| Pausa
Escrever sobre trabalhos de alguém a quem se estima e
de quem se conhece o processo de criação é
certamente um prazer. Muito embora essa proximidade possa ser
vista como um risco, acredito que tenha os seus méritos,
ao se reconhecer a essencial proximidade, a dependência,
do texto crítico à criação do artista,
como bem observa Jacques Leenhardt ao dizer que, em sua relação
com a obra:
"O crítico a reformula, por sua vez, numa linguagem
em que se investe toda a parcialidade de seu olhar e é
ficando mais perto de sua paixão que ele consegue ser o
mais universal, pois essa paixão subjetiva tem o mesmo
fundamento que a do artista e, potencialmente, do público."
Assim, sabendo da inexistência de uma descrição
absoluta ou objetiva, lanço-me por meio da imaginação
no fundamento desse universo pessoal de possibilidades significantes.
Acompanharei estas "gravuras" com um pouco de texto,
possível de ser lido com ou sem atenção,
porquanto seja não mais que, em sua dependência,
uma espécie de reflexão, de imagens e de idéias
que me foram sugeridas pela relação que tive com
o processo de criação e com as obras de Renato Torres.
Sempre pensei na arte como o resultado de um processo sincero,
servindo às necessidades profundas de quem a produz. A
obra como continuum se constrói pela incorporação
de essências e reflexões de um autoconhecimento.
Como para Oiticica, que vejo dentre as influências de Renato:
"Para o artista o "fazer-se", o profundo fazer-se
que ultrapassa as condições do faciendi material,
é que constitui a sua condição criativa."
É assim que percebo Renato em sua condição
criativa: trabalhando com coisas que o tocam verdadeiramente e
envolvendo-se em profundidade com os desafios da forma e o tempo
matéria, num querer sempre ir além.
A criação da forma exige um tempo para amadurecer,
tempo este que nem sempre concorda com o tempo físico da
matéria, insere um tempo e um espaço próprios
para a experimentação, onde a matéria se
entrega ou resiste aos gestos, onde a docilidade da imaginação
faz o corpo fazer, onde o fazer imagina no corpo uma forma que
pede uma pausa para ser vista.
Por trás daquilo que é visível, há
no processo um invisível embate entre o gesto e a matéria,
que não se entrega facilmente à organicidade intentada
pela liberdade da mão. A matéria não é
dócil, é necessário conhecê-la e imprimir-lhe
o desejo de torná-la um fragmento do pensamento que se
interliga à natureza. O gesto que se grava em uma forma
espiralada recorrente, ora na superfície opaca do papel
ora na transparência flutuante do tecido, diz do corpo e
reflete as relações desse corpo com o mundo e suas
nuances e sutilezas. Uma relação de admiração
pelas paisagens das pequenas sementes e pelos detalhes sutis das
grandes montanhas, que constata que as questões da natureza
e do lugar do homem dentro dela, passam a ser importantes o bastante
para ocuparem o centro de seu escopo de criação
artística.
Instaura-se assim uma nova paisagem, experimentando mais uma vez
a necessidade de encontro com a espacialidade e a ruptura de limites,
de uma totalidade aberta. Os suportes convencionais e não
convencionais de impressão, o papel e o voil, expandem-se
em consonância com o espaço externo. No espaço
bidimensional conjeturam-se possibilidades de sobreposições
da matriz módulo que recorta o tempo do gesto. Na superfície
tridimensional as imagens flutuam na materialidade vaporosa. Dessas
impressões resultam espaços por vezes densos e outras
vezes leves, pausados, mas em ambos encontram-se camadas sobrepostas
da forma que se transforma e produz um jogo de transparências,
texturas e minúcias cromáticas que potencializam
o espaço e pedem que o olho e o corpo vagueiem, aproximando-se
e distanciando-se, buscado preencher os espaços possíveis
para, por fim, incluir a experiência em si.
Conforme Valéry: "Toda obra é obra de muitas
outras coisas além do autor."
Em síntese:
Da fusão híbrida entre o desejo, o gesto, a matéria,
a forma, a natureza, resulta o processo de contínuo labor
e descobertas numa intensa e profunda relação criador-criatura,
onde a obra se faz pausa dum infindo fluxo de vir-a-ser.
Andrea Cristina Lisboa de Miranda
outubro de 2004
(Doutoranda em História, UPT - Portugal
Mestre em Artes Visuais - História, Teoria e Crítica
da Arte, UFRGS)
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