Adriane Pasa
Matrizes
Sala Arte, Design &Cia. UFPR. 21 de outubro a 14 de novembro de 2003

Matrizes

Gravar é um ato que, mesmo que não percebamos, nos acompanha do início ao fim da vida, basta saber que cada célula nossa tem gravado o registro genético de nossa individualidade e que, desde a marca de nossas mãos em cavernas ao reconhecimento de nossa identidade pelas impressões digitais, procuramos deixar um atestado perene de que aqui estamos, ou estivemos.

E dentro desse conceito de registro da existência é que a gravura tem um lugar específico nas artes plásticas porque, mesmo passando por técnicas em que as matrizes se perdem, o artista sempre busca firmar em algum suporte os instantes anteriores a essa perda, e que são tão carregados de uma procura de permanência quanto aqueles que tenham matrizes mais duradouras.

Talvez matriz seja a palavra-chave para se entender a gravura. Podemos até nos valer de sua etimologia para perceber o rol de significantes que ela gera: uma matriz é o lugar onde algo se cria, ela permite cópias de si mesma e ao mesmo tempo aceita a interferência de poéticas que melhorem sua hereditariedade.

Justamente por sempre se valer de alguma matriz, a gravura tem um caráter de troca e experimentação abnegadas já que, ao final, todas as permutas de energia, de possibilidades e de conceitos que ocorrem durante o embate entre as idéias/intenções do artista e os materiais/técnicas disponíveis, resultarão em obras autônomas e que, a menos que ele queira mostrá-la, a matriz ficará guardada ou até mesmo será destruíida.

Isso repete-se em todas as técnicas de gravura, desde aquelas que simplesmente decalcam a superfície crua da matriz - entintada ou não - deixando seus relevos e marcas impressos no suporte após serem pressionados; até os meiso digitais em que a matriz é um conjunto de números binários que podem ser visualizados de várias maneiras, desde a tradicional tinta sobre papel até a luz emitida pela tela de um computador.

Percebe-se, então, a quantidade de poéticas que podem ser externadas por esse meio de criação que, sendo essencialmente gráfico, traz para si a vantagem de poder utilizar-se do termo ilustrar com mais propriedade que outros modos de expressão plástica.

Outra característica da gravura a ser aqui notada é a troca de experiências que o trabalho do gravador em uma oficina proporciona e permite, fazendo com que cada um busque, debata e encontre - dentre as inúmeras possibilidades - a técnica em que sinta haver mais interação e resultados em sua procura. Daí o fato de podermos ter dentro de um limitado espaço físico, um universo em expansão que abriga toda diversidade existente na gravura hoje e que também está pronto a enfrentar e a decifrar os enigmas esfíngicos que o presente nos apresenta e os monolitos que o futuro nos reserva.

Para ilustrar - em todos os sentidos possíveis - a dinâmica que rege a Oficina Permanente de Gravura da UFPR, basta citar que ela está representada nesta exposição por dezoito dos gravadores que dela participam: cada um com poéticas definidas a partir desse convívio, interagindo entre si, seus conceitos e suas impressões; seja pela monotipia, xilogravura, papelografia, linóleo, litografia, gravura em metal ou serigrafia, perpassam a experimentação e o desenvolvimento de novas pesquisas - não só de matrizes, tintas e suportes, mas também de mídias e conceitos.

Cláudio Boczon
setembro de 2003

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