VIOLETA FRANCO, A NATUREZA POR EXPRESSÃO
Fernando Antonio Fontoura Bini
Do vermelho ao verde o amarelo se perde
Quando as araras cantam nas florestas natais
(Guillaume Apollinaire, 1912)
Coincidentemente talvez, por ter em seu nome a referência
a cor e a flor, quando pensamos na artista Violeta Franco
lembramos exatamente de cor e flor; se isto não é
uma verdade para toda a sua obra, ao menos é para parte
dela, englobando a sua produção recente.
Da cor, a cor, das cores.... eis Violeta que
cresce como o sol da época terciária,
lembrando Blaise Cendrars, provavelmente se referindo aos
Delaunays, a pintura se torna esta coisa enorme que
anda/ A roda/ A vida/ A máquina/ A alma humana ...,
assim podemos também descrever a pintura de Violeta.
Ela entra para o mundo das artes plásticas muito cedo,
como por acaso, mas seu período de aprendizado foi
muito intenso e apaixonado, pois só se torna um grande
artista com paixão. Curitiba era uma pacata vila e
os projetos dela iam muito além do que o ambiente provinciano
poderia oferecer. A insatisfação e o conflito
com o tradicional aparecem logo pelas leituras que faz, Franz
Kafka, e fornecem as bases para sua paixão pelo expressionismo
alemão presente desde as primeiras obras.
Foi Guido Viaro quem primeiro lhe orientou na pintura mas,
principalmente, foi o curso de gravura que Poty Lazzarotto
deu em Curitiba quando de seu retorno de Paris, é que
determinaram o caminho que Violeta seguiria. Ambos artistas
são pioneiros da tendência expressionista dominante
na Curitiba dos anos 50, ligados à figuração
subjetiva, centrado no homem, e tratam com violência
formal os fatos do cotidiano. Assim para ela, pintura significa
liberdade e gravura, disciplina; notemos que as deformações
gráficas inspiradas pelas gravuras foram determinantes
para a estética expressionista.
Possivelmente foi através de Poty, por sua vez influenciado
pela obra gráfica de Käthe Kollwitz e pelo cinema
expressionista alemão, é que Violeta desperta
sua paixão expressionista. O expressionismo, como bem
explica Maria José Justino, foi a modernidade no Paraná
e abriu o espaço para a abstração.
Através do curso de Poty ela conhece o grupo dos jovens
artistas paranaenses, alguns deles alunos da recém
criada Escola de Música e Belas Artes do Paraná,
e como ela insatisfeitos com o clima artístico pacato
e conservador; Violeta instala então o seu atelier
na garagem da casa de seus avós, ambiente livre e descontraído,
denominado de a Garaginha, propício para
as discussões artísticas e intelectuais que
questionavam os movimentos artísticos. As informações
vinham através de um freqüentador dos debates,
o industrial Mário Romani era quem trazia da Europa
livros e revistas principalmente as que tratavam da arte moderna
no momento e no local onde ela estava sendo produzida.
Quero destacar aqui a importância da revista Art dAujourdhui
que circulava na Garaginha e foi em Paris, entre os anos de
1949 a 1955, o veículo de defesa da abstração
e a expressão da modernidade; Léon Degand, crítico
belga responsável pela instalação, sendo
também o primeiro diretor, do Museu de Arte Moderna
de São Paulo colaborava com a revista, junto com Michel
Seuphor, e levantavam questões em torno do dilema abstração-figuração.
Aberto o espaço, Violeta deixa o movimento de renovação
nas mãos dos outros companheiros para continuar sua
formação em São Paulo e voltar para Curitiba
em 1970 trazendo então uma obra madura. Lá ela
freqüenta os cursos do Museu de Arte de São Paulo,
faz amizades com artistas e intelectuais paulistas, vê
pinturas, gravuras, esculturas. Pinta retratos mostrando a
sua fascinação pela figura humana, herança
expressionista, tratada com massas de cor e textura, reforçadas
pelo uso da colagem; no Retrato da avó, de 1963, o
material pictórico denso é produzido por recortes
de tecido de vestidos que pertenceram à sua avó.
A liberdade expressiva de Violeta é intuitiva e visceral
e que não teme desrespeitar as normas das misturas
cromáticas. Ela não procura a pureza, ela quer
a expressão e vai em busca do signo como vestígio,
ou como neste retrato, da alegoria, do objeto contaminado
pela realidade que ela pretende representar.
Esta pesquisa de matéria e de cor que sucede é
o resultado do encontro de dados reais, acontecidos, e de
dados formais, uma dialética entre o real e o imaginário
que logo tornam o tema dos quadros mero pretexto para a investigação
pictórica. Por vezes ela retorna à gravura para
controlar a sua vontade caótica; a gravura é
para Violeta o que o cubismo foi para Tarsila, o serviço
militar obrigatório, a chamada à ordem.
Desde 1964 e ainda em São Paulo, começam suas
pesquisas sobre a flora brasileira, a base dela está
na ocupação de seu pai que era geólogo,
naturalista, que enfatizava a necessidade de conhecer o
que é nosso, a nossa paisagem, a nossa cor. Depois
conhecerá Burle Marx. Mas a planta, o retrato ou o
animal são seus pretextos, o que lhe interessa realmente
são os valores plásticos.
O tema do quadro passado para o segundo plano, Violeta vai
em busca das massas coloridas, dos ritmos das cores, ao encontro
da luminosidade. A coerência expressionista se mantém
mas o seu espírito irrequieto leva sua obra a se fundamentar
na mudança, nas mutações, nas metamorfoses.
As texturas densas e as cores soturnas se tornam mais simples,
mais chapadas, mais planas, mais luminosas e, com Delaunay,
ela descobre o papel fundamental da cor na prática
pictural, que guardam do expressionismo a gestualidade: as
vezes são pictogramas circulares ou elípticos
outras vezes formas geometrizadas próximas do graffiti,
pinceladas translúcidas e cromatismo sutil com um intenso
sentimento de natureza, o churigueresco vegetal
de que fala Jorge Henrique Adoun.
O leque temático se abre da flora para a fauna, além
das folhagens aparecem os pássaros, mas podem conter
também figuras humanas, formas sempre resultante de
uma vivência intensa, incluindo seu papel de mulher
e de pessoa humana. Como a pintura sai de dentro, das entranhas,
ela também quer mostrar as entranhas da flora e da
fauna, as formas vegetais e animais são decorticadas,
o que está ali não é o vegetal, a folha,
o caule, é o pistilo, a corola, a polpa, os fragmentos
de plantas e pássaros só aqueles
que podem admitir a luz nas suas entranhas, podem traduzir
o que se encontra no coração (Henry Miller,
Trópico de Câncer).
Delaunay nas suas declarações estéticas
afirma que a luz não é um método, mas
algo que nos vem da nossa sensibilidade e são os nossos
olhos que realizam esta sensibilidade essencial entre a natureza
e nossa alma, a natureza cria a ciência da pintura na
qual a harmonia é o tema. É a ruptura com o
ilusionismo, é a luz mesmo, a luz atmosférica,
que Violeta decompõe segundo seus próprios critérios
e que são mutáveis, coloca em jogo uma espacialidade
na qual a ausência da linha do horizonte, reduz consideravelmente
a profundidade de campo. O tema é todo plástico
na pintura e é ao mesmo tempo a expressão pura
da natureza humana, é abstração no qual
o real ainda está ali, é gravitação,
é imensidão solar como na referência de
Cendrars, é a natureza, a forma das plantas cuja legibilidade
da representação da imagem é assegurada
pelo caráter icônico vestigial (Cottington,
D.) do tema escolhido.
Violeta por vezes mergulha na abstração, não
por muito tempo, pois cada quadro seu é uma abordagem
na qual o quadro mesmo pede a solução. Pintar
é produzir um mundo, não reproduzir uma imagem
do mundo; o processo do quadro depende dele mesmo, vai sendo
criado junto com a construção do mesmo quadro.
É intuitivo, exigiu a gestualidade, o gesto largo,
o gesto que reproduz a memória do mundo vegetal ou
animal. Estas novas figuras se distinguem do figurativo, elas
são figurais como diz Lyotard, reclamam a estrutura
e o contorno que impedem a intrusão do figurativo e
o lugar, o espaço, é conceito luminoso, espaço
não-construído, espaço composto, espaço
que anula espaço, por isso sem horizonte, sem fundo.
É o espaço nômade, o espaço alargado,
produzido pelo olhar nômade que é o olhar de
Violeta, olhar que não se fixa, que não para
na procura sempre de novos mundos, olhar que se desloca e
só tem como possibilidade o movimento.
Reynaldo Bairão, numa crítica de 1971, fala
de matéria estranha e de estranhas
folhagens, sim há o estranho, o estranhamento,
próprio desta visão nômade, na qual a
imagem é energia e não figuração,
é sensorialidade, é o ser selvagem, é
o desvario anacrônico cromático,
segundo o mesmo Bairão; é o mundo tornado mundo
pela cor onde as cores são os raios do mundo
(de Husserl via Merleau-Ponty).
A partir dos anos 90, suas cores ficam mais suaves, mais lúcidas
e transparentes, ela aplica camada sobre camada de tinta até
considerar que conseguiu o valor cromático e a impressão
de espaço correspondente a sua idéia de pintura,
sempre com uma composição dissonante e imprevisível
que, por isso, não a deixa cair na repetição
ou na rotina. Quando a violência ou a agressividade
da cor é muita Violeta a reduz com veladuras claras
que abrem os espaços e deixam o fundo respirar, outras
vezes, quando a suavidade e a transparência são
exageradas ela novamente vela com cores fortes e opacas que
parecem avançar ou recuar, descer ou subir.
Estas veladuras, feitas com rolo e não com o pincel,
tomam conta do espaço todo da tela, incluindo a sua
moldura, mas garantem ainda o ritmo pictórico vital,
o movimento dramático que da aparente geometria procuram
a liberdade da intuição, do dinamismo. Com o
entrecruzamento dos planos cromáticos, dos grafismos
gestuais, das veladuras que velam ou revelam, da ausência
de perspectiva, Violeta inventa uma escritura plástica
que tem seu universo de formas e símbolos encontrados
na cor, no grafismo e na composição.
No Tríptico dedicado a José Martí (poeta
e revolucionário cubano, 1853-1895), de 1995, ela não
procura nenhum efeito realista ou pitoresco apesar dos títulos:
Martí jovem, Martí poeta e Martí revolucionário
ou A morte do Poeta; o tríptico mostra uma outra figuração
cuja composição é marcada pelo uso de
linhas curvas e de formas que estão ali como testemunhas,
não procuram nenhum diálogo, formas estilizadas
e harmoniosas propícias a uma contemplação.
São poéticas, mas não literárias,
e a paz da meditação é interrompida com
a morte do poeta, pela violência cromática das
tonalidades quentes que cortam a harmonia das linhas curvas,
mas sendo tinta e não sangue ela equilibra a composição
do quadro ao mesmo tempo que torna descontínua a seqüência
de formas transparentes e cristalinas.
Assim é a obra de Maria Violeta Franco de Carvalho,
que apesar da consciência que tem dos problemas políticos,
sociais e culturais do Brasil não produz uma obra panfletária,
o discurso da arte contemporânea é sobre si mesmo,
e ela não faz concessões, nem sequer na denominação
das obras, pois o que ela nos apresenta é pintura mesmo,
é a expressão pura da natureza humana, com toda
a sua liberdade e que ela procura dominar com humildade pela
disciplina técnica da gravura, é a eterna luta
entre o Apolíneo e Dionisíaco em busca da beleza
e do prazer, do prazer do olhar, pela atração
que os efeitos luminosos e cromáticos proporcionam
pois a inspiração e a clara visão
pertencem àqueles que descobrem os limites mais belos
e mais fortes da natureza (Delaunay, Réalité,
peinture pure, 1912).