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Matrizes
Gravar é um ato que, mesmo que não percebamos, nos
acompanha do início ao fim da vida, basta saber que cada
célula nossa tem gravado o registro genético de
nossa individualidade e que, desde a marca de nossas mãos
em cavernas ao reconhecimento de nossa identidade pelas impressões
digitais, procuramos deixar um atestado perene de que aqui estamos,
ou estivemos.
E dentro desse conceito de registro da existência é
que a gravura tem um lugar específico nas artes plásticas
porque, mesmo passando por técnicas em que as matrizes
se perdem, o artista sempre busca firmar em algum suporte os instantes
anteriores a essa perda, e que são tão carregados
de uma procura de permanência quanto aqueles que tenham
matrizes mais duradouras.
Talvez matriz seja a palavra-chave para se entender a gravura.
Podemos até nos valer de sua etimologia para perceber o
rol de significantes que ela gera: uma matriz é o lugar
onde algo se cria, ela permite cópias de si mesma e ao
mesmo tempo aceita a interferência de poéticas que
melhorem sua hereditariedade.
Justamente por sempre se valer de alguma matriz, a gravura tem
um caráter de troca e experimentação abnegadas
já que, ao final, todas as permutas de energia, de possibilidades
e de conceitos que ocorrem durante o embate entre as idéias/intenções
do artista e os materiais/técnicas disponíveis,
resultarão em obras autônomas e que, a menos que
ele queira mostrá-la, a matriz ficará guardada ou
até mesmo será destruíida.
Isso repete-se em todas as técnicas de gravura, desde
aquelas que simplesmente decalcam a superfície crua da
matriz - entintada ou não - deixando seus relevos e marcas
impressos no suporte após serem pressionados; até
os meiso digitais em que a matriz é um conjunto de números
binários que podem ser visualizados de várias maneiras,
desde a tradicional tinta sobre papel até a luz emitida
pela tela de um computador.
Percebe-se, então, a quantidade de poéticas que
podem ser externadas por esse meio de criação que,
sendo essencialmente gráfico, traz para si a vantagem de
poder utilizar-se do termo ilustrar com mais propriedade que outros
modos de expressão plástica.
Outra característica da gravura a ser aqui notada é
a troca de experiências que o trabalho do gravador em uma
oficina proporciona e permite, fazendo com que cada um busque,
debata e encontre - dentre as inúmeras possibilidades -
a técnica em que sinta haver mais interação
e resultados em sua procura. Daí o fato de podermos ter
dentro de um limitado espaço físico, um universo
em expansão que abriga toda diversidade existente na gravura
hoje e que também está pronto a enfrentar e a decifrar
os enigmas esfíngicos que o presente nos apresenta e os
monolitos que o futuro nos reserva.
Para ilustrar - em todos os sentidos possíveis - a dinâmica
que rege a Oficina Permanente de Gravura da UFPR, basta citar
que ela está representada nesta exposição
por dezoito dos gravadores que dela participam: cada um com poéticas
definidas a partir desse convívio, interagindo entre si,
seus conceitos e suas impressões; seja pela monotipia,
xilogravura, papelografia, linóleo, litografia, gravura
em metal ou serigrafia, perpassam a experimentação
e o desenvolvimento de novas pesquisas - não só
de matrizes, tintas e suportes, mas também de mídias
e conceitos.
Cláudio Boczon
setembro de 2003

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