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Curador ou “pendurador de quadros"?
Fernando Bini
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Curador ou “pendurador de quadros"?

Depois que, no início do século, Marcel Duchamp expôs um objeto de uso, um mictório, assinou, e decretou que era uma obra de arte, provocando uma inversão completa no mundo da arte; separando o artístico e o estético, ele não só “desestetizou” a obra de arte como também “estetizou” o nosso cotidiano e os nossos objetos de uso: o valor de mercado e o valor estético de um objeto de arte ficaram sujeitos a que o artista decida que ele é obra de arte e que o museu o acolha como tal (nominal e institucional).
Se no passado, de posse de critérios estéticos, os críticos de arte tinham que auxiliar o público a ler e a entender as obras de arte, o que faremos hoje, numa época em que o artista faz “não importa o que” (Thierry de Duve) ou que “todo homem é um artista” (Joseph Beuys)?

Sabemos, por Erwin Panofsky, a respeito das “propriedades sensíveis” das obras de arte, que elas possuem uma “camada primária de sentidos” a qual podemos penetrar com base na nossa experiência existencial, mas ele se refere também a uma segunda camada, pertencente a região dos significados e somente inteligível àqueles que possuem os conceitos que ultrapassam as propriedades sensíveis.

O “olho” é um produto da história reproduzido pela educação e, a nossa capacidade de ver está associada ao nosso saber. Temos necessidade então de orientação para podermos ver e entender toda a lógica interna de uma obra e não somente fruirmos ingenuamente o que supostamente são dados para o deleite artístico.

Para Anne Cauquelin, a arte moderna, produto da sociedade moderna, faz parte do “regime do consumo”: a arte é interpretada como objeto cultural que requer um consumo cultural e determina um mercado de arte. Era necessário excitar o desejo, de provocar, de fabricar a necessidade de possuir a obra de arte, e a arte moderna produz então a “crítica de arte”.
A arte contemporânea está ligada ao regime da comunicação, a nossa sociedade é a de comunicação, com as suas redes e as suas “infovias”: “entrar na rede” é ter acesso (“é estar conectado”) a todos os pontos dos canais tecnológicos (telefonia, audiovisual, informática, inteligência artificial, etc.) que constróem uma realidade em segundo grau, uma realidade simulada (Paul Virillo, Jean Baudrillard). Esta sociedade tem necessidade de auxiliares da produção, de auxiliares dos artistas, pois aos artistas cabe a parte da criação da obra.

Estes auxiliares são os críticos de arte, os assessores de imprensa, os agentes culturais, os jornalistas, os experts e os curadores. Por vezes o conservador ou o diretor de um museu pode desempenhar o papel de crítico ou de curador; o crítico pode não só escrever, mas também divulgar a obra do artista na rede de galerias e de colecionadores, realizar expertises de obras de arte ou ser curador de exposição.

Se a intenção da arte de hoje é de trabalhar sobre a linguagem como comunicação, ela ultrapassa a Duchamp que seguidamente usava o jogo de linguagem articulando um objeto e seu título (por exemplo no mictório mencionado no início, ele assinou com o nome de R. Mutt, e isto foi nos Estados Unidos – mute em inglês é mudo: uma obra muda em significados? – o título The Fountain, A Fonte em português, mas La Fontaine em francês, sua língua original, pode se referir a Jean de La Fontaine, o autor das Fábulas). Agora as “proposições-títulos” são elas mesmas os objetos – tautológicos para Joseph Kosuth, que está assentado na arte conceptual.

A atividade do curador é complexa e não se restringe a “pendurar os quadros na parede”, a “decorar o Salão ou a exposição” ou ainda dispor as esculturas no interior da sala. O Curador deve desempenhar, pelo menos, duas atividades simultâneas: a de organizar a exposição e a de fazer a sua crítica pois “se o curador não tem o trabalho de pensar criticamente a exposição, ele corre o risco de se ver como um simples “pendurador de quadros” (Stella Teixeira de Barros, curadora), a curadoria tem sempre que apresentar uma leitura crítica, pois uma exposição jamais escapa de um pensamento teórico que a sustente.

De posse da idéia, o curador deve fazer a escolha do artista (ou dos artistas) e das obras (os artistas não sabem necessariamente escolher o melhor trabalho para representá-los), mas isto é também o papel do crítico. A preocupação com a montagem da exposição é que exige um profissional treinado para projetar a organização e a ocupação do espaço com as obras escolhidas, sobre a idéia preestabelecida. Nos aproximados de uma atividade de design da exposição enquanto atividade projetual de apresentação do produto. Mas a curadoria é ainda mais complexa, o público deve ser visto não como consumidor (da arte moderna) mas como receptor de informação, o curador deve provocar leituras, das mais fáceis para um publico leigo até as mais difíceis e deixar claro que esta é uma formulação possível, mas que existem outras.

A arte atual utiliza com freqüência a citação, o simulacro, onde toda a história da arte está ai refletida, nesta diversidade de linguagens o curador deve ter a preocupação didática, é frustrante ir a uma exposição da qual nada se consegue entender, e não falo somente em relação às obras expostas.

É ainda importante que o curador se preocupe com o folheto de apresentação ou o catálogo da exposição, escolhendo as imagens mais representativas que nele devem constar e fazendo, ao menos, o texto de apresentação, onde deverá deixar clara a(s) idéia(s) que nortearam a exposição.

Muitas vezes a culpa de uma má exposição não é só do curador, diretores ou responsáveis por instituições quando o contratam já tem uma idéia pronta do que querem e dão ao curador pouca liberdade de agir sobre sua idéia, outras vezes querem que este se preocupe somente com a escolha das obras ou com a disposição delas no espaço da exposição.
Isto se agrava mais entre nós onde não existem locais para a formação destes profissionais, que dada a sua complexidade deveriam ser preparados em cursos de graduação e de pós-graduação em nossas universidades. O Royal College of Art de Londres possui um curso de pós-graduação (Visual Arts Administration) com um programa prático de curadoria junto com as Galerias de Arte oficiais do Reino Unido. Na França existe a opção da formação como Comissário de Exposições desde a graduação, mas são os estudantes de pós-graduação que encontram melhores programas de prática de curadoria junto aos museus de Arte Contemporânea como é o caso da Galeria Nacional do Jeu de Paume.

Não podemos esquecer que a arte é sempre o espelho onde o homem pode ler a sua verdadeira face; na arte contemporânea o “que mais interessa é exatamente o que de incerteza, de estranhamento, ela pode nos oferecer” (Agnaldo Farias), por isso a importância de profissionais competentes e bem preparados para que esta face estranha e incerta não seja equivocadamente mostrada.

Fernando A. F. Bini
Professor de Estética e História da Arte - Associação Paranaense de Artistas Plásticos/agosto de 1999

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