| Clarices
As gravuras de Maikel da Maia apontam para a
imagem feminina. São todas mulheres "Clarices"
identificadas entre formas, vestes, estruturas, alguns acessórios
femininos e indicações de uma fragmentação
de corpos em partes ou em reconfigurações. Uma imagem
é rebatida, repartida e refletida sobre a outra e a outra,
sua imagem e semelhança. Várias mulheres se sobrepõem.
Todas parecem ocupar o centro de si mesmas, porém dividindo
e multiplicando uma existência simultânea/paralela.
Podem se encontrar nuas, seminuas, despidas ou descarnadas, para
que sejam revestidas então das memórias de outros
e de outras.
A linha gravada em água-forte e impressa
no papel, segue como um fluido entre camadas que posteriormente
serão sobrepostas, dissecando de um corpo feminino o osso,
a carcaça. Ao contornar a figura na fronteira da forma,
revela o branco da folha em relevo. O vermelho invade ou constrói
planos, desenrolando significados seguramente femininos. Pode
ser a violência de fora delimitando espaços ou o
corpo se esvaindo por dentro.
Quem são estas clarices? Elas habitam
seus corpos, seus fragmentos, seus trapos, seus lugares no mundo?
A gravação da matriz com suas marcas
e seu posterior desdobramento na imagem impressa e reimpressa,
é característica do aspecto reprodutivo tão
comum a gravura quanto à mulher.
José Roberto da Silva
Julho / 2005
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