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Sonhos
de Jéssica
A mulher é o corpo.
Seu corpo, particular.Singular.
Satisfação, imagem.Padrões serão belos
todos os corpos?
A mulher é seu corpo.
..."já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não
das menos dolorosa, é ter visto bo-cas se abrirem para
dizer ou talvez balbuciar, e simplesmente não conseguirem.
Então eu quereria ás vezes dizer o que elas não
puderam falar".Clarice Lispector
A serie de gravuras Sonhos de Jéssica surge desse olhar,
primeiro para a mulher e seus desdobramentos enquanto corpo, na
sociedade e íntimos.Do observar o que esta próximo
a mim, minha família composta de quatro mulheres (mães)
e eu.De ouvir e ver nas entrelinhas, no silêncio como é
crescer menina, tornar-se mulher e então mãe.
Descobrir pequenos segredos da vida e se dispor a contar.
Essa foi à intenção.Ainda que o resultado
me incomode, pois tudo foi filtrado por um olhar masculino e quase
biográfico.Resolvi registrar a gestação de
Jéssica.As eta-pas da gestação de minha irmã.
A gestação que também ocorre comigo e com
toda nossa família, seu marido e sua outra filha.Como nos
relacionamos com o fato, parti-cipando ou assistindo.A representação
gravada (imagem) não lembra ou faz refe-rência a
minha irmã, mas a mulher simples nua e singular.
"Toda mulher, ao saber
que está grávida, leva a mão à garganta:
ela sabe que dará a luz a um ser...".Clarice Lispector
A maneira encontrada para registrar esse estado feminino foi por
meio da gravura em metal.
A imagem gravada em água-forte, a placa
no tamanho de 1m por 70 cm é inteiramente desenhada, seu
corpo sangra pelas extremidades.
Esboços foram feitos na procura de objetos significativos
que se relacionam com o fato para serem depois de gravados no
seu ventre: grampo de roupa, casinha com arvores e nuvens, família,
flores, batedeira, útero, feto, etc...Gravados em ponta
seca, o ferro ferido levantando rebarbas.Um ferimento no corpo,
uma só impressão é feita, lixado e gravado
outro motivo.Assim como os estados da gravidez e a própria
gravidez são únicos às mulheres, as gravuras
são cópias únicas.
O ventre como referencial.
Tudo ocorre no ventre, histórias, analogias.Ficam imagens
cicatrizes que teimam em aparecer, lembranças vivas, cicatrizes
novas, lembranças vivas.
Não sou de mim mesma.
O parto, nove meses.Dar a luz a esse ser que por um período
habita internamente um corpo.O útero é sua casa
temporariamente.Parido, vem à criação outra
casa, responsabilidades.Apresentar-lhe o mundo.
Maikel da Maia.
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