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BREVIÁRIO DA VIOLÊNCIA - A poética de José
Bechara
De um modo ou de outro o percurso poético
de José Bechara sempre incluiu, ainda que obliquamente,
a violência. Em sentido amplo, capaz de encampar desde
o desencadeamento de uma energia como essa que encontramos nessa
exposição, com móveis domésticos
atirados pelo espaço expositivo, quanto o movimento discreto,
o entrechoque surdo que acontece nas dimensões mais sutis
da matéria. Esses vieses sutis da violência transpareceram
desde o começo, com o artista optando por uma linguagem
que embora abstrata, sublinhava o material, quase sempre lonas
usadas de caminhão, lonas bem gastas, que já vão
longe em sua vida útil.
O comércio das lonas entre artista
e caminhoneiro acontece com elas lonas estendidas no chão
e o artista avaliando as marcas deixadas pelos elementos e pelas
ações exercidas ao longo da árdua rotina
do material. Ele analisa as perfurações, arranhaduras,
escoriações, o desgaste de um material impiedosamente
exposto ao sol, vento e chuva, que se contrai no frio, dilatando-se
no calor; que trabalha atravessado por cordas que lhe comprime
de fora para dentro, lacerando-o até o ponto de rasgá-lo,
feixes de força obrigando-o a se moldar ao corpo dos
volumes compactos e regulares que embalam as mercadorias transportadas.
Volumes que forçam a lona de todos os lados, quando das
freadas, acelerações, subidas, descidas e curvas,
oscilando para lá e para cá, fazendo-a casca elástica
e resistente, como uma placenta que, ao final de cada viagem,
será esvaziada e mais uma vez preenchida.
Encerrada essa etapa, o passo seguinte
consiste em levar as lonas para dentro do espaço de trabalho.
Com suas raízes fincadas na história da arte e
freqüentemente identificadas com espaços semelhantes
a câmaras íntimas e resguardadas, o termo ateliê
resulta inadequado para designar um espaço que às
vezes, em razão de obras de grandes proporções,
pode assumir dimensões industriais, além de ser
mais compatível para suportar o impacto de uma química
relativamente insalubre: a precipitação controlada
de um processo de oxidação que o artista executa
sobre ela. Seu método de trabalho compreende arranjar
camadas de diferentes espessuras de palha de aço carbono,
dessas empregadas domesticamente na areação de
panelas ou na raspagem da cera de assoalhos de madeira, sobre
recortes quadrangulares de lona. Posteriormente, sem tinta nem
pincel, o artista passa a molhar as camadas apressando a oxidação
que em função do calor e umidade do ambiente ocorreria
de qualquer maneira. A violência do composto água/ar
é tão grande que praticamente pode-se assistir
ao seu progressivo ataque à palha de aço, macerando-a,
dissolvendo-a, transformando-a, por sua vez, uma agente abrasiva
cujo efeito terminará por ferir a lona sobre a qual foi
colocada. O emaranhado capilar de ferro irá se metamorfoseando
em blocos pétreos marrom-escuros, fibrosos e quebradiços;
irá ainda se desfazer em pó, em mancha, em nódoa
que destruirá irreversivelmente a tessitura da lona,
ao menos em seus extratos superficiais. À memória
que a lona carregava de sua serventia protetora agora se soma
a memória do material pulverizado, que um dia jazia abrigado
abaixo, dentro do chão.
Mas o método pictórico
de José Bechara não se esgota aí. Ao alargar
o raio de controle sobre o processo, ele fixa, antes de proceder
à oxidação, longas tiras de fita adesiva
pela superfície da lona, criando faixas de espessura
variável, paralelas ou ortogonais entre si, que demarcam
planos distintos da tela. Trata-se de uma geometria feita a
partir de gestos metódicos, medidas exatas, ritmo compassado,
nada semelhante à naturalidade do processo de oxidação.
Retirando as faixas após a finalização
da "queima", que o artista pode querer mais intensa
nesse ou naquele plano, nessa ou naquela faixa, as telas, combinadas
em dípticos e trípticos, apresentam zonas - planos
e faixas - nitidamente distintas, que contrastam com os despojos
do processo físico-químico. Alguns deles são
carregados de uma tonalidade de marrom muito vivo, como zona
ou feixe energético plenamente ativo.
A pintura, fala-nos o artista, ao contrário
dos que acreditam em refúgios, não se dá
sobre um campo branco e imaculado como o tecido próprio
para a prática da pintura, encontrável nas casas
comerciais de produtos artísticos. Se a pintura é
o resultado de uma ação sobre uma superfície,
então a lona dos caminhoneiros também o é.
Mas ainda, segundo Bechara, a pintura acontece na superfície
das coisas, nos rostos, nas pedras, nos edifícios, no
céu, no detalhe entrevisto na fruta antes dela ser mordida
como também depois dela ser mordida; na pele dos animais,
como do gado que cresce solto no campo, às voltas com
os bichos e com as cercas que lhes criam cicatrizes, até
chegar a hora de rumar para o matadouro e serem abatidos com
um estampido preciso e seco desferido na parte posterior da
cabeça.
Foi isso o que nos indicou a sala do
artista na 25ª Bienal de São Paulo, ocorrida em
2002, quando, a meu convite, integrou a representação
brasileira, e cuja parede de fundo era recoberta por uma grande
pintura cinza, a rigor um políptico retangular formado
por 20 telas cinzas. Recobertas com manchas escuras, que de
longe pareciam matéria protuberante, vistas de perto
as telas revelavam peles cruas de boi, pelos raspados, com as
marcas indeléveis de sua existência: cicatrizes
produzidas por bernes, arames farpados, ferros em brasa, além
de sacos escrotais enrugados e pensos; o casulo/fonte de vida
do animal agora ressequido e inutilizado. Pintura ou o que?
É possível então
reconhecer uma homologia entre essa crueldade incompassiva e
a passividade bucólica dos agradáveis chalés
de madeira da vila de Faxinal das Artes, assentamento serrano
aqui do interior do Paraná, palco de um programa de residência
que, em maio de 2002, propiciou a convivência, durante
quinze dias, de cem artistas de todo o País. Quinze dias
passados em meio aos chalés de madeira multicoloridos,
encarapitados em filas regulares ao longo de um suave declive.
Jardim botânico ao lado, lagos, muito verde, frio, comida
boa e muito apetite. Um cenário talvez demasiado calmo,
inquietantemente tranqüilo para alguém, como José
Bechara que, não bastasse sua natureza algo energética,
sua extração ultra-urbana, vinha da ansiedade
provocada pela necessidade de preparar sua sala da Bienal. Pois
foi ali, como nos conta uma seqüência fotográfica
feita in loco, aqui apresentada junto com a instalação
composta por peças do mobiliário doméstico
submetida a uma espécie de explosão e que aqui
atravessa duas salas expositivas, que o artista apareceu com
essa idéia de que até mesmo aquele pouco que temos
para a nossa tranqüilidade, o lar, a concha, o reduto seguro,
mesmo isso, é um corpo que sofre espasmos, acometido
por pulsões perturbadoras, cuja extensão dos efeitos
não conseguimos aferir ao certo.
Agnaldo Farias, curador.
Professor doutor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo-FAU,
Universidade de São Paulo-USP.
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LAGARTA,
2005 (detalhe).
Acumulação de mobiliário. Dimensões
variáveis.
Obra José Bechara
Fotografia Didonet Thomaz |
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