| Curador ou pendurador de quadros"?
Depois que, no início do século, Marcel Duchamp
expôs um objeto de uso, um mictório, assinou, e
decretou que era uma obra de arte, provocando uma inversão
completa no mundo da arte; separando o artístico e o
estético, ele não só desestetizou
a obra de arte como também estetizou o nosso
cotidiano e os nossos objetos de uso: o valor de mercado e o
valor estético de um objeto de arte ficaram sujeitos
a que o artista decida que ele é obra de arte e que o
museu o acolha como tal (nominal e institucional).
Se no passado, de posse de critérios estéticos,
os críticos de arte tinham que auxiliar o público
a ler e a entender as obras de arte, o que faremos hoje, numa
época em que o artista faz não importa o
que (Thierry de Duve) ou que todo homem é
um artista (Joseph Beuys)?
Sabemos, por Erwin Panofsky, a respeito das propriedades
sensíveis das obras de arte, que elas possuem uma
camada primária de sentidos a qual podemos
penetrar com base na nossa experiência existencial, mas
ele se refere também a uma segunda camada, pertencente
a região dos significados e somente inteligível
àqueles que possuem os conceitos que ultrapassam as propriedades
sensíveis.
O olho é um produto da história reproduzido
pela educação e, a nossa capacidade de ver está
associada ao nosso saber. Temos necessidade então de
orientação para podermos ver e entender toda a
lógica interna de uma obra e não somente fruirmos
ingenuamente o que supostamente são dados para o deleite
artístico.
Para Anne Cauquelin, a arte moderna, produto da sociedade moderna,
faz parte do regime do consumo: a arte é
interpretada como objeto cultural que requer um consumo cultural
e determina um mercado de arte. Era necessário excitar
o desejo, de provocar, de fabricar a necessidade de possuir
a obra de arte, e a arte moderna produz então a crítica
de arte.
A arte contemporânea está ligada ao regime da comunicação,
a nossa sociedade é a de comunicação, com
as suas redes e as suas infovias: entrar na
rede é ter acesso (é estar conectado)
a todos os pontos dos canais tecnológicos (telefonia,
audiovisual, informática, inteligência artificial,
etc.) que constróem uma realidade em segundo grau, uma
realidade simulada (Paul Virillo, Jean Baudrillard). Esta sociedade
tem necessidade de auxiliares da produção, de
auxiliares dos artistas, pois aos artistas cabe a parte da criação
da obra.
Estes auxiliares são os críticos de arte, os assessores
de imprensa, os agentes culturais, os jornalistas, os experts
e os curadores. Por vezes o conservador ou o diretor de um museu
pode desempenhar o papel de crítico ou de curador; o
crítico pode não só escrever, mas também
divulgar a obra do artista na rede de galerias e de colecionadores,
realizar expertises de obras de arte ou ser curador de exposição.
Se a intenção da arte de hoje é de trabalhar
sobre a linguagem como comunicação, ela ultrapassa
a Duchamp que seguidamente usava o jogo de linguagem articulando
um objeto e seu título (por exemplo no mictório
mencionado no início, ele assinou com o nome de R. Mutt,
e isto foi nos Estados Unidos mute em inglês é
mudo: uma obra muda em significados? o título
The Fountain, A Fonte em português, mas La Fontaine em
francês, sua língua original, pode se referir a
Jean de La Fontaine, o autor das Fábulas). Agora as proposições-títulos
são elas mesmas os objetos tautológicos
para Joseph Kosuth, que está assentado na arte conceptual.
A atividade do curador é complexa e não se restringe
a pendurar os quadros na parede, a decorar
o Salão ou a exposição ou ainda dispor
as esculturas no interior da sala. O Curador deve desempenhar,
pelo menos, duas atividades simultâneas: a de organizar
a exposição e a de fazer a sua crítica
pois se o curador não tem o trabalho de pensar
criticamente a exposição, ele corre o risco de
se ver como um simples pendurador de quadros (Stella
Teixeira de Barros, curadora), a curadoria tem sempre que apresentar
uma leitura crítica, pois uma exposição
jamais escapa de um pensamento teórico que a sustente.
De posse da idéia, o curador deve fazer a escolha do
artista (ou dos artistas) e das obras (os artistas não
sabem necessariamente escolher o melhor trabalho para representá-los),
mas isto é também o papel do crítico. A
preocupação com a montagem da exposição
é que exige um profissional treinado para projetar a
organização e a ocupação do espaço
com as obras escolhidas, sobre a idéia preestabelecida.
Nos aproximados de uma atividade de design da exposição
enquanto atividade projetual de apresentação do
produto. Mas a curadoria é ainda mais complexa, o público
deve ser visto não como consumidor (da arte moderna)
mas como receptor de informação, o curador deve
provocar leituras, das mais fáceis para um publico leigo
até as mais difíceis e deixar claro que esta é
uma formulação possível, mas que existem
outras.
A arte atual utiliza com freqüência a citação,
o simulacro, onde toda a história da arte está
ai refletida, nesta diversidade de linguagens o curador deve
ter a preocupação didática, é frustrante
ir a uma exposição da qual nada se consegue entender,
e não falo somente em relação às
obras expostas.
É ainda importante que o curador se preocupe com o folheto
de apresentação ou o catálogo da exposição,
escolhendo as imagens mais representativas que nele devem constar
e fazendo, ao menos, o texto de apresentação,
onde deverá deixar clara a(s) idéia(s) que nortearam
a exposição.
Muitas vezes a culpa de uma má exposição
não é só do curador, diretores ou responsáveis
por instituições quando o contratam já
tem uma idéia pronta do que querem e dão ao curador
pouca liberdade de agir sobre sua idéia, outras vezes
querem que este se preocupe somente com a escolha das obras
ou com a disposição delas no espaço da
exposição.
Isto se agrava mais entre nós onde não existem
locais para a formação destes profissionais, que
dada a sua complexidade deveriam ser preparados em cursos de
graduação e de pós-graduação
em nossas universidades. O Royal College of Art de Londres possui
um curso de pós-graduação (Visual Arts
Administration) com um programa prático de curadoria
junto com as Galerias de Arte oficiais do Reino Unido. Na França
existe a opção da formação como
Comissário de Exposições desde a graduação,
mas são os estudantes de pós-graduação
que encontram melhores programas de prática de curadoria
junto aos museus de Arte Contemporânea como é o
caso da Galeria Nacional do Jeu de Paume.
Não podemos esquecer que a arte é sempre o espelho
onde o homem pode ler a sua verdadeira face; na arte contemporânea
o que mais interessa é exatamente o que de incerteza,
de estranhamento, ela pode nos oferecer (Agnaldo Farias),
por isso a importância de profissionais competentes e
bem preparados para que esta face estranha e incerta não
seja equivocadamente mostrada.
Fernando A. F. Bini
Professor de Estética e História da Arte - Associação
Paranaense de Artistas Plásticos/agosto de 1999

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