Maikel da Maia
Sonhos de Jéssica

Sonhos de Jéssica

A mulher é o corpo.
Seu corpo, particular.Singular.
Satisfação, imagem.Padrões serão belos todos os corpos?
A mulher é seu corpo.
..."já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosa, é ter visto bo-cas se abrirem para dizer ou talvez balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria ás vezes dizer o que elas não puderam falar".Clarice Lispector
A serie de gravuras Sonhos de Jéssica surge desse olhar, primeiro para a mulher e seus desdobramentos enquanto corpo, na sociedade e íntimos.Do observar o que esta próximo a mim, minha família composta de quatro mulheres (mães) e eu.De ouvir e ver nas entrelinhas, no silêncio como é crescer menina, tornar-se mulher e então mãe.

Descobrir pequenos segredos da vida e se dispor a contar.

Essa foi à intenção.Ainda que o resultado me incomode, pois tudo foi filtrado por um olhar masculino e quase biográfico.Resolvi registrar a gestação de Jéssica.As eta-pas da gestação de minha irmã. A gestação que também ocorre comigo e com toda nossa família, seu marido e sua outra filha.Como nos relacionamos com o fato, parti-cipando ou assistindo.A representação gravada (imagem) não lembra ou faz refe-rência a minha irmã, mas a mulher simples nua e singular.


"Toda mulher, ao saber que está grávida, leva a mão à garganta: ela sabe que dará a luz a um ser...".Clarice Lispector
A maneira encontrada para registrar esse estado feminino foi por meio da gravura em meta
l.

A imagem gravada em água-forte, a placa no tamanho de 1m por 70 cm é inteiramente desenhada, seu corpo sangra pelas extremidades.

Esboços foram feitos na procura de objetos significativos que se relacionam com o fato para serem depois de gravados no seu ventre: grampo de roupa, casinha com arvores e nuvens, família, flores, batedeira, útero, feto, etc...Gravados em ponta seca, o ferro ferido levantando rebarbas.Um ferimento no corpo, uma só impressão é feita, lixado e gravado outro motivo.Assim como os estados da gravidez e a própria gravidez são únicos às mulheres, as gravuras são cópias únicas.

O ventre como referencial.

Tudo ocorre no ventre, histórias, analogias.Ficam imagens cicatrizes que teimam em aparecer, lembranças vivas, cicatrizes novas, lembranças vivas.

Não sou de mim mesma.

O parto, nove meses.Dar a luz a esse ser que por um período habita internamente um corpo.O útero é sua casa temporariamente.Parido, vem à criação outra casa, responsabilidades.Apresentar-lhe o mundo.

Maikel da Maia.


Sonhos de Jéssica
1m x 70 cm. Gravura em Metal. 2005/2006
Fotografia:: Fernando Artur de Souza

 
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