FERNANDO VELLOSO E A POÉTICA DA MATÉRIA
Por: Fernando Antonio Fontoura Bini. março/2001
Pintar é tornar sensível uma superfície
que se limitou (F. Velloso, 1963) Desta maneira,
e bem no centro do turbilhão do movimento de renovação
das artes plásticas no Paraná, assim se exprimia
o pintor Fernando Velloso, artista e crítico, homem
de grande sensibilidade e de conhecimentos teóricos
e técnicos, que liderou o início da vanguarda
curitibana, principalmente daquela que vai se interessar pela
problemática da matéria que é a substância
sensível da arte contemporânea. Fernando Velloso
é curitibano de família tradicional da capital
do Estado do Paraná e de quem se esperava fosse um
sucessor do pai político e advogado, mas seus cadernos
de escola, quando ainda criança, não lhe deram
outra opção, a vontade de ser artista estava
nele desde a tenra idade. Ultrapassando uma tendência
inicial expressionista, importante na sua formação
pictórica, pois é ela que corresponde às
suas inquietudes de jovem estudante da Escola de Belas Artes
do Paraná, na cidade de Curitiba, como aluno do italiano
Guido Viaro, a continuidade de sua formação
se dará na Europa, na França precisamente, quando
freqüenta as aulas e as discussões teóricas
em torno da arte contemporânea na Academia de André
Lhote. É o próprio Lhote quem define sua tendência
matérica: mon ami le pâtissier brésilien
(meu amigo confeiteiro brasileiro, isto é,
aquele que faz de tudo com a massa), o artista da Poética
da Matéria, usando um termo de Argan.
Em Paris, após a Segunda Guerra Mundial, vivia-se os
momentos de retomada do Cubismo, Picasso era o líder
da jovem arte européia e o movimento cubista
passava por suas revisões. Sem esquecermos a influência
do existencialismo de Sartre, a decomposição
cubista era mais explosiva que analítica, a realidade
que ela queria mostrar fluía de uma consciência
dilacerada e, em idéia, já era abstrata.
Lhote havia participado da Exposição da Section
dOr em 1912, e estava engajado nas discussões
da especificidade da pintura francesa, essencialista e cartesiana
dentro do conceito de uma volta à ordem,
e estas concepções, aliados à lógica
e ao rigor do fazer artístico, é que determinavam
o método de sua Academia fundada em 1922 e pela qual
passaram vários artistas brasileiros. Do conhecimento
técnico de preparo dos materiais pictóricos
(a cozinha da pintura como Velloso a chama), apreendido
entre os acadêmicos no Paraná, foi reelaborado
nessa reinvenção pós-cubista, ao mesmo
tempo material e formal, da pintura e com um aprofundamento
sobre o metier do pintor. Ser pintor, esta era
a vontade do artista; e ser pintor é saber manusear
com autoridade os materiais pictóricos, dominá-los,
dominar a matéria, dominar o espaço compositivo
do quadro: sensibilizar a superfície escolhida.
Fernando Velloso tem a consciência clara que o espaço
da tela não é um espaço de ilusão,
ele é espaço de inscrição, de
linguagem, de transformação da natureza vivida
e sentida em pintura. Pintura para ele não é
fazer o efêmero, o perecível; pintura deve ter
qualidade e durabilidade e também muito trabalho, para
possibilitar que todas as suas sensações (uma
herança de Cézanne) possam entrar no quadro
em forma de luz, de cor e de espaço e, com inteligência
e sensibilidade, tentar o absoluto: que o quadro seja
bem pintado dirá Lhote nas suas Invariantes
Plásticas. O que lhe interessou de Lhote não
foi o cubificar as aparências, mas a lição
de que o cubismo é espaço, que é espaço
complexo, descontínuo e a materialização
de um espaço novo que foi sentido por Braque e Picasso.
É subversão do sistema perspectivo, mas não
deixando de confirmar que este espaço que o artista
quer planificar é oval, é côncavo, é
barroco. Da herança racional do pós-cubismo
lhe resta a estrutura do quadro, o espaço plano onde
figura e fundo tem uma mesma importância; do trabalho
sobre a matéria é que proporciona esta linguagem
dúctil, plástica, impressionável, suscetível
de todas as transformações e metamorfoses. Na
busca de materiais e texturas, onde o volume é real
e não uma ilusão, resultado da manipulação
das tintas e cores, e que conta também com apropriações
de fragmentos do universo do pintor, estranhos à pintura
mesma.
Diferente do cubismo que se apropriava de porções
de realidade, momentos do cotidiano, e colava no quadro, as
apropriações do Fernando Velloso são
plásticas, são texturas, são massas pictóricas,
que se, por um lado, nos atraem pela sua sensualidade, estão
ali também para exaltar um desenho que descreve analiticamente
objetos, arquiteturas e volumes do quadro. As rendas, escolhidas
criteriosamente, não lembram tempos passados, mas texturas
sentidas, rugosidade que se opõe ao liso, sentidos
no toque dos dedos sobre as diversas superfícies da
própria natureza, uma natureza não somente ótica,
mas também háptica (em Riegl, espaço
dominado pelos corpos, sensível), e que as vezes levam
também ao observador esta vontade de tocar na obra
como se ela fosse a própria natureza. O não
figurativismo de suas colagens não elimina a emotividade
naturalista da forma, da textura e da cor. Não há
perspectiva, pois o quadro é plano, mas há espaço
determinado pela matéria e pela cor. Tempo e espaço
são duas grandes conquistas da arte moderna; o tempo
para o Fernando é estável, duradouro, é
o tempo necessário para se ler o quadro, para atravessá-lo
com o olhar de um lado para o outro, perscrutar todos os detalhes,
nuanças de cores e volumes, mas jamais para tentar
atingir o objeto.
O objeto, se ele existe, está preso, ou mesmo transformado,
no espaço. São suas obsessões formais.
Não há objeto aparente na obra do Velloso; como
nos explica Klee, eles podem ser recordações,
reminiscências, fragmentos da natureza que ficaram guardados
na memória do pintor e que ele retransforma em pintura.
Matéria é memória, escreveu
Henri Bergson. Suas pinturas são abstrações
pois a decepção com o ritual cubista de Lhote,
com o seu dogmatismo pseudo-cientificista, o fez cair na abstração,
mas não numa abstração hermética,
a sua figura nunca está muito longe mas ele
não é figurativo em forma alguma, pode ser figural
conforme a concepção de Lyotard com esforço
podemos ver a natureza do Paraná, as construções
no espaço, os planos que se entrecortam, a cor, o dinamismo
das formas transpassadas pelos elementos geométricos.
À tempos ele mesmo as denominou (por influências
externas) de Florestas petrificadas, Espectros
da Floresta, mas agora, suas composições
se aproximam do que disse Klee, das reminiscências:
Imagens resgatadas no tempo, Enigmas decorrentes,
Formas em relação e confronto, Fragmentos
colhidos no caminho ... <Figura> A sua abstração
possibilita o fazer artesanal, sem a precisão requerida
pelo objeto, ele acentua o prazer do fazer manual como que
negando Duchamp na sua impossibilidade da pintura. Com Fernando
Velloso se afirma de novo que é possível ser
pintor de tela e tinta, de manipulação de materiais
e instrumentos, da exaltação da vontade de pintar.
As sua formas sensíveis, definidas como exercícios
de racionalização na bidimensionalidade da tela,
são barrocas, como é barroco também o
tratamento matérico dessas formas; um atavismo brasileiro
ou o resultado do processamento da forma pela matéria
? Quando Kandinsky, rompendo com a perspectiva renascentista,
ovalisou o espaço de suas pinturas, ele saiu da figuração.
O barroco moderno de Fernando Velloso é definido por
esta espacialidade indefinida que é, ao mesmo tempo,
resultado da ação do artista, da gestualidade
dramática do pintor a caminho da abstração.
Velloso é ainda o grande pintor, e quer ser considerado
como tal, sua obra é densa, pensada, produzida lentamente
com a reflexão do teórico e do crítico
que ele é, nada está ali por puro acaso, tudo
foi analisado e confirma a sua direção, a de
continuar a sua busca da idéia de abstração;
abstração enquanto organização
do espaço, de sensação da dimensão.
O que está em suas telas é a cor e a textura
da nossa matéria, é a cor e a textura de nossa
vegetação, de nossa terra e de nosso céu,
mas antes de mais nada o que está na tela é
matéria pictórica, é a solução
de um problema dado para e pelo pintor, as fantasmagorias
desses seres-naturezas são frutos de nossa imaginação.