Renato Torres
Pausa

Exposição Individual, Museu de Arte de Joinville - Barracão Antártica, Joinville/SC.
25 de janeiro a 27 de fevereiro de 2005

Pausa

Escrever sobre trabalhos de alguém a quem se estima e de quem se conhece o processo de criação é certamente um prazer. Muito embora essa proximidade possa ser vista como um risco, acredito que tenha os seus méritos, ao se reconhecer a essencial proximidade, a dependência, do texto crítico à criação do artista, como bem observa Jacques Leenhardt ao dizer que, em sua relação com a obra:
"O crítico a reformula, por sua vez, numa linguagem em que se investe toda a parcialidade de seu olhar e é ficando mais perto de sua paixão que ele consegue ser o mais universal, pois essa paixão subjetiva tem o mesmo fundamento que a do artista e, potencialmente, do público."

Assim, sabendo da inexistência de uma descrição absoluta ou objetiva, lanço-me por meio da imaginação no fundamento desse universo pessoal de possibilidades significantes. Acompanharei estas "gravuras" com um pouco de texto, possível de ser lido com ou sem atenção, porquanto seja não mais que, em sua dependência, uma espécie de reflexão, de imagens e de idéias que me foram sugeridas pela relação que tive com o processo de criação e com as obras de Renato Torres.

Sempre pensei na arte como o resultado de um processo sincero, servindo às necessidades profundas de quem a produz. A obra como continuum se constrói pela incorporação de essências e reflexões de um autoconhecimento. Como para Oiticica, que vejo dentre as influências de Renato: "Para o artista o "fazer-se", o profundo fazer-se que ultrapassa as condições do faciendi material, é que constitui a sua condição criativa."

É assim que percebo Renato em sua condição criativa: trabalhando com coisas que o tocam verdadeiramente e envolvendo-se em profundidade com os desafios da forma e o tempo matéria, num querer sempre ir além.
A criação da forma exige um tempo para amadurecer, tempo este que nem sempre concorda com o tempo físico da matéria, insere um tempo e um espaço próprios para a experimentação, onde a matéria se entrega ou resiste aos gestos, onde a docilidade da imaginação faz o corpo fazer, onde o fazer imagina no corpo uma forma que pede uma pausa para ser vista.

Por trás daquilo que é visível, há no processo um invisível embate entre o gesto e a matéria, que não se entrega facilmente à organicidade intentada pela liberdade da mão. A matéria não é dócil, é necessário conhecê-la e imprimir-lhe o desejo de torná-la um fragmento do pensamento que se interliga à natureza. O gesto que se grava em uma forma espiralada recorrente, ora na superfície opaca do papel ora na transparência flutuante do tecido, diz do corpo e reflete as relações desse corpo com o mundo e suas nuances e sutilezas. Uma relação de admiração pelas paisagens das pequenas sementes e pelos detalhes sutis das grandes montanhas, que constata que as questões da natureza e do lugar do homem dentro dela, passam a ser importantes o bastante para ocuparem o centro de seu escopo de criação artística.

Instaura-se assim uma nova paisagem, experimentando mais uma vez a necessidade de encontro com a espacialidade e a ruptura de limites, de uma totalidade aberta. Os suportes convencionais e não convencionais de impressão, o papel e o voil, expandem-se em consonância com o espaço externo. No espaço bidimensional conjeturam-se possibilidades de sobreposições da matriz módulo que recorta o tempo do gesto. Na superfície tridimensional as imagens flutuam na materialidade vaporosa. Dessas impressões resultam espaços por vezes densos e outras vezes leves, pausados, mas em ambos encontram-se camadas sobrepostas da forma que se transforma e produz um jogo de transparências, texturas e minúcias cromáticas que potencializam o espaço e pedem que o olho e o corpo vagueiem, aproximando-se e distanciando-se, buscado preencher os espaços possíveis para, por fim, incluir a experiência em si.
Conforme Valéry: "Toda obra é obra de muitas outras coisas além do autor."

Em síntese:
Da fusão híbrida entre o desejo, o gesto, a matéria, a forma, a natureza, resulta o processo de contínuo labor e descobertas numa intensa e profunda relação criador-criatura, onde a obra se faz pausa dum infindo fluxo de vir-a-ser.

Andrea Cristina Lisboa de Miranda
outubro de 2004
(Doutoranda em História, UPT - Portugal
Mestre em Artes Visuais - História, Teoria e Crítica da Arte, UFRGS)

 

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