanhado da família.
Bonitinho, magro e cabeça raspada, usava uma touca
de bandido, preta; às vezes, um lápis (ou
coisa que o valha) atrás de uma das orelhas (direita,
esquerda?). Atenção: o motivo da busca é
fazer indagações sobre a maravilhosa obra
(a qual eu pedi licença para fotografar - o Bechara
disse que sim, na ocasião. Eu fotografei o chalé-Schwitters,
muitas vezes) que ele deixou no Faxinal...".2 In:
e-mail de 18 jun. 2002, 11h24min.
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De: Didonet Thomaz. Para: José Bechara. "... Gostaria
de explicar o seguinte: 1.Escrevi as Considerações
finais da minha Monografia de Pós-Graduação
(Espólio de Romollo Gomes de Castro Deus, Teatro Monótono,
Pesquisa Comunitária em Arte: 1998-2002) no Faxinal do
Céu. O meu orientador é o antropólogo Prof.
Dr. Etienne Samain, Unicamp (SP). Além dele, este work
in progress passou pela avaliação dos professores
Dr. Camillo Osorio, Dr. Lorenzo Mammì, Dr. Ronaldo Brito,
por exemplo (...) 2.Pesquisei (folha por folha durante seis
horas aproximadas, na Secretaria) todos os Projetos enviados
pelos artistas plásticos com o objetivo de citar alguns,
com rigor, no trabalho que desenvolvi no Faxinal (...) Necessito
da sua palavra para ter a certeza de estar escrevendo uma boa
citação sobre o seu trabalho (...) VI, DE IMEDIATO,
UMA LIGAÇÃO COM KURT-SCHWITTERS, para mim você
reconstruiu o seu chalé e batizei-o como "CHALÉ-SCHWITTERS"
(...) Você é um pintor. O "CHALÉ-SCHWITTERS"
é uma arquitetura-escultura? Diga-me...".3 In: e-mail
de 20 jun. 2002, 17h16min.
De: José Bechara. Para: Didonet Thomaz. "... Em
primeiro lugar obrigado pelo interesse (...) A experiência
de Faxinal acredito poder situar como (...) um projeto que aconteceu
sem nenhum planejamento anterior. Eu não tinha um projeto
para Faxinal. Tenho pensado muito sobre isso movido por um interesse
grande nas possibilidades do trabalho. Tenho a impressão
que se trata fundamentalmente de (...) uma escultura e acredito
poder dar prosseguimento em duas direções, que
não deverão se cruzar: o espaço museológico
e as ruas. Tenho feito alguns desenhos para chegar a objetos
de grande escala e feito anotações sobre materiais.
Pretendo ter um "corpo", o primeiro existindo no ateliê
nos próximos 40/60 dias e ficar lá algum tempo
fazendo novas anotações. Estou bastante excitado
com isso porque o tempo todo fico imaginando paisagens, especulando,
sobre várias possibilidades de "organização".
Gostaria de prosseguir trocando algumas idéias (...)
sou pintor. Me considero um pintor, mas não situo meu
trabalho precisamente como de pintura, embora desconfie que
isso pode não ter lá muita importância.
Bom, o (...) projeto tem um nome, A Casa (...) (A Casa Cospe,
talvez fosse possível pensar assim), tira partido de
uma casa/ chalé real, característica da região;
uma construção de madeira constituída de
sala, cozinha, banheiro e dois quartos que servia, durante o
evento, como habitação e ateliê para o artista
convidado. O (...) projeto consiste no ajuntamento dos móveis
existentes na casa, enfiados pelas janelas e portas externas.
Projetando-se por essas aberturas, comprimidos uns contra os
outros como fardos grandes e pesados, armários, bancos,
mesas, poltronas, colchões, almofadas, modificam o desenho
da casa enquanto "corpo"; isto é, modificam
a forma original do objeto. Talvez possa dizer que do ponto
de vista formal (...) apresente uma vontade (para ser cuidadoso)
escultórica, enformando um objeto emblemático:
a casa, nesse sentido pode-se dizer que, o resultado final converge
para sua reorganização (...) Do ponto de vista
simbólico (...) apresenta uma inversão ou um desvio
na memória do objeto casa, que "vomita" os
objetos e utensílios que lembrem presença humana;
que têm sua escala. Apesar disso, ela se mantém
ela própria, uma casa, efeito que, suponho, cria um certo
grau de tensão. Uma perturbação baseada
na inversão mesma da idéia de abrigo. Ao mesmo
tempo em que desaloja o homem reage a condição
de depósito da memória, garantia da sobrevivência
psicológica (...) deverá prosseguir em duas situações:
ações em prédios existentes nas cidades
e, em outra direção, construção
de corpos que se assemelhem a arquitetura de casas por cujas
aberturas igualmente serão projetados objetos...".In:
e-mail de 20 jun. 2002, 08h29min.
De: Didonet Thomaz. Para: José Bechara. "... Li
atentamente o seu texto. Portanto, volto (...) "A CASA
COSPE". Confesso que tenho sérias objeções
quanto a títulos dessa natureza. Fenomenologicamente
falando, pode-se dizer que "A CASA COSPE" é
um título passível de ser sustentado (...) 1.Sim,
você "(...) não tinha um projeto para Faxinal
(...)". É verdade, não o encontrei quando
fui pesquisar os projetos, na Secretaria. O que eu quero saber
é em que momento, lá no Faxinal, você teve
o insight sobre o trabalho que você tem a impressão
de ser escultórico? O que você estava fazendo no
momento fiat lux? 2.Você ocupou dois chalés - o
n.° 230 e o n.° 231 -, para fazer o seu trabalho escultórico
que foi abordado na direção da rua; o Faxinal
do Céu não é um museu. Para tanto, você
utilizou os móveis de ambos os chalés ou necessitou
de móveis de outros chalés? 3.O que você
entende por "corpo"? "A CASA", assim como
você a deixou no Faxinal, constitui um corpo, ou uma reunião
de corpos?...". In: e-mail de 22 jun. 2002, 11h32min.
De: José Bechara. Para: Didonet Thomaz. "... VOU
TENTAR TE RESPONDER (...) O TÍTULO É A CASA E
NÃO A CASA COSPE QUE CONSIDERO MUITO RESTRITIVO (...)
ESTAVA NO "ATELIE " COM UM GRANDE ROLO DE PAPEL E
UM MONTE DE OIL STICKS MAIS MUITOS VIDROS DE TEREBENTINA. AQUELAS
COISAS " PRA TRABALHO " ALI NA FRENTE PARECIAM INÚTEIS
E MUITO DESESTIMULANTES. ENTÃO ESCREVI... "PREENCHER"
E EM SEGUIDA OLHEI AS JANELAS. OLHEI TAMBÉM AQUELES MÓVEIS
E IMEDIATAMENTE ME LEMBREI DO QUE PODERIA ME INTERESSAR FAZER
NAQUELAS CONDIÇÕES DE TRABALHO. TRABALHAR COM
POUCOS RECURSOS OU COM AQUILO QUE ESTIVESSE A MÃO. ACHO
QUE DE ALGUMAS MANEIRAS O ESTÍMULO E A SEQÜÊNCIA
DE DECISÕES FORAM OS MESMOS DOS QUAIS DEPENDI PRA REALIZAR
OS (...) BIDIMENSIONAIS DOS ÚLTIMOS ANOS EM LONA DE CAMINHÃO,
COURO BOVINO E EDREDONS. ALTERAR O SIGNIFICADO DA COISA/ SUPORTE.
QUER DIZER CONSTRUIR UM TRABALHO A PARTIR DA MUDANÇA
OU IMPEDIMENTO DE USO DESSA COISA, DA COISA QUE TOMAR COMO SUPORTE-UMA
LONA DE CAMINHÃO, POR EXEMPLO, E SEMPRE COM UMA PREOCUPAÇÃO
PLÁSTICA. TEM UM PROBLEMA NISSO TUDO QUE É O DE
UMA SIMPLIFICAÇÃO. POR MAIS QUE FALE SEMPRE ME
PARECERA UMA SIMPLIFICACAO DO TRABALHO E SEUS MOTIVADORES. PORTANTO
FIM. BOM TAMBÉM QUERO TE DIZER QUE COM O PASSAR DOS DIAS
CONSIDERO AQUILO UM TRABALHO ESCULTÓRICO. QUER DIZER
EM BREVE NÃO TEREI MAIS SÓ UMA IMPRESSÃO
(...) EU TINHA O 231, MAS COMO O 230 FICOU VAZIO, RESOLVI OCUPÁ-LO
ATÉ PORQUE TER TODO O CORPO ALTERADO ERA IMPORTANTE PARA
O DESENHO DO TRABALHO. IDÉIA INICIAL ERA UTILIZAR TANTOS
MÓVEIS QUANTO FOSSEM NECESSÁRIOS PARA CAUSAR UM
ENTUPIMENTO NO INTERIOR DA CASA PREENCHENDO TODOS OS VAZIOS
ATÉ O PONTO EM QUE OS MÓVEIS NECESSARIAMENTE FOSSEM
EXPELIDOS. NAO ACHEI QUE PUDESSE CONTINUAR CONTANDO COM ISSO
PORQUE SERIAM NECESSÁRIOS VÁRIOS CAMINHÕES
DAQUELE DISPONIBILIZADO PELA MONITORIA (UNS 15 TALVEZ). MESMO
ASSIM USEI OS MÓVEIS DAS CASAS MAIS ALGUNS "EMPRESTADOS"
POR VIZINHOS COMOVIDOS COM MINHA PENÚRIA (É IMPRESSIONANTE
COMO A GENTE DO INTERIOR É SOLIDÁRIA). ALÉM
DISSO NUM CERTO PONTO, PRA AQUILO QUE TINHA O STATUS DE PROJETO,
A PREOCUPAÇÃO MAIOR ERA COM A VISTA EXTERNA, QUE,
EXCLUSIVAMENTE ESSA, COMPROMETIA O CORPO, O BLOCO DE MATÉRIA
(ISSO TALVEZ RESPONDA SUA PERGUNTA (...). NESSE PONTO A CASA
ME INTERESSAVA MAIS COMO UMA MATÉRIA (BLOCO , CORPO ETC.)
A SER "ENFORMADA". ACHO QUE ALI O MEU INTERESSE ERA
O DE RECOMPOR UMA CERTA PAISAGEM (NADA A VER COM PAISAGEM PROPRIAMENTE
PORQUE SEQUER CONSIDEREI A MINHA CASA/ OBJETO EM RELAÇÃO
AO ENTORNO, AS OUTRAS CASAS, RUA ETC.) PRÓPRIA DO "DESENHO"
DAQUELE OBJETO. OBVIAMENTE TEM MUITO TAMBÉM DE UMA MEMÓRIA
DESSE OBJETO. POSSO AFIRMAR QUE OS ASPECTOS SIMBÓLICOS
PERTENCENTES À CASA SE EQUIVALEM EM INTERESSE AOS FORMAIS
(...) HAVIA UM CORPO QUE FOI REORGANIZADO CONSTITUINDO UM OUTRO
(...) CONSIDERO ISSO UM PROJETO. E REALMENTE O É. AINDA
NÃO É UM TRABALHO. UMA DAS ESTRATÉGIAS
DE DESENVOLVIMENTO DO PROJETO NA DIREÇÃO DE CONSTITUIR
UM TRABALHO É UMA APLICAÇÃO PARA BOLSA
QUE ESTAREI TENTANDO NO PRÓXIMO MÊS. O OBJETIVO
É TENTAR OBTER RECURSOS PARA PRODUZIR AS "ESCULTURAS"...".4
In: e-mail de 23 jun. 2002, 14h20min.
A CASA COSPE CADA VEZ MAIS
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| Figura n.°
1 e n.° 2: A CASA, antes e depois, na Rua Graciliano
Ramos,Vila Residencial de Faxinal do Céu. |
1 Thomaz, Didonet (PR). Artista-residente, Projeto
Faxinal das Artes.
2 Bechara, José (RJ). Artista-residente,
Projeto Faxinal das Artes.
3 SCHWITTERS, Kurt. (Hanôver, 1889-Ambleside,
Inglaterrra, 1948). Pintor e escritor dadá, "...
seu objetivo é a obra de arte total, à qual se
dedica até os anos 20: trata-se de uma escultura-arquitetura
abstrata, em gesso, o Merzbau, que ocupa um quarto de um aposento
de sua casa; uma escultura em cujas cavidades ele esconde objetos
de lembranças dos amigos, a seguir recobertos por outros
objetos, num crescimento orgânico contínuo e ininterrupto,
que o obriga a furar o teto do aposento para prosseguir no andar
de cima, com uma criatividade incessante, livre, extraordinariamente
feliz...". Pesquisa: ARGAN, Giulio Carlo. ARTE MODERNA.
São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
4 Transcrição parcial do diálogo organizado
por esta pesquisadora e publicado no jornal Gazeta do Povo,
Curitiba (PR), 17 nov. 2002. Caderno G, p. 8. Revisão
Antônia Schwinden (PR). Profissional em tecnologia da
informação José Francisco Kuzma (PR).
5 Agradecimentos à Cristiana Tejo (PE),
Gary Walker (RJ) e ao Fórum das Artes; à Dedina
Bernardelli (RJ).
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BOX
O Projeto Faxinal das Artes ocorreu em Faxinal
do Céu, Pinhão, Paraná,
17-31 maio 2002. Pioneiro no Brasil, o Programa
de residência artística &
constituição de acervo de arte
contemporânea, foi realizado pelo Governo
do Estado, sob o secretariado de Monica Rischbieter,
com a curadoria de Agnaldo Farias, Christian
Viveros-Fauné e Fernando Bini; foi
coordenado por Sandra Fogagnoli e equipe,
Cristina Mendes e Jucimara Bacil. Pesquisa:
Secretaria de Estado da Cultura-SEC, Curitiba,
Paraná, 13-14 jun. 2002.
O Fórum das Artes foi fundado por
Cristiana Tejo, em 11 jun. 2002, em conseqüência
do Projeto Faxinal das Artes, com o propósito
de dar continuidade ao diálogo entre
os artistas que participaram da residência
artística.
As obras constituídas durante o Projeto
Faxinal das Artes foram registradas e pertencem
ao Acervo do MAC-Museu de Arte Contemporânea
do Paraná, Curitiba, 2004.
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A Casa. Diálogo publicado no jornal Gazeta do
Povo, Curitiba, 17 de nov. 2002. Caderno G, p. 8.
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