Durante a realização de Faxinal de Artes - que
foi uma experiência de residência de artistas
ocorrida durante quinze dias do mês de maio de 2002
no Sudeste do Estado do Paraná -, enquanto Tânia
Bloomfield (uma das artistas convidadas) distribuía
para os outros artistas árvores do parque e um panfleto
com os dizeres "só é seu aquilo que você
dá", outra artista convidada, Deise Marin, recolhia
moldes dos polegares de todos os participantes de Faxinal.
Como a primeira procurava dividir, ou distribuir (no sentido
de usufruir ou compartilhar) o achado da natureza transformando-o
em identidade, a outra procurava reter as identidades presentes
formando com elas uma tonalidade, um corpo, que representaria,
em certos aspectos, a própria memória de Faxinal.
As duas artistas, que foram fortemente marcadas pela experiência
de Faxinal - tal como os outros que lá estiveram -,
continuaram a experiência vivida no local e transformaram
as alegorias daquela vivência em símbolos que
agora são representas nesta exposição.
Claude Levi-Strauss diz que "é da natureza da
sociedade que ela se exprima simbolicamente nos seus costumes
e nas suas instituições", ao contrário
das condutas individuais que nunca são simbólicas:
mas "elas são os elementos a partir dos quais
um sistema simbólico, que é sempre coletivo,
se constrói"(Antropologia e Sociologia).
Apesar de amigas e de dividirem um ateliê, as duas artistas
não trabalham associadas, mas, lembrando ainda o pensamento
de Levi-Strauss, elas elaboraram individualmente suas pesquisas,
nascidas, amadurecidas e compartilhadas no convívio
com outros artistas e, principalmente, pela integração
com a própria natureza transformando-a em cultura,
como quer a antropologia. Natureza e cultura formam um sistema
de oposição, que encontra na arte uma manifestação
privilegiada, e esta cultura começa com a utilização
da regra e da ordem. Esta é a herança que as
duas trazem de Faxinal. Agora era necessário ordenar
e organizar os objetos e materiais armazenados na memória,
e o resultado é o que teremos o prazer de participar
como observadores.
As experiências iniciais sob os olhares críticos
dos outros artistas estão carregadas da experiência
da alteridade,o eu e o outro,nas suas relações
de identidade e de diferença.A conciência desse
Eu que é um Outro pertence à modernidade e nos
faz entender a alienação e a traição
de si mesmo que a arte contemporânea tenta recuperar."Eu
sou um outro"disse Rimbaud.
As mitologias individuais(termo de Harald Szeemann) parece
que produzem uma volta a si mesmo,mas este voltar sobre si
mesmo foi também um meio de colocar numa posição
de melhor e escutar o mundo depois que desapareceu a fronteira
entre o si e o mundo exterior-são os momentos da esquizofrenia
da arte(não do artista).
No seu livro O ser e o nada.Sartre declara:"tenho necessidade
do outro para aproveitar o máximo as estruturas do
meu ser", e assim poderíamos afirmar também
com Daniel Charles que a alegoria da experiência se
torna signo pelo mistério do outro a partir do seu
uso social.
Tânia Bloomfield, desdobrando suas pesquisas de Faxinal,
guarda alegoricamente suas memórias em gavetas e armários
na qual estão bastante vivos os textos, as palavras
ou fragmentos de enunciados."Só é seu aquilo
que você dá" é um dos versos de uma
canção do grupo Lampirônicos, que, num
jogo de linguagem entre ter e ser, mostra a ambivalência
da vida material e espiritual, a efemeridade da posse dos
bens naturais com relação aos bens matérias
e do conhecimento: o que realmente nos pertencer?
Nessa transformação da matéria em conceito,
do ter em ser, do momento ao infinito, ela se aproxima de
Donal Judd-Judd de memória, para quem a "arte
é algo que se vive" na sua materialidade e que
se impõe na sua especifica presença. Da obra
Sem Titulo, de 1965, um empilhamento de sete elementos semelhantes
a gavetas presos numa parede, a artista preserva as dimensões
exatas da obra original mas anexando nelas puxadores, caixa
de aço presas numa parede, num alinhamento vertical
e com intervalos iguais como objetos que se oferecem a uma
visão total: frontal, superior, inferior, transversal,
lateral, de fora, de dentro etc.
No texto que Judd escreve em 1965, Objetos específicos,
ele diz querer sair da bidimensionalidade do quadro tornando
obsoleto os termos pintura e escultura. nestes objetos em
três dimensões são banidos todo o ilusionismo
espacial e toda a referência antropomórfica,
como também toda a subjetividade - é um paralelepípedo
cheio ou vazio de uma estrutura em metal fabricada industrialmente-a
literalidade do objeto, o objetivismo rigoroso deve fazer
com que a arte "assim coisificada deverá se encontrar
confrontada com a sua própria natureza"(Judd).
Tânia nega essa possibilidade da mesma forma que Van
Gogh negou a impossível objetividade visual do impressionismo.Tudo
para ela esta carregado de significados, de presenças,
de memórias ou de historia, mesmo a fabricação
mecânica da forma neutra de um material o mais anônimo
possível. Assim dispostos, os objetos específicos
de Don Judd lembram gavetas que a artista associa com suas
imagens de infância, brincadeiras na areia, escrever
em versos, esconder pequenos objetos , e que ela guarda em
gavetas, alegorias às "gavetas da memória".Estes
novos objetos agora são cheios e não mais vazios.
São cheios principalmente das recordações
dela, dos seus segredos, que serão compartilhados com
o espectador, que poderá encontrar neles também
suas lembranças, as únicas que ficam, pois o
sistema de propriedade pode ser desfeito de um momento para
o outro.
Retornamos assim ao pensamento da modernidade que entendeu
o homem como senhor da ruína e da guerra, destruindo
para sempre a pretensão de ser animal racional; desde
o cartesianismo, o cogito trouxe a duvida e pôs em crise
o saber cuja solução estaria, no que diz Emmanuel
Levinas, que aquela traição de si mesmo, pela
alienação notada na modernidade, pode ser salva
pela experiência da humildade que se completa na ação
de se colocar no lugar do outro. Esta experiência do
outro é também um leitmotiv da obra da Tânia:do
"o que você vê é o que você
vê"(Stella) minimalista ela insere a necessidade
do outro, de um outro que nos observa; sua obra existe somente
na presença do eu e do outro (lembrando Josefh Beuys).
Sua obra é um comentário sobre a historia da
arte: ela parte dos ready-mades de Duchamp mostrando que nada
é feito ao acaso, faz a crítica do formalismo
minimalista dos anos 60 e chega ao comentário sobre
o eterno e o efêmero a partir dos "acumuladores
de energia" de Beys, pois o artista diz se sentir bastante
ligada a vasta carga simbólica que pesa sobre o homem
contemporâneo.A instalação se completa
com a presença de outros objetos que mostram a transição
entre o puramente visual e o funcional, do vazio de sentido
- mas que ela preencheu com a sua memória - ao objeto
carregado de significados.
Arquivo de aço cheio de terra e areia, escrivaninha,
armários e gaveteiros que não estão ali
por acaso. Há móveis novos e móveis usados
num jogo com a metamorfose dos objetos no qual nada permanece.Os
móveis usados trazem consigo toda a memória
acumulada de uma cultura burocrática ou de um individuo
que a utilizou, o objeto ainda esta ali,mas o homem (ou os
homens) já desapareceu.Dentro das gavetas ou sobre
os móveis há terra, areia e por vezes outros
objetos que não estão ali simplesmente para
completar a composição, eles também trazem
junto a sua história: um tubo de ensaio carrega o anel
que circulou em Faxinal e que leva a inscrição
"só é seu aquilo que você dá",anel
este que está associado a uma árvore que continua
viva em Faxinal do Céu; sobre a escrivaninha de pés
metálicos e gavetas de fórmica (imitando madeira)
lê-se a inscrição "Por que você",
esperando que nossa imaginação a complete,ou
nos acusando com um " até tu , Brutus".
Numa pequena mesa de datilografia as letras GTCA (das seqüências
do DNA) lembram o projeto do Genoma; temos nela a memória
da sua história pessoal da mesma forma que DNA é
a história da totalidade, tanto do indivíduo
como de sua raça. É importante lembrar que DNA
é formado por dois ramos de polaridade inversa, talvez
também numa relação de alteridade e totalidade.
São sempre claros na obra da Tânia os conceitos
de posse e prosperidade analisados como se fossem a versão
contemporânea do tema das Vanitas vanitatum clássico.
Lembram o Manet unica virtus (só a virtude é
durável), e que uma obra nunca é acabada, ela
só se completa com a participação do
outro, e aquilo que entendemos como o todo nunca é
fechado, nunca é acabado.
Da assepsia minimalista chega-se aos ambientes burocráticos
repletos de fantasma, lembranças dos antigos escritórios,
dos lugares profissionais, cheios de coisas desnecessárias
para o mundo moderno, mas que contam com parte da vida humana
daqueles que por ali estiveram,um mobiliário banal
que é obrigatório em toda a administração
tradicional e que carrega consigo sua memória individual,
seja ela boa ou má,e mostram também que seu
tempo passou e que tudo é supérfluo.
Tânia nos conta que as coisas mais simples, os fatos
mais vulgares, os objetos mais banais, tudo sobrecarregado
de memória, de história e de significados, outros
mais complexos, mas tudo é possível de ser interpretado,
desde que o observador se coloque à disposição
para desvendar o mistério de uma obra e participar
do ritual do artista.
Deise Marin chega nesta exposiçãio com uma
história de tratamento de matéria e investigação
sobre o tempo e suas posiibilidades de transfor5mação
da matéria.O seu trabalho de agora continua as investigações
de Faxinal das Artes em maio de 2002 e apropria também
do corpo (que é um assunto quase obsessivo para Tânia
em sua obra) e suas relações de alteridade e
identidade:ela coletou os moldes dos polegares dos participantes
do encontro.A obra final resultou em um conjunto de fotos,instalações
e um vídeo.
Nela há também o jogo de contrastes,entre o
orgânico e o inorgânico,o objeto técnico
e o objeto natural,o oriente e o ocidente,todos em relação
com o corpo e a sua ambivalência de identidade e totalidade.Cadê
dedo moldado é uma identidade,a identidade de um resistente
em Faxinal,mas no seu conjunto todos os dedos se parecem,perdem
sua identidade na sua totalidade,tornam-se anônimos
quando se misturam como massa.
O corpo é o espaço que o homem habita,diz Deise,ele
pode ser o corpo vigiado e punido de Foucault ou o corpo entendido
como corporeidade de Merleu-Ponty:a parte comprovada da exterioridade
ou a parte objetivada de interioridade.O mundo é o
lugar da significação,e a análise do
corpo termina pela palavra,pela linguagem,pela comunicação.Foi
assim o processo de elaboração da artista,que
organizou sua obra como se fosse um parto,ligando-a sua situação
de grávida.
Sua obra,portanto,é resultado de sua vivência
e, da mesma forma que Tânia Bloomfield,ela transforma
sua alegoria em símbolo partindo da experiência
com a natureza que lhe oferece espontaneamente todos os seus
motivos e a sua matéria.A experiência da maternidade
a faz questionar sobre um eu que não é ela,mas
que lhe é semelhante e reforça sua atitude com
relação aos outros,e este outro que já
nasceu agora lhe observa.
Também está presente a transformação
da matéria pelo tempo, só que agora mais próximos
do individuo e da coletividade.Os dedos(os polegares)contêm
as impressões digitais -desde o paleolítico
estas formas datiloscópicas são utilizadas na
representação como identidade -e a transformação
proposta por Deise é a da vivência cultural media
pela espiritual que torna o sujeito um sujectil.Da identidade
do polegar ,do objeto codificado, ela tira o molde, a impressão,
e o que resta é o traço do corpo ausente.São
os traços de um corpo despedaçado e dissimulado,
um corpo em partes,cuja unidade do todo foi quebrada e integrada
numa obra(como já fez Jasper Johns), e que é
também o sentimento de um perigo eminente ou inerente.Este
corpo parcial, alegorizado ,o corpo como fragmento,é
uma alegoria barroca comum às obras pós-minimalistas
nas quais há uma expansão do sensível,do
erotizado,do sensual.A arte é entendida como fluxo
de energia entre o homem e o mundo, das energias naturais
e culturais como queria Beuys ao se situar entre a arte e
a vida.A arte contemporânea abandonou a tela como campo
de batalha e passou a utilizar o corpo como campo desta batalha.
Nas instalações de Deise há também
a afirmação de um niilismo tecnológico
pela hibridação e pelo biomorfismo em oposição
ao design e ao high tech.De um lado temos um conjunto de fios
metálicos, presos no chão e no teto, tensos
pela ação de imãs ou unidos por placas
de prata que espelham o mundo a sua volta.Este conjunto de
materiais que representa a alta tecnologia, o peso, a leveza
e a tensão, objetos de uma poética tecnológica,se
opõe a um outro objeto, agressivo, ligado a um simbolismo
arcaico, que entra em um dialogo pertubador com o anterior:
o conjunto de dedos moldados em silicone lembra uma forma
orgânica, pela humana ou animal,presa num gancho de
carne de açougue, revela a tragicidade de um corpo
fragmentado e interroga sobre os sentimentos ligados à
vida.
Fernando Bini
