O
Prazer da cor e da matéria: pinturas recentes de José Demarche
Fernando Bini
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artistas no MUVI
Ninguém passa ileso diante de uma tela de Josué
Demarche.
Suas pinturas são perturbadoras, incomodam, são
reveladoras, nos fazem perder o equilíbrio.
O primeiro pensamento que nos vêm é a exclamação
de Diderot diante de uma tela de Chardin: ... não
é o branco, o vermelho, o preto que você mói
na tua palheta, é a substância mesmo dos objetos,
é o ar e a luz que você prende na ponta do pincel
e gruda na tela.(Salão de 1763)
É o prazer da matéria. Nos quadros de Demarche,
a matéria e a cor se confundem com os verdadeiros temas,
mas o conjunto de figuras espectrais que surgem dessa confluência
nos perseguem; são espectros ou fantasmas, memórias
do esquecido, não uma aparição, mas traços
deixados de algo acontecido, algo figurável porque
se refere ao real, no entanto é quase aquilo que escapa
à figuração, o que temos diante de nós
é a descorporisação do real.
É lamentável que não tenhamos disponível
para estudo, reflexão ou simples deleite do olhar,
obras das mais diversas fases de Demarche, para que possamos
traçar com maior firmeza o seu caminho pictórico.
O artista que elegeu Curitiba para viver e trabalhar, raramente
expõe nesta cidade e nossos museus não possuem
obras suas.
A sua vontade de desenhar começou cedo e, entre 1978
e 1982, freqüentou os atelieres da Casa Alfredo Andersen
onde trabalhou sob orientação de Luís
Carlos Andrade Lima e Alberto Massuda, dois grandes artistas
contemporâneos do Paraná. É possível
que dos ensinamentos de Andrade Lima venha esta sua estruturação
da composição, a valorização que
faz da figura humana e a importância que ele dá
aos planos de fundo do quadro; é provável também
que tenha começado nos cursos de Massuda esta sua paixão
pelos empastamentos, o uso da cor (uma cor que remonta à
Cézanne e Matisse), e o automatismo gestual de origem
surrealista, que ele concluirá com o aprendizado em
Toronto junto a artistas como William Ronald, ligado a uma
tradição que vem desde Borduas, Tom Thomson
a Riopelle e que usam com toda a liberdade a matéria
pictórica.
A importância da obra de Demarche está em que
ele consegue fazer uma síntese do seu percurso artístico,
sem negar seu passado. Se sua obra hoje é importante
no Canadá por fazer parte de um grupo pós-expressionista
abstrato, ela carrega junto um discurso pictórico brasileiro
e paranaense. Suas grandes telas são pintadas com uma
espécie de ingenuidade, que está também
nos personagens, mas que participa da construção
do campo pictural e faz parte das ricas continuidades espaciais
que envolvem todo o quadro. A pintura para ele tem que ser
gestual, material, espontânea, é uma batalha
que termina com a realização do quadro no qual
é a cor espessa que determina a forma.
Por vezes seus retratos mostram rostos alucinados, olhos esbugalhados,
corpos estranhos, espectrais, produzidos por uma escritura
emocional, influência do automatismo que na sua liberdade
fragmenta a imagem, em busca de uma beleza, uma beleza
que vem do abismo, de um mundo vertical que se torna
mundo pela cor, e a cor não está lá para
explicar a imagem, mas ela é uma das entradas para
se conhecer este mundo criado pelo artista.
Ele é barroco quando se serve desses elementos catastróficos
criadores, que decompõem o real através do desnudamento
do humano. A beleza moderna é por vezes ligada ao estranho
e ao horrível, que é à consciência
da temporalidade e da lembrança, ela acentua a qualidade
de estar presente: uma teatralização
da existência.
O ato de pintar para Demarche consiste em colorir e descobrir;
ele trabalha com camadas e quando uma primeira começa
a secar, ela é raspada e uma nova camada é acrescentada,
um palimpsesto, um jogo próximo ao da sombra e luz,
onde as últimas camadas entram para aliviar a tensão
e produzir o equilíbrio. A exploração
da tinta a óleo é como a exploração
de uma terra incógnita sob um sol ardente,
é um combate consigo mesmo, contra ou a favor de si
mesmo; é uma luta com aquilo que pode oferecer uma
maior resistência ele é um inventor, um
descobridor, após descobrir uma técnica, uma
forma, quando tem o domínio sobre ela, ele a abandona
em busca de uma outra.
As paisagens lembram Soutine, pintadas com uma massa espessa,
incandescente onde casas e árvores se entrechocam num
espaço saturado, os empastamentos destacam a presença
dos vermelhos, dos amarelos, das terras, com toques de branco
(como em Bacon). Há fogo, há terra, é
telúrico; das árvores numa paisagem restam os
troncos e galhos queimados mantendo ainda os restos das brasas.
A violência da cor, a exuberância inesgotável
das formas, proclamam no seu trabalho a abundância e
a embriaguez das energias criativas. Tudo é resultado
de investigação, de trabalho, de prazer.
Como Picasso tem paixão pelas touradas, sua paixão
são os galos de briga, nestas o importante é
o movimento e não os empastamentos, tem menos matéria
pictórica, são mais narrativas, são simbólicas;
representam sua luta diante da tela animais fantásticos
em combates fabulosos.
Suas naturezas-mortas são estruturadas, construídas,
estabilizadas, é o momento de pausa do combate entre
matéria e cor para empreender outro combate, não
menos sensível que o primeiro, pois este é sensual.
Nem seus nus espectrais são tão sensuais como
as melancias de seus quadros, elas têm também
um famoso precedente na história da arte, uma melancia
faz parte do conjunto de frutas sobre a mesa na tela que inaugurou
o cubismo: Les demoiselles dAvignon de Picasso. A melancia,
em razão da quantidade de sementes que contém,
é tida como símbolo da fecundidade, além
de sensual pela sua tonalidade encarnada, brilhante e selvagem,
evidentemente feminina.
Algumas vezes há uma única melancia sobre um
plano, talvez uma mesa que estabiliza a composição
e faz lembrar a forma de um retrato, a meia lua da melancia
se destaca do fundo e organiza uma nova forma contrastando
figura com a cor mais sombria da parte inferior, tudo é
fragmento de uma insólita liberdade no uso da forma
e da cor através dos empastamentos, das espatuladas
e das raspagens feitas com um instrumento inóspito
como uma faca de cozinha, mas que é suficiente para
transpor em pura energia os seus dados emocionais. É
importante destacar a preocupação que o artista
tem com os fundos do quadro que, além de valorizarem
o primeiro plano, se destacam quase como obras autônomas
(é possível que seja também uma herança
de Andrade Lima).
A imagem aparece no final do processo pictural e esta imagem
nada tem a ver com a imagem copiada, com o retrato da realidade;
ele joga com a analogia, possivelmente premeditada, mas que
deve mais aos meios picturais do que ao modelo no qual se
inspira, elas brotam do interior do artista como uma linguagem
fluente, ardente, uma linguagem do desejo, traduzida em intensidade
pictórica e cromática, cuja fonte desta escritura
rápida, livre, espontânea e automática
se encontra no expressionismo abstrato dos artistas
canadenses ou ainda na pintura de Karel Appel, de Asger Jorn,
de Jean Fautrier, mas também de Matisse e Picasso.
A obra de Josué Demarche é uma exaltação
do savoir-faire do pintor, é o prazer da criação,
a alegria que o artista encontra na prática pictural
como gesto, o por a mão na massa a partir
da pesquisa da matéria e da imaginação.
A arte internacional nos anos 80, mais precisamente pela ação
do movimento italiano da Transvanguarda italiana, retorna
enfim aos seus motivos internos, às razões constitutivas
de seu próprio trabalho, do seu lugar por excelência,
o labirinto próprio da pintura, na concepção
de trabalho interior, de escavação contínua
dentro da substância mesmo da pintura.
Depois dos anos 70 quando os artistas trabalharam em meio
a crise da arte, a morte da arte e
a crise da evolução da arte, fenômenos
que anunciavam a impotência da arte diante do mundo
contemporâneo, a Transvanguarda pressupõe novamente
uma maniabilidade experimental, a surpresa do artista diante
da obra que se forma ante seus olhos sob a interferência
da mão ativa metida na matéria da arte, a nova
magia, produto de um imaginário que se reencontra com
a idéia e a sensibilidade.
Demarche trabalha com massa espessa na exploração
dos seus temas que surgem progressivamente pela aplicação
da matéria, seu trabalho muito pouco teria a ver com
os artistas da transvanguarda, a não ser na sua alegria
de pintar, no prazer de ver a forma surgir pelos empastamentos
e raspagens: pela busca da instantâneidade da obra.
A obra de arte feita segundo as regras da arte e onde ela
tem a função do doma-olhar (dompte-regard)
lacaniano.
A arte é uma atividade manual, um gracioso trabalho...
em torno do fantasma da imagem (Bonito-Oliva), onde
a mão inclui a memória cultural, a inteligência
do gesto e o sentido global do conhecimento e do domínio
do métier artístico.
É a reconquista do próprio território
da arte.
Demarche é um pintor que não tem medo da pintura,
adora manipular os poderes reconhecidos da matéria
pondo em relevo os fantasmas, ou as fantasmagorias, da sua
imaginação, quadros violentos pictórica
e expressivamente, espelhos ardentes do sublime
como denominou Gary M. Dault, mas que são produzidos
envoltos pela paz da natureza e do canto dos pássaros
nos arredores de Curitiba.
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da página: Fábio Channe
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