| DIÁLOGOS
Os artistas da argila são pessoas muito cuidadosas, e
também muito calorosas. Trabalham o barro sovado e macio
que, já no ponto, se habilita a receber todas as formas,
mas uma impera. É aquela que o sonhador do fogo a ele,
desde sempre, designou.
Isto só pode ser assim; pois, ao moldar, e ao querer eternizar
estas formas recém acabadas, temperando-as na brava doçura
do fogo que arde, o artista/artesão do barro, brinca seriamente
com o que de mais verdadeiro há no homem: sua vontade de
poder. Poder transfigurar, poder transmutar.
Pensamentos assim, e outros ainda costumam acontecer quando se
entra num atelier de cerâmica. Foi assim que um dia conheci
Valdir Francisco e pelo menos uma parte do seu trabalho. À
medida que o tempo passava mais e mais figuras femininas tornavam-se
vivas, quer sejam para falar, quer sejam para calar. Suspeito
que algumas delas cantavam.
Acredito que elas falam quando prontas, e calam, por se saberem
inacabadas. Qual o artista/demiurgo teria o poder de dissolver
o arquétipo feminino numa forma das formas? A lição
do velho Platão ainda é boa conselheira.
Maria Josefina Polli Kawamura
Docente de Filosofia
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