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Detalhes do invisível
Habitar uma grande cidade é estar imerso num universo
de linhas, cores, massas, volumes e texturas, constituintes do
emaranhado de edifícios, casas, ruas, postes, praças
e tantos outros equipamentos urbanos. Permeando nossos itinerários,
esses elementos se colocam em nosso campo visual, sem muitas vezes
nos darmos conta deles. No cotidiano de trajetos apressados, percorremos
as imagens que nos cercam numa atitude cega e negligente daquele
que olha sem ver.
De repente, um dia, despertamos. E nesse despertar subitamente
enxergamos um detalhe em sua singularidade. Valdir Francisco enxergou
a chaminé de uma velha casa, construída entre os
anos 30 e 50 do século XX em Curitiba, e junto a ela um
arabesco, linhas sinuosas de ferro, sem outra função
a não ser embelezar e introduzir uma marca de individualidade.
Seu olhar, antigo caçador de lambrequins, mobiliários
e casas de bichos-da-seda, orientou-se para a captação
do disperso.
Descobriu então que havia na cidade muitas casas como aquela,
marcadas por adereços que se colocavam também em
suas cumeeiras e frontões. Perdidos no tempo e invisíveis,
leves na forma e pesados na matéria, esperaram muitos anos
pelo artista e por suas indagações. De onde vieram?
Quem os produziu? O que significavam para os moradores que os
instituíram?
A falta de respostas não fez mais que aumentar o seu interesse,
motivando um processo de documentação fotográfica
que deu subsídios para o desenvolvimento de uma série
de gravuras em relevo. A simetria é a base da organização
espacial de desenhos delicados, formados a partir da retirada
da matéria/matriz, e contrapostos a planos cromáticos
impressos, camadas grossas de tintas sobrepostas, nem sempre de
cobertura perfeita, que lembram as múltiplas demãos
de pintura de uma parede antiga. A luz escapa pelas frestas, às
vezes tênue e discreta, às vezes ofuscante.
Esse registro dos detalhes do invisível transmutado em
obra inverte a ordem hierárquica existente na arquitetura,
transformando o adorno em essência e nos fazendo refletir
sobre esses limites: O que é adorno? O que é essência?
Dulce Osinski
Curitiba, abril de 2006.
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